segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Vic Chesnutt


Um dos grandes trovadores do folk rock atual morreu no último dia 24 de dezembro, depois de ter passado uma semana em coma em função da ingestão de 100 comprimidos para relaxamentos muscular.

Chesnutt tinha 45 anos e vivia em uma caderia de rodas desde os 18 anos em função de um acidente automobilístico.

Lançou 13 discos solo e, em 1996, ganhou um disco tributo chamado "Sweet relief II", com renda revertida a um fundo que auxilia músicos com problemas de saúde. No disco, artistas como Madonna, R.E.M., Garbage, Smashing Pumpkins, Soul Asylum e Live cantaram músicas de Chesnutt.

Curiosamente, alguns dias antes do Natal baixei o disco do Sparklehorse, chamado “Dark Night of the Soul”, que li por aí que os críticos consideraram um dos melhores de 2009. Além da participação de vários famosos, como Iggy Pop, Julian Casablancas e Black Francis, o disco traz Vic Chesnutt cantando a faixa-título e “Grain Augury”. Recomendo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Abrace a escuridão – Charles Bukowski


o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura

viver em paz permanente é
viver permanentemente morto

a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.

não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.

aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.

pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos curvos.

não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado

deslize.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Bukowski, paternidade e outras bobagens.


Finalmente comecei a ler o “Textos autobiográficos” do Bukowski que a L&PM lançou recentemente. Está sendo muito bom reler o velho Buk. Há muita poesia nas coisas dele. Acho que muita gente que não conhece o cara imagina que são só bebedeiras, tosquices e escatologias enfileiradas nas páginas. Pois o lance é que o cara tinha as manhas de fazer brotar das entrelinhas do seu texto cru uma poesia que nasce da dor, da solidão e da falta de sentido da vida que, ao mesmo tempo que é dura e opressora, também oferece infinitos caminhos para os corajosos interessados em explorá-los.
Fazia tempo que não lia o velho Buk assim, pegar um livro e lê-lo inteiro. Li “Cartas na Rua” com uns 14 ou 15 anos, numa edição daquelas do Círculo do Livro que guardo com carinho até hoje. Depois li “Mulheres”. Devia ter uns 17 ou 18 anos. Acho que cheguei a reler os dois, mas faz tempo pra caralho. Lá se vão, portanto, quase vinte anos e muitas cagadas na vida. Depois disso, só contos esparsos naqueles livrinhos da própria L&PM.
“Textos autobiográficos” reúne trechos de muitos dos livros de Bukowski e dispondo estes recortes em ordem cronológica (não de publicação, mas de acontecimentos) vai compondo uma espécie de autobiografia do velho safado. Achei muito interessante e dolorosa a parte sobre a infância e juventude. Não tinha lido nada sobre esta fase da sua vida. A maior parte dos trechos dessa fase é retirada do livro “Misto Quente” que eu nunca li.
Ele fala muito sobre o pai, um brutamontes violento, entregador de leite e louco para ser ou pelo menos parecer rico. Me fez pensar sobre o lance da paternidade. Agora sou pai e isso traz uma responsabilidade louca. Fiquei pensando qual seria o grande papel de um pai... Conclui que pai serve mesmo é para mostrar aos filhos que não existem heróis e nem seres humanos perfeitos. As pessoas são falíveis, cheias de problemas, incoerentes e imperfeitas. O pai é o cara que vai deixar isso claro, pois de herói na infância vai passar à categoria de idiota, em maior ou menor grau, quando o filho atingir a adolescência. O resultado desse processo todo é que talvez determine como se dará a convivência na vida adulta do filho. É muito provável que meu moleque, que hoje agarra minhas pernas e pede para voar pela casa nos meus braços, um dia ache ridículo o jeito como eu falo e os valores que eu tenho. Sei lá...
Mas espero que eu o ajude a ser um cara legal. Mostre para ele os bons sons e os bons livros. Quando tiver 14 anos posso jogar nas mãos dele o “Cartas na Rua”, ler com ele os poemas do Fernando Pessoa ou até o “Feliz Ano Velho” que eu acho que é o livro responsável pela minha opção pelo lado “gauche” da vida. Um dia ainda vou escrever sobre isso aqui... Espero que passada a turbulência possamos ouvir um som juntos e que eu não atrapalhe muito os passos que ele resolver dar.
Só pra terminar, resolvi transcrever um pequeno trecho do Bukowski que nos faz pensar sobre escolhas e tal. Assim o post termina em grande estilo:

“Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de pique-niques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães..., afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.”

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Noite fria na alma

Cortam árvores no bairro, covardemente, burramente, mas às 6:04 da madrugada ouvi o primeiro pássaro cantar e tumultuar minha insônia com aquela sensação foda de que a hora de pular da cama e começar a cavar a sepultura no trampo. O mundo bem que podia pegar fogo fora da minha cabeça. Aqui dentro ando cultivando o enfadonho hábito de passar mal com as coisas: os tiros, as putarias de políticos, o corte indecente das árvores, o Natal obrigatório. Percebo que ficar anestesiado é absolutamente necessário para a pura e simples sobrevivência. Hoje sinto vontade de silêncio, escuridão, ausência, solidão e completa imobilidade. Pelo menos até os entulhos da mente serem decompostos. Hoje tive vontade beber algo forte. Brindar aos fracassados, aos santos, aos penitentes, aos profetas, aos pássaros e às ilhas remotas onde um dia espero naufragar feliz.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dylan psicodélico


As coisas andam muito negras e cinzentas por aqui. Vai um pouco de cor para quebrar a tendência.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cântico Negro - José Régio

”Vem por aqui” - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eu e meu espírito (de porco) natalino


Acho que tá uns cinquenta graus nessa noite! Calor da porra! Meu vizinho pós-adolescente estava berrando ao violão algumas merdas do Jota Quest, Charlie Brown e Los Hermanos. É terrível, mas tem solução. Coloquei na bandeja do aparelho alguns Hendrix e Johnny Winter. No talo! O aparelho seleciona as canções. Eu abro uma cerveja e vou beber lá fora. Não gosto de beber sozinho em casa, mas não tem outra alternativa. O blues em alto volume faz o aprendiz de mala musical desistir. E é isso mesmo. Quando tudo está perdido você tem que recorrer aos clássicos. Aí não tem erro. Eu nem estava no pique de ouvir música, foi apenas uma defesa contra o repertório intolerável do vizinho, mas foi prazeroso ouvir Hendrix e Johnny Winter, coisas que eu não botava pra rolar desde não sei quando. Como nostálgico incurável e assumido, adoro curtir essas velharias. Você ouve e não tem que pensar muito, nem prestar muita atenção. É só curtir e tocar aquela “air guitar” honesta. Nos últimos tempos, com a mente absolutamente cansada, ando preferindo coisas fáceis. Até gibi do Tex eu li esses dias. Neste fim de semana comprei uma Rolling Stone pra distrair, mas não tem como. A revista é uma grandiosa bosta. Não tem uma, umazinha sequer, matéria que preste. Terminei de ler o “Vida de Escritor” do Gay Talese, que enquadro nesta lista de coisas fáceis de ler. Foi prazeroso. É um tijolo que dá pra consumir rapidamente e tem algumas coisas sobre o método de trabalho dele que são interessantes. Não tem a urgência do Dr. Thompson, nem pretende ter. Mas é legal também, embora não tenha me despertado a vontade de ler outras coisas dele. Ah... li “Verão Índio” do Manara e do Pratt que achei do caralho. Os dias parecem imensos, não suporto mais o trabalho e ainda tenho uma interessantíssima matéria pra fazer sobre o abate de frangos pelo método kosher, exigido pela tradição judaica... é mole? Acho que vou oferecer para a Rolling Stone. Quem sabe eles não publicam ao lado de uma abalizada matéria sobre as reais perspectivas da filha (ou filho) da Ivete Sangalo se tornar modelo e atriz de Malhação. Conto os minutos para as férias, mas no caminho ainda tem Natal e Ano Novo que eu detesto com todas as minhas forças, mas vou fazer o possível para não atrapalhar e aceitar todas as programações familiares que me forem impostas sem reclamar... muito. Também tenho acompanhado a melhora do Mario Bortolotto e todo o movimento que seus muitos amigos têm feito pela sua recuperação e para ajudar nas despesas que a família vai ter e coisa e tal. Acho que acabei acertando quando falei de amor no último post. É isso que tenho visto nessa história toda. Acho que é isso que vai ficar. E a vida segue... a minha no ritmo do congestionamento que peguei na Marginal Tietê ontem quando fui resolver minhas paradas na Secretaria de Cultura. Pelo menos dessa vez a menina que me atendeu foi simpática, eu achei. Talvez as coisas andem bem, talvez haja esperança, talvez seja o espírito natalino que muito filhadaputamente induz as pessoas ao erro (eu nunca senti o tal espírito, embora erre mais do que o desejável), talvez o calor esteja me provocando miragens. O negócio é deixar o blues rolar para calar a boca do vizinho.

Eu e o Polako Loko Paka mandando um blues pra azucrinar o vizinho.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Strange Days

“Viver é muito perigoso”. É o refrão da música “O que Diga”, do Jean Garfunkel, que concorreu aqui no Festival que ajudei a organizar. Ficou em quarto lugar. No início da noite de hoje cheguei de viagem e li sobre o Mario Bortolotto. São dias estranhos. Abandonei o blog por causa dos muitos compromissos de trabalho que me valeram uma estafa que desembocou num início de depressão. De novo. Devagarinho eu tô recompondo meus nervos e ando até que muito bem com várias agulhas espetadas na orelha que deixariam a Tânia orgulhosa de mim. Quando estava pensando em voltar a escrever aqui no bloguinho vejo a notícia, chamo a Aline, ficamos pasmos...vontade de viver num país um pouco menos filho da puta do que este. Eu tava devendo notícias sobre o festival, sobre o CD que produzi dos cantadores de cururu aqui da região, sobre nossa amizade com o Walter Franco, que rendeu uma noitada de violão até as 6h30 da manhã aqui em casa, sobre o “Vida de Escritor” do Gay Talese que eu tô acabando de ler. E porra...vem isso... Foi lendo o blog do Bortolotto que eu tive vontade de fazer o meu. Tantas visitas lá me fizeram me sentir amigo do cara. Certamente seria um bom papo tomando umas e falando de som com o Txélos e o Pedro, fazendo piadas e rindo do grande absurdo que permeia todas as coisas, especialmente as sérias. Acho que foi o Bergman que disse que o “amor é uma horrível ocupação”. Mesmo assim, talvez seja a melhor ocupação que nos é destinada no tal de vale de lágrimas pelo qual rastejamos. Talvez seja hora de dizer que amo meus amigos todos e os quero sempre por perto, mesmo que longe dessa serra gelada. Amo muito a Aline, que cuida de mim com paciência, e amo mais que tudo meu projeto de furacão, branquelinho, correndo pela casa e ameaçando constantemente meu aparelho de som. São dias estranhos. Pro Mario, daqui de longe, fica a torcida para que o amor dos seus muitos amigos, aquele que brota dos muitos momentos bons vividos compartilhando cervejas, ensaios, madrugadas e vidas te faça segurar a onda. Minha oração vai em forma de música. Uma que faz meu irmãozinho Pedro chorar, de tão linda que é... E quem sabe ainda não tomamos aquela juntos?

sábado, 24 de outubro de 2009

Isto é Reinaldão

"Conheci uma Sônia, uma Soraya e uma Solange com esse apelido: Sossô. Mas a Sossô que me apareceu ontem aqui tem outro nome, poder de hippie: Sonora. Vai vendo a peça: branquésima, narizinho finlandês de Bjork,cabelo preto-graúna, tingido, de corte assimétrico inspirado na teoria do caos, olhos otchichórnios um tanto asiáticos e capitulinos. O que a impedia de ter uma carinha artificial de boneca era a pequena coleção de crateras e espinhas nas faces magras, nada excessivo, porém. E piercings, toneladas de piercings na estampa. Que eu me lembre, tinha um alfinete espetado na sombrancelha, uma argolinha atravessando a junção das narinas, um minibrilhante incrustado numa asa do nariz, brinquinhos de argola cravados nas orelhas desde o lóbulo até a aba superior, acho que uns quatro em cada orelha. Vendo aquilo, passei a imaginar-lhe um possível piercing num mamilo e outro na xota. Só duvidada um pouco que a sorte - ou o destino - fosse me dar de bandeja a oportunidade de checar isso. Mas, às vezes, a gente se engana com a sorte, meu caro, e também com o destino. A gente se engana com quase tudo"
(Trecho de "Pornopopéia", de Reinado Moraes)

sábado, 17 de outubro de 2009

Walter Franco, Paulo Leminski, Charles Bukowski e filminhos na garoa

Walter Franco, Leminski e Bukowski. Cada um tem sua singular trajetória na vida e nas artes. Em comum, a poesia. E tudo é poesia, como diz Walter Franco. O resto é prosa. Meu último final de semana teve um pouco dos três.
Fui ver o show “Raça Humana” de Walter Franco, no Auditório do Ibirapuera. Já tinha visto o cara algumas vezes, sempre com voz e violão e é sempre ótimo e intenso. Com banda o bicho pegou mais ainda. Duas guitarras, bateria, percussão e o baixo histórico de Willy Verdaguer, puta músico, que foi dos Beat Boys. Acompanhado dessa banda poderosa, Walter visitou a sonoridade experimental e às vezes pesada dos seus discos “Ou Não” e “Revolver”. Aquele lance que ele faz tão bem de passar da sutileza, dos silêncios, ao peso e ao grito primal, sempre fica legal com voz e violão. A banda ampliou essas possibilidades sonoras. Temas como “Respire Fundo” e “Tutano” evidenciaram isso.



Não sei se todos se ligam, mas essa coisa do Walter de passar da delicadeza para aquele quase rugido, aquele canto urgente, como se fosse um náufrago gritando por socorro é muita influência do John Lennon. Ouça “Canalha” e “Mother”, as duas com o grito primal dando o tom das interpretações. Ou então compare “Feito Gente” com “I Want You (She´s So Heavy). A influencia de John Lennon também está na capa do disco “Revolver”. Ele caminhando por uma rua de São Paulo, de cabelos compridos e mãos nos bolsos do terno branco, evoca o Lennon da capa de “Abbey Road”. São dois criadores. Os dois, como disse o Augusto de Campos, se equilibrando entre a paz e a turbulência.
Uma atração especial do show foi ver o Alberto Marsicano tocando sitar. O som daquela porra ao vivo é uma coisa muito louca. Fiquei imaginando que aquele som deve turbinar qualquer viagem, as lisérgicas e as espirituais. Ele acompanhou Walter e a banda em “Govinda” e “Zen”.
Às vezes fico meio de saco cheio daquela coisa de “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. O cara tem algumas canções fudidas e para dizer para as pessoas quem é Walter Franco você tem que citar essa. Que é legal e tal... é uma coisa dele mesmo, não é fake. Mas eu preferia poder dizer por aí que Walter Franco é o cara que compôs “Mixturação”, que aliás ele tocou no show e quase fez o teto cair...
Walter também tocou “It´s only life, but I like it”, de Leminski, fazendo a conexão com a outra face da moeda, os Rolling Stones. No dia seguinte ao show, visitei a Ocupação Paulo Leminski no Itaú Cultural. Cara... nunca vi uma instalação tão caprichada, cheia de ambientes temáticos e tal. Muitos, muitos, muitos textos do Leminski pelas paredes do Itaú Cultural... até nos banheiros... Dá pra passar o dia por ali. Confesso que eu não consigo ficar lendo poesia escrita na parede com som rolando no fundo e um monte de gente passando na minha frente ou conversando do meu lado... mas mesmo assim valeu a pena visitar. Os vídeos são muito legais. Várias entrevistas com o Leminski. Em vários ele fala aquela coisa da poesia ser um “inutensílio”, ou seja, não servir para nada, apenas para o prazer de quem lê ou sente aquilo que o poeta diz e por isso mesmo, além de inútil a poesia é fundamental... O título de um dos vídeos é “Polaco Loko Paca” que eu e a Aline adotamos como apelido do nosso filhote, branquelinho. Nosso projeto de furacão voando pela casa.




Também resolvi adotar um texto do Leminski como epitáfio. Já avisei a Aline que quando eu for comer capim pela raiz pode escrever na lápide “Quem vai embora não embolora”.
E velho Buk com isso? Bão... arrematei, com um pequeno sangramento no orçamento, o “Textos Autobiográficos” que foi lançado agora. Ele foi pra fila das leituras. Tô no meio de “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” que leio por dever de ofício. Depois tem o “Vida de Escritor” do Talese e aí chego no Bukowski.



Ah... por fim...passei nas banquinhas dos piratas da Augusta e arrematei vários filminhos. Cada filme dez reais ou três por vinte e cinco. Peguei “Amarcord”, “E La Nave Va”, “Querelle”, “A Noite”, de Pasolini, “Zabriskie Point” e um documentário sobre o Kerouac. Cinquenta paus bem gastos, eu achei...
É isso... “tudo absurdo, mas tá tudo bem”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Hoje eu vou



Walter Franco toca hoje, sexta-feira, dia 9, no Auditório do Ibirapuera, em Sampa.
Com bandona e tudo. Tem até o Alberto Marsicano na sítar. Se tudo der certo (tem a porra do trânsito e tal) estarei lá.
Quem puxa aos seus não degenera...

sábado, 3 de outubro de 2009

Lóki - o filme


“Dizem que sou louco/ Por pensar assim/ Sim, sou muito louco/ Por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz”. Os versos da “Balada do Louco”, composta e gravada pelos Mutantes em 1972, funcionam como mote para a história contada no documentário “Lóki”, dirigido por Paulo Fontenelle, sobre a vida de Arnaldo Baptista, tecladista, líder e principal compositor do grupo.
Arnaldo sucumbiu a uma guerra mental travada entre sua genialidade artística, a sensibilidade fora do comum, as drogas lisérgicas consumidas com intensidade nos anos 70, o martírio amoroso após a separação de Rita Lee e o desprezo da mídia pelo seu trabalho solo.
O filme de Fontenelle mostra isso, mas reafirma o lado heróico da trajetória do ex-mutante. O artista consagrado que foi aos infernos, conheceu a decadência, passou a centímetros da morte e ainda está por aí. Feliz como o louco da “Balada”. Documenta, mas também mitifica. O que, cá entre nós, não faz mal nenhum. A sobrevivência de um artista talentoso, dono de uma obra desenvolvida com rigor, deve ser comemorada cada vez mais diante do cenário de mediocridade absoluta que impera na música do país. Vamos mitificar quem? As pernas compridas e as interpretações truculentas da tal Ivete? O deserto mental dos sertanejos românticos? Que se dê a Arnaldo Baptista as loas que ele merece. E se sua história trágica turbina o mito, o que se há de fazer?
Para os que já conhecem a obra de Arnaldo, que se insurge como uma ilha de originalidade musical e poética, seja com os Mutantes, seja em carreira solo, o filme é um deleite. Principalmente pelas imagens raras que Fontenelle descobriu nos baús mais empoeirados da cultura brasileira. Tem os Mutantes, ainda com Rita Lee, tocando “Ando Meio Desligado” numa performance arrasadora diante de uma grande público em algum lugar dos anos 70. Também tem os Mutantes, já sem Rita, no início da fase progressiva da banda mandando ver em “O A e o Z”.
Mas são as imagens raríssimas da carreira solo de Arnaldo que vão enlouquecer os fãs. Um belíssimo clip de “Será que Eu Vou Virar Bolor?”, faixa de abertura do LP “Lóki” de 1974. Embora o filme não traga maiores informações, creio que é um daqueles clips que o “Fantástico”, da TV Globo, produzia, ainda na era “pré-videoclip”. Melhor que isso, só ver Arnaldo tocando com a poderosa banda de hard rock Patrulha do Espaço, grupo criado por ele após sua saída dos Mutantes. Com a Patrulha, Arnaldo gravou coisas lindíssimas que só saíram em disco no final da década de 80, quando o músico estava totalmente afastado da vida artística. O grupo prosseguiu após a saída do seu criador e se transformou numa banda heavy metal respeitada no meio underground paulistano.
Por fim, há vários bons depoimentos. Antigos e atuais. Além de Arnaldo, falam Tom Zé, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Nelson Motta, Roberto Menescal, Zélia Duncan, Lobão, todos os ex-Mutantes (menos Rita Lee), o artista plástico Antonio Peticov e o produtor musical Luiz Carlos Calanca e os gringos Sean Ono Lennon e Devendra Banhart.
O advento da volta dos Mutantes também está presente no documentário. As cenas da reestréia do grupo, em Londres, e do show para 80 mil pessoas em São Paulo são emocionantes.
“Lóki” vale a pena. É memória e é experiência. Ambas articuladas à grande arte, delirante e intransferível, de Arnaldo Dias Baptista. Obrigatório.

Obs. – Para quem é fã de Arnaldo e da banda a Revista Trip deste mês traz uma matéria sobre a lendária viagem de moto do ex-mutante pela América Latina. A revista promoveu o encontro entre Arnaldo e dois companheiros de aventuras motociclísticas. Interessante.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um som para hoje

Na verdade, Julio Reny é um som pra qualquer hora. Já escrevi sobre ele aqui. Visceral. Tem também uma entrevista fundamental com o cara no Língua Pop. O link tá aí do lado. Imperdível.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O PEDRO MALASARTES HARDCORE



Acabei de ler o fodaço “Pornopopéia”, um livro com poucas referências ao rock e até a outros tipos de música, mas que pode ser classificado como “rock´n roll” naquilo que a expressão desgastada tem de melhor. Ou seja, é um livro intenso, bem humorado e transgressor. Uma sucessão de cenas de sexo, drogas e canalhice protagonizada por um cineasta maldito e fracassado em sua descida inconsequente ao fundo do poço.
Reinaldo Moraes escreveu na década de 80 “Tanto Faz” um pequeno livro que influenciou dezenas de escritores da atualidade. Lançado pela série “Cantadas Literárias” da Editora Brasiliense, o livro conta a história de um estudante de economia que ganha uma bolsa para estudar em Paris. Chegando lá, deixa a carreira acadêmica de lado e cai na vida. Apesar dos excessos, o livro também tem um fundo autobiográfico. Reinaldo Moraes também largou a economia, mas caiu, de vez, no universo das letras.
Juntamente com o cartunista Caco Galhardo e a blogueira Ana Pands, ele apresenta o programa “Fogo no Rádio”, podcast que vai ao ar pela Rádio UOL. Os três recebem convidados para entrevistas absurdas ou tratam de temas interessantes com altíssimas doses de nonsense, ironia e piadas de todos os tipos de calão.
Além do cultuado “Tanto Faz”, Reinaldo Moraes já lançou Abacaxi (L&PM, 1985), o romance para jovens “Órbita dos Caracóis” (Cia. das Letras, 2003) e a coletânea de contos “Umidade” (Cia. das Letras, 2005).
“Pornopopéia” tem 475 páginas e levou quinze anos para ser escrito. Em entrevistas, Reinado tem comparado seu personagem principal, o cineasta Zeca, a um Pedro Malasartes aprontando das suas em meio ao caos urbano de uma São Paulo decadente, entre traficantes, prostitutas, publicitários esnobes, policias corruptos, adolescentes maluquetes, travestis e espiritualistas chegados demais aos prazeres da carne.
A história começa quando o ex-cineasta marginal, autor de um único longa metragem, o obscuro “Holisticofrenia” (“premiado na Colômbia”), sem dinheiro para manter o status de “criador alternativo” é obrigado a filmar um vídeo institucional sobre embutidos de frango.
Ao invés de procurar pelas idéias, Zeca chuta o balde e entra numa espiral de excessos sexuais e lisérgicos de todos os tipos. A exemplo do seu personagem, Reinaldo também apostou na falta de filtros e regras para contar sua história. A torrente de palavrões é tão grande quanto a quantidade de enrascadas, contravenções e pequenas canalhices em que o personagem se mete em sua obsessão por prazer.
O livro provoca muitos risos, principalmente na primeira parte. Reinaldo é um artesão que constrói seu texto caudaloso e verborrágico com esmero, utilizando grande talento e elaboração pra relatar as impagáveis aventuras (ou desventuras) de seu herói sem caráter, o Pedro Malasartes hardcore. Só a “surubrâmane”, orgia realizada num templo erótico-religioso, em que Zeca se mete consome 80 páginas de descrições tão picantes quanto engraçadas.
Em sua epopéia pornográfica regada a todos os tipos de substâncias ilegais, Zeca é um personagem que representa um pouco a era de individualismo exacerbado e busca de prazer a qualquer custo, apenas pelo próprio prazer, em que vivemos. Por isso, a coisa que o personagem mais faz, além de copular e consumir drogas, é dar de ombros para o que os outros podem pensar ou sofrer com suas atitudes.
Ao final do calhamaço, o que provocou riso por tantas páginas passa a se transformar em desconforto ou pena ou raiva ou outra coisa qualquer. Ler “Pornopopéia” pode ser uma experiência intensa. Exige leitores dispostos a tal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tom Waits


O cara é foda. A foto é boa. O som é perfeito depois de um dia duro como hoje.

sábado, 19 de setembro de 2009

Dia e noite ou vice-versa

De dia
Raciocínio errático
Lunático

De noite
Interruptor apagado
Alucinado

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Canções Estradeiras


Dia desses me bateu uma vontade louca de trocar minha motinho por uma moto decente, chopper estradeira e tal. Aí você vai pensar na vida, nas contas e vê que é foda. Agora, os caras vão começar cobrar pedágio das motos também. As estradas são ruins e perigosas. No fim das contas, a grana é curta e acho que vou ficar aqui babando só na vontade de viver meu “Easy Rider” caboclo.
De qualquer maneira, ao pensar nisso, acabei fazendo uma lista de canções estradeiras que posto abaixo. A escolha é meio óbvia, mas de algumas delas não tem como fugir.

1 – Iron Horse – Motorhead (na versão ao vivo do “No Sleep til Hammersmith”)
2- Highway Star – Deep Purple (na versão original do “Machine Head”)
3- Highway 49 – Howlin´ Wolf (versão das “London Sessions”, com Eric Clapton, Steve Winwood e tal)
4- Ride On – AC/DC (Bon Scott, emocionante até hoje)
5- Southbound – Allman Brothers (do disco “Brothers and Sisters”)
6- Why Don´t We Do It In The Road – The Beatles
7- Sitting On The Road Side – Arnaldo Baptista e Patrulha do Espaço (a melhor versão é a do “Elo Perdido”. Esqueci o título em português)
8- Route 66 – Rolling Stones (a versão do primeiro disco)
9- Fricção – Inox (raridade do metaaaaal nacional dos anos 80)
10- The Passanger – Iggy Pop (pau no cu do Capital Inicial)

Dada a obviedade da primeira lista, acabei tendo vontade de fazer uma outra lista (bateu um momento “Alta Fidelidade” hoje). Desta vez as escolhidas foram canções boas de ouvir na estrada, independentemente dos temas. A lista segue abaixo, quem não gostar que faça o favor de sugerir as suas.

1- Love Her With a Feeling – Freddie King (foda!)
2- Never Before – Deep Purple (também do “Machine Head”)
3- Stacker Lee – Dave Von Ronk (fodíssima)
4- I´ll Get By – Crazy Horse (do disco de 1971 da banda que acompanha o Neil Young)
5- With a Woman – Howlin´ Wolf (acho que o Steve Ray Vaughan gravou essa música com o nome de “I´m Leaving You”. A versão do Lobão Uivante é melhor)
6- Lousiana Black Dog Moses - Mark Olson and the Creekdippers (puta banda, pouco conhecida. Uma das melhores coisas de “alt country” que já ouvi. Essa música é fudida.)
7- She´s So Fine – Jimi Hendrix Experience (pérola do “Axis Bold as Love” cantada pelo Noel Redding)
8-The Same Thing – Muddy Waters (música do Willie Dixon)
9-Return to Sender – Mojave 3 (daquele disco bonitão…acho que o nome é “Excuses for Travellers”
10-Lonesome Town – Paul Macartney (baladaça que tem no “Run Devil Run”)

Porra, fazer listas é gostoso pra caramba. Me fez lembrar o hábito pré-histórico de selecionar canções para as velhas fitinhas cassete. Olha a síndrome de “Alta Fidelidade” novamente... Quem sabe não invento novas listas nos próximos posts. Por hoje chega.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Walter Franco

Vi shows maravilhosos do cara.
Tô sentindo falta de ver outros.
O post é pra matar saudades.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Frank Jorge é foda



Esqueça o sonolento Nenhum de Nós e os pretensiosos Engenheiros do Hawai. O que faz o rock do Rio Grande do Sul importante no cenário roqueiro nacional são nomes menos conhecidos por aqui, mas que somam atitude, humor e ótimas referências para fazer rock de qualidade. Eu falo do trovador Julio Reny, do rei do punk-brega Wander Wildner e do poeta pop multinstrumentista Frank Jorge, que lançou no finalzinho de 2008 seu terceiro CD solo.
Frank é um veterano da cena gaúcha. Integrou grupos fundamentais do rock dos pampas como os Cascavelletes, a Graforréia Xilarmônica e os Cowboys Espirituais. Produziu o ótimo CD de estréia dos The Darma Lovers e teve suas canções gravadas por nomes consagrados como os grupos Ira e Pato Fu.
Intitulado simplesmente “Vol.3”, o novo CD sucede o fundamental “Carteira Nacional de Apaixonado”, lançado em 2000, e o pouco lembrado “Vida de Verdade” de 2003. Assim como nos seus dois trabalhos anteriores Frank Jorge elabora seu coquetel roqueiro à base de rock´n roll básico, new wave, psicodelia, humor, ironia, romantismo e imensas doses de jovem guarda, sua principal influência. Tudo isso estruturado com versos elegantes e ótimos refrões.
“Elvis”, a faixa de abertura, pode ser considerada uma síntese do trabalho, com seu refrão espirituoso e de uma verdade “inapelável e crudelíssima”, como diria Nelson Rodrigues: “Elvis na fase decadente/ É bem melhor que muita gente”.
A irônica metralhadora verbal do gaúcho aponta até para o próprio trabalho em “Obsessão anos 60”, em que ele canta sobre uma base totalmente “jovem-guardística” “Não suporto mais esta obsessão pelos anos 60/ Não consigo explicar/ Só sei que ninguém mais aguenta”.
“A Historiadora” é a impagável história de uma acadêmica sisuda que vive entre teses e pesquisas científicas, mas que guarda escondida no armário uma fita do filme erótico japonês “O Império dos Sentidos”.
Uma das minhas preferidas é a balada “O que sobrou do mundo”. Para variar a estrutura musical é jovem guarda pura, mas ao invés das declarações de amor adolescentes semelhantes às que cantavam o Tremendão Erasmo Carlos, a Ternurinha Wanderléia ou o Rei Roberto, aqui o cantor tece cenários típicos da classe média brasileira, às voltas com problemas financeiros e tédio no casamento. “Um dia, se o salário melhorar/ Meu plano é viajar/ Levando as crianças/ Um cadeado vou botar no frigobar”.
O tema do amor desgastado também está na ótima “Não Espere Mais Nada”. Mistura de Beatles e Roberto Carlos, tem uma deliciosa melodia e a letra esperta com versos como “Nossa vida nos primeiros tempos foi muito boa/ Saímos no tapa e depois recitamos um Fernando Pessoa”. O rockinho “Se Você Ainda Me Quiser” é outro rock´n roll a lá jovem guarda que encerra o CD de forma classuda.
Curiosidades: Frank Jorge já trabalhou na Secretaria de Cultura da cidade gaúcha de São Leopoldo. É poeta, apresentador de TV, professor universitário na Unisinos, onde leciona no curso de formação de produtores e músicos de rock, do qual é criador. Em “Vol. 3”, ele toca todos os instrumentos.
Esqueça a coleção de clichês acéfalos da Pitti ou dos tais Fresnos e NXs. Se você estiver afim de um bom disco de rock nacional, bem produzido, com letras inteligentes, românticas e engraçadas, Frank Jorge é o cara.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Hoje - o avesso da parolagem



Hoje não quero ter
Nem ser
Nem ir adiante
Esquivo
Aflito
Calado
Suspeito de todas as palavras

Sem mover um músculo
Sem ponto de partida
Evito negociar
Costuro a boca dos filósofos
Corto a língua dos holísticos
Hoje nada
Fechado
Singular

domingo, 30 de agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

A parolagem da vida

Palavras ao léu. Parolagem na tarde. “Sempre” é uma palavra comum. Já a expressão “para sempre” dá um certo medo. Uma coisa que não sei bem o que é. O avesso dos contos de fada com o “viveram felizes para sempre”. Fico pensando em alguém preso para sempre no inferno ou emparedado. Emparedar, tudo preso entre cimento e tijolos. Tudo. Corpo e alma. E a alma é uma coisa que dá medo de ter presa. Por isso “para sempre” é uma expressão foda. Mas se a gente analisar mesmo é só papo porque tudo é transitório.
Tudo é impermanente, palavra que essa merda de Word não reconhece. Tudo passa. O homem é transitório. Tudo que está aqui ao meu lado nesta sala vai sumir. A sala bonita que planejamos vai sumir. O piso caro, a mesa bonita, as paredes de um tijolo, a lareira pintada de vermelho com o decalque dos Beatles. Os quadros do Taxi Driver e dos filmes do Almodóvar. Um dia essas paredes que parecem sólidas não existirão. A televisão e toda a merda que passa por ali vão sumir. As coisa legais também vão. Cara, o Faustão é passageiro. Embora meu pessimismo crônico às vezes me faça duvidar disso.
Revi, dia desses, uma edição do programa Fábrica do Som em que o Claudio Willer leu um trecho do “Uivo” do Ginsberg. Falou-se sobre a beat generation. Apareceu o Leminski perguntando se beatinik era algum dissidente soviético. Escrevo ouvindo La Carne, “Demônio Triste”. É realmente uma boa banda. Pesada. “Jukebox” é uma boa música.
Também vi o Raul Seixas na Fábrica do Som. Falou-se muito do Raul nas últimas semanas pois fez 20 anos da morte dele. Na Fábrica ele dublou. O público ficou alucinado quando Tadeu Jungle anunciou Raul. Então ele entrou de botas, calça e jaqueta de couro e dublou “Punct Plact Zum” e “DDI”. Parte do público ficou puta com a dublagem. Mas parte dançou e aplaudiu loucamente o maluco beleza, mais maluco do que nunca ao fazer uma performance “fake” deslavada para um público jovem e meio inquieto.
Raul era pura bagaceira, fuleiragem. Dava na cara do bom gosto. “Tudo o que não é americano em Raul Seixas é bahiano demais”, disse Gil ou Caetano, sei lá. Penso também no sentido da palavra baiano para os paulistas, algo brega de mau gosto. Raul é isso também. É sub. É da empregada. E é bom rock´n roll. Cada vez acho melhor.
Tudo é transitório. Lembro que quando Raul morreu eu e o Txélos ficamos ouvindo o Krig-Há Bandolo emocionados e quase tristes nos nossos dezesseis anos. Tudo é transitório. Mas o brado dos bêbados, dos chatos, dos velhos malucos sem noção e, por incrível que pareça, de outros adolescentes meio “gauche” na vida como nós fomos, vai ficando por aí. Toca Raul porra!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minuto de sabedoria


Neste lugar solitário
onde a vaidade se acaba
todo covarde faz força
todo valente se caga

(Em "Desabrigo", de Antonio Fraga)

sábado, 15 de agosto de 2009

“A Primavera do Gato Amarelo” - Para os velhos roqueiros



No último CD do bardo podreira Wander Wildner “La Canción Inesperada” há uma canção chamada “O Reverendo do Rock Gaúcho” em que ele cita as bandas e os músicos da pré-história do rock dos pampas lá no início dos anos 80, quando o próprio Wander cantava nos Replicantes. Na canção ele diz que Julio Reny ainda anda por aí com seu violão modelo Elvis Presley.
De fato, nos anos 80, se falava bastante em Julio Reny e sua banda Expresso do Oriente na finada Revista Bizz. Naqueles tempos pré-internet até deu pra saber da existência de Reny, mas não consegui ouvir seu som.
Fui conhecer o trabalho de Julio Reny com o grupo Cowboys Espirituais que chegou até a fazer algum sucesso radiofônico com a canção “Jovem Cowboy”. O primeiro disco do grupo integrado por Reny e outros veteranos do rock gaúcho como Frank Jorge e Ney Van Soria é sempre uma boa opção para ouvir na estrada ou num dia feliz de outono. Country rock leve e bem humorado.
Só recentemente, ao ler na net sobre “A Primavera do Gato Amarelo”, fui buscar o trabalho solo de Reny. Baixei o disco, ouvi, gostei e baixei os anteriores também. Mas “A Primavera...” é um disco que tenho ouvido cada vez mais. É um rock maduro, fácil, inteligente, leve que evoca histórias e momentos passados em letras e sonoridades. Um prato cheio para quem é viciado em ser nostálgico, como eu. Confesso: falou ao meu velho coração roqueiro que às vezes fica lá escondidinho debaixo das obrigações profissionais ou da vontade/necessidade de conhecer novos sons ou manifestações artísticas.
Reny é um trovador roqueiro que carrega tudo que um personagem deste tipo requer. Uma voz estranha, um som de violão com cordas de aço, letras legais, bons refrões, boas referências e um clima estradeiro indefinível, mas que o pessoal que ouve rock vai sacar no ato.
O CD abre com “O Segundo Fim”, jovem guarda pura, com aquele acento brega que os gaúchos adoram tanto (vide Frank Jorge e o próprio Wander Wildner). A música trata do fim de um relacionamento, fato que, segundo entrevistas de Reny, ocorreu mesmo durante o processo de composição das canções de “A Primavera...” embora isso não signifique um disco triste. Na letra ele pede “Ainda preciso de você/ Eu preciso de um segundo fim”.
“Linda Menina” trata da simples alegria de estar andando pela rua com a cabeça ocupada pelas preocupações do cotidiano e se deparar com a garota mais linda da cidade “de vestido apertado e sandália rasteira”. Pra combinar com o momento, um rockinho alegre conduzido por piano e slide guitar.
O momento mais beatle do CD é “Chegou a Primavera”, alegre brincadeira a lá “Penny Lane”, com flauta e cantos de passarinhos, celebrando as cores e as flores da estação em que as mulheres levitam no ar como “a menina feliz a mostrar/ Sua mais nova penugem para o sol dourar”.
“Noite em São Sepé” é a minha preferida. O som é legal, mas a letra é uma delícia. Um encontro de velhos amigos para ouvir rock antigo numa madrugada fria. “Eu e meus amigos embriagados de saudade/ Na madrugada tão distante/Se a cruzada terminou/ Serei um cavaleiro andante”. Porra! A música me fez lembrar milhões de histórias e pessoas queridas. Queria que esses amigos ouvissem a faixa. Acho que iriam entender.
Na sequência vem “Outra Vez”, um bom refrão com aquela cara de música de Nando Reis. Aliás, para quem não conhece o som do Reny, talvez essa seja mesmo a melhor referência. Um rock suave, com toques folk e pop. No entanto, o trovador gaúcho soa aos meus ouvidos menos pretensioso e mais verdadeiro. “Noite de Ingleses” e “Faltou Tempo de Escrever” também são boas. A segunda resvala no romantismo/jovem guarda novamente.
“Invisível” é o desejo/obsessão pela mulher amada que faz o personagem da canção desejar ser invisível para olhar por ela 24 horas por dia. Desde observar o banho, fazer carinhos durante o sono até estragar as noites com os outros. E eu pergunto, meus caros: quem nunca sonhou com isso? O solinho brega de saxofone não atrapalha. Até dá um climinha mais anos 80.
A versão rock´n roll de Pasárgada chama-se “Gloca Morra”. Lá, por ser amigo do rei, Julio Reny, desfruta da gentileza das garotas, dos verões eternos e dos drinks infindos, joga bilhar com os amigos e desperta todos os dias sem louça pra lavar.
“Tenha Fé” talvez até seja legal, mas o fato de ter a participação de Humberto Gessinger faz tudo ficar com cara de Engenheiros do Hawai e...bom, melhor pular a faixa.
O disco termina com “Two Tones” rock´n roll saboroso e declaração da profissão fé do Reny. Lembrei de algumas coisas do disco “Panela do Diabo” do Raul Seixas e Marcelo Nova. É isso. Nada vai acabar “enquanto eu dançar com meus sapatos two tones”.
De uma certa maneira, “Two Tones” é uma síntese do disco. Deixando o peso dos anos e os demônios do cotidiano ainda dá pra ter os sonhos, principalmente se embalados por bons riffs de guitarra.
Enquanto espero os comparsas darem as caras para nossa próxima “Noite em São Sepé”, reafirmo minha condição de cavalheiro andante e vou ouvir Julio Reny. E chega.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mellow My Mind

Meu irmãozinho Pedro, que vive flanando por Berlim, mandou esse e-mail que eu tomo a liberdade de reproduzir aqui. E assino embaixo.

Fubá querido,
hoje acordei cantarolando Neil Young,
pensando como só ele pode cantar certos versos
que em outras vozes soaria piegas ou artificial
e com ele é sentimento puro. Enfim pensando
em como é cara é foda. Em como no próximo
show dele aqui eu nao vou perder mesmo.
Todo ano ele vem aqui. Fui procurar no youtube
a lindíssima "Mellow my mind" que naquele disco
"Tonight`s the night" ele canta de forma inesquecível,
com aquela desafinada feeling que ele dá no meio.
Eis que encontro uma versao banjo-gaita que ele fez,
no show que ele deu aqui no ano passado. Veja só
que pérola:

terça-feira, 28 de julho de 2009

Exposição fotográfica "Casa de Avós"


Fotos da jornalista Aline Grego. No Museu de Arte Contemporânea Itajahy Martins, em Botucatu, de 1 a 22 de agosto.
As fotos estão lindas.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Quase nada



Os caras são muito bons. Fabio Moon e Gabriel Bá. Confiram.
http://10paezinhos.blog.uol.com.br/

domingo, 19 de julho de 2009

Várias coisas a terra cobre,
Boas e ruins,
Até que alguém revolve.
Aqui há coisas que eu não entendo,
Nunca vi.
Outras eu acho chatas.
Num dia de frio,
Invadem minha tranquilidade
Em minha casa há coisas demais
Objetos inúteis
Papéis com todos os tipos de certificações
Coisas
Arrasto comigo uma carga de gente, de coisas, de expectativas
Convenções, palavras, sons, frustrações, horas perdidas.
Tudo isso vem junto
Grilhões, galés feitas de acordos que eu não fiz
E inabilidade.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Movimento dos Barcos

O que dizer dos movimentos. As coisas passando e eu quero passar com elas. Grandes amigos, os melhores, estão por aí em outras cidades, em outros países. Mas é interessante como ficamos torcendo de longe. Eu já rodei um pouco por aí e sei que estar fora do ninho faz um bem danado para a percepção que temos do mundo. Com todos os perrengues, a saudade e tal, a sensação é a mesma de percorrer uma estrada nova, aberta e que você acabou de encontrar e sabe que vai te levar a algum lugar legal.
Ouço Van Morrison cantando alguns clássicos do jazz. Tenho vontade de dividir alguma bebida com alguém bom de papo. Alguém que saque na hora como o Van Morrison é um cantor absurdamente bom. Como ele carrega na emoção na dose certíssima. Hoje ouvi o Astral Weeks no carro. Quem não se emociona ouvindo aquilo é ruim da cabeça ou doente dos ouvidos e do coração.
Van Morrison combina com o frio. Já gostei do frio. Muito. Mas agora ando ficando de saco cheio. Não consigo vencer a sequencia interminável de gripes e resfriados. Ver meu filho com pneumonia também foi (tem sido) uma puta experiência desgastante.
Bom... se alguém leu até aqui sabe que esse post é sobre absolutamente nada. É o meu jeito de falar de som e tal. Um intervalo da rotina de trabalho que anda pesada e do vazio de idéias que é o que sobra neste atual deserto de papos sobre novela, doença, trabalho e tal. Ando sentindo falta de estudar de novo, mas a preguiça é soberana.
No fim das contas é só tédio. Não sou eu quem vai ficar no porto chorando. Mas, por enquanto, eu fico.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Tiê - Sweet Jardin



A menina de sorriso encantador já está aparecendo em algumas vinhetas da MTV. Isso porque, além de influenciada pelos cânones da MPB, notadamente a delicadeza e a leveza da bossa nova, a cantora Tiê também imprime uma marca autoral ao seu trabalho que a aproxima do cenário da música folk norte-americana, atual paixonite dos adolescentes “indies”.
“Sweet Jardim” é o título do primeiro disco desta cantora de 28 anos, com nome de passarinho escolhido, segundo ela, por sua mãe hippie. Outra curiosidade familiar: Tiê é neta da atriz Vida Alves, a primeira a dar um beijo na televisão brasileira.
Tiê já tem alguma experiência na música. E nas duas vertentes que mais aparecem no seu trabalho: a MPB e o chamado folk rock alternativo. Por dois anos acompanhou Toquinho cantando com ele os grandes clássicos do seu repertório, como as músicas compostas juntamente com Vinícius de Moraes. Ao mesmo tempo, cantava nas madrugadas de algumas casas de shows alternativas de São Paulo, um repertório mais “maldito”, recheado de canções de cabaré de Kurt Weil, Bertold Brecht e Tom Waits.
Foi nesse período que a cantora foi se descobrindo também compositora. E “Sweet Jardim” é inteiramente autoral. Ela canta, toca piano e violão, em dez faixas gravadas ao vivo, ao estilo low-fi, ou seja, da maneira mais suave e delicada que você conseguir imaginar.
As canções são muito simples e com letras absolutamente pessoais, escritas em inglês, francês e português. Há participação do violão de Toquinho na faixa título que encerra o CD. A bela capa foi concebida pela estilista Rita Wainer.
As quatro primeiras faixas, ”Assinado Eu”, “Dois”, “Quinto Andar” e “Passarinho”, são baseadas na voz delicada e no violão simples tocado por Tiê. Sei que é sacrilégio, mas a sonoridade minimalista e o tom romântico/desamparado me fizeram lembrar as canções do “Songs of Leonard Cohen”, guardadas as devidas proporções e considerada a densidade poética do trabalho do bardo canadense.
“Aula de Francês”, para mim a melhor do CD e “Stranger But Mine”, também são baseadas no violão, mas a estrutura, o ritmo e os arranjos se aproximam mais do folk. É como se Tiê fosse uma Malu Magalhães mais adulta e com menos produção.
Tiê toca piano na bela “Chá Verde” e em “A Bailarina e o Astronauta”. Sua execução é tão simples quanto a do violão. Nestas duas, as letras ficam em destaque.
“Sweet Jardim” é produzido pelo produtor, músico e DJ carioca Plínio Profeta. Para quem não se lembra era um maluquinho que, há uns dez anos, fez sucesso na MTV com uma música detonando Adriane Galisteu. Plínio cresceu e hoje é multiinstrumentista, que toca baixo, cavaquinho, guitarra, teclados e programações, e assina a produção de discos de artistas como Lenine, Pedro Luís e A Parede, Fernanda Abreu, e é responsável por remixes nacionais e internacionais de canções de nomes como Titãs, Kid Abelha e Madonna. Ele teve o grande mérito foi despojar o som de Tiê de efeitos e truques de produção. É como se o passarinho cantasse na sua janela, numa manhã de outono. Vale ouvir.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

sábado, 30 de maio de 2009

Gulliver é brasileiro?

Disse o rei para Gulliver, após ouvir sobre como as coisas funcionavam na velha Inglaterra:

“Fizestes o mais admirável panegírico de vosso país; provastes à sociedade que a ignorância, a ociosidade e o vício são os ingredientes adequados à qualificação de um legislador; que as leis são melhor explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujo interesse e habilidade consistem em as perverter, confundir e iludir. Observo entre vós alguns traços de uma instituição que poderia ter sido, originariamente, toletrável, mas cuja metade está quase apagada, ao passo que o resto foi inteiramente obliterado pela corrupção. Não transparece, em quanto dissestes, que se exija uma única perfeição para alguém que atinja uma posição qualquer entre vós; e muito menos que os homens sejam enobrecidos em razão da sua virtude; que os sacerdotes sejam promovidos pela piedade ou pelo saber; os soldados, pelo procedimento ou pelo valor; os juízes, pela integridade; os senadores, pelo amor à pátria; os conselheiros, pela sabedoria. Pelo que vos toca”, prosseguiu o rei, “a vós, que passastes viajando a maior parte da vida, inclino-me a pensar que tenhais, até agora, escapado a muitos vícios do vosso país. Mas, pelo que depreendi do vosso próprio relato e das resposta que, tão penosamente arranquei e extraí de vós, não posso menos de concluir que a grande maioria dos vossos semelhantes é representada pela mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu rastejassem na superfície da Terra”.

Parece um lugar que eu conheço...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Germano Mathias

“Por onde andará Germano Mathias? Magro, irrequieto, sarará, sua ginga da Praça da Sé, jogo de cintura da crioulada da Rua Direita? E o que foi que fez, maluco, azoado, de seu samba levado na lata de graxa?” Assim começa o belo texto “Abraçado ao Meu Rancor”, no livro do mesmo nome, escrito por João Antonio, cronista do submundo das grandes cidade brasileiras.
Pois é... Germano andou por aqui neste final de semana e tive o prazer de passar umas boas horas batendo um papo quase surreal com o catedrático do samba. Aos 75 anos de idade “corpo limpo, sem varizes e afogando o ganso como se fosse o pavão misterioso”, Germano é daquele jeito que vemos na televisão ou no DVD Ginga no Asfalto. Fala pelos cotovelo, emenda uma piada na outra, a maioria de duplo sentido.
Esse foi o lado A da conversa. O lado B foi uma inusitada palestra sobre reencarnação, lei do carma, resgate, umbrais e todo o tradicional discurso kardecista. Germano e o lendário Ventura Ramirez, um dos mais importantes violões de 7 cordas de São Paulo, fizeram uma conferência que daria inveja ao Chico Xavier.
Depois do papo pornô-espírita, Germano, acompanhado por Ventura, o mestre Osvaldinho da Cuíca, além de dois músicos jovens no cavaquinho e na percussão, deram aquele show saboroso, recheado de sambas sincopados, piadas e samba no pé. Com a lata de graxa e tudo. Inesquecível. Aline fez as fotos abaixo.
De resto, deixo as palavras do João Antonio: “Já Germano Mathias repinicava na lata de graxa escarrapachadamente, samba subido ou descido da Barra Funda, do Largo da Banana, da Alameda Olga, com escala posterior pelos Parques Peruche. A lata de graxa dá um som mais fraquinho, estridente, que não é o da frigideira. Som oquinho, moleque, serelepa algo debochado, catimbado. Isso, catimba. A frigideira vai longe, a lata de graxa manda para perto do ouvido. E da gente. Mas tem que, o sarará desenvolvia um repinicado gingado, atiçado. Viu uma faca correr no prato, no samba? Pois é. Bonito. Assim o sarará batia a lata de graxa”





domingo, 24 de maio de 2009

Robert Mapplethorpe

Até 26 de junho a Galeria Fortes Villaça, em São Paulo,está exibindo algumas fotos de Robert Mapplethorpe. Em sua maioria são nus e fotos de flores. Mapplethorpe é delicadeza pura. Mesmo quando fotgrafa o submundo de Nova York. É dele a capa do maravilhoso "Horses" de Patti Smith. Aliás, os dois eram muito amigos e moraram juntos por um tempo no lendário Chelsea Hotel. Mapplethorpe morreu por causa da Aids na década de 90. No site "O Século Prodigioso", linkado aí ao lado dá pra conferir várias fotos do cara. Abaixo, posto três delas: Patti Smith, Willian Burroughs e uma flor.





sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bill Graham apresenta: minha vida dentro e fora do rock´n roll



São 575 páginas e poucas fotos o que, infelizmente, já vai afastar alguns possíveis leitores. Mas, se você não tem preguiça e gosta de rock´n roll, tem que encarar o livro “Bill Graham apresenta: minha vida dentro e fora do rock”, lançado pela Editora Barracuda.
Alguns críticos disseram que é até melhor que o clássico “Mate-me, pro favor”, a história definitiva do punk rock. Deixando as comparações de lado, o fato é que “Bill Graham...” tem a mesma estrutura que “Mate-me...”, ou seja, é composto inteiramente por depoimentos de entrevistados que vão desde astros como Keith Richards, Peter Gabriel e Eric Clapton, até familiares do personagem.
E quem, afinal de contas, é o personagem? Pois bem, Bill Graham foi um dos caras que transformou a promoção de shows de rock em um dos negócios mais rentáveis do mundo. E sua história é fascinante.
Judeu, teve que fugir da Europa assolada pelo nazismo. Viu sua família ser esfacelada e, aos onze anos de idade, chegou aos Estados Unidos, sem família e sem falar a língua, para tentar iniciar a vida a partir do zero. O início do livro é pesado, pois trata da fuga do nazismo e do incrível drama familiar ao qual Graham sobreviveu.
Depois, a infância no Bronx, as viagens e os empregos em hotéis e restaurantes dos Estados Unidos ocupam algumas páginas mais leves, às vezes até engraçadas. Mas é quando o rock entra na vida de Bill Graham que o livro cresce.
Graham fundou dois palcos fundamentais para o boom do rock´n roll na década de 60: o Fillmore West, em San Francisco, e o Fillmore East, em Nova York. Ali passaram e consolidaram suas carreiras artistas como The Doors, Jimi Hendrix, Eric Clapton e o Cream, The Who, The Byrds, Grateful Dead, Tem Years After, Jefferso Airplane, Janis Joplin e tantos outros.
As histórias dos bastidores dos Fillmore são deliciosas. Relatos de shows inesquecíveis e de situações absurdas envolvendo grandes ídolos da música pop. Através delas, é possível perceber como as bandas deixaram de ser garotos unidos para fazer um som por prazer ou para impressionar as garotas e se tornaram superstars cheios de manias e exigências absurdas.
Graham também dirigiu a casa de shows Winterland que recebeu shows históricos como o último show da conturbada turnê dos Sex Pistols nos Estados Unidos.
Como produtor independente de shows, Bill Graham produziu turnês de gente como os Rolling Stones, Bob Dylan, Led Zeppelin, Crosby, Stills, Nash & Young e George Harrison.
O livro vale a pena por ser parte importante da história do rock´n roll e também para que o público possa conhecer o personagem Bill Graham. Ao mesmo tempo, profissionalíssimo e passional, careta e ousado nas suas concepções artísticas, apaixonado pela música e dotado de uma visão pragmática de negociante. Uma contradição ambulante, enfim. Um personagem tão apaixonante e tão contraditório quanto o rock´n roll que ele ajudou a transformar, de uma expressão da rebeldia juvenil numa mina de riquezas e vaidades.
Histórias escabrosas do Led Zeppelin, frescuras absurdas de Crosby, Stills, Nash e Young, papos de fim de noite com Jim Morrison e Jimi Hendrix. E as maravilhosas descrições de shows como de Otis Redding e Roland Kirk, bastidores de Woodstock e Altamont, porralouquices dos Merry Pranksters de Ken Kesey...não sei o que é melhor. Tem que ler, porra.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Alzira E nós



Nesta segunda feira a cantora Alzira Espíndola, agora Alzira E, esteve em Botuca participando de um evento chamado “Criando a Canção”. A tarde fiz uma longa entrevista com ela para meu programa de rádio. A noite rolou a apresentação que foi muito legal, com direito a “Meu Primeiro Amor”, “Milágrimas”, “Ouvindo Lou Reed” e “Sei dos Caminhos” além de uma versão bluesy de “Meu Mundo Caiu”. Depois do show ela e alguns amigos queridos esticaram aqui pra casa pra tomar umas cachacinhas e jogar conversa fora. Na pauta, filhos, Amy Winehouse, pingas, Bjork, Itamar Assumpção, Ney Matogrosso, Radiohead e Caetano Veloso. Aline registrou a noite legal.

domingo, 12 de abril de 2009

In Utero

A maçã do amor
Guarda no seu útero
As sementes do homem
E o doce da vida
Que faz doer nossos dentes
E brotarem vermes da nossa carne.

No útero da maçã do amor
Descansa o mapa da queda.


Para Lourenço Mutarelli, Roberto Piva e Zé do Caixão

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Fim da quaresma



Carnaval, desengano. Fiquei com a dor em casa, esperando. Cidade fantasma. Babel e Jericó. É necessário cultivar algum jardim, ainda que localizado à sombra das muralhas de Jericó. Na sombra, a grama não cresce as flores não crescem. As plantas morrem. E à sombra da muralha a umidade é mais densa, mais intensa.
A eletricidade começa onde parou o alfabeto. As pequenas plantas brotam dos vãos do asfalto, da sarjeta, da calçada. Faz frio. Faz calor. Lembro-me de uma manhã ensolarada em que fui ao Museu de História Natural. Caminhamos pelo Central Park e agora fico com saudades do cenário nova-iorquino.
Dez filmes com NY: “Midnight Cowboy”; “After Hours”. Ah… tem vários do Woody Allen e tem “Taxi Driver”. Tem “Kids”. A Real Cool Time Tonight é uma coisa impossível. Babel e Jericó. Arquitetura que não há.
Caminhamos numa noite gostosa de outono pela Broadway e tudo era tão mágico. Como deve ser no cinema. Mágico em Nova Iorque. E o senhor desceu a ver a cidade e a torre. Uma outra ruiu pelo som das trombetas e o clamor das línguas humanas que disparam fogo e força quando querem.
Depois me vejo em São Paulo no meu quarto solitário e aconchegante. Eu viveria ali para sempre. Fazia frio pra caralho e era ótimo. Na TV, pela janela do décimo quarto andar, uma SP de verdade. Prédios e nevoeiro. No crepúsculo, buzinas e helicópteros.
Alguma coisa em mim se perdeu. Algo poderia ter sido e se quebrou. Mesmo com tantas coisas boas, não sou e não fui capaz de recuperar o tempo perdido. Algo está preso no meu peito. E chora e dói. Nem o sonho de nova vida que brinca na minha frente aplaca isso.
Uma palavra nova é solavanco. Vamos exorcizar o samba e o rock. O colapso de Babel e a queda de Jericó, destruída a clamor de gente e corno de carneiro. Que agravo aos arquitetos.
Viva o mal-estar eterno, no sentido que eu espero. Aceleração tecnológica.
Proteja-me do colapso de Babel
E do clamor humano e do corno de carneiro
Que fez ruir as muralhas de Jericó
Quando o concreto desabar

08 de abril ao som de Neil Young & Crazy Horse

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ao Inferno, Com Amor

Uma letrinha de música tosca que encontrei no meio de velharias no computador. Talvez dê um blues fuleiro.

Apaga, sufoca, dizima minha esperança
Esta chuva de inverno, pesada.
E todas as canções que escrevi
Sei que não vão servir para nada
Pois teus olhos cor de chuva
Não serão minha morada
Vou me perder no centro
Do absoluto fundo de nada
Onde vou esquecer teu nome
E teu frescor de madrugada

Ao inferno, com amor!
Meus olhos procuram por ti
É inverno, por favor,
E a chuva continua a cair.

domingo, 22 de março de 2009

Os Apavoramentos de Roberto Piva – do livro “Coxas”.

APAVORAMENTO N⁰ 1
dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só a Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis

APAVORAMENTO N⁰2
quinze adolescentes de todos os sexos foram chicoteados na
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Igreja Católica
cortavam rodelas de cebolas & colavam em seus olhos

terça-feira, 3 de março de 2009

Saudades eletrônicas



Dia desses, durante o carnaval fiquei matando o tempo da minha maneira preferida, olhando uma loja de CDs e DVDs. E foi aí que achei uma DVD do famoso “Concert In Central Park” de Simon & Garfunkel. As lembranças da infância vieram rápidas.
Apesar de sempre ter tido muito contato com música em casa, alguma coisa chamou minha atenção para uma coletânea desta dupla nova-iorquina que pertencia a um tio meu que na época, idos de 1982, morava em Piracicaba. Acho que nunca ouvi aquele disco. Só gostava da capa e da contra-capa, com o Paul Simon de bigode e cabeludão, sentado com o seu parceiro Art Garfunkel à frente de um alambrado, com o Rio Hudson ao fundo. Acho que, na verdade, era um pouco de admiração também. Queria ouvir o mesmo som que o meu tio ouvia, assim como queria ser engraçado e inteligente como ele.
Quando o showzão do Central Park foi exibido pela TV Bandeirantes, esse mesmo tio me chamou a atenção. Se não me engano era uma noite de domingo e fiquei lá, do alto dos meus nove anos, ouvindo clássicos do “soft rock” sessentista como “Mrs. Robinson”, “The Boxer” e “Homeward Bound”. Depois disso, pedi dinheiro pra minha mãe e comprei um disco igual ao que meu tio tinha. Tenho o vinil guardado até hoje. E ali, além das três musicas citadas, estão “América”, “Scarborough Fair” e, o maior sucesso da dupla, “The Sounds Of Silence”.
Por essas lembranças todas não resisti. Arrematei o DVD do “Concert...” e agora é como se tivesse um fragmentozinho da minha memória, exatamente aquele que me fez gostar de comprar discos e ouvir música, preservado na prateleira, podendo ser acessado a apenas um toque na tecla play. A sensação é boa.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Matei a Ivete e fui ao cinema

Agora, na tranquilidade calorenta da minha casa, ouvindo o Heavy Trash, novo projeto do Jon Spencer, posso comemorar ter passado todo o carnaval sem praticamente ter visto as feições equinas da Ivete Sangalo na TV. Não é sacanagem... sempre achei que ela parece uma égua dessas de exposição... sem sacanagem... pra mim a associação é imediata. Bom... opiniões fisionômicas à parte, não ver Ivete Sangalo também indica não ouvir sua música detestável. Escapei de ficar entediado vendo escolas de samba e trios elétricos desfilando.
Em vez disso, o Carnaval foi aproveitado com dois filmaços: “O Lutador”, de Darren Aronofsky, com o Mickey Rourke e a Marisa Tomei e “Rio Congelado”, de Courtney Hunt, com Melissa Leo.
“O Lutador” foi especial por vários motivos. O mais óbvio é a presença de Mickey Rourke, o cara que fez “Rumble Fish” e “Coração Satânico” e foi aos infernos, assim como seu personagem no filme de Alan Parker. Ele está estupendo no papel de Randy, “the ram”, um decadente lutador de tele catch que briga contra o tempo, a solidão e a falta de grana. Com pouco tempo de projeção percebemos que Randy é um cara legal e que sua batalha está perdida. Talvez daí a beleza triste e digna de sua luta.



Algumas cenas são antológicas, como sua caminhada pelos fundos do supermercado em que faz bicos e sua entrada na área de frios, como se fosse o trajeto dos camarins até o ringue, onde o público o espera delirante e reverente e não como a realidade mostra, impaciente pedindo a maionese. A cena em que Rourke e Marisa Tomei relembram o apogeu do metal farofa nos anos 80 e detonam Kurt Cobain também é ótima.
Marisa Tomei, mais bonita do que nunca, aos 44 anos, faz a stripper em fim de carreira por quem Ryan se apaixona. Quando os dois estão juntos em cena há uma beleza e um desconforto de saber que as duas almas enjeitadas poderiam se ajudar, mas os limites já foram ultrapassados e o encontro definitivo não vai ocorrer. Embora não seja o motivo central do filme, é uma das mais belas histórias de amor que vi no cinema nos últimos tempos.
Mas o filme é mesmo de Rourke. Há um certo momento, no último encontro com a filha em que seu olhar expressa a percepção de que não tem mais retorno, resta seguir em frente até o último round. É de arrepiar. O final é maravilhoso. Filmaço.
O “Rio Congelado” é mais duro, mais foda e igualmente imperdível. É basicamente uma história sobre maternidade e a força das mulheres. A personagem de Melissa Leo, abandonada pelo marido viciado em jogos de azar, lutando para criar seus filhos de 5 e 15 anos é fascinante. Tira forças não se sabe de onde para conseguir trazer um pouco de conforto aos garotos, mesmo sacrificando seus valores e sua liberdade.



Sua parceira nos caminhos tortos é uma índia, também uma mãe que sonha em ter seu filho de volta. No fim da tensa jornada das duas, Melissa Leo será também a mãe da índia. Um filme que só poderia ser dirigido por uma mulher. O surpreendente é que essa mulher, Courtney Hunt, é uma estreante. Promissora. Fez um filme fudido, imperdível e humano demais.
Mais que perfeitos antídotos contra samba ruim, axé music e celebridades são filmes que vão ficar.
Aí vão fotinhos do Rourke voando nos ringues e de Melissa Leo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Trechos de Borges – dos contos de “O Aleph”

“... a lua tinha a mesma cor da areia infinita”.

“No sétimo século de Hégira, no arrabalde de Bulaq, transcrevi com pausada caligrafia, num idioma que esqueci, num alfabeto que ignoro, as sete viagens de Simbad e a história da Cidade de Bronze.”

“O sol da manhã rebrilhou na espada de bronze. Já não restava qualquer vestígio de sangue”.

“Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. Minha carne pode ter medo; eu não tenho!”

“Não há homem que não aspire à plenitude, quer dizer, à soma de experiências de que um homem é capaz; não há homem que não tema ser lesado em alguma parte deste patrimônio infinito”.

“O importante é que reine a violência. Não a servil timidez cristã.”

“O medo do grosseiramente infinito, do mero espaço, da mera matéria tocou Averróis por um instante. Olhou o simétrico jardim; sentiu-se envelhecido, inútil, irreal”.

“Nos velórios, o progresso da decomposição faz com que o morto recupere suas faces anteriores. Em algum momento da confusa noite do dia seis, Teodelina Villar foi magicamente a que fora há vinte anos; seus traços recobraram a autoridade imposta pelo orgulho, pelo dinheiro, pela juventude, pela consciência de coroar uma hierarquia, pela falta de imaginação, pelas limitações, pela estupidez. Pensei mais ou menos assim: nenhuma versão dessa face que tanto me inquietou será tão memorável como esta; convém que seja a última, já que pode ser a primeira. Deixei-a rígida entre as flores, seu desdém aperfeiçoado pela morte. Seriam duas da manhã quando saí. Fora, as previstas fileiras de casas baixas e de casas de um pavimento tomaram o ar abstrato que costumam tomar à noite, quando a sombra e o silêncio as simplificam. Ébrio de uma piedade quase impessoal, caminhei pelas ruas”.

“Não se pode contar como era essa casa, que mais parecia um só quarto, com filas de armários ou balcões, uns sobre os outros. Nessas cavidades havia gente comendo e bebendo, e também no chão, e também num terraço. As pessoas desse terraço tocavam tambor e alaúde, menos umas quinze ou vinte (com máscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ninguém via o cárcere; cavalgavam, mas não se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam e logo estavam de pé”.

“Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias.”

“A confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens”.

“Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Vi o Ensaio


Finalmente assisti o “Ensaio sobre a Cegueira” do Fernando Meirelles. Gostei muito do filme. Não li o livro do Saramago, mas imagino que a pedrada que é o filme seja fiel às intenções do texto do mestre português. Nada de comparar o filme ao livro, cinema é uma linguagem, literatura é outra. O importante é que o filme é bom.
O elenco é ótimo e Julianne Moore, sempre citada como uma das grandes atrizes norte-americanas da atualidade, tem uma atuação maiúscula. Os coadjuvantes, como Danny Glover, Alice Braga, Gael Garcia Bernal também mandam muito bem. Até o xaropinho indie Mark Rufallo está suportável.
Mas, apesar do talento do elenco, o filme é do diretor. Tenso, denso, com uma fotografia sofisticada e inusitada para os padrões hollywoodianos, o filme provoca um incômodo e uma angústia, estranhos ao gosto do público médio. A sequência do estupro coletivo é particularmente aflitiva.
Meirelles também usa a trilha sonora, composta pelo grupo Uakti, de uma maneira inteligente, sem recorrer a soluções fáceis para criar climas.
Sem falar no inusitado de ver a cidade de São Paulo abandonada em estado de caos total, bem... pelo menos um caos diferente (e muito mais intenso) do que estamos acostumados.
Apesar de Fernando Meirelles e da ação se passar em São Paulo não dá pra dizer que é um filme brasileiro. Da mesma forma, “Ensaio...” não pode ser classificado como um drama hollywoodiano comum. Talvez por isso tenha tido uma trajetória de estranho no ninho dividindo crítica e público. O filme ficou de fora das principais premiações do cinema internacional, mas recebeu as lágrimas e os elogios de José Saramago, o que para o diretor deve ter valido uma caralhada de oscars, palmas, leões e outros bichos...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Borges novamente pela primeira vez



Acabei de ler “O Aleph” de Jorge Luis Borges. A única coisa que tinha lido dele é “A História Universal da Infâmia”, quando eu tinha uns 14 ou 15 anos de idade. Lembro que gostei, achei delirante e tal. Mas reler Borges agora foi como encontrar o autor pela primeira vez.
Dá pra perceber que há todo um universo por trás de sua literatura, composto por um conhecimento histórico e uma cultura geral quase absurdas (sei que Borges era leitor de enciclopédias, estudioso de etimologia e dizia que imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca) e uma capacidade de adaptar personagens de tempos e lugares distantes às mais diversas situações fantásticas. Vários dos contos do Aleph começam definindo a época e o lugar onde a ação inicia, o que causa uma sensação de “era uma vez”, remetendo a histórias contadas pelos mais velhos numa noite de conversa.
Além dos temas fantásticos, Borges gosta de tratar do universo dos pampas, como uma verdadeira mitologia gaúcha, tema que me agrada particularmente. Nesse sentido, o conto “O Morto” me impressionou bastante.
O livro todo é muito interessante. Apesar de ler uma tradução, a abordagem inusitada dos temas e a delicadeza de ourives no trato com as palavras me impressionaram bastante. A cada parágrafo, o autor encontra soluções poéticas de beleza simples, que tornam suas descrições (os textos são sempre bastante descritivos) impressionantes e fazem querer reler parágrafos a todo momento.
Acho que o conto que mais me impressionou foi “A Casa de Asterion”, a sina da besta feroz e inocente contada de uma maneira totalmente inusitada. Parece um poema em prosa. É duro e é fascinante como são as sinas. Confesso que me emocionei lendo, de um modo que há tempos não acontecia. Talvez desde que o meu irmãozinho Pedro me emprestou o “Lavoura Arcaica” do Raduan Nassar. Uma pena o Pedro não estar por perto. Valia a pena uma leitura conjunta de “A Casa de Asterion” e de vários outros contos de “O Aleph”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre domingos e catecismos

Hoje, eu estava sozinho num café, uma menina passou e não me olhou. Imediatamente passei a questionar as virtudes que os cristãos dizem estar ligadas à pobreza. É claro que se eu fosse rico ela me olharia. Mas como ela saberia da minha riqueza apenas me olhando largado numa mesa do café? Não tenho a menor idéia, mas ela saberia. Eu sempre sei que alguém tem grana. Pelas roupas, pelos gestos, o queixo alto. E, lógico, se eu fosse rico não estaria num café tão furreba.
Amanhã é segunda e a merda continua. Parece que meu sono nunca é suficiente e acordo sempre praguejando. Saio pra trabalhar e o frio das manhãs quase melhora meu humor.
Meia hora de ônibus e estou no escritório onde a merda continua. Penso em largar tudo e ser faquir na Praça da Sé, como num filme do Zé do Caixão que vi dia desses. Já até imaginei alguns números originais, afinal, cama de pregos já não impressiona ninguém. Pensei em arrancar meus dentes sem anestesia. Depois de estar totalmente banguela eu morderia uma gilete. As lâminas penetrando nas gengivas vazias de dentes. Um sucesso absoluto.
O pior desses dias é não ter a quem procurar. Estou vulnerável. Chego a ter dó da próxima mulher que me der bola, se houver alguma. Eu me agarrarei a suas pernas e não a deixarei andar sem mim. Me apaixonarei e serei o cara mais pegajoso da face da terra.
Provavelmente eu a seqüestre e leve para uma cabana em um lugar ermo. E ficaremos trepando no tapete da sala de manhã até a noite. E só comeremos chicletes e só beberemos nosso suor e só ouviremos os malditos pássaros e nossos gemidos. Não falaremos.
Isso é o que eu fico imaginando e me tira o sono. Na verdade, falta grana, falta saco, televisão me aborrece e enjoei dos meus discos. Não leio mais jornal, mas também não consigo ficar totalmente indiferente. Tento me convencer de que tudo é normal hoje em dia. As chacinas, as cagadas da polícia, as guerras, os políticos e as celebridades. Nem sempre funciona. Um restinho de raiva insiste em deixar um amargor na boca. E, para piorar, a garota gordinha do prédio da frente não trepa nem se troca mais de janela aberta desde que o outono chegou.
O pior é o que chamo de efeito montanha-russa. As oscilações. Ou seja, os dias em que alguma coisa em mim resolve soterrar esse tédio. Aí sinto desejos incontroláveis de mudar. Ser demoníaco, sensual, preguiçoso, arrogante, irônico e exibicionista. Uma vontade de ser expulso do Jardim do Éden ou de, pelo menos, dar um peido barulhento em frente da minha chefe chique com seus lenços coloridos no pescoço.
É tipo uma vontade de ser jovem e inconsequente para sempre. Um James Dean capaz de dirigir melhor. Afinal, não quero morrer cedo. Prefiro ficar num pedestal, adorado em vida com meus cabelos dourados, olhos azuis, pele clara, boca vermelha. Uma espécie de Helmut Berger fazendo papel de amante da condessa louca e sanguinária de cabelos verdes e corpo perfeito.
Queria andar na chuva, matar dragões de neon e comer com os pés em cima da mesa. Tudo para horrorizar os homens de virtude, as mulheres de berço e as meninas de família. Queria acumular segredos inconfessáveis, daqueles capazes de terminar amizades. Fazer e falar coisas absurdas. Ser poeta sem precisar das palavras. Ser Alexandre o grande. Ser um faraó. Temido, mítico, aclamado. Queria ser o Lou Reed. Um fauno.
Mas a vida é estranha, os muros são altos e eu viajo demais. Daí esse sufoco passa e não faço porra nenhuma. A montanha russa volta para o trecho mais seguro e eu para meu estado normal de inanição. Não sorrio, não agradeço, quero que se fodam.
As manhãs de domingo são mais interessantes. Durmo um pouco mais. O barulho do trânsito é menor. Acordo e vou comer pastel na feira, onde a garotinha japonesa sorri quando eu peço a pimenta. Talvez ela ria da minha cara de sono. Talvez ela ria pra todo mundo.
Quando vou à feira passo em frente à igreja do bairro e tem sempre muita gente saindo da missa. Muitas ovelhinhas agradecendo a Deus ou pedindo coisas. Deve ser enfadonho para Deus, enquanto coça seu saco celeste, ficar ouvindo as ladainhas e os hinos dos carolas “anunciando o amor que vem do céu e na terra se faz alma e cor”. Havia um hino assim quando eu era criança e fiz catecismo.
Depois aprendi um sentido mais interessante que os moleques davam à palavra catecismo. Era como a molecada da rua chamava as revistinhas de sacanagem. Aquelas pequenininhas, tipo fotonovelas. “Agora, Elvira... goza junto comigo”. Lembro de uma dessas em que a mulher se chamava Elvira. Juro por Deus e por todos os catecismos. Era uma loira americana, dessas que os carolas insultariam e apedrejariam. Porra... e chamada Elvira!
Também sempre compro laranjas na feira e mais algumas frutas. Já as tardes de domingo são horríveis. Ouvindo futebol no rádio, assistindo algum filme alugado e chupando laranjas. A sensação de tempo perdido é indescritível e insuportável.
E sigo vegetando até a madrugada. Até a hora dos filmes ruins e dos programas que ninguém vê. De vez em quando, para pegar no sono, fico lendo um velho dicionário de bolso que era da minha mãe. Às vezes até me divirto assim.
Aprendo palavras inúteis como “arconte”, o magistrado na Grécia antiga. Descubro que “beiju” é um bolinho de mandioca; que “mangabeira” é uma árvore frutífera. Também li que “sicário” é um assassino assalariado. Taí um emprego tão bom quanto o de faquir na Praça da Sé.
Agora abro outra página do dicionário e leio os significados da palavra “negror”. Esta lá: 1. negrume; 2. escuridão, negrura, negridão; 3. nevoeiro espesso; 4. tristeza, melancolia.
Apago a luz e, mais uma vez, não durmo com os anjos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Arqueologia

In the heart of the saturday night (ouvindo Tom Waits) – outubro de 1996

No coração das noites de sábado
As meninas dançam,
O fogo queima nas bocas,
E o tempo voa para os corpos.

Há sempre a urgência
Do órgão pulsante
Pelo próximo toque.
Quem sabe a redenção na próxima esquina,
No próximo bar.
Leves, os ombros nus e a noite imensa
Esmagam meu coração.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Aventuras radiofônicas


Eu no estúdio e a Luana na técnica tirando clássicos do fundo do baú. Nesta semana farei um especial sobre o Lupicínio Rodrigues, o homem que conhece todas as formas da dor-de-cotovelo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Posso?

Não me interessa apenas escrever poesia.
Quero é me colocar em estado de poesia.
Ser uma antena, hipersensível.
Feroz, como uma pantera.
Sutil, como um vagalume.
Intenso, como um vendaval.

(Ademir Assunção)