"Conheci uma Sônia, uma Soraya e uma Solange com esse apelido: Sossô. Mas a Sossô que me apareceu ontem aqui tem outro nome, poder de hippie: Sonora. Vai vendo a peça: branquésima, narizinho finlandês de Bjork,cabelo preto-graúna, tingido, de corte assimétrico inspirado na teoria do caos, olhos otchichórnios um tanto asiáticos e capitulinos. O que a impedia de ter uma carinha artificial de boneca era a pequena coleção de crateras e espinhas nas faces magras, nada excessivo, porém. E piercings, toneladas de piercings na estampa. Que eu me lembre, tinha um alfinete espetado na sombrancelha, uma argolinha atravessando a junção das narinas, um minibrilhante incrustado numa asa do nariz, brinquinhos de argola cravados nas orelhas desde o lóbulo até a aba superior, acho que uns quatro em cada orelha. Vendo aquilo, passei a imaginar-lhe um possível piercing num mamilo e outro na xota. Só duvidada um pouco que a sorte - ou o destino - fosse me dar de bandeja a oportunidade de checar isso. Mas, às vezes, a gente se engana com a sorte, meu caro, e também com o destino. A gente se engana com quase tudo"
(Trecho de "Pornopopéia", de Reinado Moraes)
sábado, 24 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
Walter Franco, Paulo Leminski, Charles Bukowski e filminhos na garoa
Walter Franco, Leminski e Bukowski. Cada um tem sua singular trajetória na vida e nas artes. Em comum, a poesia. E tudo é poesia, como diz Walter Franco. O resto é prosa. Meu último final de semana teve um pouco dos três.
Fui ver o show “Raça Humana” de Walter Franco, no Auditório do Ibirapuera. Já tinha visto o cara algumas vezes, sempre com voz e violão e é sempre ótimo e intenso. Com banda o bicho pegou mais ainda. Duas guitarras, bateria, percussão e o baixo histórico de Willy Verdaguer, puta músico, que foi dos Beat Boys. Acompanhado dessa banda poderosa, Walter visitou a sonoridade experimental e às vezes pesada dos seus discos “Ou Não” e “Revolver”. Aquele lance que ele faz tão bem de passar da sutileza, dos silêncios, ao peso e ao grito primal, sempre fica legal com voz e violão. A banda ampliou essas possibilidades sonoras. Temas como “Respire Fundo” e “Tutano” evidenciaram isso.

Não sei se todos se ligam, mas essa coisa do Walter de passar da delicadeza para aquele quase rugido, aquele canto urgente, como se fosse um náufrago gritando por socorro é muita influência do John Lennon. Ouça “Canalha” e “Mother”, as duas com o grito primal dando o tom das interpretações. Ou então compare “Feito Gente” com “I Want You (She´s So Heavy). A influencia de John Lennon também está na capa do disco “Revolver”. Ele caminhando por uma rua de São Paulo, de cabelos compridos e mãos nos bolsos do terno branco, evoca o Lennon da capa de “Abbey Road”. São dois criadores. Os dois, como disse o Augusto de Campos, se equilibrando entre a paz e a turbulência.
Uma atração especial do show foi ver o Alberto Marsicano tocando sitar. O som daquela porra ao vivo é uma coisa muito louca. Fiquei imaginando que aquele som deve turbinar qualquer viagem, as lisérgicas e as espirituais. Ele acompanhou Walter e a banda em “Govinda” e “Zen”.
Às vezes fico meio de saco cheio daquela coisa de “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. O cara tem algumas canções fudidas e para dizer para as pessoas quem é Walter Franco você tem que citar essa. Que é legal e tal... é uma coisa dele mesmo, não é fake. Mas eu preferia poder dizer por aí que Walter Franco é o cara que compôs “Mixturação”, que aliás ele tocou no show e quase fez o teto cair...
Walter também tocou “It´s only life, but I like it”, de Leminski, fazendo a conexão com a outra face da moeda, os Rolling Stones. No dia seguinte ao show, visitei a Ocupação Paulo Leminski no Itaú Cultural. Cara... nunca vi uma instalação tão caprichada, cheia de ambientes temáticos e tal. Muitos, muitos, muitos textos do Leminski pelas paredes do Itaú Cultural... até nos banheiros... Dá pra passar o dia por ali. Confesso que eu não consigo ficar lendo poesia escrita na parede com som rolando no fundo e um monte de gente passando na minha frente ou conversando do meu lado... mas mesmo assim valeu a pena visitar. Os vídeos são muito legais. Várias entrevistas com o Leminski. Em vários ele fala aquela coisa da poesia ser um “inutensílio”, ou seja, não servir para nada, apenas para o prazer de quem lê ou sente aquilo que o poeta diz e por isso mesmo, além de inútil a poesia é fundamental... O título de um dos vídeos é “Polaco Loko Paca” que eu e a Aline adotamos como apelido do nosso filhote, branquelinho. Nosso projeto de furacão voando pela casa.

Também resolvi adotar um texto do Leminski como epitáfio. Já avisei a Aline que quando eu for comer capim pela raiz pode escrever na lápide “Quem vai embora não embolora”.
E velho Buk com isso? Bão... arrematei, com um pequeno sangramento no orçamento, o “Textos Autobiográficos” que foi lançado agora. Ele foi pra fila das leituras. Tô no meio de “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” que leio por dever de ofício. Depois tem o “Vida de Escritor” do Talese e aí chego no Bukowski.

Ah... por fim...passei nas banquinhas dos piratas da Augusta e arrematei vários filminhos. Cada filme dez reais ou três por vinte e cinco. Peguei “Amarcord”, “E La Nave Va”, “Querelle”, “A Noite”, de Pasolini, “Zabriskie Point” e um documentário sobre o Kerouac. Cinquenta paus bem gastos, eu achei...
É isso... “tudo absurdo, mas tá tudo bem”.
Fui ver o show “Raça Humana” de Walter Franco, no Auditório do Ibirapuera. Já tinha visto o cara algumas vezes, sempre com voz e violão e é sempre ótimo e intenso. Com banda o bicho pegou mais ainda. Duas guitarras, bateria, percussão e o baixo histórico de Willy Verdaguer, puta músico, que foi dos Beat Boys. Acompanhado dessa banda poderosa, Walter visitou a sonoridade experimental e às vezes pesada dos seus discos “Ou Não” e “Revolver”. Aquele lance que ele faz tão bem de passar da sutileza, dos silêncios, ao peso e ao grito primal, sempre fica legal com voz e violão. A banda ampliou essas possibilidades sonoras. Temas como “Respire Fundo” e “Tutano” evidenciaram isso.

Não sei se todos se ligam, mas essa coisa do Walter de passar da delicadeza para aquele quase rugido, aquele canto urgente, como se fosse um náufrago gritando por socorro é muita influência do John Lennon. Ouça “Canalha” e “Mother”, as duas com o grito primal dando o tom das interpretações. Ou então compare “Feito Gente” com “I Want You (She´s So Heavy). A influencia de John Lennon também está na capa do disco “Revolver”. Ele caminhando por uma rua de São Paulo, de cabelos compridos e mãos nos bolsos do terno branco, evoca o Lennon da capa de “Abbey Road”. São dois criadores. Os dois, como disse o Augusto de Campos, se equilibrando entre a paz e a turbulência.
Uma atração especial do show foi ver o Alberto Marsicano tocando sitar. O som daquela porra ao vivo é uma coisa muito louca. Fiquei imaginando que aquele som deve turbinar qualquer viagem, as lisérgicas e as espirituais. Ele acompanhou Walter e a banda em “Govinda” e “Zen”.
Às vezes fico meio de saco cheio daquela coisa de “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. O cara tem algumas canções fudidas e para dizer para as pessoas quem é Walter Franco você tem que citar essa. Que é legal e tal... é uma coisa dele mesmo, não é fake. Mas eu preferia poder dizer por aí que Walter Franco é o cara que compôs “Mixturação”, que aliás ele tocou no show e quase fez o teto cair...
Walter também tocou “It´s only life, but I like it”, de Leminski, fazendo a conexão com a outra face da moeda, os Rolling Stones. No dia seguinte ao show, visitei a Ocupação Paulo Leminski no Itaú Cultural. Cara... nunca vi uma instalação tão caprichada, cheia de ambientes temáticos e tal. Muitos, muitos, muitos textos do Leminski pelas paredes do Itaú Cultural... até nos banheiros... Dá pra passar o dia por ali. Confesso que eu não consigo ficar lendo poesia escrita na parede com som rolando no fundo e um monte de gente passando na minha frente ou conversando do meu lado... mas mesmo assim valeu a pena visitar. Os vídeos são muito legais. Várias entrevistas com o Leminski. Em vários ele fala aquela coisa da poesia ser um “inutensílio”, ou seja, não servir para nada, apenas para o prazer de quem lê ou sente aquilo que o poeta diz e por isso mesmo, além de inútil a poesia é fundamental... O título de um dos vídeos é “Polaco Loko Paca” que eu e a Aline adotamos como apelido do nosso filhote, branquelinho. Nosso projeto de furacão voando pela casa.

Também resolvi adotar um texto do Leminski como epitáfio. Já avisei a Aline que quando eu for comer capim pela raiz pode escrever na lápide “Quem vai embora não embolora”.
E velho Buk com isso? Bão... arrematei, com um pequeno sangramento no orçamento, o “Textos Autobiográficos” que foi lançado agora. Ele foi pra fila das leituras. Tô no meio de “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” que leio por dever de ofício. Depois tem o “Vida de Escritor” do Talese e aí chego no Bukowski.

Ah... por fim...passei nas banquinhas dos piratas da Augusta e arrematei vários filminhos. Cada filme dez reais ou três por vinte e cinco. Peguei “Amarcord”, “E La Nave Va”, “Querelle”, “A Noite”, de Pasolini, “Zabriskie Point” e um documentário sobre o Kerouac. Cinquenta paus bem gastos, eu achei...
É isso... “tudo absurdo, mas tá tudo bem”.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Hoje eu vou
sábado, 3 de outubro de 2009
Lóki - o filme

“Dizem que sou louco/ Por pensar assim/ Sim, sou muito louco/ Por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz”. Os versos da “Balada do Louco”, composta e gravada pelos Mutantes em 1972, funcionam como mote para a história contada no documentário “Lóki”, dirigido por Paulo Fontenelle, sobre a vida de Arnaldo Baptista, tecladista, líder e principal compositor do grupo.
Arnaldo sucumbiu a uma guerra mental travada entre sua genialidade artística, a sensibilidade fora do comum, as drogas lisérgicas consumidas com intensidade nos anos 70, o martírio amoroso após a separação de Rita Lee e o desprezo da mídia pelo seu trabalho solo.
O filme de Fontenelle mostra isso, mas reafirma o lado heróico da trajetória do ex-mutante. O artista consagrado que foi aos infernos, conheceu a decadência, passou a centímetros da morte e ainda está por aí. Feliz como o louco da “Balada”. Documenta, mas também mitifica. O que, cá entre nós, não faz mal nenhum. A sobrevivência de um artista talentoso, dono de uma obra desenvolvida com rigor, deve ser comemorada cada vez mais diante do cenário de mediocridade absoluta que impera na música do país. Vamos mitificar quem? As pernas compridas e as interpretações truculentas da tal Ivete? O deserto mental dos sertanejos românticos? Que se dê a Arnaldo Baptista as loas que ele merece. E se sua história trágica turbina o mito, o que se há de fazer?
Para os que já conhecem a obra de Arnaldo, que se insurge como uma ilha de originalidade musical e poética, seja com os Mutantes, seja em carreira solo, o filme é um deleite. Principalmente pelas imagens raras que Fontenelle descobriu nos baús mais empoeirados da cultura brasileira. Tem os Mutantes, ainda com Rita Lee, tocando “Ando Meio Desligado” numa performance arrasadora diante de uma grande público em algum lugar dos anos 70. Também tem os Mutantes, já sem Rita, no início da fase progressiva da banda mandando ver em “O A e o Z”.
Mas são as imagens raríssimas da carreira solo de Arnaldo que vão enlouquecer os fãs. Um belíssimo clip de “Será que Eu Vou Virar Bolor?”, faixa de abertura do LP “Lóki” de 1974. Embora o filme não traga maiores informações, creio que é um daqueles clips que o “Fantástico”, da TV Globo, produzia, ainda na era “pré-videoclip”. Melhor que isso, só ver Arnaldo tocando com a poderosa banda de hard rock Patrulha do Espaço, grupo criado por ele após sua saída dos Mutantes. Com a Patrulha, Arnaldo gravou coisas lindíssimas que só saíram em disco no final da década de 80, quando o músico estava totalmente afastado da vida artística. O grupo prosseguiu após a saída do seu criador e se transformou numa banda heavy metal respeitada no meio underground paulistano.
Por fim, há vários bons depoimentos. Antigos e atuais. Além de Arnaldo, falam Tom Zé, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Nelson Motta, Roberto Menescal, Zélia Duncan, Lobão, todos os ex-Mutantes (menos Rita Lee), o artista plástico Antonio Peticov e o produtor musical Luiz Carlos Calanca e os gringos Sean Ono Lennon e Devendra Banhart.
O advento da volta dos Mutantes também está presente no documentário. As cenas da reestréia do grupo, em Londres, e do show para 80 mil pessoas em São Paulo são emocionantes.
“Lóki” vale a pena. É memória e é experiência. Ambas articuladas à grande arte, delirante e intransferível, de Arnaldo Dias Baptista. Obrigatório.
Obs. – Para quem é fã de Arnaldo e da banda a Revista Trip deste mês traz uma matéria sobre a lendária viagem de moto do ex-mutante pela América Latina. A revista promoveu o encontro entre Arnaldo e dois companheiros de aventuras motociclísticas. Interessante.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Um som para hoje
Na verdade, Julio Reny é um som pra qualquer hora. Já escrevi sobre ele aqui. Visceral. Tem também uma entrevista fundamental com o cara no Língua Pop. O link tá aí do lado. Imperdível.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O PEDRO MALASARTES HARDCORE

Acabei de ler o fodaço “Pornopopéia”, um livro com poucas referências ao rock e até a outros tipos de música, mas que pode ser classificado como “rock´n roll” naquilo que a expressão desgastada tem de melhor. Ou seja, é um livro intenso, bem humorado e transgressor. Uma sucessão de cenas de sexo, drogas e canalhice protagonizada por um cineasta maldito e fracassado em sua descida inconsequente ao fundo do poço.
Reinaldo Moraes escreveu na década de 80 “Tanto Faz” um pequeno livro que influenciou dezenas de escritores da atualidade. Lançado pela série “Cantadas Literárias” da Editora Brasiliense, o livro conta a história de um estudante de economia que ganha uma bolsa para estudar em Paris. Chegando lá, deixa a carreira acadêmica de lado e cai na vida. Apesar dos excessos, o livro também tem um fundo autobiográfico. Reinaldo Moraes também largou a economia, mas caiu, de vez, no universo das letras.
Juntamente com o cartunista Caco Galhardo e a blogueira Ana Pands, ele apresenta o programa “Fogo no Rádio”, podcast que vai ao ar pela Rádio UOL. Os três recebem convidados para entrevistas absurdas ou tratam de temas interessantes com altíssimas doses de nonsense, ironia e piadas de todos os tipos de calão.
Além do cultuado “Tanto Faz”, Reinaldo Moraes já lançou Abacaxi (L&PM, 1985), o romance para jovens “Órbita dos Caracóis” (Cia. das Letras, 2003) e a coletânea de contos “Umidade” (Cia. das Letras, 2005).
“Pornopopéia” tem 475 páginas e levou quinze anos para ser escrito. Em entrevistas, Reinado tem comparado seu personagem principal, o cineasta Zeca, a um Pedro Malasartes aprontando das suas em meio ao caos urbano de uma São Paulo decadente, entre traficantes, prostitutas, publicitários esnobes, policias corruptos, adolescentes maluquetes, travestis e espiritualistas chegados demais aos prazeres da carne.
A história começa quando o ex-cineasta marginal, autor de um único longa metragem, o obscuro “Holisticofrenia” (“premiado na Colômbia”), sem dinheiro para manter o status de “criador alternativo” é obrigado a filmar um vídeo institucional sobre embutidos de frango.
Ao invés de procurar pelas idéias, Zeca chuta o balde e entra numa espiral de excessos sexuais e lisérgicos de todos os tipos. A exemplo do seu personagem, Reinaldo também apostou na falta de filtros e regras para contar sua história. A torrente de palavrões é tão grande quanto a quantidade de enrascadas, contravenções e pequenas canalhices em que o personagem se mete em sua obsessão por prazer.
O livro provoca muitos risos, principalmente na primeira parte. Reinaldo é um artesão que constrói seu texto caudaloso e verborrágico com esmero, utilizando grande talento e elaboração pra relatar as impagáveis aventuras (ou desventuras) de seu herói sem caráter, o Pedro Malasartes hardcore. Só a “surubrâmane”, orgia realizada num templo erótico-religioso, em que Zeca se mete consome 80 páginas de descrições tão picantes quanto engraçadas.
Em sua epopéia pornográfica regada a todos os tipos de substâncias ilegais, Zeca é um personagem que representa um pouco a era de individualismo exacerbado e busca de prazer a qualquer custo, apenas pelo próprio prazer, em que vivemos. Por isso, a coisa que o personagem mais faz, além de copular e consumir drogas, é dar de ombros para o que os outros podem pensar ou sofrer com suas atitudes.
Ao final do calhamaço, o que provocou riso por tantas páginas passa a se transformar em desconforto ou pena ou raiva ou outra coisa qualquer. Ler “Pornopopéia” pode ser uma experiência intensa. Exige leitores dispostos a tal.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
sábado, 19 de setembro de 2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Canções Estradeiras

Dia desses me bateu uma vontade louca de trocar minha motinho por uma moto decente, chopper estradeira e tal. Aí você vai pensar na vida, nas contas e vê que é foda. Agora, os caras vão começar cobrar pedágio das motos também. As estradas são ruins e perigosas. No fim das contas, a grana é curta e acho que vou ficar aqui babando só na vontade de viver meu “Easy Rider” caboclo.
De qualquer maneira, ao pensar nisso, acabei fazendo uma lista de canções estradeiras que posto abaixo. A escolha é meio óbvia, mas de algumas delas não tem como fugir.
1 – Iron Horse – Motorhead (na versão ao vivo do “No Sleep til Hammersmith”)
2- Highway Star – Deep Purple (na versão original do “Machine Head”)
3- Highway 49 – Howlin´ Wolf (versão das “London Sessions”, com Eric Clapton, Steve Winwood e tal)
4- Ride On – AC/DC (Bon Scott, emocionante até hoje)
5- Southbound – Allman Brothers (do disco “Brothers and Sisters”)
6- Why Don´t We Do It In The Road – The Beatles
7- Sitting On The Road Side – Arnaldo Baptista e Patrulha do Espaço (a melhor versão é a do “Elo Perdido”. Esqueci o título em português)
8- Route 66 – Rolling Stones (a versão do primeiro disco)
9- Fricção – Inox (raridade do metaaaaal nacional dos anos 80)
10- The Passanger – Iggy Pop (pau no cu do Capital Inicial)
Dada a obviedade da primeira lista, acabei tendo vontade de fazer uma outra lista (bateu um momento “Alta Fidelidade” hoje). Desta vez as escolhidas foram canções boas de ouvir na estrada, independentemente dos temas. A lista segue abaixo, quem não gostar que faça o favor de sugerir as suas.
1- Love Her With a Feeling – Freddie King (foda!)
2- Never Before – Deep Purple (também do “Machine Head”)
3- Stacker Lee – Dave Von Ronk (fodíssima)
4- I´ll Get By – Crazy Horse (do disco de 1971 da banda que acompanha o Neil Young)
5- With a Woman – Howlin´ Wolf (acho que o Steve Ray Vaughan gravou essa música com o nome de “I´m Leaving You”. A versão do Lobão Uivante é melhor)
6- Lousiana Black Dog Moses - Mark Olson and the Creekdippers (puta banda, pouco conhecida. Uma das melhores coisas de “alt country” que já ouvi. Essa música é fudida.)
7- She´s So Fine – Jimi Hendrix Experience (pérola do “Axis Bold as Love” cantada pelo Noel Redding)
8-The Same Thing – Muddy Waters (música do Willie Dixon)
9-Return to Sender – Mojave 3 (daquele disco bonitão…acho que o nome é “Excuses for Travellers”
10-Lonesome Town – Paul Macartney (baladaça que tem no “Run Devil Run”)
Porra, fazer listas é gostoso pra caramba. Me fez lembrar o hábito pré-histórico de selecionar canções para as velhas fitinhas cassete. Olha a síndrome de “Alta Fidelidade” novamente... Quem sabe não invento novas listas nos próximos posts. Por hoje chega.
sábado, 12 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Walter Franco
Vi shows maravilhosos do cara.
Tô sentindo falta de ver outros.
O post é pra matar saudades.
Tô sentindo falta de ver outros.
O post é pra matar saudades.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Frank Jorge é foda
Esqueça o sonolento Nenhum de Nós e os pretensiosos Engenheiros do Hawai. O que faz o rock do Rio Grande do Sul importante no cenário roqueiro nacional são nomes menos conhecidos por aqui, mas que somam atitude, humor e ótimas referências para fazer rock de qualidade. Eu falo do trovador Julio Reny, do rei do punk-brega Wander Wildner e do poeta pop multinstrumentista Frank Jorge, que lançou no finalzinho de 2008 seu terceiro CD solo.
Frank é um veterano da cena gaúcha. Integrou grupos fundamentais do rock dos pampas como os Cascavelletes, a Graforréia Xilarmônica e os Cowboys Espirituais. Produziu o ótimo CD de estréia dos The Darma Lovers e teve suas canções gravadas por nomes consagrados como os grupos Ira e Pato Fu.
Intitulado simplesmente “Vol.3”, o novo CD sucede o fundamental “Carteira Nacional de Apaixonado”, lançado em 2000, e o pouco lembrado “Vida de Verdade” de 2003. Assim como nos seus dois trabalhos anteriores Frank Jorge elabora seu coquetel roqueiro à base de rock´n roll básico, new wave, psicodelia, humor, ironia, romantismo e imensas doses de jovem guarda, sua principal influência. Tudo isso estruturado com versos elegantes e ótimos refrões.
“Elvis”, a faixa de abertura, pode ser considerada uma síntese do trabalho, com seu refrão espirituoso e de uma verdade “inapelável e crudelíssima”, como diria Nelson Rodrigues: “Elvis na fase decadente/ É bem melhor que muita gente”.
A irônica metralhadora verbal do gaúcho aponta até para o próprio trabalho em “Obsessão anos 60”, em que ele canta sobre uma base totalmente “jovem-guardística” “Não suporto mais esta obsessão pelos anos 60/ Não consigo explicar/ Só sei que ninguém mais aguenta”.
“A Historiadora” é a impagável história de uma acadêmica sisuda que vive entre teses e pesquisas científicas, mas que guarda escondida no armário uma fita do filme erótico japonês “O Império dos Sentidos”.
Uma das minhas preferidas é a balada “O que sobrou do mundo”. Para variar a estrutura musical é jovem guarda pura, mas ao invés das declarações de amor adolescentes semelhantes às que cantavam o Tremendão Erasmo Carlos, a Ternurinha Wanderléia ou o Rei Roberto, aqui o cantor tece cenários típicos da classe média brasileira, às voltas com problemas financeiros e tédio no casamento. “Um dia, se o salário melhorar/ Meu plano é viajar/ Levando as crianças/ Um cadeado vou botar no frigobar”.
O tema do amor desgastado também está na ótima “Não Espere Mais Nada”. Mistura de Beatles e Roberto Carlos, tem uma deliciosa melodia e a letra esperta com versos como “Nossa vida nos primeiros tempos foi muito boa/ Saímos no tapa e depois recitamos um Fernando Pessoa”. O rockinho “Se Você Ainda Me Quiser” é outro rock´n roll a lá jovem guarda que encerra o CD de forma classuda.
Curiosidades: Frank Jorge já trabalhou na Secretaria de Cultura da cidade gaúcha de São Leopoldo. É poeta, apresentador de TV, professor universitário na Unisinos, onde leciona no curso de formação de produtores e músicos de rock, do qual é criador. Em “Vol. 3”, ele toca todos os instrumentos.
Esqueça a coleção de clichês acéfalos da Pitti ou dos tais Fresnos e NXs. Se você estiver afim de um bom disco de rock nacional, bem produzido, com letras inteligentes, românticas e engraçadas, Frank Jorge é o cara.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Hoje - o avesso da parolagem
domingo, 30 de agosto de 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
A parolagem da vida
Palavras ao léu. Parolagem na tarde. “Sempre” é uma palavra comum. Já a expressão “para sempre” dá um certo medo. Uma coisa que não sei bem o que é. O avesso dos contos de fada com o “viveram felizes para sempre”. Fico pensando em alguém preso para sempre no inferno ou emparedado. Emparedar, tudo preso entre cimento e tijolos. Tudo. Corpo e alma. E a alma é uma coisa que dá medo de ter presa. Por isso “para sempre” é uma expressão foda. Mas se a gente analisar mesmo é só papo porque tudo é transitório.
Tudo é impermanente, palavra que essa merda de Word não reconhece. Tudo passa. O homem é transitório. Tudo que está aqui ao meu lado nesta sala vai sumir. A sala bonita que planejamos vai sumir. O piso caro, a mesa bonita, as paredes de um tijolo, a lareira pintada de vermelho com o decalque dos Beatles. Os quadros do Taxi Driver e dos filmes do Almodóvar. Um dia essas paredes que parecem sólidas não existirão. A televisão e toda a merda que passa por ali vão sumir. As coisa legais também vão. Cara, o Faustão é passageiro. Embora meu pessimismo crônico às vezes me faça duvidar disso.
Revi, dia desses, uma edição do programa Fábrica do Som em que o Claudio Willer leu um trecho do “Uivo” do Ginsberg. Falou-se sobre a beat generation. Apareceu o Leminski perguntando se beatinik era algum dissidente soviético. Escrevo ouvindo La Carne, “Demônio Triste”. É realmente uma boa banda. Pesada. “Jukebox” é uma boa música.
Também vi o Raul Seixas na Fábrica do Som. Falou-se muito do Raul nas últimas semanas pois fez 20 anos da morte dele. Na Fábrica ele dublou. O público ficou alucinado quando Tadeu Jungle anunciou Raul. Então ele entrou de botas, calça e jaqueta de couro e dublou “Punct Plact Zum” e “DDI”. Parte do público ficou puta com a dublagem. Mas parte dançou e aplaudiu loucamente o maluco beleza, mais maluco do que nunca ao fazer uma performance “fake” deslavada para um público jovem e meio inquieto.
Raul era pura bagaceira, fuleiragem. Dava na cara do bom gosto. “Tudo o que não é americano em Raul Seixas é bahiano demais”, disse Gil ou Caetano, sei lá. Penso também no sentido da palavra baiano para os paulistas, algo brega de mau gosto. Raul é isso também. É sub. É da empregada. E é bom rock´n roll. Cada vez acho melhor.
Tudo é transitório. Lembro que quando Raul morreu eu e o Txélos ficamos ouvindo o Krig-Há Bandolo emocionados e quase tristes nos nossos dezesseis anos. Tudo é transitório. Mas o brado dos bêbados, dos chatos, dos velhos malucos sem noção e, por incrível que pareça, de outros adolescentes meio “gauche” na vida como nós fomos, vai ficando por aí. Toca Raul porra!
Tudo é impermanente, palavra que essa merda de Word não reconhece. Tudo passa. O homem é transitório. Tudo que está aqui ao meu lado nesta sala vai sumir. A sala bonita que planejamos vai sumir. O piso caro, a mesa bonita, as paredes de um tijolo, a lareira pintada de vermelho com o decalque dos Beatles. Os quadros do Taxi Driver e dos filmes do Almodóvar. Um dia essas paredes que parecem sólidas não existirão. A televisão e toda a merda que passa por ali vão sumir. As coisa legais também vão. Cara, o Faustão é passageiro. Embora meu pessimismo crônico às vezes me faça duvidar disso.
Revi, dia desses, uma edição do programa Fábrica do Som em que o Claudio Willer leu um trecho do “Uivo” do Ginsberg. Falou-se sobre a beat generation. Apareceu o Leminski perguntando se beatinik era algum dissidente soviético. Escrevo ouvindo La Carne, “Demônio Triste”. É realmente uma boa banda. Pesada. “Jukebox” é uma boa música.
Também vi o Raul Seixas na Fábrica do Som. Falou-se muito do Raul nas últimas semanas pois fez 20 anos da morte dele. Na Fábrica ele dublou. O público ficou alucinado quando Tadeu Jungle anunciou Raul. Então ele entrou de botas, calça e jaqueta de couro e dublou “Punct Plact Zum” e “DDI”. Parte do público ficou puta com a dublagem. Mas parte dançou e aplaudiu loucamente o maluco beleza, mais maluco do que nunca ao fazer uma performance “fake” deslavada para um público jovem e meio inquieto.
Raul era pura bagaceira, fuleiragem. Dava na cara do bom gosto. “Tudo o que não é americano em Raul Seixas é bahiano demais”, disse Gil ou Caetano, sei lá. Penso também no sentido da palavra baiano para os paulistas, algo brega de mau gosto. Raul é isso também. É sub. É da empregada. E é bom rock´n roll. Cada vez acho melhor.
Tudo é transitório. Lembro que quando Raul morreu eu e o Txélos ficamos ouvindo o Krig-Há Bandolo emocionados e quase tristes nos nossos dezesseis anos. Tudo é transitório. Mas o brado dos bêbados, dos chatos, dos velhos malucos sem noção e, por incrível que pareça, de outros adolescentes meio “gauche” na vida como nós fomos, vai ficando por aí. Toca Raul porra!
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Minuto de sabedoria
sábado, 15 de agosto de 2009
“A Primavera do Gato Amarelo” - Para os velhos roqueiros

No último CD do bardo podreira Wander Wildner “La Canción Inesperada” há uma canção chamada “O Reverendo do Rock Gaúcho” em que ele cita as bandas e os músicos da pré-história do rock dos pampas lá no início dos anos 80, quando o próprio Wander cantava nos Replicantes. Na canção ele diz que Julio Reny ainda anda por aí com seu violão modelo Elvis Presley.
De fato, nos anos 80, se falava bastante em Julio Reny e sua banda Expresso do Oriente na finada Revista Bizz. Naqueles tempos pré-internet até deu pra saber da existência de Reny, mas não consegui ouvir seu som.
Fui conhecer o trabalho de Julio Reny com o grupo Cowboys Espirituais que chegou até a fazer algum sucesso radiofônico com a canção “Jovem Cowboy”. O primeiro disco do grupo integrado por Reny e outros veteranos do rock gaúcho como Frank Jorge e Ney Van Soria é sempre uma boa opção para ouvir na estrada ou num dia feliz de outono. Country rock leve e bem humorado.
Só recentemente, ao ler na net sobre “A Primavera do Gato Amarelo”, fui buscar o trabalho solo de Reny. Baixei o disco, ouvi, gostei e baixei os anteriores também. Mas “A Primavera...” é um disco que tenho ouvido cada vez mais. É um rock maduro, fácil, inteligente, leve que evoca histórias e momentos passados em letras e sonoridades. Um prato cheio para quem é viciado em ser nostálgico, como eu. Confesso: falou ao meu velho coração roqueiro que às vezes fica lá escondidinho debaixo das obrigações profissionais ou da vontade/necessidade de conhecer novos sons ou manifestações artísticas.
Reny é um trovador roqueiro que carrega tudo que um personagem deste tipo requer. Uma voz estranha, um som de violão com cordas de aço, letras legais, bons refrões, boas referências e um clima estradeiro indefinível, mas que o pessoal que ouve rock vai sacar no ato.
O CD abre com “O Segundo Fim”, jovem guarda pura, com aquele acento brega que os gaúchos adoram tanto (vide Frank Jorge e o próprio Wander Wildner). A música trata do fim de um relacionamento, fato que, segundo entrevistas de Reny, ocorreu mesmo durante o processo de composição das canções de “A Primavera...” embora isso não signifique um disco triste. Na letra ele pede “Ainda preciso de você/ Eu preciso de um segundo fim”.
“Linda Menina” trata da simples alegria de estar andando pela rua com a cabeça ocupada pelas preocupações do cotidiano e se deparar com a garota mais linda da cidade “de vestido apertado e sandália rasteira”. Pra combinar com o momento, um rockinho alegre conduzido por piano e slide guitar.
O momento mais beatle do CD é “Chegou a Primavera”, alegre brincadeira a lá “Penny Lane”, com flauta e cantos de passarinhos, celebrando as cores e as flores da estação em que as mulheres levitam no ar como “a menina feliz a mostrar/ Sua mais nova penugem para o sol dourar”.
“Noite em São Sepé” é a minha preferida. O som é legal, mas a letra é uma delícia. Um encontro de velhos amigos para ouvir rock antigo numa madrugada fria. “Eu e meus amigos embriagados de saudade/ Na madrugada tão distante/Se a cruzada terminou/ Serei um cavaleiro andante”. Porra! A música me fez lembrar milhões de histórias e pessoas queridas. Queria que esses amigos ouvissem a faixa. Acho que iriam entender.
Na sequência vem “Outra Vez”, um bom refrão com aquela cara de música de Nando Reis. Aliás, para quem não conhece o som do Reny, talvez essa seja mesmo a melhor referência. Um rock suave, com toques folk e pop. No entanto, o trovador gaúcho soa aos meus ouvidos menos pretensioso e mais verdadeiro. “Noite de Ingleses” e “Faltou Tempo de Escrever” também são boas. A segunda resvala no romantismo/jovem guarda novamente.
“Invisível” é o desejo/obsessão pela mulher amada que faz o personagem da canção desejar ser invisível para olhar por ela 24 horas por dia. Desde observar o banho, fazer carinhos durante o sono até estragar as noites com os outros. E eu pergunto, meus caros: quem nunca sonhou com isso? O solinho brega de saxofone não atrapalha. Até dá um climinha mais anos 80.
A versão rock´n roll de Pasárgada chama-se “Gloca Morra”. Lá, por ser amigo do rei, Julio Reny, desfruta da gentileza das garotas, dos verões eternos e dos drinks infindos, joga bilhar com os amigos e desperta todos os dias sem louça pra lavar.
“Tenha Fé” talvez até seja legal, mas o fato de ter a participação de Humberto Gessinger faz tudo ficar com cara de Engenheiros do Hawai e...bom, melhor pular a faixa.
O disco termina com “Two Tones” rock´n roll saboroso e declaração da profissão fé do Reny. Lembrei de algumas coisas do disco “Panela do Diabo” do Raul Seixas e Marcelo Nova. É isso. Nada vai acabar “enquanto eu dançar com meus sapatos two tones”.
De uma certa maneira, “Two Tones” é uma síntese do disco. Deixando o peso dos anos e os demônios do cotidiano ainda dá pra ter os sonhos, principalmente se embalados por bons riffs de guitarra.
Enquanto espero os comparsas darem as caras para nossa próxima “Noite em São Sepé”, reafirmo minha condição de cavalheiro andante e vou ouvir Julio Reny. E chega.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Mellow My Mind
Meu irmãozinho Pedro, que vive flanando por Berlim, mandou esse e-mail que eu tomo a liberdade de reproduzir aqui. E assino embaixo.
Fubá querido,
hoje acordei cantarolando Neil Young,
pensando como só ele pode cantar certos versos
que em outras vozes soaria piegas ou artificial
e com ele é sentimento puro. Enfim pensando
em como é cara é foda. Em como no próximo
show dele aqui eu nao vou perder mesmo.
Todo ano ele vem aqui. Fui procurar no youtube
a lindíssima "Mellow my mind" que naquele disco
"Tonight`s the night" ele canta de forma inesquecível,
com aquela desafinada feeling que ele dá no meio.
Eis que encontro uma versao banjo-gaita que ele fez,
no show que ele deu aqui no ano passado. Veja só
que pérola:
Fubá querido,
hoje acordei cantarolando Neil Young,
pensando como só ele pode cantar certos versos
que em outras vozes soaria piegas ou artificial
e com ele é sentimento puro. Enfim pensando
em como é cara é foda. Em como no próximo
show dele aqui eu nao vou perder mesmo.
Todo ano ele vem aqui. Fui procurar no youtube
a lindíssima "Mellow my mind" que naquele disco
"Tonight`s the night" ele canta de forma inesquecível,
com aquela desafinada feeling que ele dá no meio.
Eis que encontro uma versao banjo-gaita que ele fez,
no show que ele deu aqui no ano passado. Veja só
que pérola:
terça-feira, 28 de julho de 2009
Exposição fotográfica "Casa de Avós"
segunda-feira, 27 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
Várias coisas a terra cobre,
Boas e ruins,
Até que alguém revolve.
Aqui há coisas que eu não entendo,
Nunca vi.
Outras eu acho chatas.
Num dia de frio,
Invadem minha tranquilidade
Em minha casa há coisas demais
Objetos inúteis
Papéis com todos os tipos de certificações
Coisas
Arrasto comigo uma carga de gente, de coisas, de expectativas
Convenções, palavras, sons, frustrações, horas perdidas.
Tudo isso vem junto
Grilhões, galés feitas de acordos que eu não fiz
E inabilidade.
Boas e ruins,
Até que alguém revolve.
Aqui há coisas que eu não entendo,
Nunca vi.
Outras eu acho chatas.
Num dia de frio,
Invadem minha tranquilidade
Em minha casa há coisas demais
Objetos inúteis
Papéis com todos os tipos de certificações
Coisas
Arrasto comigo uma carga de gente, de coisas, de expectativas
Convenções, palavras, sons, frustrações, horas perdidas.
Tudo isso vem junto
Grilhões, galés feitas de acordos que eu não fiz
E inabilidade.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Movimento dos Barcos
O que dizer dos movimentos. As coisas passando e eu quero passar com elas. Grandes amigos, os melhores, estão por aí em outras cidades, em outros países. Mas é interessante como ficamos torcendo de longe. Eu já rodei um pouco por aí e sei que estar fora do ninho faz um bem danado para a percepção que temos do mundo. Com todos os perrengues, a saudade e tal, a sensação é a mesma de percorrer uma estrada nova, aberta e que você acabou de encontrar e sabe que vai te levar a algum lugar legal.
Ouço Van Morrison cantando alguns clássicos do jazz. Tenho vontade de dividir alguma bebida com alguém bom de papo. Alguém que saque na hora como o Van Morrison é um cantor absurdamente bom. Como ele carrega na emoção na dose certíssima. Hoje ouvi o Astral Weeks no carro. Quem não se emociona ouvindo aquilo é ruim da cabeça ou doente dos ouvidos e do coração.
Van Morrison combina com o frio. Já gostei do frio. Muito. Mas agora ando ficando de saco cheio. Não consigo vencer a sequencia interminável de gripes e resfriados. Ver meu filho com pneumonia também foi (tem sido) uma puta experiência desgastante.
Bom... se alguém leu até aqui sabe que esse post é sobre absolutamente nada. É o meu jeito de falar de som e tal. Um intervalo da rotina de trabalho que anda pesada e do vazio de idéias que é o que sobra neste atual deserto de papos sobre novela, doença, trabalho e tal. Ando sentindo falta de estudar de novo, mas a preguiça é soberana.
No fim das contas é só tédio. Não sou eu quem vai ficar no porto chorando. Mas, por enquanto, eu fico.
Ouço Van Morrison cantando alguns clássicos do jazz. Tenho vontade de dividir alguma bebida com alguém bom de papo. Alguém que saque na hora como o Van Morrison é um cantor absurdamente bom. Como ele carrega na emoção na dose certíssima. Hoje ouvi o Astral Weeks no carro. Quem não se emociona ouvindo aquilo é ruim da cabeça ou doente dos ouvidos e do coração.
Van Morrison combina com o frio. Já gostei do frio. Muito. Mas agora ando ficando de saco cheio. Não consigo vencer a sequencia interminável de gripes e resfriados. Ver meu filho com pneumonia também foi (tem sido) uma puta experiência desgastante.
Bom... se alguém leu até aqui sabe que esse post é sobre absolutamente nada. É o meu jeito de falar de som e tal. Um intervalo da rotina de trabalho que anda pesada e do vazio de idéias que é o que sobra neste atual deserto de papos sobre novela, doença, trabalho e tal. Ando sentindo falta de estudar de novo, mas a preguiça é soberana.
No fim das contas é só tédio. Não sou eu quem vai ficar no porto chorando. Mas, por enquanto, eu fico.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Tiê - Sweet Jardin

A menina de sorriso encantador já está aparecendo em algumas vinhetas da MTV. Isso porque, além de influenciada pelos cânones da MPB, notadamente a delicadeza e a leveza da bossa nova, a cantora Tiê também imprime uma marca autoral ao seu trabalho que a aproxima do cenário da música folk norte-americana, atual paixonite dos adolescentes “indies”.
“Sweet Jardim” é o título do primeiro disco desta cantora de 28 anos, com nome de passarinho escolhido, segundo ela, por sua mãe hippie. Outra curiosidade familiar: Tiê é neta da atriz Vida Alves, a primeira a dar um beijo na televisão brasileira.
Tiê já tem alguma experiência na música. E nas duas vertentes que mais aparecem no seu trabalho: a MPB e o chamado folk rock alternativo. Por dois anos acompanhou Toquinho cantando com ele os grandes clássicos do seu repertório, como as músicas compostas juntamente com Vinícius de Moraes. Ao mesmo tempo, cantava nas madrugadas de algumas casas de shows alternativas de São Paulo, um repertório mais “maldito”, recheado de canções de cabaré de Kurt Weil, Bertold Brecht e Tom Waits.
Foi nesse período que a cantora foi se descobrindo também compositora. E “Sweet Jardim” é inteiramente autoral. Ela canta, toca piano e violão, em dez faixas gravadas ao vivo, ao estilo low-fi, ou seja, da maneira mais suave e delicada que você conseguir imaginar.
As canções são muito simples e com letras absolutamente pessoais, escritas em inglês, francês e português. Há participação do violão de Toquinho na faixa título que encerra o CD. A bela capa foi concebida pela estilista Rita Wainer.
As quatro primeiras faixas, ”Assinado Eu”, “Dois”, “Quinto Andar” e “Passarinho”, são baseadas na voz delicada e no violão simples tocado por Tiê. Sei que é sacrilégio, mas a sonoridade minimalista e o tom romântico/desamparado me fizeram lembrar as canções do “Songs of Leonard Cohen”, guardadas as devidas proporções e considerada a densidade poética do trabalho do bardo canadense.
“Aula de Francês”, para mim a melhor do CD e “Stranger But Mine”, também são baseadas no violão, mas a estrutura, o ritmo e os arranjos se aproximam mais do folk. É como se Tiê fosse uma Malu Magalhães mais adulta e com menos produção.
Tiê toca piano na bela “Chá Verde” e em “A Bailarina e o Astronauta”. Sua execução é tão simples quanto a do violão. Nestas duas, as letras ficam em destaque.
“Sweet Jardim” é produzido pelo produtor, músico e DJ carioca Plínio Profeta. Para quem não se lembra era um maluquinho que, há uns dez anos, fez sucesso na MTV com uma música detonando Adriane Galisteu. Plínio cresceu e hoje é multiinstrumentista, que toca baixo, cavaquinho, guitarra, teclados e programações, e assina a produção de discos de artistas como Lenine, Pedro Luís e A Parede, Fernanda Abreu, e é responsável por remixes nacionais e internacionais de canções de nomes como Titãs, Kid Abelha e Madonna. Ele teve o grande mérito foi despojar o som de Tiê de efeitos e truques de produção. É como se o passarinho cantasse na sua janela, numa manhã de outono. Vale ouvir.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
Gulliver é brasileiro?
Disse o rei para Gulliver, após ouvir sobre como as coisas funcionavam na velha Inglaterra:
“Fizestes o mais admirável panegírico de vosso país; provastes à sociedade que a ignorância, a ociosidade e o vício são os ingredientes adequados à qualificação de um legislador; que as leis são melhor explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujo interesse e habilidade consistem em as perverter, confundir e iludir. Observo entre vós alguns traços de uma instituição que poderia ter sido, originariamente, toletrável, mas cuja metade está quase apagada, ao passo que o resto foi inteiramente obliterado pela corrupção. Não transparece, em quanto dissestes, que se exija uma única perfeição para alguém que atinja uma posição qualquer entre vós; e muito menos que os homens sejam enobrecidos em razão da sua virtude; que os sacerdotes sejam promovidos pela piedade ou pelo saber; os soldados, pelo procedimento ou pelo valor; os juízes, pela integridade; os senadores, pelo amor à pátria; os conselheiros, pela sabedoria. Pelo que vos toca”, prosseguiu o rei, “a vós, que passastes viajando a maior parte da vida, inclino-me a pensar que tenhais, até agora, escapado a muitos vícios do vosso país. Mas, pelo que depreendi do vosso próprio relato e das resposta que, tão penosamente arranquei e extraí de vós, não posso menos de concluir que a grande maioria dos vossos semelhantes é representada pela mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu rastejassem na superfície da Terra”.
Parece um lugar que eu conheço...
“Fizestes o mais admirável panegírico de vosso país; provastes à sociedade que a ignorância, a ociosidade e o vício são os ingredientes adequados à qualificação de um legislador; que as leis são melhor explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujo interesse e habilidade consistem em as perverter, confundir e iludir. Observo entre vós alguns traços de uma instituição que poderia ter sido, originariamente, toletrável, mas cuja metade está quase apagada, ao passo que o resto foi inteiramente obliterado pela corrupção. Não transparece, em quanto dissestes, que se exija uma única perfeição para alguém que atinja uma posição qualquer entre vós; e muito menos que os homens sejam enobrecidos em razão da sua virtude; que os sacerdotes sejam promovidos pela piedade ou pelo saber; os soldados, pelo procedimento ou pelo valor; os juízes, pela integridade; os senadores, pelo amor à pátria; os conselheiros, pela sabedoria. Pelo que vos toca”, prosseguiu o rei, “a vós, que passastes viajando a maior parte da vida, inclino-me a pensar que tenhais, até agora, escapado a muitos vícios do vosso país. Mas, pelo que depreendi do vosso próprio relato e das resposta que, tão penosamente arranquei e extraí de vós, não posso menos de concluir que a grande maioria dos vossos semelhantes é representada pela mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu rastejassem na superfície da Terra”.
Parece um lugar que eu conheço...
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Germano Mathias
“Por onde andará Germano Mathias? Magro, irrequieto, sarará, sua ginga da Praça da Sé, jogo de cintura da crioulada da Rua Direita? E o que foi que fez, maluco, azoado, de seu samba levado na lata de graxa?” Assim começa o belo texto “Abraçado ao Meu Rancor”, no livro do mesmo nome, escrito por João Antonio, cronista do submundo das grandes cidade brasileiras.
Pois é... Germano andou por aqui neste final de semana e tive o prazer de passar umas boas horas batendo um papo quase surreal com o catedrático do samba. Aos 75 anos de idade “corpo limpo, sem varizes e afogando o ganso como se fosse o pavão misterioso”, Germano é daquele jeito que vemos na televisão ou no DVD Ginga no Asfalto. Fala pelos cotovelo, emenda uma piada na outra, a maioria de duplo sentido.
Esse foi o lado A da conversa. O lado B foi uma inusitada palestra sobre reencarnação, lei do carma, resgate, umbrais e todo o tradicional discurso kardecista. Germano e o lendário Ventura Ramirez, um dos mais importantes violões de 7 cordas de São Paulo, fizeram uma conferência que daria inveja ao Chico Xavier.
Depois do papo pornô-espírita, Germano, acompanhado por Ventura, o mestre Osvaldinho da Cuíca, além de dois músicos jovens no cavaquinho e na percussão, deram aquele show saboroso, recheado de sambas sincopados, piadas e samba no pé. Com a lata de graxa e tudo. Inesquecível. Aline fez as fotos abaixo.
De resto, deixo as palavras do João Antonio: “Já Germano Mathias repinicava na lata de graxa escarrapachadamente, samba subido ou descido da Barra Funda, do Largo da Banana, da Alameda Olga, com escala posterior pelos Parques Peruche. A lata de graxa dá um som mais fraquinho, estridente, que não é o da frigideira. Som oquinho, moleque, serelepa algo debochado, catimbado. Isso, catimba. A frigideira vai longe, a lata de graxa manda para perto do ouvido. E da gente. Mas tem que, o sarará desenvolvia um repinicado gingado, atiçado. Viu uma faca correr no prato, no samba? Pois é. Bonito. Assim o sarará batia a lata de graxa”


Pois é... Germano andou por aqui neste final de semana e tive o prazer de passar umas boas horas batendo um papo quase surreal com o catedrático do samba. Aos 75 anos de idade “corpo limpo, sem varizes e afogando o ganso como se fosse o pavão misterioso”, Germano é daquele jeito que vemos na televisão ou no DVD Ginga no Asfalto. Fala pelos cotovelo, emenda uma piada na outra, a maioria de duplo sentido.
Esse foi o lado A da conversa. O lado B foi uma inusitada palestra sobre reencarnação, lei do carma, resgate, umbrais e todo o tradicional discurso kardecista. Germano e o lendário Ventura Ramirez, um dos mais importantes violões de 7 cordas de São Paulo, fizeram uma conferência que daria inveja ao Chico Xavier.
Depois do papo pornô-espírita, Germano, acompanhado por Ventura, o mestre Osvaldinho da Cuíca, além de dois músicos jovens no cavaquinho e na percussão, deram aquele show saboroso, recheado de sambas sincopados, piadas e samba no pé. Com a lata de graxa e tudo. Inesquecível. Aline fez as fotos abaixo.
De resto, deixo as palavras do João Antonio: “Já Germano Mathias repinicava na lata de graxa escarrapachadamente, samba subido ou descido da Barra Funda, do Largo da Banana, da Alameda Olga, com escala posterior pelos Parques Peruche. A lata de graxa dá um som mais fraquinho, estridente, que não é o da frigideira. Som oquinho, moleque, serelepa algo debochado, catimbado. Isso, catimba. A frigideira vai longe, a lata de graxa manda para perto do ouvido. E da gente. Mas tem que, o sarará desenvolvia um repinicado gingado, atiçado. Viu uma faca correr no prato, no samba? Pois é. Bonito. Assim o sarará batia a lata de graxa”
domingo, 24 de maio de 2009
Robert Mapplethorpe
Até 26 de junho a Galeria Fortes Villaça, em São Paulo,está exibindo algumas fotos de Robert Mapplethorpe. Em sua maioria são nus e fotos de flores. Mapplethorpe é delicadeza pura. Mesmo quando fotgrafa o submundo de Nova York. É dele a capa do maravilhoso "Horses" de Patti Smith. Aliás, os dois eram muito amigos e moraram juntos por um tempo no lendário Chelsea Hotel. Mapplethorpe morreu por causa da Aids na década de 90. No site "O Século Prodigioso", linkado aí ao lado dá pra conferir várias fotos do cara. Abaixo, posto três delas: Patti Smith, Willian Burroughs e uma flor.




sexta-feira, 15 de maio de 2009
Bill Graham apresenta: minha vida dentro e fora do rock´n roll

São 575 páginas e poucas fotos o que, infelizmente, já vai afastar alguns possíveis leitores. Mas, se você não tem preguiça e gosta de rock´n roll, tem que encarar o livro “Bill Graham apresenta: minha vida dentro e fora do rock”, lançado pela Editora Barracuda.
Alguns críticos disseram que é até melhor que o clássico “Mate-me, pro favor”, a história definitiva do punk rock. Deixando as comparações de lado, o fato é que “Bill Graham...” tem a mesma estrutura que “Mate-me...”, ou seja, é composto inteiramente por depoimentos de entrevistados que vão desde astros como Keith Richards, Peter Gabriel e Eric Clapton, até familiares do personagem.
E quem, afinal de contas, é o personagem? Pois bem, Bill Graham foi um dos caras que transformou a promoção de shows de rock em um dos negócios mais rentáveis do mundo. E sua história é fascinante.
Judeu, teve que fugir da Europa assolada pelo nazismo. Viu sua família ser esfacelada e, aos onze anos de idade, chegou aos Estados Unidos, sem família e sem falar a língua, para tentar iniciar a vida a partir do zero. O início do livro é pesado, pois trata da fuga do nazismo e do incrível drama familiar ao qual Graham sobreviveu.
Depois, a infância no Bronx, as viagens e os empregos em hotéis e restaurantes dos Estados Unidos ocupam algumas páginas mais leves, às vezes até engraçadas. Mas é quando o rock entra na vida de Bill Graham que o livro cresce.
Graham fundou dois palcos fundamentais para o boom do rock´n roll na década de 60: o Fillmore West, em San Francisco, e o Fillmore East, em Nova York. Ali passaram e consolidaram suas carreiras artistas como The Doors, Jimi Hendrix, Eric Clapton e o Cream, The Who, The Byrds, Grateful Dead, Tem Years After, Jefferso Airplane, Janis Joplin e tantos outros.
As histórias dos bastidores dos Fillmore são deliciosas. Relatos de shows inesquecíveis e de situações absurdas envolvendo grandes ídolos da música pop. Através delas, é possível perceber como as bandas deixaram de ser garotos unidos para fazer um som por prazer ou para impressionar as garotas e se tornaram superstars cheios de manias e exigências absurdas.
Graham também dirigiu a casa de shows Winterland que recebeu shows históricos como o último show da conturbada turnê dos Sex Pistols nos Estados Unidos.
Como produtor independente de shows, Bill Graham produziu turnês de gente como os Rolling Stones, Bob Dylan, Led Zeppelin, Crosby, Stills, Nash & Young e George Harrison.
O livro vale a pena por ser parte importante da história do rock´n roll e também para que o público possa conhecer o personagem Bill Graham. Ao mesmo tempo, profissionalíssimo e passional, careta e ousado nas suas concepções artísticas, apaixonado pela música e dotado de uma visão pragmática de negociante. Uma contradição ambulante, enfim. Um personagem tão apaixonante e tão contraditório quanto o rock´n roll que ele ajudou a transformar, de uma expressão da rebeldia juvenil numa mina de riquezas e vaidades.
Histórias escabrosas do Led Zeppelin, frescuras absurdas de Crosby, Stills, Nash e Young, papos de fim de noite com Jim Morrison e Jimi Hendrix. E as maravilhosas descrições de shows como de Otis Redding e Roland Kirk, bastidores de Woodstock e Altamont, porralouquices dos Merry Pranksters de Ken Kesey...não sei o que é melhor. Tem que ler, porra.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Alzira E nós
Nesta segunda feira a cantora Alzira Espíndola, agora Alzira E, esteve em Botuca participando de um evento chamado “Criando a Canção”. A tarde fiz uma longa entrevista com ela para meu programa de rádio. A noite rolou a apresentação que foi muito legal, com direito a “Meu Primeiro Amor”, “Milágrimas”, “Ouvindo Lou Reed” e “Sei dos Caminhos” além de uma versão bluesy de “Meu Mundo Caiu”. Depois do show ela e alguns amigos queridos esticaram aqui pra casa pra tomar umas cachacinhas e jogar conversa fora. Na pauta, filhos, Amy Winehouse, pingas, Bjork, Itamar Assumpção, Ney Matogrosso, Radiohead e Caetano Veloso. Aline registrou a noite legal.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
In Utero
A maçã do amor
Guarda no seu útero
As sementes do homem
E o doce da vida
Que faz doer nossos dentes
E brotarem vermes da nossa carne.
No útero da maçã do amor
Descansa o mapa da queda.
Para Lourenço Mutarelli, Roberto Piva e Zé do Caixão
Guarda no seu útero
As sementes do homem
E o doce da vida
Que faz doer nossos dentes
E brotarem vermes da nossa carne.
No útero da maçã do amor
Descansa o mapa da queda.
Para Lourenço Mutarelli, Roberto Piva e Zé do Caixão
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Fim da quaresma

Carnaval, desengano. Fiquei com a dor em casa, esperando. Cidade fantasma. Babel e Jericó. É necessário cultivar algum jardim, ainda que localizado à sombra das muralhas de Jericó. Na sombra, a grama não cresce as flores não crescem. As plantas morrem. E à sombra da muralha a umidade é mais densa, mais intensa.
A eletricidade começa onde parou o alfabeto. As pequenas plantas brotam dos vãos do asfalto, da sarjeta, da calçada. Faz frio. Faz calor. Lembro-me de uma manhã ensolarada em que fui ao Museu de História Natural. Caminhamos pelo Central Park e agora fico com saudades do cenário nova-iorquino.
Dez filmes com NY: “Midnight Cowboy”; “After Hours”. Ah… tem vários do Woody Allen e tem “Taxi Driver”. Tem “Kids”. A Real Cool Time Tonight é uma coisa impossível. Babel e Jericó. Arquitetura que não há.
Caminhamos numa noite gostosa de outono pela Broadway e tudo era tão mágico. Como deve ser no cinema. Mágico em Nova Iorque. E o senhor desceu a ver a cidade e a torre. Uma outra ruiu pelo som das trombetas e o clamor das línguas humanas que disparam fogo e força quando querem.
Depois me vejo em São Paulo no meu quarto solitário e aconchegante. Eu viveria ali para sempre. Fazia frio pra caralho e era ótimo. Na TV, pela janela do décimo quarto andar, uma SP de verdade. Prédios e nevoeiro. No crepúsculo, buzinas e helicópteros.
Alguma coisa em mim se perdeu. Algo poderia ter sido e se quebrou. Mesmo com tantas coisas boas, não sou e não fui capaz de recuperar o tempo perdido. Algo está preso no meu peito. E chora e dói. Nem o sonho de nova vida que brinca na minha frente aplaca isso.
Uma palavra nova é solavanco. Vamos exorcizar o samba e o rock. O colapso de Babel e a queda de Jericó, destruída a clamor de gente e corno de carneiro. Que agravo aos arquitetos.
Viva o mal-estar eterno, no sentido que eu espero. Aceleração tecnológica.
Proteja-me do colapso de Babel
E do clamor humano e do corno de carneiro
Que fez ruir as muralhas de Jericó
Quando o concreto desabar
08 de abril ao som de Neil Young & Crazy Horse
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Ao Inferno, Com Amor
Uma letrinha de música tosca que encontrei no meio de velharias no computador. Talvez dê um blues fuleiro.
Apaga, sufoca, dizima minha esperança
Esta chuva de inverno, pesada.
E todas as canções que escrevi
Sei que não vão servir para nada
Pois teus olhos cor de chuva
Não serão minha morada
Vou me perder no centro
Do absoluto fundo de nada
Onde vou esquecer teu nome
E teu frescor de madrugada
Ao inferno, com amor!
Meus olhos procuram por ti
É inverno, por favor,
E a chuva continua a cair.
Apaga, sufoca, dizima minha esperança
Esta chuva de inverno, pesada.
E todas as canções que escrevi
Sei que não vão servir para nada
Pois teus olhos cor de chuva
Não serão minha morada
Vou me perder no centro
Do absoluto fundo de nada
Onde vou esquecer teu nome
E teu frescor de madrugada
Ao inferno, com amor!
Meus olhos procuram por ti
É inverno, por favor,
E a chuva continua a cair.
domingo, 22 de março de 2009
Os Apavoramentos de Roberto Piva – do livro “Coxas”.
APAVORAMENTO N⁰ 1
dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só a Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis
APAVORAMENTO N⁰2
quinze adolescentes de todos os sexos foram chicoteados na
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Igreja Católica
cortavam rodelas de cebolas & colavam em seus olhos
dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só a Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis
APAVORAMENTO N⁰2
quinze adolescentes de todos os sexos foram chicoteados na
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Igreja Católica
cortavam rodelas de cebolas & colavam em seus olhos
terça-feira, 3 de março de 2009
Saudades eletrônicas

Dia desses, durante o carnaval fiquei matando o tempo da minha maneira preferida, olhando uma loja de CDs e DVDs. E foi aí que achei uma DVD do famoso “Concert In Central Park” de Simon & Garfunkel. As lembranças da infância vieram rápidas.
Apesar de sempre ter tido muito contato com música em casa, alguma coisa chamou minha atenção para uma coletânea desta dupla nova-iorquina que pertencia a um tio meu que na época, idos de 1982, morava em Piracicaba. Acho que nunca ouvi aquele disco. Só gostava da capa e da contra-capa, com o Paul Simon de bigode e cabeludão, sentado com o seu parceiro Art Garfunkel à frente de um alambrado, com o Rio Hudson ao fundo. Acho que, na verdade, era um pouco de admiração também. Queria ouvir o mesmo som que o meu tio ouvia, assim como queria ser engraçado e inteligente como ele.
Quando o showzão do Central Park foi exibido pela TV Bandeirantes, esse mesmo tio me chamou a atenção. Se não me engano era uma noite de domingo e fiquei lá, do alto dos meus nove anos, ouvindo clássicos do “soft rock” sessentista como “Mrs. Robinson”, “The Boxer” e “Homeward Bound”. Depois disso, pedi dinheiro pra minha mãe e comprei um disco igual ao que meu tio tinha. Tenho o vinil guardado até hoje. E ali, além das três musicas citadas, estão “América”, “Scarborough Fair” e, o maior sucesso da dupla, “The Sounds Of Silence”.
Por essas lembranças todas não resisti. Arrematei o DVD do “Concert...” e agora é como se tivesse um fragmentozinho da minha memória, exatamente aquele que me fez gostar de comprar discos e ouvir música, preservado na prateleira, podendo ser acessado a apenas um toque na tecla play. A sensação é boa.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Matei a Ivete e fui ao cinema
Agora, na tranquilidade calorenta da minha casa, ouvindo o Heavy Trash, novo projeto do Jon Spencer, posso comemorar ter passado todo o carnaval sem praticamente ter visto as feições equinas da Ivete Sangalo na TV. Não é sacanagem... sempre achei que ela parece uma égua dessas de exposição... sem sacanagem... pra mim a associação é imediata. Bom... opiniões fisionômicas à parte, não ver Ivete Sangalo também indica não ouvir sua música detestável. Escapei de ficar entediado vendo escolas de samba e trios elétricos desfilando.
Em vez disso, o Carnaval foi aproveitado com dois filmaços: “O Lutador”, de Darren Aronofsky, com o Mickey Rourke e a Marisa Tomei e “Rio Congelado”, de Courtney Hunt, com Melissa Leo.
“O Lutador” foi especial por vários motivos. O mais óbvio é a presença de Mickey Rourke, o cara que fez “Rumble Fish” e “Coração Satânico” e foi aos infernos, assim como seu personagem no filme de Alan Parker. Ele está estupendo no papel de Randy, “the ram”, um decadente lutador de tele catch que briga contra o tempo, a solidão e a falta de grana. Com pouco tempo de projeção percebemos que Randy é um cara legal e que sua batalha está perdida. Talvez daí a beleza triste e digna de sua luta.

Algumas cenas são antológicas, como sua caminhada pelos fundos do supermercado em que faz bicos e sua entrada na área de frios, como se fosse o trajeto dos camarins até o ringue, onde o público o espera delirante e reverente e não como a realidade mostra, impaciente pedindo a maionese. A cena em que Rourke e Marisa Tomei relembram o apogeu do metal farofa nos anos 80 e detonam Kurt Cobain também é ótima.
Marisa Tomei, mais bonita do que nunca, aos 44 anos, faz a stripper em fim de carreira por quem Ryan se apaixona. Quando os dois estão juntos em cena há uma beleza e um desconforto de saber que as duas almas enjeitadas poderiam se ajudar, mas os limites já foram ultrapassados e o encontro definitivo não vai ocorrer. Embora não seja o motivo central do filme, é uma das mais belas histórias de amor que vi no cinema nos últimos tempos.
Mas o filme é mesmo de Rourke. Há um certo momento, no último encontro com a filha em que seu olhar expressa a percepção de que não tem mais retorno, resta seguir em frente até o último round. É de arrepiar. O final é maravilhoso. Filmaço.
O “Rio Congelado” é mais duro, mais foda e igualmente imperdível. É basicamente uma história sobre maternidade e a força das mulheres. A personagem de Melissa Leo, abandonada pelo marido viciado em jogos de azar, lutando para criar seus filhos de 5 e 15 anos é fascinante. Tira forças não se sabe de onde para conseguir trazer um pouco de conforto aos garotos, mesmo sacrificando seus valores e sua liberdade.

Sua parceira nos caminhos tortos é uma índia, também uma mãe que sonha em ter seu filho de volta. No fim da tensa jornada das duas, Melissa Leo será também a mãe da índia. Um filme que só poderia ser dirigido por uma mulher. O surpreendente é que essa mulher, Courtney Hunt, é uma estreante. Promissora. Fez um filme fudido, imperdível e humano demais.
Mais que perfeitos antídotos contra samba ruim, axé music e celebridades são filmes que vão ficar.
Aí vão fotinhos do Rourke voando nos ringues e de Melissa Leo.
Em vez disso, o Carnaval foi aproveitado com dois filmaços: “O Lutador”, de Darren Aronofsky, com o Mickey Rourke e a Marisa Tomei e “Rio Congelado”, de Courtney Hunt, com Melissa Leo.
“O Lutador” foi especial por vários motivos. O mais óbvio é a presença de Mickey Rourke, o cara que fez “Rumble Fish” e “Coração Satânico” e foi aos infernos, assim como seu personagem no filme de Alan Parker. Ele está estupendo no papel de Randy, “the ram”, um decadente lutador de tele catch que briga contra o tempo, a solidão e a falta de grana. Com pouco tempo de projeção percebemos que Randy é um cara legal e que sua batalha está perdida. Talvez daí a beleza triste e digna de sua luta.

Algumas cenas são antológicas, como sua caminhada pelos fundos do supermercado em que faz bicos e sua entrada na área de frios, como se fosse o trajeto dos camarins até o ringue, onde o público o espera delirante e reverente e não como a realidade mostra, impaciente pedindo a maionese. A cena em que Rourke e Marisa Tomei relembram o apogeu do metal farofa nos anos 80 e detonam Kurt Cobain também é ótima.
Marisa Tomei, mais bonita do que nunca, aos 44 anos, faz a stripper em fim de carreira por quem Ryan se apaixona. Quando os dois estão juntos em cena há uma beleza e um desconforto de saber que as duas almas enjeitadas poderiam se ajudar, mas os limites já foram ultrapassados e o encontro definitivo não vai ocorrer. Embora não seja o motivo central do filme, é uma das mais belas histórias de amor que vi no cinema nos últimos tempos.
Mas o filme é mesmo de Rourke. Há um certo momento, no último encontro com a filha em que seu olhar expressa a percepção de que não tem mais retorno, resta seguir em frente até o último round. É de arrepiar. O final é maravilhoso. Filmaço.
O “Rio Congelado” é mais duro, mais foda e igualmente imperdível. É basicamente uma história sobre maternidade e a força das mulheres. A personagem de Melissa Leo, abandonada pelo marido viciado em jogos de azar, lutando para criar seus filhos de 5 e 15 anos é fascinante. Tira forças não se sabe de onde para conseguir trazer um pouco de conforto aos garotos, mesmo sacrificando seus valores e sua liberdade.

Sua parceira nos caminhos tortos é uma índia, também uma mãe que sonha em ter seu filho de volta. No fim da tensa jornada das duas, Melissa Leo será também a mãe da índia. Um filme que só poderia ser dirigido por uma mulher. O surpreendente é que essa mulher, Courtney Hunt, é uma estreante. Promissora. Fez um filme fudido, imperdível e humano demais.
Mais que perfeitos antídotos contra samba ruim, axé music e celebridades são filmes que vão ficar.
Aí vão fotinhos do Rourke voando nos ringues e de Melissa Leo.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Trechos de Borges – dos contos de “O Aleph”
“... a lua tinha a mesma cor da areia infinita”.
“No sétimo século de Hégira, no arrabalde de Bulaq, transcrevi com pausada caligrafia, num idioma que esqueci, num alfabeto que ignoro, as sete viagens de Simbad e a história da Cidade de Bronze.”
“O sol da manhã rebrilhou na espada de bronze. Já não restava qualquer vestígio de sangue”.
“Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. Minha carne pode ter medo; eu não tenho!”
“Não há homem que não aspire à plenitude, quer dizer, à soma de experiências de que um homem é capaz; não há homem que não tema ser lesado em alguma parte deste patrimônio infinito”.
“O importante é que reine a violência. Não a servil timidez cristã.”
“O medo do grosseiramente infinito, do mero espaço, da mera matéria tocou Averróis por um instante. Olhou o simétrico jardim; sentiu-se envelhecido, inútil, irreal”.
“Nos velórios, o progresso da decomposição faz com que o morto recupere suas faces anteriores. Em algum momento da confusa noite do dia seis, Teodelina Villar foi magicamente a que fora há vinte anos; seus traços recobraram a autoridade imposta pelo orgulho, pelo dinheiro, pela juventude, pela consciência de coroar uma hierarquia, pela falta de imaginação, pelas limitações, pela estupidez. Pensei mais ou menos assim: nenhuma versão dessa face que tanto me inquietou será tão memorável como esta; convém que seja a última, já que pode ser a primeira. Deixei-a rígida entre as flores, seu desdém aperfeiçoado pela morte. Seriam duas da manhã quando saí. Fora, as previstas fileiras de casas baixas e de casas de um pavimento tomaram o ar abstrato que costumam tomar à noite, quando a sombra e o silêncio as simplificam. Ébrio de uma piedade quase impessoal, caminhei pelas ruas”.
“Não se pode contar como era essa casa, que mais parecia um só quarto, com filas de armários ou balcões, uns sobre os outros. Nessas cavidades havia gente comendo e bebendo, e também no chão, e também num terraço. As pessoas desse terraço tocavam tambor e alaúde, menos umas quinze ou vinte (com máscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ninguém via o cárcere; cavalgavam, mas não se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam e logo estavam de pé”.
“Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias.”
“A confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens”.
“Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável”.
“No sétimo século de Hégira, no arrabalde de Bulaq, transcrevi com pausada caligrafia, num idioma que esqueci, num alfabeto que ignoro, as sete viagens de Simbad e a história da Cidade de Bronze.”
“O sol da manhã rebrilhou na espada de bronze. Já não restava qualquer vestígio de sangue”.
“Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. Minha carne pode ter medo; eu não tenho!”
“Não há homem que não aspire à plenitude, quer dizer, à soma de experiências de que um homem é capaz; não há homem que não tema ser lesado em alguma parte deste patrimônio infinito”.
“O importante é que reine a violência. Não a servil timidez cristã.”
“O medo do grosseiramente infinito, do mero espaço, da mera matéria tocou Averróis por um instante. Olhou o simétrico jardim; sentiu-se envelhecido, inútil, irreal”.
“Nos velórios, o progresso da decomposição faz com que o morto recupere suas faces anteriores. Em algum momento da confusa noite do dia seis, Teodelina Villar foi magicamente a que fora há vinte anos; seus traços recobraram a autoridade imposta pelo orgulho, pelo dinheiro, pela juventude, pela consciência de coroar uma hierarquia, pela falta de imaginação, pelas limitações, pela estupidez. Pensei mais ou menos assim: nenhuma versão dessa face que tanto me inquietou será tão memorável como esta; convém que seja a última, já que pode ser a primeira. Deixei-a rígida entre as flores, seu desdém aperfeiçoado pela morte. Seriam duas da manhã quando saí. Fora, as previstas fileiras de casas baixas e de casas de um pavimento tomaram o ar abstrato que costumam tomar à noite, quando a sombra e o silêncio as simplificam. Ébrio de uma piedade quase impessoal, caminhei pelas ruas”.
“Não se pode contar como era essa casa, que mais parecia um só quarto, com filas de armários ou balcões, uns sobre os outros. Nessas cavidades havia gente comendo e bebendo, e também no chão, e também num terraço. As pessoas desse terraço tocavam tambor e alaúde, menos umas quinze ou vinte (com máscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ninguém via o cárcere; cavalgavam, mas não se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam e logo estavam de pé”.
“Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias.”
“A confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens”.
“Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável”.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Vi o Ensaio

Finalmente assisti o “Ensaio sobre a Cegueira” do Fernando Meirelles. Gostei muito do filme. Não li o livro do Saramago, mas imagino que a pedrada que é o filme seja fiel às intenções do texto do mestre português. Nada de comparar o filme ao livro, cinema é uma linguagem, literatura é outra. O importante é que o filme é bom.
O elenco é ótimo e Julianne Moore, sempre citada como uma das grandes atrizes norte-americanas da atualidade, tem uma atuação maiúscula. Os coadjuvantes, como Danny Glover, Alice Braga, Gael Garcia Bernal também mandam muito bem. Até o xaropinho indie Mark Rufallo está suportável.
Mas, apesar do talento do elenco, o filme é do diretor. Tenso, denso, com uma fotografia sofisticada e inusitada para os padrões hollywoodianos, o filme provoca um incômodo e uma angústia, estranhos ao gosto do público médio. A sequência do estupro coletivo é particularmente aflitiva.
Meirelles também usa a trilha sonora, composta pelo grupo Uakti, de uma maneira inteligente, sem recorrer a soluções fáceis para criar climas.
Sem falar no inusitado de ver a cidade de São Paulo abandonada em estado de caos total, bem... pelo menos um caos diferente (e muito mais intenso) do que estamos acostumados.
Apesar de Fernando Meirelles e da ação se passar em São Paulo não dá pra dizer que é um filme brasileiro. Da mesma forma, “Ensaio...” não pode ser classificado como um drama hollywoodiano comum. Talvez por isso tenha tido uma trajetória de estranho no ninho dividindo crítica e público. O filme ficou de fora das principais premiações do cinema internacional, mas recebeu as lágrimas e os elogios de José Saramago, o que para o diretor deve ter valido uma caralhada de oscars, palmas, leões e outros bichos...
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Borges novamente pela primeira vez

Acabei de ler “O Aleph” de Jorge Luis Borges. A única coisa que tinha lido dele é “A História Universal da Infâmia”, quando eu tinha uns 14 ou 15 anos de idade. Lembro que gostei, achei delirante e tal. Mas reler Borges agora foi como encontrar o autor pela primeira vez.
Dá pra perceber que há todo um universo por trás de sua literatura, composto por um conhecimento histórico e uma cultura geral quase absurdas (sei que Borges era leitor de enciclopédias, estudioso de etimologia e dizia que imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca) e uma capacidade de adaptar personagens de tempos e lugares distantes às mais diversas situações fantásticas. Vários dos contos do Aleph começam definindo a época e o lugar onde a ação inicia, o que causa uma sensação de “era uma vez”, remetendo a histórias contadas pelos mais velhos numa noite de conversa.
Além dos temas fantásticos, Borges gosta de tratar do universo dos pampas, como uma verdadeira mitologia gaúcha, tema que me agrada particularmente. Nesse sentido, o conto “O Morto” me impressionou bastante.
O livro todo é muito interessante. Apesar de ler uma tradução, a abordagem inusitada dos temas e a delicadeza de ourives no trato com as palavras me impressionaram bastante. A cada parágrafo, o autor encontra soluções poéticas de beleza simples, que tornam suas descrições (os textos são sempre bastante descritivos) impressionantes e fazem querer reler parágrafos a todo momento.
Acho que o conto que mais me impressionou foi “A Casa de Asterion”, a sina da besta feroz e inocente contada de uma maneira totalmente inusitada. Parece um poema em prosa. É duro e é fascinante como são as sinas. Confesso que me emocionei lendo, de um modo que há tempos não acontecia. Talvez desde que o meu irmãozinho Pedro me emprestou o “Lavoura Arcaica” do Raduan Nassar. Uma pena o Pedro não estar por perto. Valia a pena uma leitura conjunta de “A Casa de Asterion” e de vários outros contos de “O Aleph”.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Sobre domingos e catecismos
Hoje, eu estava sozinho num café, uma menina passou e não me olhou. Imediatamente passei a questionar as virtudes que os cristãos dizem estar ligadas à pobreza. É claro que se eu fosse rico ela me olharia. Mas como ela saberia da minha riqueza apenas me olhando largado numa mesa do café? Não tenho a menor idéia, mas ela saberia. Eu sempre sei que alguém tem grana. Pelas roupas, pelos gestos, o queixo alto. E, lógico, se eu fosse rico não estaria num café tão furreba.
Amanhã é segunda e a merda continua. Parece que meu sono nunca é suficiente e acordo sempre praguejando. Saio pra trabalhar e o frio das manhãs quase melhora meu humor.
Meia hora de ônibus e estou no escritório onde a merda continua. Penso em largar tudo e ser faquir na Praça da Sé, como num filme do Zé do Caixão que vi dia desses. Já até imaginei alguns números originais, afinal, cama de pregos já não impressiona ninguém. Pensei em arrancar meus dentes sem anestesia. Depois de estar totalmente banguela eu morderia uma gilete. As lâminas penetrando nas gengivas vazias de dentes. Um sucesso absoluto.
O pior desses dias é não ter a quem procurar. Estou vulnerável. Chego a ter dó da próxima mulher que me der bola, se houver alguma. Eu me agarrarei a suas pernas e não a deixarei andar sem mim. Me apaixonarei e serei o cara mais pegajoso da face da terra.
Provavelmente eu a seqüestre e leve para uma cabana em um lugar ermo. E ficaremos trepando no tapete da sala de manhã até a noite. E só comeremos chicletes e só beberemos nosso suor e só ouviremos os malditos pássaros e nossos gemidos. Não falaremos.
Isso é o que eu fico imaginando e me tira o sono. Na verdade, falta grana, falta saco, televisão me aborrece e enjoei dos meus discos. Não leio mais jornal, mas também não consigo ficar totalmente indiferente. Tento me convencer de que tudo é normal hoje em dia. As chacinas, as cagadas da polícia, as guerras, os políticos e as celebridades. Nem sempre funciona. Um restinho de raiva insiste em deixar um amargor na boca. E, para piorar, a garota gordinha do prédio da frente não trepa nem se troca mais de janela aberta desde que o outono chegou.
O pior é o que chamo de efeito montanha-russa. As oscilações. Ou seja, os dias em que alguma coisa em mim resolve soterrar esse tédio. Aí sinto desejos incontroláveis de mudar. Ser demoníaco, sensual, preguiçoso, arrogante, irônico e exibicionista. Uma vontade de ser expulso do Jardim do Éden ou de, pelo menos, dar um peido barulhento em frente da minha chefe chique com seus lenços coloridos no pescoço.
É tipo uma vontade de ser jovem e inconsequente para sempre. Um James Dean capaz de dirigir melhor. Afinal, não quero morrer cedo. Prefiro ficar num pedestal, adorado em vida com meus cabelos dourados, olhos azuis, pele clara, boca vermelha. Uma espécie de Helmut Berger fazendo papel de amante da condessa louca e sanguinária de cabelos verdes e corpo perfeito.
Queria andar na chuva, matar dragões de neon e comer com os pés em cima da mesa. Tudo para horrorizar os homens de virtude, as mulheres de berço e as meninas de família. Queria acumular segredos inconfessáveis, daqueles capazes de terminar amizades. Fazer e falar coisas absurdas. Ser poeta sem precisar das palavras. Ser Alexandre o grande. Ser um faraó. Temido, mítico, aclamado. Queria ser o Lou Reed. Um fauno.
Mas a vida é estranha, os muros são altos e eu viajo demais. Daí esse sufoco passa e não faço porra nenhuma. A montanha russa volta para o trecho mais seguro e eu para meu estado normal de inanição. Não sorrio, não agradeço, quero que se fodam.
As manhãs de domingo são mais interessantes. Durmo um pouco mais. O barulho do trânsito é menor. Acordo e vou comer pastel na feira, onde a garotinha japonesa sorri quando eu peço a pimenta. Talvez ela ria da minha cara de sono. Talvez ela ria pra todo mundo.
Quando vou à feira passo em frente à igreja do bairro e tem sempre muita gente saindo da missa. Muitas ovelhinhas agradecendo a Deus ou pedindo coisas. Deve ser enfadonho para Deus, enquanto coça seu saco celeste, ficar ouvindo as ladainhas e os hinos dos carolas “anunciando o amor que vem do céu e na terra se faz alma e cor”. Havia um hino assim quando eu era criança e fiz catecismo.
Depois aprendi um sentido mais interessante que os moleques davam à palavra catecismo. Era como a molecada da rua chamava as revistinhas de sacanagem. Aquelas pequenininhas, tipo fotonovelas. “Agora, Elvira... goza junto comigo”. Lembro de uma dessas em que a mulher se chamava Elvira. Juro por Deus e por todos os catecismos. Era uma loira americana, dessas que os carolas insultariam e apedrejariam. Porra... e chamada Elvira!
Também sempre compro laranjas na feira e mais algumas frutas. Já as tardes de domingo são horríveis. Ouvindo futebol no rádio, assistindo algum filme alugado e chupando laranjas. A sensação de tempo perdido é indescritível e insuportável.
E sigo vegetando até a madrugada. Até a hora dos filmes ruins e dos programas que ninguém vê. De vez em quando, para pegar no sono, fico lendo um velho dicionário de bolso que era da minha mãe. Às vezes até me divirto assim.
Aprendo palavras inúteis como “arconte”, o magistrado na Grécia antiga. Descubro que “beiju” é um bolinho de mandioca; que “mangabeira” é uma árvore frutífera. Também li que “sicário” é um assassino assalariado. Taí um emprego tão bom quanto o de faquir na Praça da Sé.
Agora abro outra página do dicionário e leio os significados da palavra “negror”. Esta lá: 1. negrume; 2. escuridão, negrura, negridão; 3. nevoeiro espesso; 4. tristeza, melancolia.
Apago a luz e, mais uma vez, não durmo com os anjos.
Amanhã é segunda e a merda continua. Parece que meu sono nunca é suficiente e acordo sempre praguejando. Saio pra trabalhar e o frio das manhãs quase melhora meu humor.
Meia hora de ônibus e estou no escritório onde a merda continua. Penso em largar tudo e ser faquir na Praça da Sé, como num filme do Zé do Caixão que vi dia desses. Já até imaginei alguns números originais, afinal, cama de pregos já não impressiona ninguém. Pensei em arrancar meus dentes sem anestesia. Depois de estar totalmente banguela eu morderia uma gilete. As lâminas penetrando nas gengivas vazias de dentes. Um sucesso absoluto.
O pior desses dias é não ter a quem procurar. Estou vulnerável. Chego a ter dó da próxima mulher que me der bola, se houver alguma. Eu me agarrarei a suas pernas e não a deixarei andar sem mim. Me apaixonarei e serei o cara mais pegajoso da face da terra.
Provavelmente eu a seqüestre e leve para uma cabana em um lugar ermo. E ficaremos trepando no tapete da sala de manhã até a noite. E só comeremos chicletes e só beberemos nosso suor e só ouviremos os malditos pássaros e nossos gemidos. Não falaremos.
Isso é o que eu fico imaginando e me tira o sono. Na verdade, falta grana, falta saco, televisão me aborrece e enjoei dos meus discos. Não leio mais jornal, mas também não consigo ficar totalmente indiferente. Tento me convencer de que tudo é normal hoje em dia. As chacinas, as cagadas da polícia, as guerras, os políticos e as celebridades. Nem sempre funciona. Um restinho de raiva insiste em deixar um amargor na boca. E, para piorar, a garota gordinha do prédio da frente não trepa nem se troca mais de janela aberta desde que o outono chegou.
O pior é o que chamo de efeito montanha-russa. As oscilações. Ou seja, os dias em que alguma coisa em mim resolve soterrar esse tédio. Aí sinto desejos incontroláveis de mudar. Ser demoníaco, sensual, preguiçoso, arrogante, irônico e exibicionista. Uma vontade de ser expulso do Jardim do Éden ou de, pelo menos, dar um peido barulhento em frente da minha chefe chique com seus lenços coloridos no pescoço.
É tipo uma vontade de ser jovem e inconsequente para sempre. Um James Dean capaz de dirigir melhor. Afinal, não quero morrer cedo. Prefiro ficar num pedestal, adorado em vida com meus cabelos dourados, olhos azuis, pele clara, boca vermelha. Uma espécie de Helmut Berger fazendo papel de amante da condessa louca e sanguinária de cabelos verdes e corpo perfeito.
Queria andar na chuva, matar dragões de neon e comer com os pés em cima da mesa. Tudo para horrorizar os homens de virtude, as mulheres de berço e as meninas de família. Queria acumular segredos inconfessáveis, daqueles capazes de terminar amizades. Fazer e falar coisas absurdas. Ser poeta sem precisar das palavras. Ser Alexandre o grande. Ser um faraó. Temido, mítico, aclamado. Queria ser o Lou Reed. Um fauno.
Mas a vida é estranha, os muros são altos e eu viajo demais. Daí esse sufoco passa e não faço porra nenhuma. A montanha russa volta para o trecho mais seguro e eu para meu estado normal de inanição. Não sorrio, não agradeço, quero que se fodam.
As manhãs de domingo são mais interessantes. Durmo um pouco mais. O barulho do trânsito é menor. Acordo e vou comer pastel na feira, onde a garotinha japonesa sorri quando eu peço a pimenta. Talvez ela ria da minha cara de sono. Talvez ela ria pra todo mundo.
Quando vou à feira passo em frente à igreja do bairro e tem sempre muita gente saindo da missa. Muitas ovelhinhas agradecendo a Deus ou pedindo coisas. Deve ser enfadonho para Deus, enquanto coça seu saco celeste, ficar ouvindo as ladainhas e os hinos dos carolas “anunciando o amor que vem do céu e na terra se faz alma e cor”. Havia um hino assim quando eu era criança e fiz catecismo.
Depois aprendi um sentido mais interessante que os moleques davam à palavra catecismo. Era como a molecada da rua chamava as revistinhas de sacanagem. Aquelas pequenininhas, tipo fotonovelas. “Agora, Elvira... goza junto comigo”. Lembro de uma dessas em que a mulher se chamava Elvira. Juro por Deus e por todos os catecismos. Era uma loira americana, dessas que os carolas insultariam e apedrejariam. Porra... e chamada Elvira!
Também sempre compro laranjas na feira e mais algumas frutas. Já as tardes de domingo são horríveis. Ouvindo futebol no rádio, assistindo algum filme alugado e chupando laranjas. A sensação de tempo perdido é indescritível e insuportável.
E sigo vegetando até a madrugada. Até a hora dos filmes ruins e dos programas que ninguém vê. De vez em quando, para pegar no sono, fico lendo um velho dicionário de bolso que era da minha mãe. Às vezes até me divirto assim.
Aprendo palavras inúteis como “arconte”, o magistrado na Grécia antiga. Descubro que “beiju” é um bolinho de mandioca; que “mangabeira” é uma árvore frutífera. Também li que “sicário” é um assassino assalariado. Taí um emprego tão bom quanto o de faquir na Praça da Sé.
Agora abro outra página do dicionário e leio os significados da palavra “negror”. Esta lá: 1. negrume; 2. escuridão, negrura, negridão; 3. nevoeiro espesso; 4. tristeza, melancolia.
Apago a luz e, mais uma vez, não durmo com os anjos.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Arqueologia
In the heart of the saturday night (ouvindo Tom Waits) – outubro de 1996
No coração das noites de sábado
As meninas dançam,
O fogo queima nas bocas,
E o tempo voa para os corpos.
Há sempre a urgência
Do órgão pulsante
Pelo próximo toque.
Quem sabe a redenção na próxima esquina,
No próximo bar.
Leves, os ombros nus e a noite imensa
Esmagam meu coração.
No coração das noites de sábado
As meninas dançam,
O fogo queima nas bocas,
E o tempo voa para os corpos.
Há sempre a urgência
Do órgão pulsante
Pelo próximo toque.
Quem sabe a redenção na próxima esquina,
No próximo bar.
Leves, os ombros nus e a noite imensa
Esmagam meu coração.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Aventuras radiofônicas
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Posso?
Não me interessa apenas escrever poesia.
Quero é me colocar em estado de poesia.
Ser uma antena, hipersensível.
Feroz, como uma pantera.
Sutil, como um vagalume.
Intenso, como um vendaval.
(Ademir Assunção)
Quero é me colocar em estado de poesia.
Ser uma antena, hipersensível.
Feroz, como uma pantera.
Sutil, como um vagalume.
Intenso, como um vendaval.
(Ademir Assunção)
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Só li trechos de coisas do Mario Prata e nunca achei simples.
Só li trechos de coisas do Bortolotto e nunca achei fácil.
Li bastante Bukowski. Mas nunca disse “assim até eu”.
Nunca achei que ser hermético bastasse para escrever como Clarice.
Rubem Fonseca é apenas um crime e um culpado? Nunca achei que fosse.
Também nunca achei que Nelson Rodrigues fosse apenas um punhado de invenções doentias.
Nunca achei que Kerouac fosse mera datilografia.
Não li Fante. Mas pretendo.
Não li Mirisola. E não pretendo.
Não sou da turminha.
Você é profissional disso. É bom nisso.
Eu sou um amador e estou na minha.
Ouso escrever, ainda que mal.
Porque quero.
Porque preciso.
Porque é assim que eu sei.
Também acho que tem que ter culhão.
Mas acho triste agressividade mal direcionada.
E acho que nós temos nos mandando à merda em demasia nesses tempos.
Tem gente por aí merecendo muito mais.
Por fim, acho o “diga-me com quem andas...” em sua variação “diga-me o que você lê..” com o mesmo saborzinho do “sabe com quem está falando...”. Autoritário e besta.
Ah... li Maiakówski. Mas, sinceramente, não te interessa.
Só li trechos de coisas do Bortolotto e nunca achei fácil.
Li bastante Bukowski. Mas nunca disse “assim até eu”.
Nunca achei que ser hermético bastasse para escrever como Clarice.
Rubem Fonseca é apenas um crime e um culpado? Nunca achei que fosse.
Também nunca achei que Nelson Rodrigues fosse apenas um punhado de invenções doentias.
Nunca achei que Kerouac fosse mera datilografia.
Não li Fante. Mas pretendo.
Não li Mirisola. E não pretendo.
Não sou da turminha.
Você é profissional disso. É bom nisso.
Eu sou um amador e estou na minha.
Ouso escrever, ainda que mal.
Porque quero.
Porque preciso.
Porque é assim que eu sei.
Também acho que tem que ter culhão.
Mas acho triste agressividade mal direcionada.
E acho que nós temos nos mandando à merda em demasia nesses tempos.
Tem gente por aí merecendo muito mais.
Por fim, acho o “diga-me com quem andas...” em sua variação “diga-me o que você lê..” com o mesmo saborzinho do “sabe com quem está falando...”. Autoritário e besta.
Ah... li Maiakówski. Mas, sinceramente, não te interessa.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Homenagens - postando novamente
A Roberto Piva
Nas asas da América Latina
Onde o sangue invade o mel
O óleo diesel vaza da pia batismal
Sem sentido,
No ventre de uma igreja viva
Que arfa e mostra os dentes
Eu vi a cobra coral devorar o natimorto
Ouvi os sons de escapamentos
E o trole da modernidade rasgando as estradas de leite contaminado
Respirei o pó branco da invenção e da leveza
O gineceu invadido, o coma de minhas artérias
E assim deixei o dia chegar frio e abri as janelas sobre o mar escuro
A Torquato Neto
Aqui em Paupéria
É mais fácil ser torto que ser anjo
Abrir o gás dessa miséria
Apagar
Estreitar a relação entra a febre e o violão
Um beijo moreno-exagerado no escuro
Nas asas da América Latina
Onde o sangue invade o mel
O óleo diesel vaza da pia batismal
Sem sentido,
No ventre de uma igreja viva
Que arfa e mostra os dentes
Eu vi a cobra coral devorar o natimorto
Ouvi os sons de escapamentos
E o trole da modernidade rasgando as estradas de leite contaminado
Respirei o pó branco da invenção e da leveza
O gineceu invadido, o coma de minhas artérias
E assim deixei o dia chegar frio e abri as janelas sobre o mar escuro
A Torquato Neto
Aqui em Paupéria
É mais fácil ser torto que ser anjo
Abrir o gás dessa miséria
Apagar
Estreitar a relação entra a febre e o violão
Um beijo moreno-exagerado no escuro
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
O som da tatuagem
O som da minha tatuagem é Jane´s Addiction. Mais especificamente “Jane Says”, “Slow Diver” e, principalmente, “Ocean Size”. Acho que naquele momento eu estava mesmo me sentindo do tamanho do oceano. Minha tatuagem é uma tribal sem um significado maior que o fato de marcar um momento bom depois de uma deprê longa e fodona. Raspei a cabeça, fiz a tatuagem e fui pra Ilha Grande acampar. Não necessariamente nessa ordem. A fumaça não me deixa enxergar com clareza a ordem dos fatos.
Tem vários sons que marcam períodos da vida. Acho que com todo mundo é assim. Pelo menos com quem gosta de música. Na época da minha primeira faculdade de jornalismo ouvia direto o “Caution Horses” dos Cowboy Junkies e a parte acústica do “Before the Flood” do Dylan. Adorava curtir uma dor de cotovelo ouvindo a versão de “Just Like a Woman” daquele disco. Decorei a letra e até o solo de gaita. Era apaixonado por uma menininha linda e bobinha que acho que até hoje não sabe quem é o Bob Dylan. Depois fazia minha sessão de “air acoustic guitar” com “It´s Alright Ma” pra exorcizar o bode. Moí a fitinha do “Before...” e só dia desses, já em 2009, baixei o som da internet. Ainda é bom demais.
Teve a fase Sérgio Sampaio, honorável padrinho deste blog. É... não tinha idéia melhor pra batizar o brinquedo e aí veio a canção “Pobre Meu Pai” na cabeça. A fase Sérgio Sampaio também foi meio na época do início da faculdade. Nós, os pequenos e bobinhos aprendizes de malucos gastamos nossas fitinhas com o “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. O vinil que paria as fitinhas era das turcas Samira e Sumaia. Músicas lindas como “Dona Maria de Lourdes”, “Eu Sou Aquele que Disse”... ah...todas são do caralho até hoje. Sampaio é foda.
Lembro que uma vez apareceu lá em casa um colega de faculdade chamado Nélio que era bem mais velho, ator de teatro, malucão. Ele tinha morado no Espírito Santo e conhecia até o irmão do Sampaio. Na época, eu tinha 18 anos e o cara 35, minha idade hoje. Botei a fitinha pra rolar e o cara pediu pra ouvir “Viajei de Trem” em silêncio, de olhos fechados e ficou lá meio chorando e tal. Fazia anos que ele não ouvia aquilo, o disco estava fora de catálogo há muito tempo. Ele deve ter me contado sua história com a canção, mas eu não me lembro mais.
Pô... sem entrar em detalhes...teve muita coisa que marcou. E o pior é que ando com vontade de fazer outra tatuagem. Falta escolher o desenho. E o som, é claro.
Escrito ao som de “Não Adianta Nada”, do Rei Roberto Carlos – safra 1973
Tem vários sons que marcam períodos da vida. Acho que com todo mundo é assim. Pelo menos com quem gosta de música. Na época da minha primeira faculdade de jornalismo ouvia direto o “Caution Horses” dos Cowboy Junkies e a parte acústica do “Before the Flood” do Dylan. Adorava curtir uma dor de cotovelo ouvindo a versão de “Just Like a Woman” daquele disco. Decorei a letra e até o solo de gaita. Era apaixonado por uma menininha linda e bobinha que acho que até hoje não sabe quem é o Bob Dylan. Depois fazia minha sessão de “air acoustic guitar” com “It´s Alright Ma” pra exorcizar o bode. Moí a fitinha do “Before...” e só dia desses, já em 2009, baixei o som da internet. Ainda é bom demais.
Teve a fase Sérgio Sampaio, honorável padrinho deste blog. É... não tinha idéia melhor pra batizar o brinquedo e aí veio a canção “Pobre Meu Pai” na cabeça. A fase Sérgio Sampaio também foi meio na época do início da faculdade. Nós, os pequenos e bobinhos aprendizes de malucos gastamos nossas fitinhas com o “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. O vinil que paria as fitinhas era das turcas Samira e Sumaia. Músicas lindas como “Dona Maria de Lourdes”, “Eu Sou Aquele que Disse”... ah...todas são do caralho até hoje. Sampaio é foda.
Lembro que uma vez apareceu lá em casa um colega de faculdade chamado Nélio que era bem mais velho, ator de teatro, malucão. Ele tinha morado no Espírito Santo e conhecia até o irmão do Sampaio. Na época, eu tinha 18 anos e o cara 35, minha idade hoje. Botei a fitinha pra rolar e o cara pediu pra ouvir “Viajei de Trem” em silêncio, de olhos fechados e ficou lá meio chorando e tal. Fazia anos que ele não ouvia aquilo, o disco estava fora de catálogo há muito tempo. Ele deve ter me contado sua história com a canção, mas eu não me lembro mais.
Pô... sem entrar em detalhes...teve muita coisa que marcou. E o pior é que ando com vontade de fazer outra tatuagem. Falta escolher o desenho. E o som, é claro.
Escrito ao som de “Não Adianta Nada”, do Rei Roberto Carlos – safra 1973
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
A bela e a fera

Como escrevi aqui, num “mea culpa” alguns textos atrás, ouvi pouco rock em 2008. Ou melhor, ouvi pouco rock novo no ano que passou. Nos últimos dias tenho tentado tirar o atraso garimpando na internet alguns dos discos citados nas famosas listas de melhores do ano. E achei um trabalho brilhante como não ouvia há tempos.
Trata-se de “Sunday at Devil Dirt”, segunda colaboração entre Isobel Campbell, ex-integrante do grupo escocês Belle & Sebastian, e Mark Lanegan, ex-Screaming Trees e Queens Of The Stone Age.
A parceria da bela Isobel com o esquisitão Lanegan começou em 2006 com o álbum "Ballad of the Broken Seas". O disco ganhou até prêmios, mas acabou dividindo a crítica. O destaque foi uma versão de "Ramblin' Man", velho sucesso do mito country Hank Willians.
Confesso que não ouvi “Ballad of the Broken Seas”, mas a crítica especializada tem dito que o novo CD é mais sofisticado, melhor arranjado e com uma atmosfera mais folk. O que eu sei é que “Sunday at Devil Dirt” é um trabalho cheio de climas entre o sombrio e o delicado que surgem do encontro de duas figuras com trajetórias musicais tão díspares.
As canções são, antes de mais nada, simples. Os arranjos valorizam as belas melodias e o contraste entre a voz delicada de Isobel e o tom gravíssimo de Lanegan que, aliás, é predominante. Os vocais etéreos de Isobel, como que enfeitam as canções, ficando num elegante segundo plano.
Talvez o disco tenha me chamado tanta a atenção pela sequência de faixas matadora que abre o disco. “Seafaring Song” é uma canção que celebra a volta aos braços da pessoa amada com ecos de Leonard Cohen e Tom Waits. “The Raven”, também tem o mesmo clima, mas com o tom soturno elevado ao cubo, por cortesia dos vocais de Lanegan.
A terceira, com acentos de blues rural é “Salvation”, talvez o melhor refrão do CD. O primeiro dueto vocal pra valer está em “Who Built the Road”, com arranjos de cordas e um sino que constroem a atmosfera agridoce com direito até a um “la-la-la” no refrão.
Outro momento especial do disco é “Trouble”, conduzida por violões folk, a canção é provavelmente a melhor síntese para “Sunday at Devil Dirt”. Lanegan suaviza sua voz cavernosa para duetar com Isobel numa canção de amor direta e singela.
O CD termina com o cinismo de “Sally Don´t You Cry”, com sua letra que convida a personagem a se conformar com os problemas causados pelo parceiro. “Oh Sally don't you cry/ A man's a man/ Does the best he can/ I see you are mad/ But he's the best you've had/ Sally it ain't so bad”.
Este CD não está nas listas de melhores discos de rock de 2008 à toa. Talvez não seja a oitava maravilha da música pop, mas há beleza, inteligência, delicadeza e uma coesão nas composições e nos arranjos que dá força ao trabalho. Não se parece em nada com Belle & Sebastian, nem tampouco com Primal Scream e Queens of the Stone Age. São apenas canções melancólicas e despojadas, feitas com grande cuidado. Vale ouvir.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O Sentido da Vida – por Lemmy Kilmister

Lemmy Kilmister do Motorhead é uma figuraça. Além de comandar com seu baixo atômico uma das bandas mais fudidas de todos os tempos, ele foi eleito pela edição de junho de 2006 da revista feminina Maxim uma das "10 Lendas Vivas do Sexo". Mesmo com a aquela cara de cão sarnento. Tirei do blog “Black Sabbado” uma entrevista com a fera, onde ele trata de assuntos edificantes, nesse momento de crise mundial. Senhoras e senhores, aproveitem das elocubrações existenciais desse espírito esclarecido e iluminado.
Pergunta: Tem hobbies?
Lemmy: "Pegar mulheres, suponho. Na verdade, não, isso é uma carreira. A música é o hobby".
Pergunta: Lemmy, se você tivesse de parar de trepar ou fazer música, o que escolheria?
Lemmy: "Bem, a primeira atividade é razão pela qual eu entrei na segunda! Então eu afirmo que não tenho que escolher!"
Pergunta: Você é religioso de alguma forma?
Lemmy: "Sou agnóstico, na verdade. Vou esperar e ver... e eu posso esperar.
Mas não tenho medo de morrer. Qual é o motivo para ter medo do inevitável?
Eu só espero que não seja num hospital cercado de imbecis e com tubos enfiados no nariz,sabe? Minha ética é, 'coma, beba e seja feliz, pois amanhã morreremos'.
Você pode ser o quanto cuidadoso quiser, mas você vai morrer de qualquer jeito,
então porque não se divertir?"
Pergunta: O que em sua opinião é a melhor cura para uma ressaca?
Lemmy: "'Hair of the Dog' [N.T.: Em português, 'pêlo do cachorro', uma redução da expressão “pêlo do cachorro que te mordeu", que significa beber um pouco de álcool para melhorar a ressaca]"
Pergunta: Qual a melhor mistura de bebidas que recomendaria, e qual a melhor maneira de bebê-la?
Lemmy: "Whisky Jack Daniel’s e Coca-Cola, misturados na sua boca".
Pergunta: De onde vêm os bebês?
Lemmy: "Os bebês surgem quando um homem vai ao topo de um prédio alto e pula, e uma mulher o pega antes que caia no chão. Em seus dentes".
Pergunta: Você sempre quis ser um músico? Se não, como que idade você decidiu que queria ser um músico?
Lemmy: "Eu me interessei pela arte musical pelos 13 anos – eu vi todas aquelas garotas – eu tinha um cérebro de 13 anos, agora eu tenho um cérebro de 15 anos!"
Pergunta: Sobre a descoberta dos benefícios do Viagra:
Lemmy: "Eu ainda uso de vez em quando. Se o 'Bráulio' não está apontando para a beleza então ele precisa de um empurrãozinho. Qual é o problema com isso?"
Pergunta: Sobre sua visão sobre o amor:
Lemmy: "Não dá pra alguns caras serem fiéis. Se as pessoas querem se casar e ficar na putaria, isso é desonesto. Se você vai se casar, se case e pronto. Eu nunca conheci uma garota que conseguisse me fazer parar de olhar para as outras, então não me casei".
Pergunta: Você perdeu sua virgindade aos 18 anos. Como aconteceu?
Lemmy: Na praia, na chuva. Foi horroroso e tinha areia entrando em todos os lugares. Sabe?
Pergunta: E desde então você transou com duas mil mulheres...
Lemmy: Eu nunca falei "duas mil mulheres". Eu falei que havia transado com mil. Agora devem ser já umas mil e duzentas ou algo parecido. Faz muito tempo que estou na estrada e nunca fui casado, então não tive folga.
Por fim, Lemmy e o Motorhead em ação. E ainda tem gente que acha que NX Zero é rock...
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Ouvindo a chuva
Chuva. Desde criança eu gosto de chuva. Agora, enquanto ouço a tempestade de verão lá fora, acabei me lembrando dos bolinhos de chuva que minha avó fazia. Não eram como esses bolinhos de chuva tradicionais, que são meio redondinhos e levam açúcar. Eram uns bolinhos de fubá, compridos e salgados que, ao serem fritos, ficavam crocantes por fora e com aquela massa macia na parte interna. Minha avó dizia que aprendeu os bolinhos com a mãe dela, minha bisavó portuguesa que eu não conheci. Por isso ela não sabia nem ensinar a receita. Ia fazendo as medidas ali, no olho. O resultado foi que minha mãe e minha tia não sabem fazer o bolinho. Só um primo que, assim como eu, adorava os bolinhos de fubá, aprendeu. Ele fazia os bolinhos junto com minha avó quando era criança. Provavelmente não se lembra mais da receita.
Outra coisa que minha avó fazia era uma massa de pizza esquisita e que eu achava a coisa mais saborosa do mundo. Meu pai apelidou aquilo de “pizza sem vergonha” e a família toda, até a velha, passou a chamar a tosca iguaria por esse nome. Não tenho a menor idéia do que vai na massa. Sei que não parece em nada com nenhuma outra massa de pizza que eu tenha comido, nem mesmo com massa de pão ou qualquer outro tipo de massa. Eu adorava aquilo e, quantas vezes, sem aviso prévio minha avó me ligava no final da tarde pra ir jantar na casa dela a tal pizza sem vergonha.
O recheio era o mais simples possível. Mussarela, tomate, cebola e orégano. Quando o prato era feito exclusivamente pra mim, minha avó dobrava a quantidade de cebolas. Assim como o bolinho, a receita da pizza sem vergonha não foi aprendida por ninguém.
Minha avó hoje vive da sua cadeira de rodas para a cama. Está frágil e perdeu de vez a lucidez. Sinto falta da sua alegria desbocada, de sua implicância bem humorada. Nunca mais vou provar nem o bolinho nem a tal pizza. Mas consigo lembrar dos sabores com perfeição. O bolinho de fubá e a pizza sem vergonha se foram. De certa maneira, minha avó também se foi. Ficou a chuva.
Outra coisa que minha avó fazia era uma massa de pizza esquisita e que eu achava a coisa mais saborosa do mundo. Meu pai apelidou aquilo de “pizza sem vergonha” e a família toda, até a velha, passou a chamar a tosca iguaria por esse nome. Não tenho a menor idéia do que vai na massa. Sei que não parece em nada com nenhuma outra massa de pizza que eu tenha comido, nem mesmo com massa de pão ou qualquer outro tipo de massa. Eu adorava aquilo e, quantas vezes, sem aviso prévio minha avó me ligava no final da tarde pra ir jantar na casa dela a tal pizza sem vergonha.
O recheio era o mais simples possível. Mussarela, tomate, cebola e orégano. Quando o prato era feito exclusivamente pra mim, minha avó dobrava a quantidade de cebolas. Assim como o bolinho, a receita da pizza sem vergonha não foi aprendida por ninguém.
Minha avó hoje vive da sua cadeira de rodas para a cama. Está frágil e perdeu de vez a lucidez. Sinto falta da sua alegria desbocada, de sua implicância bem humorada. Nunca mais vou provar nem o bolinho nem a tal pizza. Mas consigo lembrar dos sabores com perfeição. O bolinho de fubá e a pizza sem vergonha se foram. De certa maneira, minha avó também se foi. Ficou a chuva.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Minha primeira vez com Lou Reed

Em 1996 eu morava numa república de estudantes em São Paulo. Estava entediado, odiava, ou melhor, desprezava o que eu estava estudando, mas adorava morar em São Paulo por causa dos cinemas, teatros e shows que frequentava.
Nesse ano assisti o que costumo dizer que foi o melhor show que vi na vida. Foi a primeira vinda de Lou Reed ao Brasil na turnê do álbum “Set the Twilight Reeling” para dois shows no Palace.
Não tinha carro e não sabia nem onde era o Palace. Fui com uma amiga comprar o ingresso para a segunda noite. A primeira era uma disposição com mesas e camarotes, ou seja, custava o dobro e nem dava pra ter o prazer de pular com a galera no gargarejo. Coisa pra tiozinho.
No dia do show chovia muito. E lá fui eu para a 23 de maio tomar o ônibus que minha amiga tinha me ensinado. Todas as janelas do ônibus estavam embaçadas e era impossível enxergar o lugar onde eu deveria saltar e que eu havia decorado no dia da compra dos ingressos. Pedi para o motorista avisar quando o ponto chegasse. Deu tudo certo e em poucos minutos eu já estava na pista, em frente ao palco, com só duas pessoas na minha frente.
E foi inesquecível. Abriu com “Sweet Jane”, seguida de “Dirty Boulevard” e “Waiting for the Man”. Toda aquela crueza dos discos do Velvet e solo do Lou Reed estavam no palco. Com um som poderoso e brilhante feito de paredes de distorção. O show seguiu assim, com o repertório impecável, a platéia em delírio e a banda afiadíssima com o fantástico Fernando Saunders no baixo e Mike Rathke na guitarra. Não consigo mais me lembrar do nome do baterista. Tocaram quatro músicas do “Set the Twilight”, inclusive “Hooky Wooky”, que na época passava direto na MTV.
No bis teve “Vicious” e a maravilhosa “Satelite of Love”, cantada inteirinha pela platéia, o que, claramente pana nós ali da fila do gargarejo, surpreendeu a banda e Reed. Não deu outra. Voltaram para um segundo bis com “Rock´n Roll” e “Walk on the Wild Side”. Agradeceram e tentaram sair do palco, mas o público fez tanto barulho que Reed pediu aos músicos pra tocarem mais uma. Cheguei a ver o baterista fazendo sinal pra ele que estava cansado.
E aí veio “Pale Blue Eyes” (gravada até pela Marisa Monte) e todo mundo cantou junto de novo. O velho rock star maldito sorria, visivelmente emocionado. Pararam novamente, deixaram os instrumentos e agradeceram e... o público gritou e pulou ainda mais! Eu não acreditava. O roqueiro mais cínico e perigoso da história sorria abertamente, jogava beijinhos e trocava palavras de surpresa com os músicos.
Não teve jeito. Extenuados, tomaram seus instrumentos de novo e fizeram uma barulheira dos infernos, no melhor estilo das muralhas de microfonia do Velvet Underground. Não foi uma canção, foi um ritual, um “happening” pra lavar a alma dos fãs.
Dias depois, um amigo que não foi ao show disse que leu em algum jornal que Reed, que estava afastado do álcool e das drogas há algum tempo fez questão de tomar uma dose de uísque com os músicos da sua banda ainda no camarim para celebrar o segundo show em São Paulo, considerado especial por ele. Nunca vi nada parecido num show de música. Além das lembranças que divido com vocês, guardo o ingresso do show e a matéria do jornal do dia.
Vi Lou Reed na sua segunda vinda a São Paulo, na turnê do disco “Ecstasy”, no gigantesco Credicard Hall. Foi legal também, mas não repetiu a magia daquela noite chuvosa. O compositor de “Perfect Day” fez a noite perfeita. Rock´n roll animal, visceral e verdadeiro.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Nick Cave fez o melhor rock de 2008

Tá certo... 2008 foi talvez um dos anos em que menos ouvi rock. Colaborei na Comissão Organizadora do Festival Botucanto, passei a produzir e apresentar o Arquivo Musical Brasileiro pela Rádio Emissora de Botucatu (todas as sextas, a partir das 20h), ou seja, projetos muito ligados à música popular brasileira.
Nessa virada de ano, ao procurar as listas de melhores do ano, me dei conta de que só tinha um dos CDs que andaram frequentando a maioria das listas dos críticos de rock. Na verdade, a maioria dos discos citados é de bandas novas, pouco conhecidas e independentes. Hoje, porém, com as facilidades da internet, não dá pra usar essas coisas como desculpa. O fato é que ouvi pouco rock no ano que passou e quando ouvi procurei os clássicos: Dylan, Neil Young, alguma coisa de blues...
Não é à toa que o tal do CD que eu ouvi e que consta das coletâneas é de um veteraníssimo surgido nos porões enfumaçados dos anos 80, o grande Nick Cave. “Dig, Lazarus, Dig!” foi o melhor disco de rock que ouvi, dentre os lançados em 2008. Meu queixo ainda cai cada vez que ouço o disco, e olha que sou fã de longa data do cara. Acho sinceramente que “Dig” é um dos seus melhores, o que não é pouca coisa numa discografia sólida como a do “senhor caverna”.
O disco tem a atitude e o tom lúgubre que marcam toda a carreira de Cave, mas há uma algo mais. Sua banda, os Bad Seeds, nunca soou tão quente, tão rock´n roll. O clima pesado, a distorção e o desconforto fazem parte do DNA de Cave. Mas alguns elementos enriquecem as músicas tornando-as às vezes mais interessantes ritmicamente, como o riff e o coro da faixa-título, outras mais etéreas como a sonoridade de teclados e guitarra de “Jesus of the Moon”, que me fez lembrar coisas do “Time Out of Mind” do Dylan, aquele som de cabaré decadente à meia luz. E o que dizer do casamento estranho de percussão, teclado e guitarra em “Moonland”.
Outra das minhas preferidas é “Today´s Lessons” que às vezes parece anos 80 com seus tecladinhos cafajestes, às vezes parece moderna demais com seu ritmo contagiante. Lembrou-me alguns rocks dos Stooges e “Rock´n Roll” do Velvet Underground. Aliás, a personagem da música também é uma Jane qualquer.
“Albert Goes West” é outra com uma pegada em alta voltagem em que Cave convida “Do you wanna dance? / Do you wanna move”, mas admite que não responde por seus atos. Destaque para a percussão canalha e para os backing vocals com direito até a um “shala-la-lá” emoldurado por guitarras distorcidas. Aliás, os backings vocals bizarros são uma atração à parte do Cd. Eles aparecem novamente, brigando para não serem soterrados pela cozinha e pelas guitarras em “We Call Upon the Author”.
O CD termina com os quase oito minutos, quase suaves de “More News From Nowhere”. Mais uma crônica sobre como os seres humanos podem ser estranhos, na escola em que Cave aprendeu com Lou Reed, Leonard Cohen e outros bardos do lado amargo do rock´n roll.
Recomendo “Dig, Lazarus, Dig!” pra quem gosta de rock adulto que fala de amor, morte, drogas, sexo, beleza, tristeza e caos urbano embalado por um som que reflete o que o rock tem de melhor como agressividade, barulho, experimentação, ousadia, riffs poderosos e hipnóticos, refrões legais e nada, absolutamente nada de pretensões virtuosísticas e do bom mocismo que infecta o rock atual. Para iniciados.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Carta do Pedro – direito de resposta.
Como zoei o Pedro publicamente por ele ter perdido o show do Nick Cave, me senti na obrigação de conceder o direito de resposta a ele, também publicamente. Aí vão as razões do meu irmãozinho. Publicando o texto que o Pedro mandou por e-mail me livro de atualizar o bloguinho e ainda me sinto o mais generoso dos donos de blog. De quebra, forneço aos meus seletíssimos leitores um pouco de aventura nas Oropa.
Aí segue:
Meu caro,
O show do Nick Cave era algumas semanas depois do meu tempo por lá,
tirei a foto para você ver mesmo. Veja só, coisa boa sempre.
Quanto aos shows, é foda, agora tenho permissão de trabalho e se tudo der certo
a partir da semana que vem vejo uma vaga numa escola fundamental para filhos
de família de língua portuguesa (Portugal, os cinco africanos, Brasil e os filhos de jogadores).
O trabalho se resume a cuidar das crianças depois da aula, ajuda-las nas tarefas de alemão, português e inglês. Há projetos semelhantes para filhos de todas as línguas que você possa imaginar. Vamos ver no que dá.
Eu não estou indo muito nos shows, perdi aliás UK Subs num bar pulgueiro histórico aqui de Berlin, mas sempre há muitos por aqui, o difícil é acompanhar, prefiro nem saber na maioria das vezes.
No entanto tenho ido muito à ópera, sei que você vai chiar, mas tô pouco me fudendo. Para alguém que gosta de literatura, teatro e música é o programa perfeito, tenho visto grandes regentes, cantores e encenações. Meus netos terão que decidir do que se orgulham e do que não, em todo caso isto virá com o tempo ou nunca virá. Mas não me arrependo, cada obra vista é uma noite sem dormir, pensando naquelas tragédias, naquele som magnífico, em toda a montagem e num onte de estórias canônicas ou não que foram necessárias para que o librestita e o músico fizessem a parada. Uma grande curtição!
Estou a dois meses daquela prova escrota e de novo estou na curva final e agora é uma questão de honra e sobrevivência, os alemães são maus, podes crer.
A foto do seu filho é muito fofa, cheio dos agasalhos e com um sorriso de fera.
Eu não sei se terei netos tão cedo, de fato já fiquei para tio, não tenho mulher e muito menos filhos, embora tenha vontade de ter os dois, mas enquanto for estudante a coisa será difícil. O David não é parâmetro pra nada, terá show do Slayer e do Kreator (banda local) e o cara amarelou. Melhor assim, perder Neil Young e ir no Kreator é mais do que sacrilégio, é idiotice elevada ao vigésimo grau. O lance é que o tempo é corrido pacas e escrever o trabalho em meio a tantos outros trabalhos acadêmicos é sinistro, tempo curto para professores exigentes, sem contar minha exigência que cá entre nós não é pouca.
Seguindo conselho da minha sobrinha Clarinha que havia montado uma página para mim no Orkut ativei a minha naquela farofa e em menos de um mês tinha uma caralhada de pessoas lá falando comigo, gente do Rio, de Botucatu, dos tempos dourados de Bauru (Bira inclusive, casão, dei seu blog e o cara ainda não passou lá, tem filho agora, Pedro aliás), de Assis e tal.
Numa dessas encontrei a Carmina Juarez numa amiga em comum, mandei um recado pra ela falando daquele famoso ensaio, ela me respondeu me chamando de Dudu (meu nome por lá) e me dizendo doçuras, baba mané!
No mais é isto, muita farofa e desafios pela frente.
E viva Arrigo Barnabé.
Até Mar.
Pedro.
Aí segue:
Meu caro,
O show do Nick Cave era algumas semanas depois do meu tempo por lá,
tirei a foto para você ver mesmo. Veja só, coisa boa sempre.
Quanto aos shows, é foda, agora tenho permissão de trabalho e se tudo der certo
a partir da semana que vem vejo uma vaga numa escola fundamental para filhos
de família de língua portuguesa (Portugal, os cinco africanos, Brasil e os filhos de jogadores).
O trabalho se resume a cuidar das crianças depois da aula, ajuda-las nas tarefas de alemão, português e inglês. Há projetos semelhantes para filhos de todas as línguas que você possa imaginar. Vamos ver no que dá.
Eu não estou indo muito nos shows, perdi aliás UK Subs num bar pulgueiro histórico aqui de Berlin, mas sempre há muitos por aqui, o difícil é acompanhar, prefiro nem saber na maioria das vezes.
No entanto tenho ido muito à ópera, sei que você vai chiar, mas tô pouco me fudendo. Para alguém que gosta de literatura, teatro e música é o programa perfeito, tenho visto grandes regentes, cantores e encenações. Meus netos terão que decidir do que se orgulham e do que não, em todo caso isto virá com o tempo ou nunca virá. Mas não me arrependo, cada obra vista é uma noite sem dormir, pensando naquelas tragédias, naquele som magnífico, em toda a montagem e num onte de estórias canônicas ou não que foram necessárias para que o librestita e o músico fizessem a parada. Uma grande curtição!
Estou a dois meses daquela prova escrota e de novo estou na curva final e agora é uma questão de honra e sobrevivência, os alemães são maus, podes crer.
A foto do seu filho é muito fofa, cheio dos agasalhos e com um sorriso de fera.
Eu não sei se terei netos tão cedo, de fato já fiquei para tio, não tenho mulher e muito menos filhos, embora tenha vontade de ter os dois, mas enquanto for estudante a coisa será difícil. O David não é parâmetro pra nada, terá show do Slayer e do Kreator (banda local) e o cara amarelou. Melhor assim, perder Neil Young e ir no Kreator é mais do que sacrilégio, é idiotice elevada ao vigésimo grau. O lance é que o tempo é corrido pacas e escrever o trabalho em meio a tantos outros trabalhos acadêmicos é sinistro, tempo curto para professores exigentes, sem contar minha exigência que cá entre nós não é pouca.
Seguindo conselho da minha sobrinha Clarinha que havia montado uma página para mim no Orkut ativei a minha naquela farofa e em menos de um mês tinha uma caralhada de pessoas lá falando comigo, gente do Rio, de Botucatu, dos tempos dourados de Bauru (Bira inclusive, casão, dei seu blog e o cara ainda não passou lá, tem filho agora, Pedro aliás), de Assis e tal.
Numa dessas encontrei a Carmina Juarez numa amiga em comum, mandei um recado pra ela falando daquele famoso ensaio, ela me respondeu me chamando de Dudu (meu nome por lá) e me dizendo doçuras, baba mané!
No mais é isto, muita farofa e desafios pela frente.
E viva Arrigo Barnabé.
Até Mar.
Pedro.
sábado, 3 de janeiro de 2009
O SHOW QUE O PEDRO PERDEU
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Viver em 2009
Viver é plantar e manter um jardim,
Ou seja,
Entrar na guerra perdida contra as pragas.
Tudo de novo.
Ou seja,
Entrar na guerra perdida contra as pragas.
Tudo de novo.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
O TEMPO
domingo, 21 de dezembro de 2008
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
O Profeta da Fome

Num circo desses paupérrimos, de periferia, o faquir Alikhan, interpretado por José Mojica Marins assombra o público com seus números. Quando o circo pega fogo, ele e sua companheira vagam por aí fazendo seus shows. Num desses, vai preso acusado de “baixo espiritismo”. Na cadeia encontra a chave para o sucesso de suas paresentações: jejuar até o limite. O filme dirigido pelo Maurice Capovilla é de 1969, e além do Mojica Marins tem Jofre Soares, Maurício do Vale e o violeiro Adauto Santos.
O filme é brutal e fica na fronteira entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal. A famosa cena do abate de um boi no “Amarelo Manga” foi filmada com a mesma crueza por Capovilla, algumas décadas antes. Dá uma sacada no texto que tem no site do Contracampo, assinado por Marina Meliande:
“O filme de Capovilla se posiciona diante da fome de uma maneira diferente: não fala da fome em si, e sim da transformação da fome em espetáculo. É o espetáculo do espetáculo da fome. É nesse sentido que podemos afirmar que O Profeta pode ser visto como um filme metalinguístico. Se relaciona com seu objeto de maneira referente ao Cinema que o comporta, uma característica realmente nova dentro dos filmes do Cinema Novo.
O filme tratará do espetáculo da fome na medida em que traça todo um processo de transformação do instinto primário do artista em um objeto que ele usará, em um momento extremo, para sobreviver. Um processo que começa na simples constatação que os animais do circo estão sumindo e que passa à procura do exótico para suprir esta fome: seja como engolidor de giletes, seja como o homem que é enterrado vivo…Um processo que continua na antropofagia e no sacrifício extremado, o homem que dá um olho por um pedaço de pão, o homem que se crucifica para poder comer… O espetáculo faz parte da vida desse artista e a fome é o seu único instrumento de sobrevivência. Seu trabalho só se faz necessário por que tem fome, somente fome. A fome é o espetáculo do qual precisava, a industrialização da fome, a notícia. A fome na mídia, o cinema é a mídia. O cinema filma o cinema da fome. A industrialização da fome é o Cinema Novo, é o faquir deitado em seu caixão ganhando dinheiro para não mais comer. A fome ameaçando o sentido da vida do faquir, um estado em que nada mais é possível: comer ou não comer deixa de ser importante, o cinema cansa do espetáculo que criou. Os bem alimentados não têm mais fome de famintos. Os famintos viraram apenas lembranças para aqueles que se alimentaram deles.
Capovilla traz em O Profeta a referência de algo maior que o próprio filme. Industrializa a fome e se utiliza dela assim como a maioria de seus companheiros de Cinema socialmente engajado. Porém, ultrapassa a fronteira da simples constatação da existência da fome: ela é usada para representar não só uma sociedade que a utiliza mas também um cinema que a utiliza”.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
3h15 – Sonho de uma madrugada de verão
Poemas são corpos estranhos
Expelidos da carne ou da consciência.
Em meus sonho
São como ressucitados.
Posso vê-los saindo das tumbas e ganhando as ruas
Como um enorme estorvo.
Expelidos da carne ou da consciência.
Em meus sonho
São como ressucitados.
Posso vê-los saindo das tumbas e ganhando as ruas
Como um enorme estorvo.
sábado, 13 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Chuva
Minha melhor amiga,
Chegue forte nesta noite.
Molhe corações, asas e sombras.
E entre insônia, solidão e alguma febre
Faça florescer alguma coisa
Antes que seja tarde.
Chegue forte nesta noite.
Molhe corações, asas e sombras.
E entre insônia, solidão e alguma febre
Faça florescer alguma coisa
Antes que seja tarde.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
As 39 luas de Júpiter

Nossa música mais punk. Na foto, Europa, a lua citada, com seus oceanos congelados. Também já li por aí que Júpiter teria 63 ou 62 luas. Foda-se. Trinta e nove eé melhor de cantar. Segue a letrinha tosca:
Eu não nasci
Pra viver nesse caos,
Nessa falta de prazer.
Vou escolher uma lua de Júpiter
Pra me esconder.
Debaixo do gelo de Europa,
No fundo da água salgada,
Eu sou no momento em que estou.
Ninguém me pergunta de nada.
As 39 luas de Júpiter.
Vocês não saberão.
Eu vou despir
O meu corpo celeste.
Despir as cicatrizes
Com que ele se veste.
Olhos, boca, ouvidos, narinas
Passaram no teste.
Vivendo no tédio terrestre
Mais frio que todo o espaço.
Quero uma lua de Júpiter
Para enterrar meu cansaço.
As 39 luas de Júpiter.
Vocês não saberão.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Minhas flores do mal
Minhas flores do mal começam com uma pequena angústia matinal. Não consigo me lembrar o que sonhei, mas sei que havia uma mulher num vagão da transiberiana. O que por si só já motivaria um poema com vodka. Mas deixou apenas uma gripe e um inútil desentupidor nasal.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Definição de amor
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
Gregório de Matos Guerra - o boca do inferno
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
Gregório de Matos Guerra - o boca do inferno
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
HELL´S ANGELS

Califórnia, fim de semana do Dia do Trabalho... Bem cedo, com a neblina do oceano ainda nas ruas, motoqueiros fora-da-lei usando correntes, viseiras e calças Levi´s ensebadas saem em número cada vez maior de garagens úmidas, lanchonetes 24 horas e apartamentos abandonados usados por apenas uma noite em San Francisco, Hollywood, Berdoo e East Oakland, seguindo rumo à península de Monterrey, ao norte do Big Sur... A Ameaça está solta novamente, os Hell´s Angels, a preciosa manchete de jornal, correndo e fazendo barulho na estrada de manhã cedo, sentados nos bancos baixos, ninguém sorri, amontoando-se como loucos no meio do trânsito e passando pela pista do meio a 140 km por hora, tirando várias finas... como Genghis Khan num cavalo de ferro, um corcel monstruoso com um ânus faiscante, passam fulminantes por você e sobem pelas pernas de sua filha sem pedir licença. Mostram um pouco de classe para os caretas, uma dose daquilo que eles nunca vão poder experimentar. Ah, esses caras gente boa, eles adoram sair costurando o trânsito... Little Jesus, Gimp, Chocolate George, Buzzard, Zorro, Hambone, Clean Cut, Tiny, Terry o Vagabundo, Frenchy, Moudly Marvin, Mother Miles, Dirty Ed, Chuck o Pato, Fat Freddy, Filthy Animal, Charger Charley o Molestador de Crianças, Crazy Cross, Puff, Magoo, Animal e pelo menos mais uns cem... loucos para entrar em ação, cabelos compridos ao vento, barbas e bandanas balançando, brincos, sovacos, chicotes de corrente, suásticas e Harley-Davidsons depenadas refletindo o brilho cromado enquanto o trânsito da 101 dá passagem, nervoso, à formação de motos que lembra o estrondo de um trovão indecente...
Assim começa “Hell´s Angels: medo e delírio em duas rodas” do mestre gonzo Hunter S. Thompson na tradução de Ludmila Hashimoto.
O primeiro livro do doutor Thompson é espetacular. Não é só porra-louquice como muitos pensam. O doutor é observador arguto e um comentarista impiedoso das contradições da América doentia. Considerações sobre os Angels, seus costumes, suas origens, sua confusa ideologia, a relação com a mídia... tudo muito legal. Às vezes, uma curtição só, como nos relatos sobre as brigas ou no capítulo sobre as motos infernais dos Angels. Outras, um soco no estômago como no capítulo sobre a relação da gangue com as mulheres e os freqüentes estupros. Foi lançado no Brasil pela Conrad. Imperdível.
Além de escrever como um demônio Hunter Thompson era um fotógrafo de talento, o que poucos sabem. A foto desse post é dele. Mais fotos no link: http://www.mbfala.com/artists/_Hunter%20S.%20Thompson/_other%20works/
Aliás, vale a pena vasculhar as fotos do site http://www.mbfala.com .Muita coisa legal.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Sin City
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Jatos de energia retilíneos
1
Você não pode me alcançar
Na espiral da elipse curta do abismo material,
Na textura da anti-gênese dos chips infecciosos,
Ou coisa parecida.
2
Queimem, edifiquem, impermeabilizem,
Vomitem, explodam seus estômagos,
Dilacerem seus cus
Fodam-se todos.
Eu fico aqui, no alto da laje.
Contando as horas e ouvindo rock e blues.
3
Um estouro em compasso binário,
Um caderno e meia dúzia de santos no fundo do armário
4
Sempre aos domingos, sempre nas planíces concretadas e cinzentas,
Um herói subterrâneo voa com sua capa asfáltica,
Sua tez/casca de teflon, onde a gordura das lixeiras e dos animais em decomposição não gruda.
5
Termino dizendo SIM
Como a escada da Yoko
Enterrada no jardim.
Você não pode me alcançar
Na espiral da elipse curta do abismo material,
Na textura da anti-gênese dos chips infecciosos,
Ou coisa parecida.
2
Queimem, edifiquem, impermeabilizem,
Vomitem, explodam seus estômagos,
Dilacerem seus cus
Fodam-se todos.
Eu fico aqui, no alto da laje.
Contando as horas e ouvindo rock e blues.
3
Um estouro em compasso binário,
Um caderno e meia dúzia de santos no fundo do armário
4
Sempre aos domingos, sempre nas planíces concretadas e cinzentas,
Um herói subterrâneo voa com sua capa asfáltica,
Sua tez/casca de teflon, onde a gordura das lixeiras e dos animais em decomposição não gruda.
5
Termino dizendo SIM
Como a escada da Yoko
Enterrada no jardim.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
21 Gramas

Tesão de filme. Revi neste final de semana. Bela reflexão sobre amor, morte, escolhas e destino. Tinha esquecido de como a atuação do Benicio del Toro é fudida. Estou muito curioso para vê-lo interpretar o Che. Vamos ver se Hollywood dá conta de tratar um personagem tão complexo como o guerrilheiro argentino com o mínimo de cuidado.
Voltando a "21 Gramas", Sean Penn também está ótimo. Os coadjuvantes também mandam muito bem: Naomi Watts, o pastor, a mulher do Sean Penn.
Outro charme de "21 gramas" é a montagem esperta. Também gosto da fotografia e da trilha sonora. Filmaço.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Carrossel de melancolia
A cidade é um fragmento.
Um não-lugar.
Um parque confuso, hostil e chuvoso
Onde crianças entediadas
Montam cavalinhos estéreis
E giram com vertigem,
Indecisas e perplexas.
Plasticamente.
A dois palmos do chão.
Rumo a lugar nenhum.
Um não-lugar.
Um parque confuso, hostil e chuvoso
Onde crianças entediadas
Montam cavalinhos estéreis
E giram com vertigem,
Indecisas e perplexas.
Plasticamente.
A dois palmos do chão.
Rumo a lugar nenhum.
sábado, 1 de novembro de 2008
Depoimento
que estava voltando de uma livraria e ia em direção ao seu carro, estacionado a duas quadras dali; que não conhecia a vítima; observou que a vítima parecia estar embriagada, pois falava sozinha e lavava o rosto e os braços na enxurrada; que em momento algum foi abordado ou molestado pela vítima, achando até que não foi visto por ela; que passou por ela a caminho do carro e achou que a vítima era um indigente, bêbado e abandonado pela rua; que foi até seu carro, estacionado a aproximadamente cem metros dali, onde guardou os livros que havia comprado e pegou um cano de ferro que trazia no porta-malas do carro; que obteve o cano de ferro na demolição da casa de sua avó; que o instrumento está em sua posse há aproximadamente dois meses e meio; que se aproximou da vítima sem que ela percebesse; que antes disso, examinou a região e lhe pareceu que não havia ninguém olhando; que o local é mal iluminado e pelo fato da vítima estar próxima de uma árvore, o local estava ainda mais escuro; que a vítima não percebeu sua aproximação; que se posicionou atrás da vítima que permanecia agachada com as mãos mergulhadas na água da enxurrada; que desferiu dois golpes na cabeça da vítima utilizando-se do cano de ferro; que o primeiro golpe foi dado com bastante força e o segundo acertou de maneira menos intensa em razão do movimento gerado pelo primeiro golpe; que a vítima caiu na enxurrada sem emitir qualquer som; que o depoente ficou muito nervoso e foi para seu carro onde ficou sentado esperando a chegada da polícia; que não sabe quem viu a ação, mas acredita que tenha sido algum porteiro ou morador dos prédios da rua; que não se certificou se a vítima veio a óbito ou não; que sua intenção não era cometer homicídio, mas sim cometer algum crime, mesmo que fosse tentativa de homicídio ou lesão corporal; que sua intenção é apenas ficar preso; o depoente acredita que, por ter curso superior, poderá ficar numa cela especial e aí vai ter tempo para ler todos os seus livros; que, em razão do seu trabalho no escritório de contabilidade do tio não tem tempo de ler tanto quanto gostaria; que gosta de se imaginar vivendo a vida dos personagens; que assim que for preso pretende ler alguns livros de Eça de Queirós que ainda não leu; que também pretende reler a obra de Guimarães Rosa e Machado de Assis outros autores que gosta como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Cervantes e outros; que não se inspirou em nenhum livro em especial para cometer o crime; que adora a poesia de Drummond, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa; que não está arrependido; o depoente perguntou ao delegado quando poderá receber seus livros na cadeia; que lhe foi respondido que ele não tem o direito de perguntar nada durante o interrogatório.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Guitarras, guitarras e mais guitarras
Olha os putos aí. Estes são o Txélos, parceiro nas canções doentias e maestro da banda sem nome e o Julio, o guitarrista de toque mais elegante e melodioso do Velho Oeste. Nas fotos, eles tocando o pesadelo psicodélico que chamamos de "Meu Amor" num ensaio aqui em casa. A letra está log abaixo. Faltaram fotos das cantoras Aline e Tânia. Fica para a próxima pra rolar um suspense.


MEU AMOR
Me desculpe se eu não sei escrever
Versos felizes.
Me corrija quando eu cometer
Meus pequenos deslizes.
Não vou buscar estrelas de neutrons,
Pulsar ou quasar,
Gigante vermelha
Pra te iluminar.
Meu amor, meu carinho,
Bebo do teu vinho,
Mastigo tua carne
Depois cuspo teu espinho


MEU AMOR
Me desculpe se eu não sei escrever
Versos felizes.
Me corrija quando eu cometer
Meus pequenos deslizes.
Não vou buscar estrelas de neutrons,
Pulsar ou quasar,
Gigante vermelha
Pra te iluminar.
Meu amor, meu carinho,
Bebo do teu vinho,
Mastigo tua carne
Depois cuspo teu espinho
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Cascavelletes - Lobo da Estepe
Essa é do tempo que o rock gaúcho era legal. Meu little brother Pedro que lembrou do clipe pela citação a "Mrs. Robinson"
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Filmes
Neste final de semana aproveitei pra ver velhos clássicos. Assisti pela primeira vez "La Dolce Vita", de Fellini. É realmente maravilhoso. Ao mesmo tempo, algumas coisas são tão atuais e outras refletem o espírito meio hedonista daquela época. Marcello Mastroianni está fantástico. E ainda tem as musas Anouk Aimée, Anita Ekberg (abaixo) e a Nico. Sim! A Nico do Velvet, fazendo papel dela mesma e chamada de Nicolina pelos amigos. A cena famosa do banho de la Ekberg é bonita, mas gostei especialmente da seqüencia das crianças que vêem a virgem. A cena da multidão enlouquecida sob a chuva, destruindo a árvore da suposta aparição vale um tratado da estupidez humana. O final do filme, com a festa decadente e a sequencia da praia, também é demais. Lindo. Fellini é foda. Me deu vontade de rever "Amarcord" e "La Nave Va".

Também revi "The Graduate" (A Primeira Noite de Um Homem) com Dustin Hoffman, Katherine Ross e Anne Bancroft como a inesquecível Mrs. Robinson, uma das coroas mais sexy do cinema. O filme é do Mike Nichols, com trilha sonora de Simon & Garfunkel. Muito legal.

Também revi "The Graduate" (A Primeira Noite de Um Homem) com Dustin Hoffman, Katherine Ross e Anne Bancroft como a inesquecível Mrs. Robinson, uma das coroas mais sexy do cinema. O filme é do Mike Nichols, com trilha sonora de Simon & Garfunkel. Muito legal.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Por sobre a solidão do mar
As luas flutuaram.
E foram centenas.
Fatigadas, encobertas por nuvens e trancadas em caixas de vidro.
Por sobre o asfalto
As madrugadas escorreram.
E foram milhares.
Com suas estampas frias, seus répteis e suas correntes.
Agora, por sobre os prédios
Um milhão de manhãs explodem.
Sórdidas, suspeitas e cheirando a enxofre.
O importante é que tragam o sol.
As luas flutuaram.
E foram centenas.
Fatigadas, encobertas por nuvens e trancadas em caixas de vidro.
Por sobre o asfalto
As madrugadas escorreram.
E foram milhares.
Com suas estampas frias, seus répteis e suas correntes.
Agora, por sobre os prédios
Um milhão de manhãs explodem.
Sórdidas, suspeitas e cheirando a enxofre.
O importante é que tragam o sol.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
The Hooker

Friozinho e chuva. Ouvindo John Lee Hooker em vinil: "T.B. Is Killing Me". Poesia bluesy. Janelas fechadas. Tempo fechado. Pé gelado. John Lee Hooker é um daqueles caras que dão "sustância", como diria minha avó. É feijão, é alicerce, é raiz. É foda, enfim.
Visceral. Esse disco da Eldorado, "Get Back Home in USA" é um clássico. Um verdadeiro tesouro de despojamento e força. Hooker, baby. Só a guitarrinha e o "tap tap" no chão do estúdio. Forte e básico.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Rock´n Roll Girl
Uma outra letra que fiz para um música do Txélos. Uma vez mais, aletra é tosca e a música excelente. Precisamos entrar no estúdio para gravar essas coisas. Uma história de amor doentio. Mais uma.
ROCK`N ROLL GIRL
DON´T LEAVE ME ALONE, MY ROCK´N ROLL GIRL
FIQUE AQUI PRA DANÇAR
DEMOREI MUITO PRA TE ENCONTRAR
FIZ UM BLUES NUMA MESA DE BAR
SÓ PRA NÃO ESQUECER TEU OLHAR
A LUA SE ESCONDEU, MY ROCK´N ROLL GIRL
A NOITE É FRIA E OS ANJOS RASTEJAM NO CHÃO
VOCÊ NÃO VAI SAIR, SEM OUVIR A CANÇÃO
NÃO FALE DE AMOR, MY ROCK´N ROLL GIRL
PUT YOUR RED SHOES AND DANCE
TENHO SANGUE NAS MÃOS, VOCÊ VÊ
NOSSA GUERRA PASSA NA TV
COM EFEITOS ESPECIAIS PRA VOCÊ
ROCK`N ROLL GIRL
DON´T LEAVE ME ALONE, MY ROCK´N ROLL GIRL
FIQUE AQUI PRA DANÇAR
DEMOREI MUITO PRA TE ENCONTRAR
FIZ UM BLUES NUMA MESA DE BAR
SÓ PRA NÃO ESQUECER TEU OLHAR
A LUA SE ESCONDEU, MY ROCK´N ROLL GIRL
A NOITE É FRIA E OS ANJOS RASTEJAM NO CHÃO
VOCÊ NÃO VAI SAIR, SEM OUVIR A CANÇÃO
NÃO FALE DE AMOR, MY ROCK´N ROLL GIRL
PUT YOUR RED SHOES AND DANCE
TENHO SANGUE NAS MÃOS, VOCÊ VÊ
NOSSA GUERRA PASSA NA TV
COM EFEITOS ESPECIAIS PRA VOCÊ
domingo, 19 de outubro de 2008
A pequena torre
Estou caminhando por uma viela do centro de São Paulo. É noite, faz frio. No meio de construções altas surge uma pequena torre, quase um castelinho desses que outrora construíam os bem humorados ou os megalomaníacos com grana.
É negra a pequena torre. Está encravada atrás de um muro baixo com um gradil por cima. Está no escuro, apagada. Fica num canto, num lugar estranho onde o trajeto da ruazinha parece tomar um rumo absurdo. Aliás, existem muitas vielas assim em São Paulo. Ela também fica de uma maneira meio oblíqua no terreno. Este, por sua vez, é pequeno para a região. A torre fica espremida, escondida entre edificações maiores, mais novas, mais nobres e iluminadas.
É feia e torta, quase não se vê. Não tem a imponência que os engenheiros e arquitetos sempre procuram emprestar a suas obras. Parece até feita por um humano. Na verdade parece humana na sua imperfeição. É uma torre escura, numa curva da viela. Está fechada e esquecida. Nem parece uma torre.
É negra a pequena torre. Está encravada atrás de um muro baixo com um gradil por cima. Está no escuro, apagada. Fica num canto, num lugar estranho onde o trajeto da ruazinha parece tomar um rumo absurdo. Aliás, existem muitas vielas assim em São Paulo. Ela também fica de uma maneira meio oblíqua no terreno. Este, por sua vez, é pequeno para a região. A torre fica espremida, escondida entre edificações maiores, mais novas, mais nobres e iluminadas.
É feia e torta, quase não se vê. Não tem a imponência que os engenheiros e arquitetos sempre procuram emprestar a suas obras. Parece até feita por um humano. Na verdade parece humana na sua imperfeição. É uma torre escura, numa curva da viela. Está fechada e esquecida. Nem parece uma torre.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
São Paulo, sábado passado, 19h15
Um cara lava o rosto na enxurrada que desce da Avenida Paulista. Todo de preto: tênis, bermuda e camiseta. Ele coloca uma perna de cada lado do pequeno rio que escorre pela sarjeta. Inclina o tronco mantendo as pernas alongadas, mergulha as mãos na água e lava o rosto freneticamente. Molha até os cabelos crespos. A água escorre imunda. Ele parece sorrir.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
See the sky - a canção
Fiz essa letra a partir da linda "See the sky (about to rain)" , do Neil Young. A música é do Txélos, parceiro de longa data. Linda, como quase tudo que ele faz. Ecos velvetianos, neilyounganos e tudo o mais que vale a pena.
SEE THE SKY
See the sky
About to rain
And we are going to fall
In love again
See the sky
About to cry
And we're going to fall
In love and die
SEE THE SKY
See the sky
About to rain
And we are going to fall
In love again
See the sky
About to cry
And we're going to fall
In love and die
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Teoria Geral das Fitas
O título acima é uma brincadeira com o “Alta Fidelidade”, do inglês Nick Hornby, que acabou virando um filme bacaninha com o John Cusack e o Jack Black. O protagonista do romance (não lembro o nome dele) adora gravar fitinhas para os amigos e as garotas que está afim. Para isso, ele tinha toda uma teoria sobre como deveria ser montado o repertório da fita, a ordem das músicas e tal. Quando li o livro me dei conta de que eu também tinha toda uma metodologia de gravação de fitas, dependendo dos objetivos.
Recebi dia desses algumas fitas cassete de presente do meu amigo Edson Nogueira. Além das gravações raras do violeiro Raul Torres na Odeon e na Victor, um detalhe bastante prosaico chamou minha atenção: a caixinha da fita da marca Scotch. Há anos que eu não via uma dessas por aí. Como nostálgico incurável me lembrei da época em que as fitinhas cassetes circulavam entre os amigos numa forma de pirataria bem mais inofensiva e precária que a atual.
Quando eu era criança meus pais tinham uma fita Scotch igual à que o Edson me deu. Lembro que tinha umas músicas da Elba Ramalho, Amelinha, Zé Ramalho e “Vela Aberta”, sucesso solitário de Walter Franco, que o meu pai gostava muito. Por causa dela, acabei virando fã de carteirinha desse doce maldito da MPB. Pois é... para as pessoas da minha idade algumas fitas marcaram épocas da vida, assim como os LPs.
Lembro das fitas do meu pai. Tinha as de samba, as de MPB, as de orquestras (que eu não gostava). Tinha uma que era só samba e balanços de Jorge Ben e Bebeto. Hoje tocaria tranqüilamente numa festa retrô moderninha de samba rock. Uma fita da Ópera do Malandro me deixava impressionadíssimo com as letras de imagens fortes e, é claro, com o famoso “joga bosta na Geni”.
Gravar fitas era uma delícia. Era um presente barato e super personalizado que você poderia dar para os amigos ou pra uma garota que estivesse afim. Tinha as Scotchs de caixa cinza, as japonesas da TDK e as horríveis Vats que enrolavam facilmente. Colocar uma Vat pra tocar no carro era praticamente dar adeus à fitinha. Mas a campeã absoluta nas minhas memórias são as Basf amarelinhas. Depois a Basf ficou vermelha, surgiram as Sonys azuis. Nenhuma delas como as Basfs amarelinhas.
Meu pai gravou minhas primeiras fitas. Lembro de uma com os Saltimbancos Trapalhões, o tema do Flash Gordon e umas músicas da Turma da Mônica. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, emprestei o LP “Creatures of the Night” de um vizinho. A fita gravada pelo meu pai tocou até acabar e me fez começar a gostar de rock.
Eu também gravei centenas de fitas pela vida afora. Tenho até hoje na casa da minha mãe uma grande gaveta lotada delas. Desde raros cururus até coisas maravilhosas de rock, que ainda não achei em CD, como uma coletânea dos primórdios do punk rock, gravada de um CD japonês trazido de lá por um colega de faculdade.
Aliás, como sempre tive muitos LPs, na época da faculdade virei uma espécie de gravador oficial de fitas da turma. As fitinhas tinham temas. Uma era de rocks pra pegar estrada, outra de sambas, podia ser o melhor do Caetano, uma seleção de Beatles ou outra pra curtir aquela fossa e, lógico, aquela pra conquistar a menina dos seus sonhos.
Hoje podemos gravar CDs. O som é melhor, mas nada me tira da cabeça que não tem o mesmo charme. Não é tão pessoal. Já na era dos CDs, com as fitinhas em franca decadência, gravei uma seleção do grupo escocês Belle & Sebastian pra uma garota de cabelos curtinhos que fazia faculdade comigo. Gosto de pensar que a fitinha ajudou que ela virasse minha namorada. A fitinha ajudou a dar o impulso inicial. Fiz a minha parte e estou com a garota até hoje, dividindo vida e canções.
Recebi dia desses algumas fitas cassete de presente do meu amigo Edson Nogueira. Além das gravações raras do violeiro Raul Torres na Odeon e na Victor, um detalhe bastante prosaico chamou minha atenção: a caixinha da fita da marca Scotch. Há anos que eu não via uma dessas por aí. Como nostálgico incurável me lembrei da época em que as fitinhas cassetes circulavam entre os amigos numa forma de pirataria bem mais inofensiva e precária que a atual.
Quando eu era criança meus pais tinham uma fita Scotch igual à que o Edson me deu. Lembro que tinha umas músicas da Elba Ramalho, Amelinha, Zé Ramalho e “Vela Aberta”, sucesso solitário de Walter Franco, que o meu pai gostava muito. Por causa dela, acabei virando fã de carteirinha desse doce maldito da MPB. Pois é... para as pessoas da minha idade algumas fitas marcaram épocas da vida, assim como os LPs.
Lembro das fitas do meu pai. Tinha as de samba, as de MPB, as de orquestras (que eu não gostava). Tinha uma que era só samba e balanços de Jorge Ben e Bebeto. Hoje tocaria tranqüilamente numa festa retrô moderninha de samba rock. Uma fita da Ópera do Malandro me deixava impressionadíssimo com as letras de imagens fortes e, é claro, com o famoso “joga bosta na Geni”.
Gravar fitas era uma delícia. Era um presente barato e super personalizado que você poderia dar para os amigos ou pra uma garota que estivesse afim. Tinha as Scotchs de caixa cinza, as japonesas da TDK e as horríveis Vats que enrolavam facilmente. Colocar uma Vat pra tocar no carro era praticamente dar adeus à fitinha. Mas a campeã absoluta nas minhas memórias são as Basf amarelinhas. Depois a Basf ficou vermelha, surgiram as Sonys azuis. Nenhuma delas como as Basfs amarelinhas.
Meu pai gravou minhas primeiras fitas. Lembro de uma com os Saltimbancos Trapalhões, o tema do Flash Gordon e umas músicas da Turma da Mônica. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, emprestei o LP “Creatures of the Night” de um vizinho. A fita gravada pelo meu pai tocou até acabar e me fez começar a gostar de rock.
Eu também gravei centenas de fitas pela vida afora. Tenho até hoje na casa da minha mãe uma grande gaveta lotada delas. Desde raros cururus até coisas maravilhosas de rock, que ainda não achei em CD, como uma coletânea dos primórdios do punk rock, gravada de um CD japonês trazido de lá por um colega de faculdade.
Aliás, como sempre tive muitos LPs, na época da faculdade virei uma espécie de gravador oficial de fitas da turma. As fitinhas tinham temas. Uma era de rocks pra pegar estrada, outra de sambas, podia ser o melhor do Caetano, uma seleção de Beatles ou outra pra curtir aquela fossa e, lógico, aquela pra conquistar a menina dos seus sonhos.
Hoje podemos gravar CDs. O som é melhor, mas nada me tira da cabeça que não tem o mesmo charme. Não é tão pessoal. Já na era dos CDs, com as fitinhas em franca decadência, gravei uma seleção do grupo escocês Belle & Sebastian pra uma garota de cabelos curtinhos que fazia faculdade comigo. Gosto de pensar que a fitinha ajudou que ela virasse minha namorada. A fitinha ajudou a dar o impulso inicial. Fiz a minha parte e estou com a garota até hoje, dividindo vida e canções.
Para Aline, num dia comum
Hoje acordei cedo
Vi as mesmas caras e os mesmos sorrisos
Pela janela do carro, um desfile de carnaval
Meio pobre, meio ralo, um tanto hostil.
Na net havia amigos demais,
Países demais e pouco silêncio.
Liguei a TV para assistir
Um cemitério em alta definição.
E nos intervalos, Deus em forma de carro zero.
A noite chega e meus olhos cansados precisam repousar
No teu corpo
Vi as mesmas caras e os mesmos sorrisos
Pela janela do carro, um desfile de carnaval
Meio pobre, meio ralo, um tanto hostil.
Na net havia amigos demais,
Países demais e pouco silêncio.
Liguei a TV para assistir
Um cemitério em alta definição.
E nos intervalos, Deus em forma de carro zero.
A noite chega e meus olhos cansados precisam repousar
No teu corpo
Homenagens
A Roberto Piva
Nas asas da América Latina
Onde o sangue invade o mel
O óleo diesel vaza da pia batismal
Sem sentido,
No ventre de uma igreja viva
Que arfa e mostra os dentes
Eu vi a cobra coral devorar o natimorto
Ouvi os sons de escapamentos
E o trole da modernidade rasgando as estradas de leite contaminado
Respirei o pó branco da invenção e da leveza
O gineceu invadido, o coma de minhas artérias
E assim deixei o dia chegar frio e abri as janelas sobre o mar escuro
A Torquato Neto
Aqui em Paupéria
É mais fácil ser torto que ser anjo
Abrir o gás dessa miséria
Apagar
Estreitar a relação entra a febre e o violão
Um beijo moreno-exagerado no escuro
Nas asas da América Latina
Onde o sangue invade o mel
O óleo diesel vaza da pia batismal
Sem sentido,
No ventre de uma igreja viva
Que arfa e mostra os dentes
Eu vi a cobra coral devorar o natimorto
Ouvi os sons de escapamentos
E o trole da modernidade rasgando as estradas de leite contaminado
Respirei o pó branco da invenção e da leveza
O gineceu invadido, o coma de minhas artérias
E assim deixei o dia chegar frio e abri as janelas sobre o mar escuro
A Torquato Neto
Aqui em Paupéria
É mais fácil ser torto que ser anjo
Abrir o gás dessa miséria
Apagar
Estreitar a relação entra a febre e o violão
Um beijo moreno-exagerado no escuro
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