domingo, 30 de agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

A parolagem da vida

Palavras ao léu. Parolagem na tarde. “Sempre” é uma palavra comum. Já a expressão “para sempre” dá um certo medo. Uma coisa que não sei bem o que é. O avesso dos contos de fada com o “viveram felizes para sempre”. Fico pensando em alguém preso para sempre no inferno ou emparedado. Emparedar, tudo preso entre cimento e tijolos. Tudo. Corpo e alma. E a alma é uma coisa que dá medo de ter presa. Por isso “para sempre” é uma expressão foda. Mas se a gente analisar mesmo é só papo porque tudo é transitório.
Tudo é impermanente, palavra que essa merda de Word não reconhece. Tudo passa. O homem é transitório. Tudo que está aqui ao meu lado nesta sala vai sumir. A sala bonita que planejamos vai sumir. O piso caro, a mesa bonita, as paredes de um tijolo, a lareira pintada de vermelho com o decalque dos Beatles. Os quadros do Taxi Driver e dos filmes do Almodóvar. Um dia essas paredes que parecem sólidas não existirão. A televisão e toda a merda que passa por ali vão sumir. As coisa legais também vão. Cara, o Faustão é passageiro. Embora meu pessimismo crônico às vezes me faça duvidar disso.
Revi, dia desses, uma edição do programa Fábrica do Som em que o Claudio Willer leu um trecho do “Uivo” do Ginsberg. Falou-se sobre a beat generation. Apareceu o Leminski perguntando se beatinik era algum dissidente soviético. Escrevo ouvindo La Carne, “Demônio Triste”. É realmente uma boa banda. Pesada. “Jukebox” é uma boa música.
Também vi o Raul Seixas na Fábrica do Som. Falou-se muito do Raul nas últimas semanas pois fez 20 anos da morte dele. Na Fábrica ele dublou. O público ficou alucinado quando Tadeu Jungle anunciou Raul. Então ele entrou de botas, calça e jaqueta de couro e dublou “Punct Plact Zum” e “DDI”. Parte do público ficou puta com a dublagem. Mas parte dançou e aplaudiu loucamente o maluco beleza, mais maluco do que nunca ao fazer uma performance “fake” deslavada para um público jovem e meio inquieto.
Raul era pura bagaceira, fuleiragem. Dava na cara do bom gosto. “Tudo o que não é americano em Raul Seixas é bahiano demais”, disse Gil ou Caetano, sei lá. Penso também no sentido da palavra baiano para os paulistas, algo brega de mau gosto. Raul é isso também. É sub. É da empregada. E é bom rock´n roll. Cada vez acho melhor.
Tudo é transitório. Lembro que quando Raul morreu eu e o Txélos ficamos ouvindo o Krig-Há Bandolo emocionados e quase tristes nos nossos dezesseis anos. Tudo é transitório. Mas o brado dos bêbados, dos chatos, dos velhos malucos sem noção e, por incrível que pareça, de outros adolescentes meio “gauche” na vida como nós fomos, vai ficando por aí. Toca Raul porra!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minuto de sabedoria


Neste lugar solitário
onde a vaidade se acaba
todo covarde faz força
todo valente se caga

(Em "Desabrigo", de Antonio Fraga)

sábado, 15 de agosto de 2009

“A Primavera do Gato Amarelo” - Para os velhos roqueiros



No último CD do bardo podreira Wander Wildner “La Canción Inesperada” há uma canção chamada “O Reverendo do Rock Gaúcho” em que ele cita as bandas e os músicos da pré-história do rock dos pampas lá no início dos anos 80, quando o próprio Wander cantava nos Replicantes. Na canção ele diz que Julio Reny ainda anda por aí com seu violão modelo Elvis Presley.
De fato, nos anos 80, se falava bastante em Julio Reny e sua banda Expresso do Oriente na finada Revista Bizz. Naqueles tempos pré-internet até deu pra saber da existência de Reny, mas não consegui ouvir seu som.
Fui conhecer o trabalho de Julio Reny com o grupo Cowboys Espirituais que chegou até a fazer algum sucesso radiofônico com a canção “Jovem Cowboy”. O primeiro disco do grupo integrado por Reny e outros veteranos do rock gaúcho como Frank Jorge e Ney Van Soria é sempre uma boa opção para ouvir na estrada ou num dia feliz de outono. Country rock leve e bem humorado.
Só recentemente, ao ler na net sobre “A Primavera do Gato Amarelo”, fui buscar o trabalho solo de Reny. Baixei o disco, ouvi, gostei e baixei os anteriores também. Mas “A Primavera...” é um disco que tenho ouvido cada vez mais. É um rock maduro, fácil, inteligente, leve que evoca histórias e momentos passados em letras e sonoridades. Um prato cheio para quem é viciado em ser nostálgico, como eu. Confesso: falou ao meu velho coração roqueiro que às vezes fica lá escondidinho debaixo das obrigações profissionais ou da vontade/necessidade de conhecer novos sons ou manifestações artísticas.
Reny é um trovador roqueiro que carrega tudo que um personagem deste tipo requer. Uma voz estranha, um som de violão com cordas de aço, letras legais, bons refrões, boas referências e um clima estradeiro indefinível, mas que o pessoal que ouve rock vai sacar no ato.
O CD abre com “O Segundo Fim”, jovem guarda pura, com aquele acento brega que os gaúchos adoram tanto (vide Frank Jorge e o próprio Wander Wildner). A música trata do fim de um relacionamento, fato que, segundo entrevistas de Reny, ocorreu mesmo durante o processo de composição das canções de “A Primavera...” embora isso não signifique um disco triste. Na letra ele pede “Ainda preciso de você/ Eu preciso de um segundo fim”.
“Linda Menina” trata da simples alegria de estar andando pela rua com a cabeça ocupada pelas preocupações do cotidiano e se deparar com a garota mais linda da cidade “de vestido apertado e sandália rasteira”. Pra combinar com o momento, um rockinho alegre conduzido por piano e slide guitar.
O momento mais beatle do CD é “Chegou a Primavera”, alegre brincadeira a lá “Penny Lane”, com flauta e cantos de passarinhos, celebrando as cores e as flores da estação em que as mulheres levitam no ar como “a menina feliz a mostrar/ Sua mais nova penugem para o sol dourar”.
“Noite em São Sepé” é a minha preferida. O som é legal, mas a letra é uma delícia. Um encontro de velhos amigos para ouvir rock antigo numa madrugada fria. “Eu e meus amigos embriagados de saudade/ Na madrugada tão distante/Se a cruzada terminou/ Serei um cavaleiro andante”. Porra! A música me fez lembrar milhões de histórias e pessoas queridas. Queria que esses amigos ouvissem a faixa. Acho que iriam entender.
Na sequência vem “Outra Vez”, um bom refrão com aquela cara de música de Nando Reis. Aliás, para quem não conhece o som do Reny, talvez essa seja mesmo a melhor referência. Um rock suave, com toques folk e pop. No entanto, o trovador gaúcho soa aos meus ouvidos menos pretensioso e mais verdadeiro. “Noite de Ingleses” e “Faltou Tempo de Escrever” também são boas. A segunda resvala no romantismo/jovem guarda novamente.
“Invisível” é o desejo/obsessão pela mulher amada que faz o personagem da canção desejar ser invisível para olhar por ela 24 horas por dia. Desde observar o banho, fazer carinhos durante o sono até estragar as noites com os outros. E eu pergunto, meus caros: quem nunca sonhou com isso? O solinho brega de saxofone não atrapalha. Até dá um climinha mais anos 80.
A versão rock´n roll de Pasárgada chama-se “Gloca Morra”. Lá, por ser amigo do rei, Julio Reny, desfruta da gentileza das garotas, dos verões eternos e dos drinks infindos, joga bilhar com os amigos e desperta todos os dias sem louça pra lavar.
“Tenha Fé” talvez até seja legal, mas o fato de ter a participação de Humberto Gessinger faz tudo ficar com cara de Engenheiros do Hawai e...bom, melhor pular a faixa.
O disco termina com “Two Tones” rock´n roll saboroso e declaração da profissão fé do Reny. Lembrei de algumas coisas do disco “Panela do Diabo” do Raul Seixas e Marcelo Nova. É isso. Nada vai acabar “enquanto eu dançar com meus sapatos two tones”.
De uma certa maneira, “Two Tones” é uma síntese do disco. Deixando o peso dos anos e os demônios do cotidiano ainda dá pra ter os sonhos, principalmente se embalados por bons riffs de guitarra.
Enquanto espero os comparsas darem as caras para nossa próxima “Noite em São Sepé”, reafirmo minha condição de cavalheiro andante e vou ouvir Julio Reny. E chega.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mellow My Mind

Meu irmãozinho Pedro, que vive flanando por Berlim, mandou esse e-mail que eu tomo a liberdade de reproduzir aqui. E assino embaixo.

Fubá querido,
hoje acordei cantarolando Neil Young,
pensando como só ele pode cantar certos versos
que em outras vozes soaria piegas ou artificial
e com ele é sentimento puro. Enfim pensando
em como é cara é foda. Em como no próximo
show dele aqui eu nao vou perder mesmo.
Todo ano ele vem aqui. Fui procurar no youtube
a lindíssima "Mellow my mind" que naquele disco
"Tonight`s the night" ele canta de forma inesquecível,
com aquela desafinada feeling que ele dá no meio.
Eis que encontro uma versao banjo-gaita que ele fez,
no show que ele deu aqui no ano passado. Veja só
que pérola: