quarta-feira, 8 de abril de 2009

Fim da quaresma



Carnaval, desengano. Fiquei com a dor em casa, esperando. Cidade fantasma. Babel e Jericó. É necessário cultivar algum jardim, ainda que localizado à sombra das muralhas de Jericó. Na sombra, a grama não cresce as flores não crescem. As plantas morrem. E à sombra da muralha a umidade é mais densa, mais intensa.
A eletricidade começa onde parou o alfabeto. As pequenas plantas brotam dos vãos do asfalto, da sarjeta, da calçada. Faz frio. Faz calor. Lembro-me de uma manhã ensolarada em que fui ao Museu de História Natural. Caminhamos pelo Central Park e agora fico com saudades do cenário nova-iorquino.
Dez filmes com NY: “Midnight Cowboy”; “After Hours”. Ah… tem vários do Woody Allen e tem “Taxi Driver”. Tem “Kids”. A Real Cool Time Tonight é uma coisa impossível. Babel e Jericó. Arquitetura que não há.
Caminhamos numa noite gostosa de outono pela Broadway e tudo era tão mágico. Como deve ser no cinema. Mágico em Nova Iorque. E o senhor desceu a ver a cidade e a torre. Uma outra ruiu pelo som das trombetas e o clamor das línguas humanas que disparam fogo e força quando querem.
Depois me vejo em São Paulo no meu quarto solitário e aconchegante. Eu viveria ali para sempre. Fazia frio pra caralho e era ótimo. Na TV, pela janela do décimo quarto andar, uma SP de verdade. Prédios e nevoeiro. No crepúsculo, buzinas e helicópteros.
Alguma coisa em mim se perdeu. Algo poderia ter sido e se quebrou. Mesmo com tantas coisas boas, não sou e não fui capaz de recuperar o tempo perdido. Algo está preso no meu peito. E chora e dói. Nem o sonho de nova vida que brinca na minha frente aplaca isso.
Uma palavra nova é solavanco. Vamos exorcizar o samba e o rock. O colapso de Babel e a queda de Jericó, destruída a clamor de gente e corno de carneiro. Que agravo aos arquitetos.
Viva o mal-estar eterno, no sentido que eu espero. Aceleração tecnológica.
Proteja-me do colapso de Babel
E do clamor humano e do corno de carneiro
Que fez ruir as muralhas de Jericó
Quando o concreto desabar

08 de abril ao som de Neil Young & Crazy Horse