sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O TEMPO

No final do ano fica aquela sensação de que o tempo passou rápido demais. Um poema sobre o tempo dos talentosos Gabriel Bá e Fábio Moon. O trabalho deles é sensacional. Clique na imagem para visualizar melhor.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Profeta da Fome



Num circo desses paupérrimos, de periferia, o faquir Alikhan, interpretado por José Mojica Marins assombra o público com seus números. Quando o circo pega fogo, ele e sua companheira vagam por aí fazendo seus shows. Num desses, vai preso acusado de “baixo espiritismo”. Na cadeia encontra a chave para o sucesso de suas paresentações: jejuar até o limite. O filme dirigido pelo Maurice Capovilla é de 1969, e além do Mojica Marins tem Jofre Soares, Maurício do Vale e o violeiro Adauto Santos.
O filme é brutal e fica na fronteira entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal. A famosa cena do abate de um boi no “Amarelo Manga” foi filmada com a mesma crueza por Capovilla, algumas décadas antes. Dá uma sacada no texto que tem no site do Contracampo, assinado por Marina Meliande:

“O filme de Capovilla se posiciona diante da fome de uma maneira diferente: não fala da fome em si, e sim da transformação da fome em espetáculo. É o espetáculo do espetáculo da fome. É nesse sentido que podemos afirmar que O Profeta pode ser visto como um filme metalinguístico. Se relaciona com seu objeto de maneira referente ao Cinema que o comporta, uma característica realmente nova dentro dos filmes do Cinema Novo.
O filme tratará do espetáculo da fome na medida em que traça todo um processo de transformação do instinto primário do artista em um objeto que ele usará, em um momento extremo, para sobreviver. Um processo que começa na simples constatação que os animais do circo estão sumindo e que passa à procura do exótico para suprir esta fome: seja como engolidor de giletes, seja como o homem que é enterrado vivo…Um processo que continua na antropofagia e no sacrifício extremado, o homem que dá um olho por um pedaço de pão, o homem que se crucifica para poder comer… O espetáculo faz parte da vida desse artista e a fome é o seu único instrumento de sobrevivência. Seu trabalho só se faz necessário por que tem fome, somente fome. A fome é o espetáculo do qual precisava, a industrialização da fome, a notícia. A fome na mídia, o cinema é a mídia. O cinema filma o cinema da fome. A industrialização da fome é o Cinema Novo, é o faquir deitado em seu caixão ganhando dinheiro para não mais comer. A fome ameaçando o sentido da vida do faquir, um estado em que nada mais é possível: comer ou não comer deixa de ser importante, o cinema cansa do espetáculo que criou. Os bem alimentados não têm mais fome de famintos. Os famintos viraram apenas lembranças para aqueles que se alimentaram deles.
Capovilla traz em O Profeta a referência de algo maior que o próprio filme. Industrializa a fome e se utiliza dela assim como a maioria de seus companheiros de Cinema socialmente engajado. Porém, ultrapassa a fronteira da simples constatação da existência da fome: ela é usada para representar não só uma sociedade que a utiliza mas também um cinema que a utiliza”.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

3h15 – Sonho de uma madrugada de verão

Poemas são corpos estranhos
Expelidos da carne ou da consciência.
Em meus sonho
São como ressucitados.
Posso vê-los saindo das tumbas e ganhando as ruas
Como um enorme estorvo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Chuva

Minha melhor amiga,
Chegue forte nesta noite.
Molhe corações, asas e sombras.
E entre insônia, solidão e alguma febre
Faça florescer alguma coisa
Antes que seja tarde.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

As 39 luas de Júpiter


Nossa música mais punk. Na foto, Europa, a lua citada, com seus oceanos congelados. Também já li por aí que Júpiter teria 63 ou 62 luas. Foda-se. Trinta e nove eé melhor de cantar. Segue a letrinha tosca:

Eu não nasci
Pra viver nesse caos,
Nessa falta de prazer.
Vou escolher uma lua de Júpiter
Pra me esconder.

Debaixo do gelo de Europa,
No fundo da água salgada,
Eu sou no momento em que estou.
Ninguém me pergunta de nada.

As 39 luas de Júpiter.
Vocês não saberão.

Eu vou despir
O meu corpo celeste.
Despir as cicatrizes
Com que ele se veste.
Olhos, boca, ouvidos, narinas
Passaram no teste.

Vivendo no tédio terrestre
Mais frio que todo o espaço.
Quero uma lua de Júpiter
Para enterrar meu cansaço.

As 39 luas de Júpiter.
Vocês não saberão.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Minhas flores do mal

Minhas flores do mal começam com uma pequena angústia matinal. Não consigo me lembrar o que sonhei, mas sei que havia uma mulher num vagão da transiberiana. O que por si só já motivaria um poema com vodka. Mas deixou apenas uma gripe e um inútil desentupidor nasal.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Definição de amor

O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.

Gregório de Matos Guerra - o boca do inferno

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

HELL´S ANGELS



Califórnia, fim de semana do Dia do Trabalho... Bem cedo, com a neblina do oceano ainda nas ruas, motoqueiros fora-da-lei usando correntes, viseiras e calças Levi´s ensebadas saem em número cada vez maior de garagens úmidas, lanchonetes 24 horas e apartamentos abandonados usados por apenas uma noite em San Francisco, Hollywood, Berdoo e East Oakland, seguindo rumo à península de Monterrey, ao norte do Big Sur... A Ameaça está solta novamente, os Hell´s Angels, a preciosa manchete de jornal, correndo e fazendo barulho na estrada de manhã cedo, sentados nos bancos baixos, ninguém sorri, amontoando-se como loucos no meio do trânsito e passando pela pista do meio a 140 km por hora, tirando várias finas... como Genghis Khan num cavalo de ferro, um corcel monstruoso com um ânus faiscante, passam fulminantes por você e sobem pelas pernas de sua filha sem pedir licença. Mostram um pouco de classe para os caretas, uma dose daquilo que eles nunca vão poder experimentar. Ah, esses caras gente boa, eles adoram sair costurando o trânsito... Little Jesus, Gimp, Chocolate George, Buzzard, Zorro, Hambone, Clean Cut, Tiny, Terry o Vagabundo, Frenchy, Moudly Marvin, Mother Miles, Dirty Ed, Chuck o Pato, Fat Freddy, Filthy Animal, Charger Charley o Molestador de Crianças, Crazy Cross, Puff, Magoo, Animal e pelo menos mais uns cem... loucos para entrar em ação, cabelos compridos ao vento, barbas e bandanas balançando, brincos, sovacos, chicotes de corrente, suásticas e Harley-Davidsons depenadas refletindo o brilho cromado enquanto o trânsito da 101 dá passagem, nervoso, à formação de motos que lembra o estrondo de um trovão indecente...


Assim começa “Hell´s Angels: medo e delírio em duas rodas” do mestre gonzo Hunter S. Thompson na tradução de Ludmila Hashimoto.
O primeiro livro do doutor Thompson é espetacular. Não é só porra-louquice como muitos pensam. O doutor é observador arguto e um comentarista impiedoso das contradições da América doentia. Considerações sobre os Angels, seus costumes, suas origens, sua confusa ideologia, a relação com a mídia... tudo muito legal. Às vezes, uma curtição só, como nos relatos sobre as brigas ou no capítulo sobre as motos infernais dos Angels. Outras, um soco no estômago como no capítulo sobre a relação da gangue com as mulheres e os freqüentes estupros. Foi lançado no Brasil pela Conrad. Imperdível.
Além de escrever como um demônio Hunter Thompson era um fotógrafo de talento, o que poucos sabem. A foto desse post é dele. Mais fotos no link: http://www.mbfala.com/artists/_Hunter%20S.%20Thompson/_other%20works/
Aliás, vale a pena vasculhar as fotos do site http://www.mbfala.com .Muita coisa legal.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sin City


Revi esse também. Acho que é a melhor adaptação de quadrinhos que já foi feita.
Fantástico! Rever filmes que você gosta é um prazer diferente. Você fica esperando a sua sequencia preferida e assiste com calma. Rever filmes e reler livros é um prazer muito especial.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Jatos de energia retilíneos

1
Você não pode me alcançar
Na espiral da elipse curta do abismo material,
Na textura da anti-gênese dos chips infecciosos,
Ou coisa parecida.

2
Queimem, edifiquem, impermeabilizem,
Vomitem, explodam seus estômagos,
Dilacerem seus cus
Fodam-se todos.
Eu fico aqui, no alto da laje.
Contando as horas e ouvindo rock e blues.

3
Um estouro em compasso binário,
Um caderno e meia dúzia de santos no fundo do armário

4
Sempre aos domingos, sempre nas planíces concretadas e cinzentas,
Um herói subterrâneo voa com sua capa asfáltica,
Sua tez/casca de teflon, onde a gordura das lixeiras e dos animais em decomposição não gruda.

5
Termino dizendo SIM
Como a escada da Yoko
Enterrada no jardim.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

21 Gramas



Tesão de filme. Revi neste final de semana. Bela reflexão sobre amor, morte, escolhas e destino. Tinha esquecido de como a atuação do Benicio del Toro é fudida. Estou muito curioso para vê-lo interpretar o Che. Vamos ver se Hollywood dá conta de tratar um personagem tão complexo como o guerrilheiro argentino com o mínimo de cuidado.
Voltando a "21 Gramas", Sean Penn também está ótimo. Os coadjuvantes também mandam muito bem: Naomi Watts, o pastor, a mulher do Sean Penn.
Outro charme de "21 gramas" é a montagem esperta. Também gosto da fotografia e da trilha sonora. Filmaço.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Carrossel de melancolia

A cidade é um fragmento.
Um não-lugar.
Um parque confuso, hostil e chuvoso
Onde crianças entediadas
Montam cavalinhos estéreis
E giram com vertigem,
Indecisas e perplexas.
Plasticamente.
A dois palmos do chão.
Rumo a lugar nenhum.

sábado, 1 de novembro de 2008

Depoimento

que estava voltando de uma livraria e ia em direção ao seu carro, estacionado a duas quadras dali; que não conhecia a vítima; observou que a vítima parecia estar embriagada, pois falava sozinha e lavava o rosto e os braços na enxurrada; que em momento algum foi abordado ou molestado pela vítima, achando até que não foi visto por ela; que passou por ela a caminho do carro e achou que a vítima era um indigente, bêbado e abandonado pela rua; que foi até seu carro, estacionado a aproximadamente cem metros dali, onde guardou os livros que havia comprado e pegou um cano de ferro que trazia no porta-malas do carro; que obteve o cano de ferro na demolição da casa de sua avó; que o instrumento está em sua posse há aproximadamente dois meses e meio; que se aproximou da vítima sem que ela percebesse; que antes disso, examinou a região e lhe pareceu que não havia ninguém olhando; que o local é mal iluminado e pelo fato da vítima estar próxima de uma árvore, o local estava ainda mais escuro; que a vítima não percebeu sua aproximação; que se posicionou atrás da vítima que permanecia agachada com as mãos mergulhadas na água da enxurrada; que desferiu dois golpes na cabeça da vítima utilizando-se do cano de ferro; que o primeiro golpe foi dado com bastante força e o segundo acertou de maneira menos intensa em razão do movimento gerado pelo primeiro golpe; que a vítima caiu na enxurrada sem emitir qualquer som; que o depoente ficou muito nervoso e foi para seu carro onde ficou sentado esperando a chegada da polícia; que não sabe quem viu a ação, mas acredita que tenha sido algum porteiro ou morador dos prédios da rua; que não se certificou se a vítima veio a óbito ou não; que sua intenção não era cometer homicídio, mas sim cometer algum crime, mesmo que fosse tentativa de homicídio ou lesão corporal; que sua intenção é apenas ficar preso; o depoente acredita que, por ter curso superior, poderá ficar numa cela especial e aí vai ter tempo para ler todos os seus livros; que, em razão do seu trabalho no escritório de contabilidade do tio não tem tempo de ler tanto quanto gostaria; que gosta de se imaginar vivendo a vida dos personagens; que assim que for preso pretende ler alguns livros de Eça de Queirós que ainda não leu; que também pretende reler a obra de Guimarães Rosa e Machado de Assis outros autores que gosta como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Cervantes e outros; que não se inspirou em nenhum livro em especial para cometer o crime; que adora a poesia de Drummond, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa; que não está arrependido; o depoente perguntou ao delegado quando poderá receber seus livros na cadeia; que lhe foi respondido que ele não tem o direito de perguntar nada durante o interrogatório.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

The Doctor is alright

Documentário sobre o mestre Hunter S. Thompson. Medo e delírio no bloguinho.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Guitarras, guitarras e mais guitarras

Olha os putos aí. Estes são o Txélos, parceiro nas canções doentias e maestro da banda sem nome e o Julio, o guitarrista de toque mais elegante e melodioso do Velho Oeste. Nas fotos, eles tocando o pesadelo psicodélico que chamamos de "Meu Amor" num ensaio aqui em casa. A letra está log abaixo. Faltaram fotos das cantoras Aline e Tânia. Fica para a próxima pra rolar um suspense.






MEU AMOR

Me desculpe se eu não sei escrever
Versos felizes.
Me corrija quando eu cometer
Meus pequenos deslizes.

Não vou buscar estrelas de neutrons,
Pulsar ou quasar,
Gigante vermelha
Pra te iluminar.

Meu amor, meu carinho,
Bebo do teu vinho,
Mastigo tua carne
Depois cuspo teu espinho

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Cascavelletes - Lobo da Estepe

Essa é do tempo que o rock gaúcho era legal. Meu little brother Pedro que lembrou do clipe pela citação a "Mrs. Robinson"

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Filmes

Neste final de semana aproveitei pra ver velhos clássicos. Assisti pela primeira vez "La Dolce Vita", de Fellini. É realmente maravilhoso. Ao mesmo tempo, algumas coisas são tão atuais e outras refletem o espírito meio hedonista daquela época. Marcello Mastroianni está fantástico. E ainda tem as musas Anouk Aimée, Anita Ekberg (abaixo) e a Nico. Sim! A Nico do Velvet, fazendo papel dela mesma e chamada de Nicolina pelos amigos. A cena famosa do banho de la Ekberg é bonita, mas gostei especialmente da seqüencia das crianças que vêem a virgem. A cena da multidão enlouquecida sob a chuva, destruindo a árvore da suposta aparição vale um tratado da estupidez humana. O final do filme, com a festa decadente e a sequencia da praia, também é demais. Lindo. Fellini é foda. Me deu vontade de rever "Amarcord" e "La Nave Va".



Também revi "The Graduate" (A Primeira Noite de Um Homem) com Dustin Hoffman, Katherine Ross e Anne Bancroft como a inesquecível Mrs. Robinson, uma das coroas mais sexy do cinema. O filme é do Mike Nichols, com trilha sonora de Simon & Garfunkel. Muito legal.








quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Por sobre a solidão do mar
As luas flutuaram.
E foram centenas.
Fatigadas, encobertas por nuvens e trancadas em caixas de vidro.

Por sobre o asfalto
As madrugadas escorreram.
E foram milhares.
Com suas estampas frias, seus répteis e suas correntes.

Agora, por sobre os prédios
Um milhão de manhãs explodem.
Sórdidas, suspeitas e cheirando a enxofre.
O importante é que tragam o sol.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

The Hooker





Friozinho e chuva. Ouvindo John Lee Hooker em vinil: "T.B. Is Killing Me". Poesia bluesy. Janelas fechadas. Tempo fechado. Pé gelado. John Lee Hooker é um daqueles caras que dão "sustância", como diria minha avó. É feijão, é alicerce, é raiz. É foda, enfim.


Visceral. Esse disco da Eldorado, "Get Back Home in USA" é um clássico. Um verdadeiro tesouro de despojamento e força. Hooker, baby. Só a guitarrinha e o "tap tap" no chão do estúdio. Forte e básico.





segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Rock´n Roll Girl

Uma outra letra que fiz para um música do Txélos. Uma vez mais, aletra é tosca e a música excelente. Precisamos entrar no estúdio para gravar essas coisas. Uma história de amor doentio. Mais uma.


ROCK`N ROLL GIRL


DON´T LEAVE ME ALONE, MY ROCK´N ROLL GIRL
FIQUE AQUI PRA DANÇAR
DEMOREI MUITO PRA TE ENCONTRAR
FIZ UM BLUES NUMA MESA DE BAR
SÓ PRA NÃO ESQUECER TEU OLHAR

A LUA SE ESCONDEU, MY ROCK´N ROLL GIRL
A NOITE É FRIA E OS ANJOS RASTEJAM NO CHÃO
VOCÊ NÃO VAI SAIR, SEM OUVIR A CANÇÃO

NÃO FALE DE AMOR, MY ROCK´N ROLL GIRL
PUT YOUR RED SHOES AND DANCE
TENHO SANGUE NAS MÃOS, VOCÊ VÊ
NOSSA GUERRA PASSA NA TV
COM EFEITOS ESPECIAIS PRA VOCÊ

domingo, 19 de outubro de 2008

A pequena torre

Estou caminhando por uma viela do centro de São Paulo. É noite, faz frio. No meio de construções altas surge uma pequena torre, quase um castelinho desses que outrora construíam os bem humorados ou os megalomaníacos com grana.
É negra a pequena torre. Está encravada atrás de um muro baixo com um gradil por cima. Está no escuro, apagada. Fica num canto, num lugar estranho onde o trajeto da ruazinha parece tomar um rumo absurdo. Aliás, existem muitas vielas assim em São Paulo. Ela também fica de uma maneira meio oblíqua no terreno. Este, por sua vez, é pequeno para a região. A torre fica espremida, escondida entre edificações maiores, mais novas, mais nobres e iluminadas.
É feia e torta, quase não se vê. Não tem a imponência que os engenheiros e arquitetos sempre procuram emprestar a suas obras. Parece até feita por um humano. Na verdade parece humana na sua imperfeição. É uma torre escura, numa curva da viela. Está fechada e esquecida. Nem parece uma torre.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

São Paulo, sábado passado, 19h15

Um cara lava o rosto na enxurrada que desce da Avenida Paulista. Todo de preto: tênis, bermuda e camiseta. Ele coloca uma perna de cada lado do pequeno rio que escorre pela sarjeta. Inclina o tronco mantendo as pernas alongadas, mergulha as mãos na água e lava o rosto freneticamente. Molha até os cabelos crespos. A água escorre imunda. Ele parece sorrir.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

See the sky - a canção

Fiz essa letra a partir da linda "See the sky (about to rain)" , do Neil Young. A música é do Txélos, parceiro de longa data. Linda, como quase tudo que ele faz. Ecos velvetianos, neilyounganos e tudo o mais que vale a pena.


SEE THE SKY

See the sky
About to rain
And we are going to fall
In love again

See the sky
About to cry
And we're going to fall
In love and die

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Teoria Geral das Fitas

O título acima é uma brincadeira com o “Alta Fidelidade”, do inglês Nick Hornby, que acabou virando um filme bacaninha com o John Cusack e o Jack Black. O protagonista do romance (não lembro o nome dele) adora gravar fitinhas para os amigos e as garotas que está afim. Para isso, ele tinha toda uma teoria sobre como deveria ser montado o repertório da fita, a ordem das músicas e tal. Quando li o livro me dei conta de que eu também tinha toda uma metodologia de gravação de fitas, dependendo dos objetivos.
Recebi dia desses algumas fitas cassete de presente do meu amigo Edson Nogueira. Além das gravações raras do violeiro Raul Torres na Odeon e na Victor, um detalhe bastante prosaico chamou minha atenção: a caixinha da fita da marca Scotch. Há anos que eu não via uma dessas por aí. Como nostálgico incurável me lembrei da época em que as fitinhas cassetes circulavam entre os amigos numa forma de pirataria bem mais inofensiva e precária que a atual.
Quando eu era criança meus pais tinham uma fita Scotch igual à que o Edson me deu. Lembro que tinha umas músicas da Elba Ramalho, Amelinha, Zé Ramalho e “Vela Aberta”, sucesso solitário de Walter Franco, que o meu pai gostava muito. Por causa dela, acabei virando fã de carteirinha desse doce maldito da MPB. Pois é... para as pessoas da minha idade algumas fitas marcaram épocas da vida, assim como os LPs.
Lembro das fitas do meu pai. Tinha as de samba, as de MPB, as de orquestras (que eu não gostava). Tinha uma que era só samba e balanços de Jorge Ben e Bebeto. Hoje tocaria tranqüilamente numa festa retrô moderninha de samba rock. Uma fita da Ópera do Malandro me deixava impressionadíssimo com as letras de imagens fortes e, é claro, com o famoso “joga bosta na Geni”.
Gravar fitas era uma delícia. Era um presente barato e super personalizado que você poderia dar para os amigos ou pra uma garota que estivesse afim. Tinha as Scotchs de caixa cinza, as japonesas da TDK e as horríveis Vats que enrolavam facilmente. Colocar uma Vat pra tocar no carro era praticamente dar adeus à fitinha. Mas a campeã absoluta nas minhas memórias são as Basf amarelinhas. Depois a Basf ficou vermelha, surgiram as Sonys azuis. Nenhuma delas como as Basfs amarelinhas.
Meu pai gravou minhas primeiras fitas. Lembro de uma com os Saltimbancos Trapalhões, o tema do Flash Gordon e umas músicas da Turma da Mônica. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, emprestei o LP “Creatures of the Night” de um vizinho. A fita gravada pelo meu pai tocou até acabar e me fez começar a gostar de rock.
Eu também gravei centenas de fitas pela vida afora. Tenho até hoje na casa da minha mãe uma grande gaveta lotada delas. Desde raros cururus até coisas maravilhosas de rock, que ainda não achei em CD, como uma coletânea dos primórdios do punk rock, gravada de um CD japonês trazido de lá por um colega de faculdade.
Aliás, como sempre tive muitos LPs, na época da faculdade virei uma espécie de gravador oficial de fitas da turma. As fitinhas tinham temas. Uma era de rocks pra pegar estrada, outra de sambas, podia ser o melhor do Caetano, uma seleção de Beatles ou outra pra curtir aquela fossa e, lógico, aquela pra conquistar a menina dos seus sonhos.
Hoje podemos gravar CDs. O som é melhor, mas nada me tira da cabeça que não tem o mesmo charme. Não é tão pessoal. Já na era dos CDs, com as fitinhas em franca decadência, gravei uma seleção do grupo escocês Belle & Sebastian pra uma garota de cabelos curtinhos que fazia faculdade comigo. Gosto de pensar que a fitinha ajudou que ela virasse minha namorada. A fitinha ajudou a dar o impulso inicial. Fiz a minha parte e estou com a garota até hoje, dividindo vida e canções.

Para Aline, num dia comum

Hoje acordei cedo
Vi as mesmas caras e os mesmos sorrisos
Pela janela do carro, um desfile de carnaval
Meio pobre, meio ralo, um tanto hostil.

Na net havia amigos demais,
Países demais e pouco silêncio.

Liguei a TV para assistir
Um cemitério em alta definição.
E nos intervalos, Deus em forma de carro zero.

A noite chega e meus olhos cansados precisam repousar
No teu corpo

Homenagens

A Roberto Piva


Nas asas da América Latina
Onde o sangue invade o mel
O óleo diesel vaza da pia batismal
Sem sentido,
No ventre de uma igreja viva
Que arfa e mostra os dentes

Eu vi a cobra coral devorar o natimorto
Ouvi os sons de escapamentos
E o trole da modernidade rasgando as estradas de leite contaminado

Respirei o pó branco da invenção e da leveza
O gineceu invadido, o coma de minhas artérias
E assim deixei o dia chegar frio e abri as janelas sobre o mar escuro



A Torquato Neto


Aqui em Paupéria
É mais fácil ser torto que ser anjo
Abrir o gás dessa miséria
Apagar
Estreitar a relação entra a febre e o violão
Um beijo moreno-exagerado no escuro