quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Todas as cores da solidão no livro do Bruno Bandido

Tem um palhaço agressivo e um hooligan triste em algum lugar aqui dentro é o corajoso livro de estreia de um jovem escritor gaúcho que eu já conhecia do seu blog, onde ele sempre mostrou talento ao manejar um arsenal de referências interessantes para promover o seu tiroteio poético. No livro, Bruno Bandido ocupa sua trincheira de solidão e lirismo e usa elementos como sexo, drogas, rock´n roll, desolação, porradas na madrugada, miragens de uma felicidade fugidia e todas as perversões com que a vida nos bombardeia a cada esquina. E o bacana da parada toda é que, mesmo com sua destreza, o poeta não escapa de sair ferido da batalha. E não podia ser de outra forma. Os melhores escritores da cepa de Bruno Bandido são os que sabem que a guerra está perdida mas, nem por isso, tiram da reta. Escritos em primeira pessoa, os textos escancaram a sensibilidade do autor para descrever, ora com fúria, ora com um humor peculiar, cenas marcadas pelo absurdo do cotidiano ou por uma tristeza meio parente da loucura. Como no melhor Bukowski, o leitor fica sem saber se as desventuras de Fred Fudido, Negão Raridade, Cal Canalha, Letícia ou Cíntia Laura, vividas ao lado do narrador, são verdadeiras, incrementadas a partir de fatos reais ou inteiramente criadas. E isso, definitivamente, não é importante. Todas habitam o universo do poeta deslocado pelas vias tortas da vida. Os heróis vagabundos de “O rock´n roll dos idiotas”, a noite quase feliz iniciada na Galeteria Bambinos, os meninos de beira de estrada, a fascinante Sofia das noites de Porto Alegre, o fantasma que manja Tom Waits e sua pela orla de Salvador, todos compõem o jorro desvairado de almas solitárias que perambulam pelas paginas cometidas pelo Bandido. Não é literatura para todos os gostos (felizmente). Mas eu percorri velozmente todas as páginas. E recomendo a viagem. Para os que tentam desviar das balas e para os que as recebem com prazer.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

MÚSICA BRASILEIRA: O QUE OUVI DE MELHOR EM 2014

Juntando toda a minha cara de pau, resolvi escrever sobre o que ouvi de mais interessante no ano. Não sou crítico musical, não tenho tempo nem grana para acompanhar tudo o que sai. Mas das coisas que chegaram até mim, lançadas em 2014, vou dizer quais foram as mais legais. Se alguém tiver saco pra ler, são elas: 1 – JUÇARA MARÇAL Na verdade, esse foi o disco que me motivou a escrever o texto. É um trabalho que te faz renovar a crença que a música brasileira é muito foda. O repertório e a voz são incríveis. Mas o que pega forte são as ambiências, as guitarras guinchando e criando texturas interessantes, num contraponto com belo canto de Juçara, digna herdeira da tradição das grandes cantoras brasileiras. “Encarnado” consegue ser denso e delicado, musculoso e descarnado (ouça e concorde com o trocadilho). Há distorção e beleza de sobra. Basta ouvir “Velho Amarelo”, que abre o disco, para entender qual será a pegada. A faixa consegue remeter o ouvinte, ao mesmo tempo, a Velvet Underground e a Tom Zé. Uma paulada! Só para citar algumas faixas, há a saborosa vingança de “Damião”, de Douglas Germano, com um arranjo primoroso. “Queimando a Língua” e a perturbadora “Ciranda do Aborto” também são fantásticas. “Encarnado” consagra um grupo de músicos incríveis, do qual fazem parte Kiko Dinucci, Douglas Germano, Rodrigo Campos, Thiago França, Romulo Fróes, além de Juçara. Seus trabalhos solo ou em seus diversos grupos (Metá Metá, Passo Elétrico, Bando Afromacarrônico, Duo Moviola, Sambanzo), constituem (de longe, de muito longe mesmo) o que há de mais interessante na música brasileira atual. “Encarnado” e outros trabalhos dessa turma fazem o contraponto acre e necessário a uma certa “fofice”, para não dizer “bundamolice indie”, muito presente na tal de nova MPB. Da mesma forma, são antídotos aos talentosos reprodutores da receita djavanica/ leninista/caetânica que começa a colocar a MPB de novo nas trilhas das novelas globais. A música de Dinucci, Marçal e Cia. nunca é inofensiva. Além disso, o grupo trabalha com referências incríveis de coisas que estavam meio esquecidas ou subvalorizadas, como o samba paulista de Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Adoniran e outros; a vanguarda paulistana de Arrigo e Itamar; o candomblé em toda a sua exuberância e mistério; experimentalismos a la Walter Franco e Tom Zé; ecos de hip hop, lendas urbanas, boca-do-lixo, além das guitarras e violas/ rabecas velvetianas que estão no tutano do osso que certos indies não ousam chupar. Há canções com narrativas que remetem a João Antonio, Plínio Marcos e, ouso, dizer, às histórias dramáticas das modas de viola. Confiram “João Carranca” e a estupenda “Partida em Arujá”, gravada por Juçara Marçal no disco “Na Boca dos Outros” de Kiko Dinucci. Por tudo isso, ouso dizer que esse grupo de artistas é a coisa mais interessante que acontece na música brasileira desde Itamar/Arrigo, com menção honrosa para o cometa Chico Science. Dessa turma, além de “Encarnado”, recomendo tudo. Na minha lista também vão: 2 – SWAMI JR. E MARCELO PRETTO – A CARNE DAS CANÇÕES Swami Jr. é um criador de belezas. Seja como produtor, arranjador, músico acompanhante ou nos seus trabalhos solos, os ótimos “Outra Praia” e “Mundos e Fundos”, ele sempre oferece algo especial aos ouvintes. Marcelo Pretto é um dos maiores cantores do Brasil. Sua voz enriquece os trabalhos de grupos como A Barca e Barbatuques e discos de amigos como Chico Saraiva, Kiko Dinucci e Carlos Careqa. Só por reunir uma coleção de canções com a voz de Marcelo, este “A Carne das Canções” já se torna um lançamento essencial. Mas o encontro desses dois grande artistas é mais que isso. Um registro nada óbvio e de muito bom gosto de canções pouco conhecidas e compositores interessantíssimos como os citados Dinucci e Saraiva, além de Douglas Germano, Rodrigo Campos, Arrigo Barnabé e o incrível Walter Freitas. Há momentos realmente especiais (“Ratapaiapatabarreno”, “Pixaim”, “Abre a Casa”). Um disco que mostra-se mais envolvente a cada audição. 3- ESTRELINSKI E OS PAULERA - LEMINSKANÇÕES A reunião das canções compostas por Paulo Leminski pode agradar a muito mais gente que apenas os fãs do trabalho do poeta. Musicalmente, o disco é simples e direto. Transborda leveza, bom humor e é agradável de ouvir. Há muitas canções legais e é emocionante ouvir o próprio Leminski soltando a voz em “Valeu”. 4- CRIOLO – CONVOQUE SEU BUDA Confesso que o hype todo, o lance messiânico e as camisetas da Gaviões da Fiel me afastaram do “fator Criolo”. Passei conscientemente batido pelo seu disco anterior “Nó na Orelha”. Só quis saber qual é a do rapper-hippie quando vi que ele tinha entre seus colaboradores e parceiros os já citados Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Thiago França. Gostei de “Convoque seu Buda”. Tem faixas bem legais como “Cartão de Visitas”, o sambinha “Fermento pra Massa”, “Esquiva da Esgrima” e uma poderosa versão de Padê Onã, de Kiko Dinucci e Douglas Germano, rebatizada de “Fio de Prumo”, com a participação sempre foda de Juçara Marçal. Criolo não é o gênio alardeado por aí. E de modo algum é um embuste como o hype e o beija-mão dos medalhões da MPB poderiam fazer supor. É um artista jovem, carismático, com um texto muito próprio e com dois discos pop extremamente bem feitos na praça. Uma carreira para se acompanhar. 5 – JAIME ALEM – MEU RELICÁRIO Depois de um belo disco instrumental de viola caipira o “maestrão” Jaime Alem aposta num coquetel musical que consegue conjugar delicadeza interiorana e sofisticação. Há belos temas instrumentais, mas o que mais me chama atenção no disco é o poderoso casamento das vozes de Jaime (adoro ele cantando) e da cantora Nair Cândia, que confere brilho especial às lindas melodias compostas por Alem. Confira “Meu Relicário”, “Sua Presença Querida” e “Lua e Vento”. Mesmo afastado da cantora Maria Bethânia, com quem seu trabalho sempre será associado, o maestro mostra em “Meu Relicário” que sua música está mais viva e bonita do que nunca. Menção Curiosa: HUMBERTO GESSINGER – INSULAR Nunca em minha vida me imaginei ouvindo um disco solo do líder dos Engenheiros do Hawai, embora eu tenha gostado do disco A Revolta dos Dândis, lá nos longínquos anos 80. Mas “Insular”, lançado no final de 2013, caiu nas minhas mãos e surpreendeu. É um disco de rock simples, honesto, com um punhado de boas canções. Evidentemente, Gessinger não é o messias que os fãs dos Engenheiros imaginam. Mas está muito longe de ser o lixo pintado pela crítica musical. O cara tem lá o jeitão dele, que me parece autêntico, comete algumas boas letras e me arrisco a dizer que “Insular” é melhor do que 90% do que produzem as bandinhas de rock da atualidade. Acha que estou ficando louco? Então crie coragem e ouça “Sua Graça”, “Essas Vidas da Gente” e “Segura a Onda Dorian Grey”, com participação do saudoso Nico Nicolaiewski, do Tangos e Tragédias

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Afogado em números

Em 35 dias de saudades vazias 28 foram de madrugadas frias Por 8 vezes surgiram sorrisos espontâneos E por 14 os olhos transbordaram Te mandei à merda 42 vezes E por 22 vezes decidi não pensar mais no assunto Só perdi mesmo a conta de quantas vezes refiz essas contas

domingo, 2 de junho de 2013

“Amsterdã Blues” e o ano da graça de 1986

Comecei a ler o livro “Amsterdã Blues”, de Arnon Grunenberg, que caiu nas minhas mãos meio por acaso, e tô gostando pra caramba. É um daqueles livros autobiográficos sobre a juventude. No caso do autor, um holandês de família judaica, rebelde e meio sem rumo na vida, observador sarcástico da mediocridade escolar, familiar... enfim...dá te pra sacar qual é a do livro, não? Mas o texto e ótimo. Estou na página 75 e, até agora, o belo namoro/amizade em tom de descoberta do autor/personagem com a fascinante Rosie tem sido uma bela descrição dos tormentos e da confusão do fim da adolescência. O engraçado da história é que o personagem parece ter mais ou menos a mesma idade que eu. Percebi isso quando ele fala sobre a Copa do México, em 1986. Ele e seus amigos brincavam de futebol e torciam pelo Maradona. É mais ou menos a mesma fase que eu vivi, tirando, é claro, o fato do cara ser holandês e eu ser brasileiro. Era impossível um garoto brasileiro de 13 anos, em 1986, torcer para a Argentina. Até nos impressionávamos com a categoria de Maradona. Mas torcer? Jamais. E nem precisávamos. A Holanda não se classificou para a Copa de 86. Já o Brasil estava entre os favoritos. E apesar de já não ser o futebol fantástico de 82, ainda estavam lá Sócrates, Zico, Careca, Falcão, além do mestre Telê. 86 foi a Copa do Maradona. Mas foi também a do maluco e genial Josimar com seus dois golaços assombrosos nos seus dois primeiros jogos com a camisa de seleção. Teve o drama do Zico e o pênalti perdido, que só deu um tom dramático e épico para a coisa toda. Para um são-paulino como eu, era muito mais envolvente do que essa bosta de Copa superfaturada de 2014. Tínhamos Careca, Silas, Müller, Sidney, Oscar e Falcão entre os convocados. Não lembro se o goleiro Gilmar foi para a Copa. Ainda tinha o divino Dario Pereyra na seleção do Uruguai. Nem vou falar dos injustiçados Zé Teodoro e Nelsinho, ótimos laterais que ganharam uma porrada de títulos com o tricolor e tiveram poucas chances na seleção. Não é à toa que o clube foi campeão brasileiro naquele ano. Era outro espporte. Nós torcíamos de verdade. O futebol não era essa merda pastosa exclusivamente midiática. E escrevo isso com a TV ligada no jogo do Brasil com a Inglaterra, inaugurando o superfaturado e sem charme “novo Maracanã”, sob a baba dos vermes Galvão Bueno e Ronaldo Gordo. Torcíamos com sinceridade. Os clubes tinham seus estádios ( a maioria deles), sua identidade, seus ídolos. A seleção, às vezes, desagradava. Mas, de modo geral, representava o torcedor. Era outro mundo. Para se ter uma ideia, o time da moda de hoje, que é apoiado pelo governo e está ganhando um estádio feito com dinheiro público e isenção fiscal nunca tinha ganho sequer um título nacional. Em “Amsterdã Blues”, até agora, o autor não falou de música. Mas em 1986 eu adorava Kiss, Iron Maiden, Black Sabbath, AC/DC. E vinham chegando Metallica, Slayer e outros. Curtir som pesado era quase heroico. Poucos discos lançados, com exceção das grandes bandas dos anos 70, e nada de camisetas e adereços que hoje são facilmente encontrados por aí. Eu ia a São Paulo para comprar discos. Esqueça o youtube. Clipes só no lendário Som Pop da TV Cultura. Vibrávamos a cada exibição de “Run to the Hills”, “I Love it Loud” e outros clássicos. Ver imagens do Metallica na TV, somente na época do “And Justice for All”, quando a banda começou a ficar desinteressante. Era difícil. E era legal pra caralho. Gostar de rock exigia doação, interesse, empenho. Por isso tudo, eu, velho e rabugento, me permito torcer contra a seleção da CBF e desejar que a tal da Copa seja um grande fiasco. Além disso, ainda fico puto quando vejo neguinho que se acha professor de roquenrou só porque tem uma camiseta do Ramones colocar no feicibuqui que tem um som do Charlie Brown Jr. ou do tal de Tijuana ou Detonautas que eu tenho que ouvir pra saber o que é um bom rock!!Que vão todos à merda ou que comecem a ler. “Amsterdã Blues” já seria um bom começo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Revendo “Cidade Oculta” ou por onde andam os japas?

Dia desses revi “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho, em 1986. Quase 30 anos depois do seu lançamento, não sei qual é o status que o filme desfruta entre os especialistas. O fato é que aqui em casa a produção é um “cult”, ou pelo menos é o que eu imagino que essa palavrinha metida a besta quer dizer. Acho a estética do filme é legal demais. A mistura de cinema noir, quadrinhos e rock´n roll me lembra tempos em que o underground paulistano era interessante pra caramba. A metrópole decadente, e aspirante a futurista, do terceiro mundo véio sem porteira. Ecos da “Chiclete com Banana”, do movimento punk em pleno vigor, da noite desvairada explodindo na pós-ditadura. Talvez por tudo isso “Cidade Oculta” sempre me faça lembrar de “Blade Runner” como se o filme brasileiro fosse um filhote vagabundo e demasiado humano da obra de Ridley Scott. As cenas noturnas às margens do Tietê podrão, as paisagens do centrão de São Paulo ou as tomadas do skyline da cidade ainda são belíssimas. Gosto especialmente de uma tomada rápida em que a câmera passa por soldados da cavalaria da PM, com seus capacetes de choque, cruzando as ruas do centro à noite. O elenco tem vários acertos. Apesar da interpretação meia-boca, é legal ver Arrigo Barnabé, com sua cara de Orson Welles, interpretando o anti-heroi Anjo ou Anjo-san como é chamado pelo seu ambíguo parceiro Japa, interpretado por Celso Saiki, figurinha que habita algum canto da minha memória dos anos 80, como um dos apresentadores dos Telecursos que a TV exibia pela manhã. Carla Camurati, deslumbrante, faz a fatalle Shirley Sombra. E como ela era gostosa! Carla Camurati nos seus 20 e poucos aninhos supera qualquer Uma Thurman da vida. Se acha absurdo o que eu digo, confira a performance da deusa na cama com o Anjo-san. Tem também o ótimo Claudio Mamberti como o delegado Ratão. As pontas são uma atração à parte. Tem Chiquinho Brandão, Itamar Assumpção, Beth Coelho (uma das dançarinas), Jô Soares (no tempo que ele ainda era legal) e sempre acho que vejo o Carlos Rennó numa cena de bar. A trilha sonora, assinada por Arrigo Barnabé, é de primeiríssima. Não faz muito tempo que arrematei esse vinilzão num sebo da Galeria. Mas já tive tudo gravado em alguma velha fitinha perdida. Destaque para “Pô, Amar é Importante”(Hermelino Neder); “Poema em Linha Reta” (Arrigo sobre Fernando Pessoa); “Mente Mente” (Robinson Borba), um dueto visceral entre Arrigo e Ney Matogrosso; “Pregador Maldito”, que surge no filme numa performance incrível da Patife Band. Aliás, encontrar o vinil “Corredor Polonês”, da Patife Band, é um dos meus objetivos musicais para 2013. Mas pra mim o tema “Cidade Oculta” é insuperável. Escrita por Roberto Riberti, Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin, é uma espécie de valsa noir, futurista e decadente, e capta perfeitamente o espírito do filme. É uma canção que me faz ter vontade de saber tocar piano, só para poder interpretá-la. Há uma cena passada num karaokê da Liberdade, onde um japonês cabeludinho canta um tema meloso, na língua do Ultraman. O figura é Rui Mifune, ou Goemon, seu nome artístico. Nos anos 80, lançou no underground paulistano a fita-demo “Levemente Perverso”, com as faixas: “Meu pornô-filme”, “Junkies - vida bagaço”, “Superstar” e “Harumy tchans”. Parece que ele lançou um LP nos anos 90, com títulos como “Cachaça, Rock e Banchá”, “De Porrada em Porrada” e “Paola, Travesti”. Vale procurar por aí. Mifune é da geração do Lira Paulistana. Morou anos no Japão e lá produziu discos e antologias de vários artistas brasileiros. Tocou com Itamar Assumpção e outros músicos da cena paulistana. No blog do Luis Nassif descobri que ele morreu em 2012. Confira a cena do karaokê abaixo. Depois de rever o filme também fiquei curioso por saber mais sobre Celso Saiki, que faz o Japa. Como disse, me lembro dele por aí na TV da minha infância/adolescência. Dei um google e descobri que, além de ator, Celso foi autor e diretor teatral , fundador do Grupo Ponkã, e diretor de vários episódios de Bambalalão, da TV Cultura. Ganhou prêmios teatrais e dirigiu espetáculos estrelados por Guilherme Karan, Luisa Tomé e Clodovil. No cinema também participou de “Gaijin”, de Tizuka Yamasaki. Morreu em decorrência da Aids, em 1994. O personagem Japa é um dos mais interessantes de “Cidade Oculta” e a interpretação de Celso é bem legal. Pra encerrar deixo uma versão de “Cidade Oculta”, com Arrigo ao piano. Antes de tocar ele fala um pouco da trilha sonora e rola um pequeno clip do filme.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

And now, cara-pálida

Em casa, terminando o ano, ouvindo Los Lobos e pensando em toda a merda e em todas as coisas boas que deixei de contar nesse blog. Acho que ninguém sentiu muita falta dos meus textos toscos. Curti, ainda curto, a ideia do blog, por mais fuleiro que ele seja. Na verdade, só deixei de escrever porque o trabalho foi monstruoso esse ano. E no pouco tempo que sobrou preferi ler, ouvir algumas coisas ou brincar com meu filho. Ou seja, sobrou para a escrita, para o blog. Também deixei uma tentativa de peça teatral inacabada. Pretendo dar um trato nela em breve. Não por achar que vai dar em algo. Mas é que eu tenho muita vontade de entregar ao ostracismo eterno um texto chamado “Julio Reny canta para os solitários”. Outra coisa que vai rolar é a chegada do filho novo. Será outro moleque. A ideia é investir na futura dupla sertaneja para garantir o whiskão da velhice do pai maluco. Tô brincando. Na verdade, além de desejar saúde pro novo filho (ainda não escolhemos o nome) espero que ele se livre das principais maldições sociais dos nossos tempos: gostar de música sertaneja, ser curintxano e militar na juventude do PSDB. Enfim, que ele seja alguém com quem dá pra dividir uma cerveja honesta no futuro. Já já o silêncio vai pras picas com os fogos artificiais. Só espero que em 2013 haja menos trabalho chato, mais grana, mais amor, mais estados alterados de consciência, mais livros, mais som, mais silêncio, menos obrigações sociais, mais putaria feliz, menos gente que se leva a sério. E que eu volte a escrever nesse bloguinho. Nem que seja pra ninguém. Ninguém é bacana. Trilha sonora: "When the Circus Comes" - Los Lobos

terça-feira, 6 de março de 2012

Um poema quase feito


Poema que eu não conhecia do velho Buk, roubado do blog do bruno bandido. Tá no livro "O amor é um cão dos diabos"

um poema quase feito

eu vejo você bebendo numa fonte com suas
minúsculas mãos azuis, não, suas mãos não são minúsculas
elas são pequenas e a fonte é na França
de onde você me escreveu aquela última carta e
eu respondi e nunca mais obtive retorno.
você costumava escrever poemas insanos sobre
ANJOS E DEUS, tudo em caixa alta, e você
conhecia artistas famosos e muitos deles
eram seus amantes, e eu escrevia de volta, está tudo bem,
vá em frente, entre na vida deles, não sou ciumento
porque nós nem nos conhecemos. estivemos perto uma
[vez em
New Orleans, metade de uma quadra, mas nunca nos
[encontramos,
nunca um contato. assim você seguiu com os famosos,
[escreveu
sobre os famosos, e, claro, descobriu que os famosos
estavam preocupados com a fama deles – não com a jovem e
bela garota em suas camas, que lhes dava aquilo, e
[que acordava
de manhã para escrever em caixa alta poemas sobre
ANJOS E DEUS. nós sabemos que Deus está morto, eles nos
[disseram,
mas ao ouvi-la eu já não tinha certeza. talvez
fosse a caixa alta. você era uma das melhores poetas e eu
disse para os editores, “publiquem-na, publiquem-na,
[ela é louca mas é
mágica. não há mentira em seu fogo”. eu te amei
como um homem ama uma mulher que jamais tocou,
[para
quem apenas
escreveu, de quem manteve algumas fotografias. eu poderia
[ter te
amado mais se eu tivesse sentado numa pequena sala
[enrolando um
cigarro e ouvindo você mijar no banheiro,
mas isso não aconteceu. suas cartas ficaram mais tristes.
seus amantes te traíram. criança, escrevi de volta, todos os
amantes traem. isso não ajudou. você disse
que tinha um banco em que ia chorar e que ficava numa
[ponte
e a ponte ficava sobre um rio e você sentava no seu banco de
[chorar
todas as noites e descia o pranto pelos amantes que
te machucaram e te esqueceram. escrevi de volta mas não
[obtive
qualquer retorno. um amigo me escreveu contando do seu
[suícidio
3 ou 4 meses depois de consumado. se eu tivesse te
[conhecido
provavelmente teria sido injusto com você ou você
comigo. foi mesmo melhor assim.

domingo, 4 de março de 2012

Cuando la crueldad no reconoce limites


Esqueça o Michael Jackson. Hoje foi dia de ver “Thriller –a cruel Picture”, filme sueco de 1974 que, ao longo dos últimos anos, adquiriu o status de cult para os apreciadores de filmes B. Acho que parte disso, se deve à homenagem feita por Tarantino à personagem principal do em Kill Bill, de certa forma revisitada pela personagem de Daryl Hannah.
Baixei “Thriller” e as informações que cito aqui estão no ótimo livro “Cemitério perdido dos filmes B”, de César Almeida, dono do blog “B Movies Box Car Blues”, linkado aí do lado.
O filme é produto da mente alucinada de um tal de Bo Arne Vibenius que, segundo César, chegou a trabalhar como assistente em alguns filmes de Bergman.
Vibenius quis fazer o filme mais comercial do mundo, reunindo elementos que arrastavam multidões aos cinemas: violência, mulheres bonitas, cenas de sexo e porrada.
Mas o filme saiu violento e doentio demais até para os padrões da liberal Suécia, onde foi proibido.
A história é a seguinte. Madeleine, uma garota muda desde a infância por causa de um trauma resultante de um abuso sexual, é sequestrada por um cafetão de luxo. Ele vicia a garota em heroína (perdi as contas de quantos picos há no filme) e obriga que ela se prostitua.
Com o tempo, Madeleine vai guardando a grana que recebe por seus programas e começa a preparar sua vingança com aulas de tiro e artes marciais.
Dentre as peculiaridades de “Thriller” estão as cenas de sexo explícito e o uso de um cadáver real na cena em que Madeleine tem seu olho arrancado pelo cafetão.
Apesar dessa podreira toda, o filme tem planos longos, bela fotografia e poucos diálogos, o que o aproximam visualmente dos chamados “filmes de arte” europeus.
As cenas da vigança de heroína, em slow motion, são um show à parte e seriam facilmente assinadas pelo próprio Peckinpah.
Segundo o livro de César, o filme foi editado e cortado de várias maneiras e exibido em vários países com diversos títulos diferentes. Mas hoje é possível achar a versão do diretor pela net afora. Interessante para quem quiser uma experiência cinematográfica estranha.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Under my wheels ou a miséria de nossas vidas parte 71



Under my wheels and far way
Uma mulher num navio fantasma
A boca de lobo que emana moscas
Um “desperado” de western spaghetti
Você me deixa nervoso e só me acalmo com o desfile de crimes no telejornal
Um projeto de lei, um atentado, um retrato falado
Diga adeus a seus adereços e sua jaqueta de couro
Estamos mais mortos que uma noite do deserto

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Carnaval com pedras e filmes

Que o carnaval é uma bosta todo mundo sabe. Pra mim, nesse ano, foi especialmente chato. Passei boa parte dele num hospital sem poder sequer ler durante a internação. O bendito Buscopan despejado nas minhas veias para controlar a minha enésima pedra no rim embaralhava toda a vista.
Mas ainda me sobrou a terça-feira que eu aproveitei muito bem. Consegui ver três filmes da leva que baixei do Arapa Rock Motor (com links aí do lado).
O primeiro deles foi “Foxy Brown”, clássico da blaxploitation de 1974, com a Pam Grier (que Tarantino resgatou do limbo em Jackie Brown) no auge da gostosura, desfilando pernas e peitos magníficos. É impressionante como o filme é violento para a época. Aliás, se fosse lançado hoje seria extremamente polêmico e levaria pauladas das vestais politicamente corretas. Uso de heroína e cocaína, estupro, um cara triturado pela hélice de uma avião, um queimado vivo e outro castrado pela Pam Grier, além de muita porrada e ofensas raciais.
Não conheço muita coisa da blaxpolitation. Já tinha visto “Coffy”, também com a Pam Grier. Gostei dos dois. Me lembram filmes policiais baratos que a Record exibia durante a semana, no fim de noite, lá pelo início da década de 80. O curioso é que esses dois que eu citei são dirigidos pelo diretor Jack Hill. Branco até o caroço.


Depois de “Foxy”, emendei com “Two Lane Blacktop”, de 1971. É a versão “muscle car” dos “biker movies”. Dirigido pelo esquisitão Monte Hellman, tem no elenco James Taylor (sim, sim, o cantor de “You´ve Got a Friend”), o canastrão mor de filmes B dos anos 70, Warren Oates e Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys. Além de uma ponta de Harry Dean Stanton como o caronista cowboy gay.
É um road movie estranhão, como tudo que vi do Monte Hellman. Mas é muito legal. Planos longos, uma América desolada, corridas de carro que parecem ser o objetivo de vida dos personagens mas que, quando são mostradas, parecem insignificantes diante do vazio da vida dos caras. Uma certa atmosfera de “sonho acabou”. Nos créditos, os personagens são identificados como The Driver, The Mechanic , The Girl e GTO (Warren Oates, identificado pelo modelo do carro). A sinopse no Arapa chama de “Road movie existencial”. O fim é do filme é do caralho. Recomendo muito.


Por fim, vi “When You´re Strange”, documentário sobre o The Doors, dirigido por um tal Tom Dicillo e narrado por Johnny Depp. Achei o filme muito foda. Várias imagens que eu nunca tinha visto, de shows e ensaios da banda. Várias coisas são interessantes no filme: uma tentativa de dissecar o som da banda, uma valorização da participação de John Desmore e Robbie Krigger e uma certa postura crítica em relação a Morrisson, muito comumente tratado como gênio ou “poeta maldito”. O documentário deixa tudo em aberto. Você pode achar Morrison um poeta angustiado e perturbado pelos seus próprios demônios ou simplesmente um rockstar narcisista que enfiou o pé na jaca do sucesso, como tantos outros.
Os Doors foram uma das bandas que mais ouvi na adolescência. Tinha montes de fitinhas Basf amarelinhas com os sons todos. Ouvi muito e a turma que eu andava na época também. Lembro de finais de semana na chácara de um amigo onde rolava muito Doors e Vodka Popov, a mais barata que havia. Muitos porres gestados numa atmosfera de “Break on the Trough”, em plena terra de Tonico e Tinoco. Bons e ingênuos tempos.
Acho que o bode com a banda começou junto com a febre desencadeada pelo filme do Oliver Stone. Aí virou meio carne de vaca demais. Tanto que hoje acho que tenho apenas dois Cds ao vivo do Doors e nenhum vinil. Mas sei cantar quase todas as letras mesmo sem ouvir há milênios. Depois do documentário fiquei com muita vontade de ter o “Morrison Hotel” e o “L.A. Woman”, principalmente. A música “L. A. Woman” é a minha preferida da banda. O vídeo postado era um clipe que tinha num VHS chamado "Dance on Fire" que aluguei mil vezes quando era moleque. O áudio desse VHS foi minha primeira fitinha dos Doors. Mr. Mojo Risin`!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dylan


Bob Dylan no Brasil em abril. Fiquei querendo torrar os trocos do pão nosso de cada dia e meter a cara. Gasto tanta grana com remédios e tal, por que não gastar vendo o cara mais foda de todos os fodas do rock? I ain´t gonna work on Maggie´s farm no more.
Minha primeira lembrança de Dylan é ver a capa de “Infidels” na saudosa Discoteca da Cidade. Também via aquela capa na casa de um primo meio hippie. Eu era moleque, metaleiro, fã do Kiss e do Iron Maiden. Dylan era um clássico que me deixava curioso, mas parecia “música de adulto” demais.
Até que um dia comprei aquela bela coletânea “Greatest Hits” num supermercado em São Vicente, do lado da casa de uma tia. Gostei de cara. Teve uma vez que a Bizz publicou um livrinho com várias letras traduzidas, se não me engano quando Dylan veio para o Brasil a primeira vez.
Outra lembrança forte é de uma fitinha com o “Before the Flood” que foi trilha sonora de uma tremenda dor de corno nos meus tempos de faculdade. Ouvia “Don´t Think Twice” e “Just Like a Woman” e me sentia um pouco vingado.
Nos tempos de faculdade também consegui coisas legais pra caralho numa loja de discos estranha que tinha perto da estação ferroviária de Bauru. Eram os idos de 92. Comprei lá, em vinil, o “Desire”, o “Live at Budokan” e o “Highway 61 Revisited”. Também comprei vários do Bowie nessa loja. Os discos pareciam novos, mas eram vendidos a preço de usados. Nessa época ouvia muito o “Nashville Skyine”. O dueto com Johnny Cash é de arrepiar até hoje.
Meus preferidos do Dylan são o “Desire”, o “Time Out of Mind” e o “Blood on the Tracks”, mas putaqueopariu, gosto de quase tudo do cara... o filme Don´t Look Back é do caralho, tudo dos anos 60 é foda. Gosto muito dos últimos discos também. Do “Time Out...” pra cá. Nos 70 e nos 80 tem umas coisas mais fracas, mesmo assim tem discos muito fodas, como os que eu já citei, o “Basemet Tapes” e o “Oh Mercy”.
Meu irmãozinho Pedro( the german caveman) me deu o “Crônicas” é eu devorei. É do caralhíssimo. Fundamental pra você entender a arte do cara. Comprei a biografia do Howard Sounes, mas ainda não li.
Na última vez que fui na Galeria do Rock, comprei uma caixa com os dois CDs e mais um DVD do Traveling Wildburys, a banda que Dylan teve nos anos 80 com George Harrison, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lyne. É muito legal também.
Se o mundo do rock está cheio de “guitar heros”, Dylan é o exemplo perfeito de “poetry hero” na música. Lembro de uma reportagem sobre ele numa velha Playboy cujo título era algo do tipo “Palavras com a força de um trovão”. Não sei se é isso mesmo, mas o fato é que seu texto pode ser incandescente, seja nas canções mais políticas, nas místicas/messiânicas ou nas de amor. Mesmo assim, o pé no aspecto mais tradicional da canção popular está sempre lá. O próprio trabalho com o Traveling Wildburys mostra isso.
Ouvindo os primeiros de Dylan, a série Bootleg e os discos “Good as I Been To You” e “World Gone Wrong”, além da leitura do “Crônicas”, dá Ra perceber o quanto o cara conhece da tradição musical americana. Dylan ouviu muito os mestres do passado e conseguiu, em certa medida, reinventar essa música. Isso não é pouca coisa.
Agora é esperar pra ver o preço dos ingressos e torcer pra não ter nenhum show desastroso de abertura. Lembro alguns casos clássicos de trapalhadas dos promotores em shows que vi: o patético Angra abrindo para o AC/DC no Pacaembu, em 1996 e um ex-sertanojo (Edson, Hudson, Ibson?) com uma bandinha cover do Guns and Roses (com vocalistinha de bandana e tudo) abrindo para o ZZ Top. Já pensou ver a Mallu Magalhães ou o Capital Inicial abrindo para Dylan? Um show do Julio Reny seria demais, né? Mais aí já é superfaturar o milagre...
Quem sabe, ainda esse ano, alguém se anima a trazer o Tom Waits, o Bruce Springsteen e o Leonard Cohen?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Poema pobre pensando em Sérgio Sampaio


Beatles nos fones de ouvido
Blues e diamantes sob os arcos da Lapa
Em velhos verões
Os navios fantasmas na Baía da Guanabara
Fogem dos olhos
Entre trevas, poemas e os gols do Fantástico
Um gosto de samba com sangue
De Copacabana até as sombras do mangue

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Embalosde sábado na madrugada



Depois que um pernilongo sugou meu sangue entupido de remédios por um dos dedos do pé resolvi levantar de vez da cama e levar minha agonia para perambular pela casa. Tive vontade de ouvir “Just Like a Woman” na bela versão do “Before the Flood”, mas o povo dorme aqui em casa. Um amigo arranjou um novo amor e isso me deixou feliz. Um novo amor em Viena parece até título de filme com o Fred Astaire. Por aqui, sigo e vou. Parece que tem uma espada atravessando meu pescoço. Ganhei um cd de relaxamento que, dizem, vai me ajudar. Mas eu não tenho coragem de colocar pra tocar um cd de relaxamento. Meus rins seguem aos trancos e barrancos. Faz calor pra caralho. O documentário sobre o Paulo Francis que acabei de assistir terminou de forma melosa e lamentável. Hoje tentei nadar à tarde mas não consegui. Tudo no meu corpo parece estar precisando de ajustes. Como se não bastasse a velha mente que não desliga e também não resolve porra nenhuma. Tenho vontade de ficar sozinho num mosteiro ou algo assim, isolado do mundo. Paira misteriosa a velha sombra. O trabalho começou e o bode também. As pessoas são capazes de ouvir uma música onde o cara se declara orgulhosamente “bruto, rústico e sistemático” e dispara, orgulhosamente e em mau português proposital, patadas em gays e mulheres. O Reinaldo Moraes tá certo. A carneirada ganhou o jogo. Eles não sentem mais vergonha de serem estúpidos e ignorantes. Agora ofendem quem ousa ser diferente. Lembro de um moleque de 22 anos que trabalhava ao meu lado me ridicularizando porque eu lia um livro. E pior! Um livro escrito por uma mulher! Era o “Só Garotos”, da Patti Smith. Acabo de ver um especial sobre o Chico Science na MTV e fiquei lembrando dos anos 90. Saudades de velhos amigos. Saudades das tantas coisas que não fui. Ainda não ouvi o vinil do Tom Waits que comprei num sebo da galeria. Comprei a trilha sonora de “Shaft” também. Baixei “Chet Baker in New York”, de 1958. No meio desse turbilhão mental misturado com decadência física acelerada, duas decisões: Vou retocar minha velha tatuagem e começar a ler “A abadessa de Castro”, de Stendhal. Amanhã jogo bola com meu filho no quintal até os 12 do primeiro tempo, que é enquanto aguento. Andei reouvindo Sérgio Sampaio por conta de um vídeo que vi no blog do Ademir Assunção. Parece que vai sair um documentário sobre ele que, aliás, é padrinho desse malfadado blog (vídeo abaixo). Um gênio perdido. Ouço as maravilhas que ele fez e fico imaginado o cara desfilando pelas ruas do Rio na década de 70. Tocando e tentando achar o seu lugar. A cidade maravilhosa alegre e também sombria naquele período. A música cheia de dor, beleza, humor e um lirismo intenso não cabia nos ouvidos do povão. Sampaio era e se considerava um cantor popular. E não bateu pro povo. Deve ter sido foda a trajetória de maldito até o fim. Faça algo de bom por você: saia daqui e vá ouvir Sérgio Sampaio! As pessoas são uns lindos problemas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um conto sobrenatural


Dança a menina ruiva, invocando coisas que já morreram. Alguém se cala e espera espíritos que já dormem a essa hora da noite. De olhos fechados e mãos atadas. Ruas, igrejas, pontos de ônibus e janelas apagadas temem que a ruiva abra sua caixa de segredos. Ela olha e percebe a tensão nos espíritos sombrios que testemunham sua dança. Então ela canta. Notas altas, linhas melódicas estranhas, luzes sobre a sua pele fria. Seu canto incita os cães e os amantes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Borges


Ando lendo Jorge Luis Borges e é sempre fascinante a sua capacidade de criar ou recriar universos. O livro que emprestei de uma amiga é uma velha edição do Círculo do Livro que reúne os livros “Elogio da Sombra”, “O Informe de Brodie”, “O Livro de Areia” e “História Universal da Infâmia”. Não faz muito tempo, li “O Aleph” e cheguei a escrever algo no blog. Alguns contos têm temática fantástica, outros são gaúchos e outros ainda são situados em momentos obscuros da história da humanidade. Dá pra notar que Borges era fascinado por história e por antigas narrativas ligadas outras culturas, principalmente as orientais.
O último conto que li foi “A Intrusa” que virou um filme interessante na década de 70, dirigido por Carlos Hugo Cristensen, com a Maria Zilda e o José de Abreu. A trilha sonora, se não me engano é do Piazolla. Quando eu era adolescente esse filme passava sempre na TV. Tem um clima estranho e frio, da desolação dos confins dos pampas. O conto de Borges é curto e direto. É mais fácil ler o conto do que ver o filme. Mas o filme vale a pena também.
“Elogio da Sombra” é um livro de poemas. Borges tem mais prestígio como prosador do que como poeta. Não cheguei lá ainda, mas dei uma olhada no prefácio, escrito pelo próprio autor, em que ele atende o pedido de seu editor e fala um pouco sobre sua estética. Achei interessante e reproduzo um trecho aqui:

Não sou possuidor de uma estética. O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras extravagantes; intercalar num relato rasgos circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que se a realidade éprecisa a memória não o é; narrar os fatos (isto aprendi de Kliping e das sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente; recordar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las. Tais astúcias ou hábitos não configuram certamente uma estética. Além do quê, descreio das estéticas. Em geral, não passam de abstrações inúteis”.

Na foto, Borges fotografado por Diane Arbus.

sábado, 3 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Vinil rides again



Dia desses, uma amiga que eu não via há muito tempo ligou em casa dizendo que estava voltando de uma viagem pela Europa tinha um presente pra mim do meu irmãozinho de copo e de cruz Pedro “the Caveman”, exilado na Alemanha desde não sei quando.
Estranhei o fato, afinal eu e Pedro mantemos contato freqüente por e-mail e, às vezes, pelo famigerado facebook. Pois bem, Pedro mandou pra mim um EP em vinil, maravilhoso, com quatro remixes malucos de “Palaces of Montezuma”, do Grinderman, a foderosa banda alternativa do Nick Cave.
O vinil é lindão, todo colorido, psicodélico e “Palaces of Montezuma”, que eu já postei, não sei se aqui ou no facebook é simplesmente a melhor canção de amor que ouvi nos últimos anos. Vale por um porrilhão de discos úmidos do Marcelo Dromedário. Dá um pouco de vergonha das coisas fofas que andam saindo na MPB. E olha que eu gosto da Tiê e do Jeneci. Mas a paudurescência nickcavernosa é “another bag”, como diria o Itamar Assumpção (só pra zonear de vez as referências musicais).
Muito bem. Diante de tão maravilhoso regalo, precisei me coçar e dar um jeito nos velhos aparelhos toca-discos, parados lá no quartinho dos fundos há uns dois anos. Criei coragem, fui lá, arrastei para casa um amigo fã de Elvis e integrante de uma dupla caipira, que tem uma eletrônica. Sei que ele não trabalha com as velharias, mas pedi que me ajudasse a dar um destino para meu som. Eram 4 toca-discos 3 em 1 parados. Falei: meu, desmonta tudo e faz um que preste.
Resultado: estou com dois aparelhos em pleno funcionamento, amplificados por um Gradiente velhão, do início da década de 70, que eu nunca tinha conseguida fazer funcionar. Cara...o som é outro. Meu brother Vinícius ficou de queixo caído na hora em que ouviu o som das velhas caixas “National”, esfarelando é verdade, mas com o som que vale por uma parede de “systems não sei o que” que você pode comprar nas Casas Bahia. Soltei o Talkin Book do Stevie Wonder. O sintetizador de “Superstition” no meu novo velho som dá vontade de chorar de tão maravilhoso.
E aí aconteceu. Me apaixonei pela minha velha e abandonada coleção de vinis. Ouvir jazz em vinil novamente...uau! Ainda não deu tempo de fazer isso, mas não vejo a hora. Não tenho muitos discos de jazz, mas o que tem é muito bom: Bill Evans, uma caixona da Ella, Freddie Hubard (“Backlash”, absolutamente sensacional), Dave Brubeck, Ornette Coleman, Dizzie Gillespie, Shorty Rogers, Sonny Stitt e outros. Além de uma daquelas velhas coleções da Abril Cultural com os tradicionais, de Billie a Satchmo, de Duke Ellington a Miles Davis. São uns dez discos, acho.
Não tenho muito blues em vinil. John Lee Hooker, B.B. King, algumas coletâneas, tipo as da Atlantic. Mas de rock tem coisa muito boa: “Four Way Street” e “Déjà vu”, alguns raros de Lou Reed, Paul Macartney e Neil Young, coleções, incompletas mas representativas, de Beatles, Stones, Dylan, Bowie, Kiss e até alguns remanescentes da adolescência metaleira: Iron Maiden, Slayer, Motorhead e os três primeiros do Metallica.
Minha história com os vinis começou aos 8 anos com um disco de Simon & Garfunkel que tenho até hoje. E até hoje me espanto com as grandes canções de Paul Simon. Depois veio a fase Kiss. Cheguei a vender meus discos da banda, mas anos depois recomprei tudo do cara que eu tinha vendido. Não me lembro bem, mas acho que ele teve um lucro considerável.
Vinil é do caralho. E o som dos velhos 3 em 1 são insuperáveis. Não falo daqueles aparelhos podreiras com agulhas de plástico que lançavam no final dos anos 80, nos estertores do vinil. Falho dos velhos 3 em 1 horizontais ou de módulos. Eu matava a saudade desse som na casa do meu compadre Txélos, em Londrina. Ele usa o velho 3 em 1 como amplificador de um pequeno toca discman e o som é glorioso!
Agora estou louco pra entrar uma graninha dos trampos aí pra eu ir às compras nos sebos novamente.
Abaixo, uma lista de dez coisas lindas de se ouvir em vinil:
1 – Stevie Wonder – os clássicos dele: Songs in the Key of Life, Talkin Book, Musico f My Mind
2- Otis Redding – tenho uma coletâneazinha
3- Freddie Hubbard – Backlash – você que me lê e nunca ouviu falar desse disco, acredite nesse velho e cansado rato de sebos: ouça essa porra!
4- Lou Reed – New York – O que são aquelas guitarras de “Romeu and Juliet” e do início de “Busload of Faith”?!
5- David Bowie – Hunky Dory – inteiro, todas as faixas, mas “Life on Mars” é de fuder.
6- Bill Evans e Herbie Mann – Nirvana – acho que nem está entre os melhores desses caras, mas o som é de arrepiar.
7- Bob Dylan – Desire/Blood on the Tracks – sem comentários
8- Beatles – Let it Be - foi o primeiro que comprei deles e tem aquele clima de ensaio em estúdio. “Two of Us”, “I´ve Got a Feeling” e “For You Blue”.
9- Cowboy Junkies – The Caution Horses – disco muito foda, com várias músicas excelentes e uma puta versão pra “Powderfinger”, uma das melhores músicas do Neil Young.
10- Caetano Veloso – Transa – um dos discos da minha vida. A melhor banda que já acompanhou um artista da MPB, com Jards Macalé na guitarra e Tuti Moreno na batera.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O anjo


Um anjo trincado e traído cruzou meu caminho numa dessas tardes de cidade do interior. Ele disse: “corações legendários não vão livrar sua barra no verão”. Dois tiros e anjo despencou do seu jardim suspenso sob o céu azul, diretamente para as formigas e a areia quente. Ainda guardo uma bala pra meter em alguma placa da estrada ou lâmpada de poste. Porque sou estúpido e místico e ainda quero te foder por amor. Quando acenderem as luzes da cidade e as famílias se enclausurarem temendo a noite, vou tomar o lugar do anjo. Escalar a torre da matriz e detonar os sinos sobre as sacanagens silenciosas de cada dia.

sábado, 3 de setembro de 2011

São Vicente


Sinto saudades do tempo em que eu ria com as comédias americanas. Agora meus sonhos imaginam a dor do peixe quando retiram suas escamas. Os pedaços brilhantes de tecido devastado pela lâmina. A solidão de minha mãe e o tédio do cão emparedado.
Perdi alguma coisa em algum dia ensolarado de trabalho honesto. E as moléstias aderiram ao meu corpo, como o calor do sol ficava na pele queimada depois da praia, em verões enterrados sete palmos abaixo do chão do quintal.
Em São Vicente. Em 1979. No tempo das comédias e dos desenhos animados. Uma mancha na parede gelo foi vida também e até voou. Amanhã sai com pano molhado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Thurston Moore

O novo cd solo de Thurston Moore é bom pra caramba.Segue aí um vídeo e uma letra. Vale conhecer o trabalho completo.

Blood Never Lies


Every time they come for you
You know it's time to run
Everybody knows it's true
How your love has come undone

Now he has his chance to take
And he will take you out of here
Take you to your secret state,
Where blood is light, blood is clear
Oh the blood is clear,
Oh the blood is clear

Every time they take you away,
He knows you're never gone
You know you stole his heart away,
And he falls into the freezing sun
Now he has to kidnap you,
And keep you bound in endless light

And you know he never lets you leave
'Cause blood is clear, it never lies,
Oh blood never lies,
Oh blood never lies

And you know he never lets you leave
'Cause blood is clear, it never lies
Oh blood never lies,
Oh blood never lies,

And you know he'll never let you leave
'Cause blood is clear, it never lies
Oh blood never lies
Oh blood never lies
Oh blood never lies
Oh blood never lies

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Jazz from hell ou... estou só tentando ser legal comigo mesmo esta noite


Eu não ligo mais para o que você fala.
Não me importo com o preço da gasolina ou com os filmes do Oscar.
Não gosto de circo, escolas de circo e odeio especialmente os malabaristas,
Estou cagando para galãs adolescentes, praias com ondas artificiais, o fim das estradas de ferro, a decadência do capitalismo, a revitalização do centro histórico, as pontes de alta engenharia, as cordas oxidadas do meu violão, os livros de história, o realismo fantástico e as patas leves dos políticos.
Se quiser me achar, estou sozinho no quintal.
Só me interessa o vento e o mato que cresce no meu quintal.
Mulheres jovens e movimentos sociais não me enganam mais.
Na música, nada foi melhor que Mingus.
Detesto padres.
Já estudei as teorias da comunicação e a legislação processual brasileira mas esqueci tudo.
Assim como esqueci o sabor de algumas bocas e as letras de todas as canções.
Os amigos morreram pouco antes do computador explodir.
Não há mais chance.
Não quero esperar por ninguém.
E que evaporem as feministas, o futebol, os workaholics, os objetos de decoração, os colares de sementes, os gordos tocadores de bongô, os quadros negros, as frases de efeito, os grevistas, os espíritos evoluídos, as bananeiras e tudo que puder ser classificado como monumental.
O resto é mar, diz a velha canção.
E o mar pode ser silencioso em suas profundezas.
Deixo a superfície para meu filho e para os que ainda acreditam no verão.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os infernos rock´n roll de Mario Bortolotto


Quem nunca na vida quis tocar numa banda de rock? Acho que esse desejo coletivo explica o sucesso do “air guitar”, provavelmente um dos esportes mais praticados no mundo e, sem sombra de dúvidas, o número 1 aqui em casa.
O ator e dramaturgo Mario Bortolotto gosta de música. Ele canta em duas bandas muito legais, a Tempo Instável e a Saco de Ratos. Mas o gosto pelo rock´n roll e o blues vai além. A música está muito presente em sua literatura também. Arrisco-me a dizer que se alguém definir Bortolotto como um “escritor rock`n roll” ele vai curtir ou, pelo menos, não vai ficar puto.
Em “DJ – Canções pra tocar no inferno”, o bluesman escritor dá uma de DJ literário e solta sua seleção de contos baseados em canções, algumas clássicas e outras obscuras, de gente como Ray Charles, John Lennon, AC/DC, George Thorogood e ...Ivan Lins. Sim...o integrante da trinca de chatos mais notória da MPB (com Guilherme Arantes e Oswaldo Montenegro – e o tal de Marcelo Camelo louco pra fazer parte) também teve uma música que virou conto. Como se deduz desse set list, além de visitar os infernos do submundo, da solidão e da miséria humana, Bortolotto não dispensa o humor nas pequenas narrativas.
Como em outros textos do autor, a força dos diálogos chama a atenção. Em “Stand By Me”, eles ressaltam o nonsense de uma cena pós-estupro. No delicioso “I Drink Alone” parece que dá pra ver o próprio Bortolotto aprisionado em um pesadelo com mauricinhos e patricinhas numa “baladinha” na Vila Madalena. Agora imagine uma mesa de bar no além, com Leminski e Itamar Assumpção batendo papo até a chegada de um verborrágico Wally Salomão em “Knockin on Heaven´s Door”. “Given the Dog a Bone” também está entre os mais engraçados.
Não sei se viajei demais na minha leitura, mas o humor, que sempre foi uma marca do autor, parece mais presente ou, de alguma forma, mais solto nos textos mais novos. A escória, o refugo das cidades, os amargurados e solitários estão lá. Mas de alguma maneira estão mais à vontade, menos armados do que acontece com os personagens de textos como “Homens, santos e desertores”, peça escrita em 2002. Isso não quer dizer concessão a nada. Talvez seja apenas um apreço maior pela comicidade, pelo absurdo.
E em meio ao turbilhão rock´n roll de Bortolotto surge um zumbido de algo novo na trilogia “O Evangelho segundo Madalena”. A ambientação dos textos nos bastidores de um time de futebol pequeno do Rio de Janeiro nos anos 50 soa incomum. Mas Bortolotto se sai muito bem, mostrando um dos aspectos que me atraem no seu trabalho (e na literatura em geral) que é dar voz, sentimentos e idéias a vidas aparentemente insignificantes. Li pela net que alguém comparou os “Evangelhos” a Rubem Fonseca da fase “A Coleira do Cão” e Bortolotto não apenas não negou como revelou ter lido tudo do mestre carioca.
Mas é o Bortolotto de sempre, em textos recheados de referências pop, com os absurdos, as dores, os amores, e todas as ocorrências repugnantes ou engraçadas, redentoras ou desvairadas que alimentam o brilho falso nos olhos dos homens. Dá pra ler inteiro numa madrugada insone. Como um bom disco de rock.
Escrito ao som de “Secret, Profane or Sugar Cane”, de Elvis Costello.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O primeiro festival de blues

Em 1989 eu tinha dezesseis anos. Foi o ano do primeiro festival internacional de blues, realizado em Ribeirão Preto, na Cava do Bosque. Fizemos uma barca eu, o meu cumpadre Txélos e os irmãos Fabrício e Sujeira que tinham família por lá.
Pegamos um ônibus e chegamos na cidade numa sexta-feira, fim de noite. Caminhamos da rodoviária até a casa em que ficaríamos hospedados. Fomos bem recebidos pelos avós de nossos amigos e aí começou o deleite. Fabricio e Sujeira tinham um tio que morava lá e, na época, estava viajando pela Europa. Fomos instalados no quarto dele.
O detalhe: o cara tinha a maior coleção de discos que já vi até hoje. Eram armários e armários, guarda-roupas e prateleiras cheias de som. 90% das coisas em vinil, mas ele já tinha muitos CDs. Nessa época acho que eu ainda nem tinha visto um CD. Ouvíamos os clássicos vinis e as infalíveis, ou melhor, muito falíveis, fitinhas cassete.
Foi, portanto, uma viagem absolutamente musical. Além do festival de blues, passamos todo aquele final de semana ouvindo sons, grande parte deles coisas sobre as quais eu já havia lido mas que na minha cidade simplesmente era impossível encontrar. Foi lá que ouvi Lou Reed pela primeira vez. Voltei pra casa com uma fitinha com o Legendary Hearts. Com o passar dos anos a fita acabou. Só recentemente eu baixei da net esse disco. Não é dos melhores do Lou Reed mas tem valor afetivo. Gosto de ouvir “Rooftop Garden” e outras para lembrar daquela época.
Também foi na casa do tio dos meus amigos que ouvimos Mutantes e Arnaldo Baptista pela primeira vez. Lembro que o cara tinha uma cópia do “Lóki” autografada pelo Arnaldo. Vai vendo. Voltei de lá com uma fitinha com “Mutantes e seus Cometas no País do Baurets”. Detalhe: acho que esses discos estavam totalmente fora de catálogo na época. Se não me engano, as reedições da Baratos Afins vieram um pouco depois.
Além desses sons o tio deles tinha uma coleção impressionante de rock progressivo. Discografias completas de Yes, Emerson, Lake & Palmer, King Crimson, Genesis, Pink Floyd, Jethro Tull e até bandas menos conhecidas como Gentle Giant e Focus. Esse tipo de som não me fez a cabeça na época e ainda não consigo engolir. Na verdade, gosto de muitas coisas do Pink Floyd e de algumas do King Crimson e do Jethro Tull. O resto é muito punheta. Yes é uma das piores coisas que existem sob o nome de rock.
Além dos grandes sons descobertos lá, teve o festival propriamente dito. Naquela edição, tocaram Buddy Guy, Junior Wells, Etta James, Magic Slim. O show que vimos teve André Cristovam abrindo e Albert Collins, "the master of the Telecaster" como atração principal.
O blues parecia que ia estourar no país. André Cristovam havia acabado de lançar “Mandinga” e o Blues Etílicos “Água Mineral”. Os dois discos se tornaram clássicos do blues nacional. Se não me engano, foram lançados pela Eldorado.
Lembro poucas coisas das apresentações. Havia um ótimo público e todos cantavam as canções do André Cristovam, principalmente “Mandinga”. Mas havia “Confortável”, versão para “Built for Confort” do Howlin Wolf, “Dados Chumbados” e uma que falava do roubo do Cristo Redentor.
Do show do Albert Collins lembro menos. A guitarrista base era uma menina loira de boina e o som foi muito mais pauleira do que no show do André Cristovam.
Mas foi uma viagem do caralho. Num período que ando louco pra viajar, sair da rotina e não tenho grana nem tempo é legal lembrar do Festival de Blues. Uma das tantas viagens musicais que fiz. Talvez a primeira. Elas sempre valeram a pena.
Abaixo, sons de André Cristovam e Albert Collins, só pra relembrar.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Grinderman II no talo


Em algum momento distante dos anos 80 minha mãe me presenteou com uma assinatura da revista Bizz. Na época eu era um fã de metal, punk rock, hardcore e todo o som que soasse minimamente violento nas caixas de som. Tocava bateria toscamente numa banda chamada “Podridão”. Além de covers de Cólera, Garotos Podres, Replicantes e Nuclear Assault, tocávamos nossas próprias pérolas de rebeldia juvenil. Me lembro de uma que começava assim “Mundo, te odeio/Mundo, não te quero/ Mundo, de você nada mais espero”. O título absolutamente criativo da canção não poderia ser outro: “Mundo Imundo”.
Pois bem, dito isso, já deu pra sacar que naquela época eu detestei receber em casa uma Bizz com o Cazuza, ainda na fase pré-Aids, na capa. Se não me falha a memória esse número da Bizz tinha matérias com Smiths, Echo and the Bunnymen e a então revelação Ed Motta, hoje considerado o irmão mais gordo e chique do Bolsnaro.
Do que eu me lembro com certeza foi que esse número da revista trazia uma matéria com um tal de Nick Cave, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Fui ouvir o som do cara algum tempo depois, mas me lembro de ter ficado impressionado com o que a matéria dizia. O cara era um australiano maluco que misturava o que havia de mais lúgubre no blues americano, com distorções pós-punk e letras carregadas de imagens que misturavam religião, crime, amor, morte, violência. Lembro que a reportagem também mencionava o fato de Cave ter lançado um livro com o espetacular título de “And the ass saw the angel”.
Depois da matéria da Bizz fiquei curioso pra conhecer o trabalho do cara. Havia música sobre violência, religião e morte fora dos gêneros mais porradas que eu adorava ouvir? Não me lembro exatamente quando fui ouvir o som de Nick Cave, mas aquela matéria da Bizz, assim como a tal assinatura da revista, ajudou a ampliar meus horizontes musicais para outros gêneros de rock.
Tenho em vinil, os clássicos “Tender Prey” e “The Good Son”. Em CD tenho o “Kicking Against the Pricks”, “Live Seeds” e “Murder Ballads”. Também lembro de ter visto “Asas do Desejo” , do Wim Wenders, no cinema. No filme rola um trecho de um show do Nick Cave.
Gosto do som do cara pra caralho e o mais impressionante é que ele continua mandando muito bem. O primeiro disco da sua nova banda, o Grinderman, é do caralho. Depois, Cave gravou mais um solo intitulado “Dig Lazarus! Dig” que também é excelente. De quebra lançou o romance “A Morte de Bunny Munro” que é desses livros que você devora em dois dias de tão legal.
No ano passado saiu o segundo disco do Grinderman e é Nick Cave de novo. Da melhor cepa. Além de várias músicas legais, recheadas de humor negro , romantismo trágico, imagens estranhas e paisagens sonoras pesadas, o disco traz pelo menos um clássico instantâneo. “Palaces of Montezuma” é desses petardos que te fazem acelerar mais quando ouvida no som do carro. Ouça a canção, preste atenção na letra e me diga se não é a maior canção de amor que alguém lançou nos últimos dez anos.
Mas todas as faixas são legais. O guitarrista Warren Ellis definiu o som como um encontro entre o stoner rock e Sly Stone. É pesado, é psicodélico, é ousado, a capa é demais e enfim... Nick Cave é muito foda. Por que ninguém traz esses caras pra Sampa? Pare de ler esse texto ruim e veja o vídeo abaixo com o som no talo. Rock`n roll can never die.

domingo, 8 de maio de 2011

Outras estradas de Kerouac


Acabo de ler “Anjos da Desolação”, de Jack Kerouac, lançado no Brasil pela L&PM. O começo do livro é um pouco difícil, como se nos contaminássemos com o desconforto do autor em sua cabana isolada nas montanhas, onde trabalhou como vigia de incêndios. Sob o pretexto de refletir, vivenciar a experiência da solidão, Kerouac parece nervoso como se calafrios lhe oprimissem a medula. É desconforto, mais do que reflexão. É como se seu olhar, aparentemente cansado de chão, também tivesse dificuldades para encarar o turbilhão interno.
O poeta desce da montanha e cai na estrada e o livro também cresce. Kerouac volta a viajar pela América mítica, depois México, Tânger, Paris até a volta a Nova Iorque. E aí vai apresentando as histórias que queremos ler de suas aventuras ao lado de Ginsberg, Corso, Burroughs, Neal Cassidy, suas mulheres e outras figuras da época. Viagens de poetas que mastigavam a vida com dentes vorazes e hoje nos soam muito românticas.
“O mistério corria pelas ruas em chamas” mas o autor começa da dar sinais de cansaço, falando em se proteger do caos da sua vida estradeira. Começa a desejar um pijama, uma varanda, silêncio em manhãs frias com a mesma sofreguidão de seu apetite por caminhos desconhecidos.
Nunca fui um grande leitor de Kerouac. Li “On the Road” mil anos atrás, alguns textos esparsos e, mais recentemente, “E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques” e “Visões de Cody”. Do que eu li, foi o texto em que ele escreve mais diretamente sobre o isolamento em que se meteria até o final da vida, longe dos velhos companheiros de labaredas memoráveis.
O texto livre de Kerouac é sempre interessante e algumas passagens das viagens são fantásticas. Vale a pena, de qualquer maneira. Como sempre, estrada, amor e poesia. No que isso tem de prazeroso e perturbador.

domingo, 1 de maio de 2011

Wendy, Wendy


Eu, esquecido no sonho
Imaginando onde sua loucura realmente se esconde
Você, fora da minha estrada
Arranca amor dessa procura

Juntos, cegos, andamos na cidade congestionada
Queremos a glória das mansões que queimaram
Nascemos presos a máquinas de suicídio
Fugimos para caçar névoas, praias, ossos e navalhas
Jovens vagabundos derrotados por armadilhas de veludo
Crianças, sem pensar na sujeira da noite,
Tentamos outro negro alvorecer
Fugindo da tristeza

domingo, 27 de março de 2011

Pensando em Kerouac



A vida é um pingo de chuva no mar
Mesmo assim, viver é desejar
O outro, seu corpo, sua mente
Sempre pergunto a Deus o porquê
Mas nunca tive uma resposta decente

quarta-feira, 9 de março de 2011

Patti Smith - Só Garotos


Li "Só Garotos" e achei do caralho. No entanto, fiquei enrolando para escrever algo aqui no bloguinho. Até que li um puta texto no blog Magic on Sundays, da jornalista rock´n roll Renata D`Elia (não é acento agudo, é apóstrofe!). Ela é especializada em cultura e escreveu tudo o que eu queria, com muito mais competência, evidentemente: "Poucos meios são maiores do que o punk e as palavras de Patti Smith para dar conta de tamanha intensidade de vida, do mais solar ao mais sombrio dos humores".
O link para o Magic On Sundays tá aí do lado. Sempre vale a pena visitar.
O texto da Renata segue abaixo, com um som de brinde.

Amo Mapplethorpe. Suas fotos de trevas e luz, seus homens-escultura mais que vivos, suas flores fálicas sobre fundos profundamente negros, sua dicotomia explosiva, demoníacos olhos verdes e seu materialismo cruzado com o mais divino e profano erotismo em algum lugar reprimido dos nossos subconscientes. Também amo Patti Smith. Sua magreza andrógina, cabelos desgrenhados, sua voz de natureza ctoniana, o rock brutal, sua beleza descendente de Baudelaire & Rimbaud. Poucos casais do mundo da arte me parecem tão alquímicos, indissolúveis e ao mesmo tempo tão próximos de seus interlocutores. São irmãos de alma e também nossos irmãos.


Ouço Patti Smith e vejo Mapplethorpe sem separá-los, com todas as suas diferenças. Apesar da crueza de suas obras -- ela em poesia e rock n' roll, ele em fotografia e alguns desenhos -- ambos despertam em mim uma espécie de simpatia pelos jovens artistas, sempre confusos e esfarrapados, que dividem com a gente o banco do metrô. O tipo de gente estranha para quem sorrio na rua e acabo trazendo, com todo rol de problemas e loucuras, para dentro de minha vidinha observadora. Ela muito irreverente, com todo o arcabouço poético. Ele meio perigoso, com toda provocação inconsequente.


Não que tenha sido tanta surpresa, mas tudo isso fica muito melhor em livro, contado pela personagem principal. Estou falando de "Só Garotos" (Companhia das Letras, com boa tradução de Alexandre Barbosa de Souza), obra memorialística de Patti Smith em homenagem a Robert Mapplethorpe, morto em decorrência da AIDS em 1989. O livro ganhou o National Book Awards, um dos prêmios máximos da literatura norte-americana, em 2010. Com isso, aproximou pedaços incríveis da história da arte no século 20 de quem nunca levou Patti Smith ou Mapplethorpe muito a sério.


Patti faz um relato fluído, afetuoso e recheado de historietas de bastidores sobre a formação de toda uma geração de artistas com embrião na década de 1960, mas que só explodiram 10 anos depois. A Nova York do Hotel Chelsea -- que já abrigou e foi frequentado por Janis Joplin, Chales Bukowski, William S. Burroughs, Iggy Pop, além de Patti , Robert e outros -- é apresentada pelo olhar da artista que dormiu na rua, passou fome, e chegou a ganhar um sanduíche das mãos de Allen Ginsberg após ser confundida com um garoto. O rock de Bob Dylan, The Doors e dos Rolling Stones figura como parte central da história dos Estados Unidos, o pano de fundo perfeito para a formação de Patti muito antes de montar seu "Group" e botar abaixo o público do velho CBGB, verdadeiro berçário do punk.


A coleção de fotos e raridades como poemas e desenhos é das mais completas. Há também muitos insights e esclarecimentos. Quer saber quando Patti Smith percebeu que podia fazer rock n' roll? Está lá. Quer saber como Robert descobriu a fotografia e como ele se flagelou mentalmente até que isso acontecesse? Está lá também. O livro não substitui peças importantes para dissecar o surgimento do punk, o submundo novaiorquino e a turma de Andy Warhol, mas é parte fundamental disso. Dialoga diretamente com "Please, Kill Me" de Legs McNeil e Gillian McCain e vai muito além quando se trata da "cola mágica" que une duas pessoas predestinadas a serem fundamentais uma para a outra. A homossexualidade de Robert -- que foi namorado de Patti -- e seus conflitos pela origem familiar católica e conservadora de Staten Island é tratado de maneira muito mais sutil do que na biografia "Mapplethorpe", da jornalista Patricia Morrisroe (Editora Record, esgotado), que, aposto, injetou em Patti uma bela dose de raiva-motor para que contasse sua versão da história.


Há pelo menos uma diferença básica entre as Patricias. Morrisroe parece particularmente interessada nas motivações sexuais perversas que levaram um Mapplethorpe "desafiadoramente sincero nas entrevistas" à sua representação incômoda do universo sadomasoquista gay de Nova York e da beleza negra masculina como "objeto inferior". Smith, por sua vez, se empenha em humanizar a figura "arisca, provocadora e insegura" descrita pela xará. Enquanto a "falta de rigor técnico" de Mapplethorpe é forçadamente explicitada pela jornalista, a inspiração e o talento nato são naturalmente exaltados pela companheira de jornada.


São diferentes também as versões sobre a célebre foto da capa do álbum "Horses" (1975), de Patti Smith, feita em Manhattan, no apartamento de Sam Wagstaff, um judeu riquíssimo que foi amante, mentor e marchand de Mapplethorpe por pelo menos 10 anos. Não vou estragar a surpresa. A versão de Morrisroe, está aqui. A de Patti Smith você lerá num dos melhores livros dos últimos tempos, direto do planeta em que os amantes determinam a vibração energética das noites. Poucos meios são maiores do que o punk e as palavras de Patti Smith para dar conta de tamanha intensidade de vida, do mais solar ao mais sombrio dos humores.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bukowski e o caderno manchado de vinho



Li “Cartas na Rua” com os meus 14 ou 15 anos de idade numa edição do Círculo do Livro. Nunca havia ouvido falar em Bukowski, mas me interessei pela sinopse publicada na saudosa “Revista do Livro”. Eu já tinha um gosto pelas coisas meio “gauche” na vida. Já tinha lido “Feliz Ano Velho” do Marcelo Rubens Paiva que foi o livro que despertou em mim e, creio eu, em alguns amigos daqueles tempos, a vontade de ser algo mais do que qualquer coisa que as mães planejassem para os adolescentes da vila em que eu cresci.
Eu e alguns desses meus amigos demos muitas voltar por aí. Talvez hoje todos sejamos a tal coisa que as mães planejaram. Mas pelo menos crescemos com o gosto pela experimentação. E experimentamos. E curtimos. Não sei se meus velhos chapas vão concordar com minhas interpretações do que aconteceu nos nossos felizes anos velhos. Qualquer dia escrevo sobre isso. Voltemos ao velho Buk.
Pouco tempo depois li “Mulheres”, na tradução do Reinaldo Moraes, publicado pela Brasiliense numa série de livros eróticos denominada Brasiliensex. Além de enredo para centenas de punhetas, “Mulheres” serviu para abrir minha percepção para a poesia amarga por trás da prosa seca e endiabrada de Bukowski. E fiquei fã do cara. Nem li tantos livros dele assim, mas é sempre um autor que me empolga.
Bukowski hoje tem uma aura de rock star entre uma certa galera. Seu nome trafega pelos papos das mesas dos bares rock´n roll ao lado de Keith Richards ou Jim Morrisson. Eu mesmo tenho uma camiseta com a cara dele. Mas o velho estava em outra. Bukowski gostava mesmo é de música erudita, tão importante pra ele quanto o goró, as corridas de cavalos e as mulheres. Mais importante que tudo isso, a literatura.
O velho escreveu muito. Poemas, contos, romances, resenhas de livros e até uns ensaios meio toscos sobre literatura. “Pedaços de um caderno manchado de vinho” tem um pouco disso tudo, menos os poemas.
São textos menos conhecidos publicados em revistas, desde as de literatura até as pornô, além de prefácios, colunas de jornais, enfim material esparso, agora devidamente reunido à sua obra.
Gostei de ler “Pedaços de um caderno manchado de vinho”, principalmente as reflexões sobre literatura. Bukowski se diz fã de Celine, Dostoiévski e, principalmente Turgueniev. Gosta de Allen Ginsgerg, tem uma relação ambígua com Hemingway e detesta Faulkner. Confesso que não sabia dessas opiniões. O que sei é que Bukowski é bom pra caralho.
Transcrevi três pequenos trechos abaixo. Selecionei outros mas fiquei com preguiça de digitar aqui. É o Chinaski de sempre:

“Bêbado outra vez num quarto do tamanho de um pacote de biscoitos, sonhando com Shelley e juventude, barbudo, um filho da puta desempregado com uma carteira cheia de bilhetes premiados tão impossíveis de reembolsar quanto os ossos de Shakespeare. Todos odiamos poemas de comiseração e lamúrias de um pobre sofredor – um bom homem pode vencer qualquer parada e saudar a prosperidade (assim nos disseram), mas quantos homens de valor você consegue apanhar num jarro hermeticamente fechado? E quantos poetas de qualidade você consegue encontrar na IBM ou roncando sob os lençóis de uma prostituta de cinqüenta dólares? Mais homens de valor morreram pela poesia do que todos os seus campos de batalha de merda; então se eu cair de bêbado num quarto de quatro dólares: você já ferrou com sua história – deixe que eu me vire com a minha”.

E tendo observado meu pai, aquele monstro brutal que abastardou minha experiência sobre esta triste terra, percebi que um home podia trabalhar a vida inteira e ainda assi continuar pobre; seus vencimentos se consumiam na compra de coisas que ele precisava, pequenas coisas, como automóveis e camas e rádios e comida e roupas, pelas quais, como as mulheres, pediam mais do que valiam e o mantinham pobre, e até mesmo seu caixão foi um ultraje final à decência: toda aquela bela e lustrosa madeira para os cegos vermes do inferno”.

“Estamos cercados pelos mortos que ocupam posições de poder porque, de maneira a obter esse poder é necessário que morram. Os mortos são fáceis de encontrar – estão por toda a parte a nossa volta; a dificuldade está em achar os que estão vivos”.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O barulho da alma


Se o U2 fez alguma coisa que presta para a história do rock foi apresentar Daniel Lanois, produtor de alguns de seus discos de sucesso, a Bob Dylan. Lanois foi a mente diabólica por trás do som, ao mesmo tempo etéreo e áspero, de “Time Out of Mind”, um dos melhores discos da carreira de Dylan.
Em 2010, foi a vez de outro gigante do rock´n roll trabalhar com Lanois. O produtor ajudou Neil Young a alcançar momentos de beleza visceral no seu CD lançado no final de 2010. “Le Noise” faz um trocadilho com o nome do produtor e escancara a influência de Lanois na hora de “pensar o som” que o artista deseja alcançar. Sobre isso vale ler o “Crônicas”, do Dylan, que conta um pouco do trabalho que os dois realizaram em “Oh Mercy”.
Voltando ao Neil, ele é um dos grandes poetas solitários do rock, ao lado de Dylan, Lou Reed, Leonard Cohen, David Bowie, Tom Waits e alguns poucos outros. Artistas que construíram obras grandiosas e radicalmente pessoais, incluindo aí as contribuições milionárias dos erros. Em “Le Noise”, Neil Young radicalizou. Fez um disco usando sua voz e suas cordas, a guitarra elétrica gravada em camadas de efeitos ou o violão folk, mais tenso do que suave.
As resenhas falam em surpreendente, inovador, perturbador. O problema é que esses adjetivos estiveram por tantas vezes relacionados à obra do velho bardo canadense que dá pra dizer que “Le Noise” é mais um Neil Young dos bons. E isso é muita coisa.
Dizem que o disco foi concebido originalmente como acústico e que o Lanois teria convencido Neil a usar os feedbacks, ecos, delays e reverbs eletrificados. Méritos para ele. Essa transtornada no som tem tudo a ver com a fúria e a poesia da música de Neil Young. É o sol causticante nos desertos da America ou do Oriente Médio, é um céu despedaçado de prenúncio, um horizonte sem fim, flores nascendo nas ranhuras do asfalto, a dimensão confusa do demasiadamente humano. Uma roupagem nova e perfeita para tudo aquilo que já ouvimos tantas vezes no som de Neil.
A abertura com a nervosa “Walk With Me” é impressionante. É um convite, ou melhor um apelo, para a caminhada dura da vida, evocando os amigos que partiram, como o guitarrista Ben Keith, seu parceiro de décadas. Em meio aos ruídos ele canta: “I lost some people I was travelling with me/I missed a soul in the old friendship”.
Também gosto muito de “Angry World”, melodia simples e direta soterrada por guitarradas violentas. E a voz que emerge forte para refletir sobre as expectativas e os perigos da vida.
“Love And War” e “Peaceful Valley Boulevard” são as duas em que o violão aparece. Gosto especialmente da segunda, balada com letra longa. O poeta observando a terra nua ser tomada pela voracidade do homem. Linda melodia.
Há ainda a agressiva “Hitchhiker”. A tensão predomina. É Neil sozinho e o peso vale por dez bandinhas de rock atual. De quebra, rola uma citação de “Like na Inca”.
O barulho anunciado no título do disco vem menos das caixas de som do que do turbilhão que agita o coração do velho trovador. É Neil Young, seis cordas e a poesia que grita. Meu conselho: pare de ler essa bosta e compre ou baixe o disco agora.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Minha 59ª fratura



Teve aquela vez em que minha raiva foi vencida pela fidelidade de alguém
Quando os ossos do sol desabaram na minha cabeça doeu menos
Teve uma tijolada na têmpora
E cacos de vidro na uretra
Cada vez que optei por não escolher foi uma
No fim da noite algo começou a dilacerar a carne
Pela manhã estava exposta
Vou esfregar sal grosso e aplicar um larvicida
Para continuar procurando pássaros da janela do meu quarto

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

...y seguindo la canción



No final de 2010, o velho papa do punk brega colocou mais esse trabalho na praça. “Caminando y Cantando” é o sexto álbum de estúdio de Wander Wildner. O release diz que o álbum é inspirado na sua recente andança por Buenos Aires, Montevideo e Berlin.
Na Alemanha, aliás, Wander teve a felicidade de cruzar o caminho do meu little brother Pedro que, para variar, deu uma de Pedro com ele ao chegar pro cara antes de um show numa livraria berlinense e dizer “achei sua música nova meio bobinha”. Como se não bastasse, o Pedro sentou bem na frente do palco e ficou gritando coisas como “O sol se foi”, “Fumá um paião”, frases que o Wander fala na gravação de “Albert Einstein”, do CD “Buenos Dias”. Acho que nem as cerca de dez pessoas presentes no show e nem o artista entenderam nada. Depois o Pedro ainda ficou chateado porque ele não tocou “Albert Einstein”.
Conhecendo my little brother de longa data, deve ter sido a cena mais hilária e constrangedora que Berlin viu desde o último fio da terra da Eva Braun em Adolf Hitler. Depois ele se explica nos comentários ou pelo menos conta pra gente o que ele tomou. Ah... pra completar a festa parece que o Pedro levou no show um outro brasileiro exilado em Berlin, um mineiro fã do Clube da Esquina que ficou amaldiçoando a coisa toda... Mais uma das grandes histórias do Pedro. Ele é que devia ter um blog pra nos contar suas incríveis aventuras. Sorry, brother. Eu tinha que contar essa.
Mas voltando ao que interessa, o disco novo do Wander é legal pra caralho. Sou suspeito porque gosto do cara desde os tempos dos Replicantes. Quantas vezes não ouvi “Festa Punk” ou “Sandina” no quartinho dos fundos da casa do Txélos. Nossa bandinha punk, que transtornava os vizinhos lá pelos estertores dos anos 80, tocava “Nicotina”. Até hoje, de vez em quando, peço pro Txélos tocar “Astronauta” quando nos encontramos e há um violão por perto. O Julio Reny também gravou “Astronauta”, mas a versão dos Replicantes é insuperável.
De alguma maneira “Astronauta” já tinha os elementos que formaram o punk brega do Wander Wildner. É uma música que caberia tranquilamente na sua carreira solo. Mas por falar em punk brega, “Caminando y Cantando” tem vários momentos que não se enquadram nesse conceito. Coisas mais folk como “As Coisas Mudam”, composta por Wander e baseada no maravilhoso filme “Pequeno Grande Homem” de Arthur Penn, com o Dustin Hoffman e a Faye Dunaway deslumbrante. É um daqueles westerns tardios, feitos no final dos anos 60 ou início dos 70, que eu gosto pra caralho, como “Butch Cassidy” e “The Wild Bunch”. O filme mostra a batalha de Little Big Horn em que os índios liderados pelo Touro Sentado deram um pau histórico na cavalaria americana, matando inclusive o famoso General Custer. Vejam o filme. É fácil de achar por aí.
“Dani” é uma balada bonita composta por Jimi Joe, parceirão do Wander e figura importante do rock gaúcho. Quando vi o show do Wander no Abril Pro Rock em sei lá que ano, o Jimi Joe estava na guitarra. Wander se apresentou dizendo “Nós somos a banda de Jimi Joe”.
“Boas Notícias” foi composta por Gustavo Kaly, autor de “Um Bom Motivo”, gravada por Wander no seu disco anterior e uma das músicas mais legais do repertório do trovador gaúcho. Ouvi “Bom Motivo” pela primeira vez no show Sub Versões que vi com a Aline em Sampa. Wander tocou no barzinho sozinho com sua guitarra e nós sentamos bem perto do palco. Aliás, não tinha palco. Era um banquinho e microfone. O show foi do caralho. O Xico Sá estava lá com uma alcatéia de mulheres feias. O refrão “Me dê um motivo pra não cheirar cola esta noite” ficou na cabeça por meses. O povinho do trampo achava que eu era louco de cantar isso. “Boas Notícias” também tem um bom refrão e uma parte da música que fala “Aí fudeu, aí fudeu” que eu não consigo parar de cantar para desespero da Aline que teme que nosso filho repita. Ele ainda não repetiu.
Um lance muito presente nesse novo disco são as influências setentistas. Wander gravou dois clássicos da época das “boca de sino”. Duas canções viscerais que eu adoro. Não dá pra comparar com as versões originais, mas achei legal ele gravar porque deve estar apresentando “A Palo Seco”, de Belchior e “Viajei de Trem” do Sérgio Sampaio a um público novo. Nada mais Wander do que cantar “Por força desse destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues”. “Clo” é uma setentista do grupo gaúcho Almondegas. Bacana também.
O lado punk brega, cada vez mais brega e menos punk, com direito a “espanhol selvage” e tudo o mais surge em “A Razão do Meu Viver”, “Puertas y Puertos”, “Pra Ti Juana” e “Calles de Buenos Aires”.
Por fim, há uma versão de “Amor e Morte” de Julio Reny. Nada demais com essa versão, mas é sempre uma canção de Julio Reny.
É o velho Wander. Cantando por las carreteras. Sobrevivendo às dores de amores, às noitadas, às viagens, ao Pedro e espalhando cometas e meteoros sonoros para os corações apassionados.
Achei no youtube imagens de um show do Wander numa livraria em Berlin. Será que ouvi a risada do Pedro?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Forró de janeiro – Guarujá, filmes & Heitor


Não vou escrever sobre a tragédia das chuvas pelo Brasil. Janeirão é sempre foda. Todo ano a mesma coisa. Cancelamos nossos dias de férias no Guarujá porque a cidade passa por um novo surto de diarréia. No ano passado sobrevivemos a um desses surtos passando um dia num hospital entupido de gente com nosso filho, na época com um ano e meio. Não dá pra submeter o moleque a esse risco novamente.
Pensando no Guarujá e nessas porras de enchentes não dá pra não imaginar como serão as coisas daqui há...sei lá... 40 anos. Veja só, 40 anos não é muito tempo. Eu ouço muita música e vejo filmes feitos há quatro décadas ou mais. Eu tenho quase 40 anos. A maioria dos meus amigos também.
Acho que a imagem é batida, mas é inevitável não pensar na humanidade como um câncer tomando um organismo. Mais gente, mais áreas impermeabilizadas, mais construções irregulares. Gente faz metástase. Vai cobrindo todas as áreas possíveis. É terrível. Imagine uma cidade do litoral, totalmente plana. É uma área no nível do mar coberta por tijolos, concreto, ferragens e asfalto. Milhares de pessoas se instalam em cima e seguem produzindo lixo e dejetos até o subsolo estar saturado e regurgitar a merda toda de volta.
Bom, deixando os dejetos todos de lado, os dias de janeiro tem sido mais tranquilos no trabalho. Finalmente consegui ver “Crazy Heart”, com o Jeff Bridges. Gosto desses filmes “pequenos”, baixo orçamento, histórias de gente comum. O filme é simples e bonito. O Robert Duvall é foda, no seu pequeno papel do caipira dono do bar. Que puta ator! As cenas dos bares onde Bad Blake toca atiçaram uma velha vontade. Voltar para os Estados Unidos. Levar a Aline pra conhecer Nova Iorque. Rodar por Memphis, Nashville e quem sabe pelo velho sul. O objetivo é ouvir blues, country, folk, jazz e viajar naquelas estradas míticas. Quem sabe um dia a grana dá...
Vi também “Milk” com o Sean Penn quebrando tudo. Gosto desses filmes com histórias verdadeiras. Acho que peguei isso da minha mãe. Quando víamos filmes na TV em tempos pré-videocassete, lembro dela avisar que ia passar um filme baseado numa história real. Como se isso desse ao filme uma certa distinção. Esses dois filmes serviram para diminuir, apenas um pouquinho, a imensa defasagem cinematográfica em que estamos mergulhados.
Em meio às notícias do fechamento do Belas Artes, consegui ir ao cinema uma vez em janeiro. Fui com my baby ver o argentino “Abutres” lá na Augusta. Gostei bastante do filme. O foda é o Ricardo Darín. É bom ator, mas ta começando a enjoar. O cara é o Wilson Grey da Argentina. Parece que ele está em todos os filmes de lá.
Ataquei a minha modesta “DVDteça” e consegui ver ou rever do finalzinho de 2010 pra cá: “Cães de Aluguel” (Tarantino), “Os Imperdoáveis” (o velho Clint), “Era Uma Vez no Oeste”(Sergio Leone, absolutamente genial), “Bagda Café” (Percy Adlon), “Um Homem, Um Cavalo e Uma Pistola”(Spaghettão B), “Django” (Spaghettão B), “Matá-lo” (Spaghettão B doentio), “Galo de Briga” (Monte Hellman, com Warren Oates), além dos documentários sobre os Ramones (“Ramones Raw”) e Johnny Thunders (“Born to Lose”).
Vi também “Forever” do Walter Hugo Khoury, no Canal Brasil. Gosto dos filmes do Khoury. Aquele ritmo lento, a tensão sexual, os instintos animais em meio ao luxo da alta burguesia paulistana. Sempre me interessa como ele mostra a cidade de São Paulo e os ambientes internos, cheios de sombras. Tem gente que não suporta. Eu sempre acho interessante.
Falando em literatura, passei janeiro relendo “O Corcunda de Notre Dame” do Vitor Hugo. Ainda não terminei. Mas é bom pra caralho. O “Estranhos Sinais de Saturno” do Piva tá sempre na cabeceira para doses de poesia a qualquer hora. Encomendei o livro da Patti Smith e o “Anjos da Desolação”, do Kerouac. Mas antes deles quero ler o “Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho” do velho Buk.
Por fim, ficamos sabendo que o mais novo representante da curriola em Londrix vai se chamar Heitor. Boa escolha do casal T & T. Lembrei de um amigo da faculdade de Direito que tinha esse nome. Meus amigos de copo e de cruz eram todos da faculdade de jornalismo. No Direito, tinha alguns caras legais, mas o único que dividia o gosto pelas substancias alteradoras de consciência era esse cara. Que de quebra ainda tocava várias dos Beatles no violão.
Lembro dele passar nos domingos de manhã em casa, com seu fusqueta branco, me buscar pra jogar bola com uma turma de evangélicos que ele conhecia não sei de onde. Íamos os dois fominhas destruídos pela ressaca e eu ainda era o Pelé do jogo. Naquele tempo não tinha virado moda ser evangélico. Tinha uma meia dúzia de pernas de pau, ou bagres, como a gente dizia na Vila Maria. E eu que sempre fui um futebolista nota 5, acabava com o jogo no meio dos perebas de Cristo. De quebra, às vezes ele aparecia lá em casa com seu violão pra mostrar a nova que ele tinha tirado dos Beatles e mandava alguma obscura tipo, sei lá... “Rocky Racoon”. Boas lembranças.
Heitor dos Prazeres é um grande mito do samba carioca. Que o nosso pequeno paranaense viva uma vida de muitos prazeres. O tiozão, que vai ajudar a estragar o moleque, não pode desejar coisa melhor. Em sua homenagem, ouço um Tim Maia clássico aqui.