terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um conto sobrenatural


Dança a menina ruiva, invocando coisas que já morreram. Alguém se cala e espera espíritos que já dormem a essa hora da noite. De olhos fechados e mãos atadas. Ruas, igrejas, pontos de ônibus e janelas apagadas temem que a ruiva abra sua caixa de segredos. Ela olha e percebe a tensão nos espíritos sombrios que testemunham sua dança. Então ela canta. Notas altas, linhas melódicas estranhas, luzes sobre a sua pele fria. Seu canto incita os cães e os amantes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Borges


Ando lendo Jorge Luis Borges e é sempre fascinante a sua capacidade de criar ou recriar universos. O livro que emprestei de uma amiga é uma velha edição do Círculo do Livro que reúne os livros “Elogio da Sombra”, “O Informe de Brodie”, “O Livro de Areia” e “História Universal da Infâmia”. Não faz muito tempo, li “O Aleph” e cheguei a escrever algo no blog. Alguns contos têm temática fantástica, outros são gaúchos e outros ainda são situados em momentos obscuros da história da humanidade. Dá pra notar que Borges era fascinado por história e por antigas narrativas ligadas outras culturas, principalmente as orientais.
O último conto que li foi “A Intrusa” que virou um filme interessante na década de 70, dirigido por Carlos Hugo Cristensen, com a Maria Zilda e o José de Abreu. A trilha sonora, se não me engano é do Piazolla. Quando eu era adolescente esse filme passava sempre na TV. Tem um clima estranho e frio, da desolação dos confins dos pampas. O conto de Borges é curto e direto. É mais fácil ler o conto do que ver o filme. Mas o filme vale a pena também.
“Elogio da Sombra” é um livro de poemas. Borges tem mais prestígio como prosador do que como poeta. Não cheguei lá ainda, mas dei uma olhada no prefácio, escrito pelo próprio autor, em que ele atende o pedido de seu editor e fala um pouco sobre sua estética. Achei interessante e reproduzo um trecho aqui:

Não sou possuidor de uma estética. O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras extravagantes; intercalar num relato rasgos circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que se a realidade éprecisa a memória não o é; narrar os fatos (isto aprendi de Kliping e das sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente; recordar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las. Tais astúcias ou hábitos não configuram certamente uma estética. Além do quê, descreio das estéticas. Em geral, não passam de abstrações inúteis”.

Na foto, Borges fotografado por Diane Arbus.

domingo, 22 de janeiro de 2012

sábado, 3 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Vinil rides again



Dia desses, uma amiga que eu não via há muito tempo ligou em casa dizendo que estava voltando de uma viagem pela Europa tinha um presente pra mim do meu irmãozinho de copo e de cruz Pedro “the Caveman”, exilado na Alemanha desde não sei quando.
Estranhei o fato, afinal eu e Pedro mantemos contato freqüente por e-mail e, às vezes, pelo famigerado facebook. Pois bem, Pedro mandou pra mim um EP em vinil, maravilhoso, com quatro remixes malucos de “Palaces of Montezuma”, do Grinderman, a foderosa banda alternativa do Nick Cave.
O vinil é lindão, todo colorido, psicodélico e “Palaces of Montezuma”, que eu já postei, não sei se aqui ou no facebook é simplesmente a melhor canção de amor que ouvi nos últimos anos. Vale por um porrilhão de discos úmidos do Marcelo Dromedário. Dá um pouco de vergonha das coisas fofas que andam saindo na MPB. E olha que eu gosto da Tiê e do Jeneci. Mas a paudurescência nickcavernosa é “another bag”, como diria o Itamar Assumpção (só pra zonear de vez as referências musicais).
Muito bem. Diante de tão maravilhoso regalo, precisei me coçar e dar um jeito nos velhos aparelhos toca-discos, parados lá no quartinho dos fundos há uns dois anos. Criei coragem, fui lá, arrastei para casa um amigo fã de Elvis e integrante de uma dupla caipira, que tem uma eletrônica. Sei que ele não trabalha com as velharias, mas pedi que me ajudasse a dar um destino para meu som. Eram 4 toca-discos 3 em 1 parados. Falei: meu, desmonta tudo e faz um que preste.
Resultado: estou com dois aparelhos em pleno funcionamento, amplificados por um Gradiente velhão, do início da década de 70, que eu nunca tinha conseguida fazer funcionar. Cara...o som é outro. Meu brother Vinícius ficou de queixo caído na hora em que ouviu o som das velhas caixas “National”, esfarelando é verdade, mas com o som que vale por uma parede de “systems não sei o que” que você pode comprar nas Casas Bahia. Soltei o Talkin Book do Stevie Wonder. O sintetizador de “Superstition” no meu novo velho som dá vontade de chorar de tão maravilhoso.
E aí aconteceu. Me apaixonei pela minha velha e abandonada coleção de vinis. Ouvir jazz em vinil novamente...uau! Ainda não deu tempo de fazer isso, mas não vejo a hora. Não tenho muitos discos de jazz, mas o que tem é muito bom: Bill Evans, uma caixona da Ella, Freddie Hubard (“Backlash”, absolutamente sensacional), Dave Brubeck, Ornette Coleman, Dizzie Gillespie, Shorty Rogers, Sonny Stitt e outros. Além de uma daquelas velhas coleções da Abril Cultural com os tradicionais, de Billie a Satchmo, de Duke Ellington a Miles Davis. São uns dez discos, acho.
Não tenho muito blues em vinil. John Lee Hooker, B.B. King, algumas coletâneas, tipo as da Atlantic. Mas de rock tem coisa muito boa: “Four Way Street” e “Déjà vu”, alguns raros de Lou Reed, Paul Macartney e Neil Young, coleções, incompletas mas representativas, de Beatles, Stones, Dylan, Bowie, Kiss e até alguns remanescentes da adolescência metaleira: Iron Maiden, Slayer, Motorhead e os três primeiros do Metallica.
Minha história com os vinis começou aos 8 anos com um disco de Simon & Garfunkel que tenho até hoje. E até hoje me espanto com as grandes canções de Paul Simon. Depois veio a fase Kiss. Cheguei a vender meus discos da banda, mas anos depois recomprei tudo do cara que eu tinha vendido. Não me lembro bem, mas acho que ele teve um lucro considerável.
Vinil é do caralho. E o som dos velhos 3 em 1 são insuperáveis. Não falo daqueles aparelhos podreiras com agulhas de plástico que lançavam no final dos anos 80, nos estertores do vinil. Falho dos velhos 3 em 1 horizontais ou de módulos. Eu matava a saudade desse som na casa do meu compadre Txélos, em Londrina. Ele usa o velho 3 em 1 como amplificador de um pequeno toca discman e o som é glorioso!
Agora estou louco pra entrar uma graninha dos trampos aí pra eu ir às compras nos sebos novamente.
Abaixo, uma lista de dez coisas lindas de se ouvir em vinil:
1 – Stevie Wonder – os clássicos dele: Songs in the Key of Life, Talkin Book, Musico f My Mind
2- Otis Redding – tenho uma coletâneazinha
3- Freddie Hubbard – Backlash – você que me lê e nunca ouviu falar desse disco, acredite nesse velho e cansado rato de sebos: ouça essa porra!
4- Lou Reed – New York – O que são aquelas guitarras de “Romeu and Juliet” e do início de “Busload of Faith”?!
5- David Bowie – Hunky Dory – inteiro, todas as faixas, mas “Life on Mars” é de fuder.
6- Bill Evans e Herbie Mann – Nirvana – acho que nem está entre os melhores desses caras, mas o som é de arrepiar.
7- Bob Dylan – Desire/Blood on the Tracks – sem comentários
8- Beatles – Let it Be - foi o primeiro que comprei deles e tem aquele clima de ensaio em estúdio. “Two of Us”, “I´ve Got a Feeling” e “For You Blue”.
9- Cowboy Junkies – The Caution Horses – disco muito foda, com várias músicas excelentes e uma puta versão pra “Powderfinger”, uma das melhores músicas do Neil Young.
10- Caetano Veloso – Transa – um dos discos da minha vida. A melhor banda que já acompanhou um artista da MPB, com Jards Macalé na guitarra e Tuti Moreno na batera.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O anjo


Um anjo trincado e traído cruzou meu caminho numa dessas tardes de cidade do interior. Ele disse: “corações legendários não vão livrar sua barra no verão”. Dois tiros e anjo despencou do seu jardim suspenso sob o céu azul, diretamente para as formigas e a areia quente. Ainda guardo uma bala pra meter em alguma placa da estrada ou lâmpada de poste. Porque sou estúpido e místico e ainda quero te foder por amor. Quando acenderem as luzes da cidade e as famílias se enclausurarem temendo a noite, vou tomar o lugar do anjo. Escalar a torre da matriz e detonar os sinos sobre as sacanagens silenciosas de cada dia.

sábado, 3 de setembro de 2011

São Vicente


Sinto saudades do tempo em que eu ria com as comédias americanas. Agora meus sonhos imaginam a dor do peixe quando retiram suas escamas. Os pedaços brilhantes de tecido devastado pela lâmina. A solidão de minha mãe e o tédio do cão emparedado.
Perdi alguma coisa em algum dia ensolarado de trabalho honesto. E as moléstias aderiram ao meu corpo, como o calor do sol ficava na pele queimada depois da praia, em verões enterrados sete palmos abaixo do chão do quintal.
Em São Vicente. Em 1979. No tempo das comédias e dos desenhos animados. Uma mancha na parede gelo foi vida também e até voou. Amanhã sai com pano molhado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Thurston Moore

O novo cd solo de Thurston Moore é bom pra caramba.Segue aí um vídeo e uma letra. Vale conhecer o trabalho completo.

Blood Never Lies


Every time they come for you
You know it's time to run
Everybody knows it's true
How your love has come undone

Now he has his chance to take
And he will take you out of here
Take you to your secret state,
Where blood is light, blood is clear
Oh the blood is clear,
Oh the blood is clear

Every time they take you away,
He knows you're never gone
You know you stole his heart away,
And he falls into the freezing sun
Now he has to kidnap you,
And keep you bound in endless light

And you know he never lets you leave
'Cause blood is clear, it never lies,
Oh blood never lies,
Oh blood never lies

And you know he never lets you leave
'Cause blood is clear, it never lies
Oh blood never lies,
Oh blood never lies,

And you know he'll never let you leave
'Cause blood is clear, it never lies
Oh blood never lies
Oh blood never lies
Oh blood never lies
Oh blood never lies

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Jazz from hell ou... estou só tentando ser legal comigo mesmo esta noite


Eu não ligo mais para o que você fala.
Não me importo com o preço da gasolina ou com os filmes do Oscar.
Não gosto de circo, escolas de circo e odeio especialmente os malabaristas,
Estou cagando para galãs adolescentes, praias com ondas artificiais, o fim das estradas de ferro, a decadência do capitalismo, a revitalização do centro histórico, as pontes de alta engenharia, as cordas oxidadas do meu violão, os livros de história, o realismo fantástico e as patas leves dos políticos.
Se quiser me achar, estou sozinho no quintal.
Só me interessa o vento e o mato que cresce no meu quintal.
Mulheres jovens e movimentos sociais não me enganam mais.
Na música, nada foi melhor que Mingus.
Detesto padres.
Já estudei as teorias da comunicação e a legislação processual brasileira mas esqueci tudo.
Assim como esqueci o sabor de algumas bocas e as letras de todas as canções.
Os amigos morreram pouco antes do computador explodir.
Não há mais chance.
Não quero esperar por ninguém.
E que evaporem as feministas, o futebol, os workaholics, os objetos de decoração, os colares de sementes, os gordos tocadores de bongô, os quadros negros, as frases de efeito, os grevistas, os espíritos evoluídos, as bananeiras e tudo que puder ser classificado como monumental.
O resto é mar, diz a velha canção.
E o mar pode ser silencioso em suas profundezas.
Deixo a superfície para meu filho e para os que ainda acreditam no verão.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os infernos rock´n roll de Mario Bortolotto


Quem nunca na vida quis tocar numa banda de rock? Acho que esse desejo coletivo explica o sucesso do “air guitar”, provavelmente um dos esportes mais praticados no mundo e, sem sombra de dúvidas, o número 1 aqui em casa.
O ator e dramaturgo Mario Bortolotto gosta de música. Ele canta em duas bandas muito legais, a Tempo Instável e a Saco de Ratos. Mas o gosto pelo rock´n roll e o blues vai além. A música está muito presente em sua literatura também. Arrisco-me a dizer que se alguém definir Bortolotto como um “escritor rock`n roll” ele vai curtir ou, pelo menos, não vai ficar puto.
Em “DJ – Canções pra tocar no inferno”, o bluesman escritor dá uma de DJ literário e solta sua seleção de contos baseados em canções, algumas clássicas e outras obscuras, de gente como Ray Charles, John Lennon, AC/DC, George Thorogood e ...Ivan Lins. Sim...o integrante da trinca de chatos mais notória da MPB (com Guilherme Arantes e Oswaldo Montenegro – e o tal de Marcelo Camelo louco pra fazer parte) também teve uma música que virou conto. Como se deduz desse set list, além de visitar os infernos do submundo, da solidão e da miséria humana, Bortolotto não dispensa o humor nas pequenas narrativas.
Como em outros textos do autor, a força dos diálogos chama a atenção. Em “Stand By Me”, eles ressaltam o nonsense de uma cena pós-estupro. No delicioso “I Drink Alone” parece que dá pra ver o próprio Bortolotto aprisionado em um pesadelo com mauricinhos e patricinhas numa “baladinha” na Vila Madalena. Agora imagine uma mesa de bar no além, com Leminski e Itamar Assumpção batendo papo até a chegada de um verborrágico Wally Salomão em “Knockin on Heaven´s Door”. “Given the Dog a Bone” também está entre os mais engraçados.
Não sei se viajei demais na minha leitura, mas o humor, que sempre foi uma marca do autor, parece mais presente ou, de alguma forma, mais solto nos textos mais novos. A escória, o refugo das cidades, os amargurados e solitários estão lá. Mas de alguma maneira estão mais à vontade, menos armados do que acontece com os personagens de textos como “Homens, santos e desertores”, peça escrita em 2002. Isso não quer dizer concessão a nada. Talvez seja apenas um apreço maior pela comicidade, pelo absurdo.
E em meio ao turbilhão rock´n roll de Bortolotto surge um zumbido de algo novo na trilogia “O Evangelho segundo Madalena”. A ambientação dos textos nos bastidores de um time de futebol pequeno do Rio de Janeiro nos anos 50 soa incomum. Mas Bortolotto se sai muito bem, mostrando um dos aspectos que me atraem no seu trabalho (e na literatura em geral) que é dar voz, sentimentos e idéias a vidas aparentemente insignificantes. Li pela net que alguém comparou os “Evangelhos” a Rubem Fonseca da fase “A Coleira do Cão” e Bortolotto não apenas não negou como revelou ter lido tudo do mestre carioca.
Mas é o Bortolotto de sempre, em textos recheados de referências pop, com os absurdos, as dores, os amores, e todas as ocorrências repugnantes ou engraçadas, redentoras ou desvairadas que alimentam o brilho falso nos olhos dos homens. Dá pra ler inteiro numa madrugada insone. Como um bom disco de rock.
Escrito ao som de “Secret, Profane or Sugar Cane”, de Elvis Costello.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O primeiro festival de blues

Em 1989 eu tinha dezesseis anos. Foi o ano do primeiro festival internacional de blues, realizado em Ribeirão Preto, na Cava do Bosque. Fizemos uma barca eu, o meu cumpadre Txélos e os irmãos Fabrício e Sujeira que tinham família por lá.
Pegamos um ônibus e chegamos na cidade numa sexta-feira, fim de noite. Caminhamos da rodoviária até a casa em que ficaríamos hospedados. Fomos bem recebidos pelos avós de nossos amigos e aí começou o deleite. Fabricio e Sujeira tinham um tio que morava lá e, na época, estava viajando pela Europa. Fomos instalados no quarto dele.
O detalhe: o cara tinha a maior coleção de discos que já vi até hoje. Eram armários e armários, guarda-roupas e prateleiras cheias de som. 90% das coisas em vinil, mas ele já tinha muitos CDs. Nessa época acho que eu ainda nem tinha visto um CD. Ouvíamos os clássicos vinis e as infalíveis, ou melhor, muito falíveis, fitinhas cassete.
Foi, portanto, uma viagem absolutamente musical. Além do festival de blues, passamos todo aquele final de semana ouvindo sons, grande parte deles coisas sobre as quais eu já havia lido mas que na minha cidade simplesmente era impossível encontrar. Foi lá que ouvi Lou Reed pela primeira vez. Voltei pra casa com uma fitinha com o Legendary Hearts. Com o passar dos anos a fita acabou. Só recentemente eu baixei da net esse disco. Não é dos melhores do Lou Reed mas tem valor afetivo. Gosto de ouvir “Rooftop Garden” e outras para lembrar daquela época.
Também foi na casa do tio dos meus amigos que ouvimos Mutantes e Arnaldo Baptista pela primeira vez. Lembro que o cara tinha uma cópia do “Lóki” autografada pelo Arnaldo. Vai vendo. Voltei de lá com uma fitinha com “Mutantes e seus Cometas no País do Baurets”. Detalhe: acho que esses discos estavam totalmente fora de catálogo na época. Se não me engano, as reedições da Baratos Afins vieram um pouco depois.
Além desses sons o tio deles tinha uma coleção impressionante de rock progressivo. Discografias completas de Yes, Emerson, Lake & Palmer, King Crimson, Genesis, Pink Floyd, Jethro Tull e até bandas menos conhecidas como Gentle Giant e Focus. Esse tipo de som não me fez a cabeça na época e ainda não consigo engolir. Na verdade, gosto de muitas coisas do Pink Floyd e de algumas do King Crimson e do Jethro Tull. O resto é muito punheta. Yes é uma das piores coisas que existem sob o nome de rock.
Além dos grandes sons descobertos lá, teve o festival propriamente dito. Naquela edição, tocaram Buddy Guy, Junior Wells, Etta James, Magic Slim. O show que vimos teve André Cristovam abrindo e Albert Collins, "the master of the Telecaster" como atração principal.
O blues parecia que ia estourar no país. André Cristovam havia acabado de lançar “Mandinga” e o Blues Etílicos “Água Mineral”. Os dois discos se tornaram clássicos do blues nacional. Se não me engano, foram lançados pela Eldorado.
Lembro poucas coisas das apresentações. Havia um ótimo público e todos cantavam as canções do André Cristovam, principalmente “Mandinga”. Mas havia “Confortável”, versão para “Built for Confort” do Howlin Wolf, “Dados Chumbados” e uma que falava do roubo do Cristo Redentor.
Do show do Albert Collins lembro menos. A guitarrista base era uma menina loira de boina e o som foi muito mais pauleira do que no show do André Cristovam.
Mas foi uma viagem do caralho. Num período que ando louco pra viajar, sair da rotina e não tenho grana nem tempo é legal lembrar do Festival de Blues. Uma das tantas viagens musicais que fiz. Talvez a primeira. Elas sempre valeram a pena.
Abaixo, sons de André Cristovam e Albert Collins, só pra relembrar.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Grinderman II no talo


Em algum momento distante dos anos 80 minha mãe me presenteou com uma assinatura da revista Bizz. Na época eu era um fã de metal, punk rock, hardcore e todo o som que soasse minimamente violento nas caixas de som. Tocava bateria toscamente numa banda chamada “Podridão”. Além de covers de Cólera, Garotos Podres, Replicantes e Nuclear Assault, tocávamos nossas próprias pérolas de rebeldia juvenil. Me lembro de uma que começava assim “Mundo, te odeio/Mundo, não te quero/ Mundo, de você nada mais espero”. O título absolutamente criativo da canção não poderia ser outro: “Mundo Imundo”.
Pois bem, dito isso, já deu pra sacar que naquela época eu detestei receber em casa uma Bizz com o Cazuza, ainda na fase pré-Aids, na capa. Se não me falha a memória esse número da Bizz tinha matérias com Smiths, Echo and the Bunnymen e a então revelação Ed Motta, hoje considerado o irmão mais gordo e chique do Bolsnaro.
Do que eu me lembro com certeza foi que esse número da revista trazia uma matéria com um tal de Nick Cave, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Fui ouvir o som do cara algum tempo depois, mas me lembro de ter ficado impressionado com o que a matéria dizia. O cara era um australiano maluco que misturava o que havia de mais lúgubre no blues americano, com distorções pós-punk e letras carregadas de imagens que misturavam religião, crime, amor, morte, violência. Lembro que a reportagem também mencionava o fato de Cave ter lançado um livro com o espetacular título de “And the ass saw the angel”.
Depois da matéria da Bizz fiquei curioso pra conhecer o trabalho do cara. Havia música sobre violência, religião e morte fora dos gêneros mais porradas que eu adorava ouvir? Não me lembro exatamente quando fui ouvir o som de Nick Cave, mas aquela matéria da Bizz, assim como a tal assinatura da revista, ajudou a ampliar meus horizontes musicais para outros gêneros de rock.
Tenho em vinil, os clássicos “Tender Prey” e “The Good Son”. Em CD tenho o “Kicking Against the Pricks”, “Live Seeds” e “Murder Ballads”. Também lembro de ter visto “Asas do Desejo” , do Wim Wenders, no cinema. No filme rola um trecho de um show do Nick Cave.
Gosto do som do cara pra caralho e o mais impressionante é que ele continua mandando muito bem. O primeiro disco da sua nova banda, o Grinderman, é do caralho. Depois, Cave gravou mais um solo intitulado “Dig Lazarus! Dig” que também é excelente. De quebra lançou o romance “A Morte de Bunny Munro” que é desses livros que você devora em dois dias de tão legal.
No ano passado saiu o segundo disco do Grinderman e é Nick Cave de novo. Da melhor cepa. Além de várias músicas legais, recheadas de humor negro , romantismo trágico, imagens estranhas e paisagens sonoras pesadas, o disco traz pelo menos um clássico instantâneo. “Palaces of Montezuma” é desses petardos que te fazem acelerar mais quando ouvida no som do carro. Ouça a canção, preste atenção na letra e me diga se não é a maior canção de amor que alguém lançou nos últimos dez anos.
Mas todas as faixas são legais. O guitarrista Warren Ellis definiu o som como um encontro entre o stoner rock e Sly Stone. É pesado, é psicodélico, é ousado, a capa é demais e enfim... Nick Cave é muito foda. Por que ninguém traz esses caras pra Sampa? Pare de ler esse texto ruim e veja o vídeo abaixo com o som no talo. Rock`n roll can never die.

domingo, 8 de maio de 2011

Outras estradas de Kerouac


Acabo de ler “Anjos da Desolação”, de Jack Kerouac, lançado no Brasil pela L&PM. O começo do livro é um pouco difícil, como se nos contaminássemos com o desconforto do autor em sua cabana isolada nas montanhas, onde trabalhou como vigia de incêndios. Sob o pretexto de refletir, vivenciar a experiência da solidão, Kerouac parece nervoso como se calafrios lhe oprimissem a medula. É desconforto, mais do que reflexão. É como se seu olhar, aparentemente cansado de chão, também tivesse dificuldades para encarar o turbilhão interno.
O poeta desce da montanha e cai na estrada e o livro também cresce. Kerouac volta a viajar pela América mítica, depois México, Tânger, Paris até a volta a Nova Iorque. E aí vai apresentando as histórias que queremos ler de suas aventuras ao lado de Ginsberg, Corso, Burroughs, Neal Cassidy, suas mulheres e outras figuras da época. Viagens de poetas que mastigavam a vida com dentes vorazes e hoje nos soam muito românticas.
“O mistério corria pelas ruas em chamas” mas o autor começa da dar sinais de cansaço, falando em se proteger do caos da sua vida estradeira. Começa a desejar um pijama, uma varanda, silêncio em manhãs frias com a mesma sofreguidão de seu apetite por caminhos desconhecidos.
Nunca fui um grande leitor de Kerouac. Li “On the Road” mil anos atrás, alguns textos esparsos e, mais recentemente, “E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques” e “Visões de Cody”. Do que eu li, foi o texto em que ele escreve mais diretamente sobre o isolamento em que se meteria até o final da vida, longe dos velhos companheiros de labaredas memoráveis.
O texto livre de Kerouac é sempre interessante e algumas passagens das viagens são fantásticas. Vale a pena, de qualquer maneira. Como sempre, estrada, amor e poesia. No que isso tem de prazeroso e perturbador.

domingo, 1 de maio de 2011

Wendy, Wendy


Eu, esquecido no sonho
Imaginando onde sua loucura realmente se esconde
Você, fora da minha estrada
Arranca amor dessa procura

Juntos, cegos, andamos na cidade congestionada
Queremos a glória das mansões que queimaram
Nascemos presos a máquinas de suicídio
Fugimos para caçar névoas, praias, ossos e navalhas
Jovens vagabundos derrotados por armadilhas de veludo
Crianças, sem pensar na sujeira da noite,
Tentamos outro negro alvorecer
Fugindo da tristeza

domingo, 27 de março de 2011

Pensando em Kerouac



A vida é um pingo de chuva no mar
Mesmo assim, viver é desejar
O outro, seu corpo, sua mente
Sempre pergunto a Deus o porquê
Mas nunca tive uma resposta decente

quarta-feira, 9 de março de 2011

Patti Smith - Só Garotos


Li "Só Garotos" e achei do caralho. No entanto, fiquei enrolando para escrever algo aqui no bloguinho. Até que li um puta texto no blog Magic on Sundays, da jornalista rock´n roll Renata D`Elia (não é acento agudo, é apóstrofe!). Ela é especializada em cultura e escreveu tudo o que eu queria, com muito mais competência, evidentemente: "Poucos meios são maiores do que o punk e as palavras de Patti Smith para dar conta de tamanha intensidade de vida, do mais solar ao mais sombrio dos humores".
O link para o Magic On Sundays tá aí do lado. Sempre vale a pena visitar.
O texto da Renata segue abaixo, com um som de brinde.

Amo Mapplethorpe. Suas fotos de trevas e luz, seus homens-escultura mais que vivos, suas flores fálicas sobre fundos profundamente negros, sua dicotomia explosiva, demoníacos olhos verdes e seu materialismo cruzado com o mais divino e profano erotismo em algum lugar reprimido dos nossos subconscientes. Também amo Patti Smith. Sua magreza andrógina, cabelos desgrenhados, sua voz de natureza ctoniana, o rock brutal, sua beleza descendente de Baudelaire & Rimbaud. Poucos casais do mundo da arte me parecem tão alquímicos, indissolúveis e ao mesmo tempo tão próximos de seus interlocutores. São irmãos de alma e também nossos irmãos.


Ouço Patti Smith e vejo Mapplethorpe sem separá-los, com todas as suas diferenças. Apesar da crueza de suas obras -- ela em poesia e rock n' roll, ele em fotografia e alguns desenhos -- ambos despertam em mim uma espécie de simpatia pelos jovens artistas, sempre confusos e esfarrapados, que dividem com a gente o banco do metrô. O tipo de gente estranha para quem sorrio na rua e acabo trazendo, com todo rol de problemas e loucuras, para dentro de minha vidinha observadora. Ela muito irreverente, com todo o arcabouço poético. Ele meio perigoso, com toda provocação inconsequente.


Não que tenha sido tanta surpresa, mas tudo isso fica muito melhor em livro, contado pela personagem principal. Estou falando de "Só Garotos" (Companhia das Letras, com boa tradução de Alexandre Barbosa de Souza), obra memorialística de Patti Smith em homenagem a Robert Mapplethorpe, morto em decorrência da AIDS em 1989. O livro ganhou o National Book Awards, um dos prêmios máximos da literatura norte-americana, em 2010. Com isso, aproximou pedaços incríveis da história da arte no século 20 de quem nunca levou Patti Smith ou Mapplethorpe muito a sério.


Patti faz um relato fluído, afetuoso e recheado de historietas de bastidores sobre a formação de toda uma geração de artistas com embrião na década de 1960, mas que só explodiram 10 anos depois. A Nova York do Hotel Chelsea -- que já abrigou e foi frequentado por Janis Joplin, Chales Bukowski, William S. Burroughs, Iggy Pop, além de Patti , Robert e outros -- é apresentada pelo olhar da artista que dormiu na rua, passou fome, e chegou a ganhar um sanduíche das mãos de Allen Ginsberg após ser confundida com um garoto. O rock de Bob Dylan, The Doors e dos Rolling Stones figura como parte central da história dos Estados Unidos, o pano de fundo perfeito para a formação de Patti muito antes de montar seu "Group" e botar abaixo o público do velho CBGB, verdadeiro berçário do punk.


A coleção de fotos e raridades como poemas e desenhos é das mais completas. Há também muitos insights e esclarecimentos. Quer saber quando Patti Smith percebeu que podia fazer rock n' roll? Está lá. Quer saber como Robert descobriu a fotografia e como ele se flagelou mentalmente até que isso acontecesse? Está lá também. O livro não substitui peças importantes para dissecar o surgimento do punk, o submundo novaiorquino e a turma de Andy Warhol, mas é parte fundamental disso. Dialoga diretamente com "Please, Kill Me" de Legs McNeil e Gillian McCain e vai muito além quando se trata da "cola mágica" que une duas pessoas predestinadas a serem fundamentais uma para a outra. A homossexualidade de Robert -- que foi namorado de Patti -- e seus conflitos pela origem familiar católica e conservadora de Staten Island é tratado de maneira muito mais sutil do que na biografia "Mapplethorpe", da jornalista Patricia Morrisroe (Editora Record, esgotado), que, aposto, injetou em Patti uma bela dose de raiva-motor para que contasse sua versão da história.


Há pelo menos uma diferença básica entre as Patricias. Morrisroe parece particularmente interessada nas motivações sexuais perversas que levaram um Mapplethorpe "desafiadoramente sincero nas entrevistas" à sua representação incômoda do universo sadomasoquista gay de Nova York e da beleza negra masculina como "objeto inferior". Smith, por sua vez, se empenha em humanizar a figura "arisca, provocadora e insegura" descrita pela xará. Enquanto a "falta de rigor técnico" de Mapplethorpe é forçadamente explicitada pela jornalista, a inspiração e o talento nato são naturalmente exaltados pela companheira de jornada.


São diferentes também as versões sobre a célebre foto da capa do álbum "Horses" (1975), de Patti Smith, feita em Manhattan, no apartamento de Sam Wagstaff, um judeu riquíssimo que foi amante, mentor e marchand de Mapplethorpe por pelo menos 10 anos. Não vou estragar a surpresa. A versão de Morrisroe, está aqui. A de Patti Smith você lerá num dos melhores livros dos últimos tempos, direto do planeta em que os amantes determinam a vibração energética das noites. Poucos meios são maiores do que o punk e as palavras de Patti Smith para dar conta de tamanha intensidade de vida, do mais solar ao mais sombrio dos humores.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bukowski e o caderno manchado de vinho



Li “Cartas na Rua” com os meus 14 ou 15 anos de idade numa edição do Círculo do Livro. Nunca havia ouvido falar em Bukowski, mas me interessei pela sinopse publicada na saudosa “Revista do Livro”. Eu já tinha um gosto pelas coisas meio “gauche” na vida. Já tinha lido “Feliz Ano Velho” do Marcelo Rubens Paiva que foi o livro que despertou em mim e, creio eu, em alguns amigos daqueles tempos, a vontade de ser algo mais do que qualquer coisa que as mães planejassem para os adolescentes da vila em que eu cresci.
Eu e alguns desses meus amigos demos muitas voltar por aí. Talvez hoje todos sejamos a tal coisa que as mães planejaram. Mas pelo menos crescemos com o gosto pela experimentação. E experimentamos. E curtimos. Não sei se meus velhos chapas vão concordar com minhas interpretações do que aconteceu nos nossos felizes anos velhos. Qualquer dia escrevo sobre isso. Voltemos ao velho Buk.
Pouco tempo depois li “Mulheres”, na tradução do Reinaldo Moraes, publicado pela Brasiliense numa série de livros eróticos denominada Brasiliensex. Além de enredo para centenas de punhetas, “Mulheres” serviu para abrir minha percepção para a poesia amarga por trás da prosa seca e endiabrada de Bukowski. E fiquei fã do cara. Nem li tantos livros dele assim, mas é sempre um autor que me empolga.
Bukowski hoje tem uma aura de rock star entre uma certa galera. Seu nome trafega pelos papos das mesas dos bares rock´n roll ao lado de Keith Richards ou Jim Morrisson. Eu mesmo tenho uma camiseta com a cara dele. Mas o velho estava em outra. Bukowski gostava mesmo é de música erudita, tão importante pra ele quanto o goró, as corridas de cavalos e as mulheres. Mais importante que tudo isso, a literatura.
O velho escreveu muito. Poemas, contos, romances, resenhas de livros e até uns ensaios meio toscos sobre literatura. “Pedaços de um caderno manchado de vinho” tem um pouco disso tudo, menos os poemas.
São textos menos conhecidos publicados em revistas, desde as de literatura até as pornô, além de prefácios, colunas de jornais, enfim material esparso, agora devidamente reunido à sua obra.
Gostei de ler “Pedaços de um caderno manchado de vinho”, principalmente as reflexões sobre literatura. Bukowski se diz fã de Celine, Dostoiévski e, principalmente Turgueniev. Gosta de Allen Ginsgerg, tem uma relação ambígua com Hemingway e detesta Faulkner. Confesso que não sabia dessas opiniões. O que sei é que Bukowski é bom pra caralho.
Transcrevi três pequenos trechos abaixo. Selecionei outros mas fiquei com preguiça de digitar aqui. É o Chinaski de sempre:

“Bêbado outra vez num quarto do tamanho de um pacote de biscoitos, sonhando com Shelley e juventude, barbudo, um filho da puta desempregado com uma carteira cheia de bilhetes premiados tão impossíveis de reembolsar quanto os ossos de Shakespeare. Todos odiamos poemas de comiseração e lamúrias de um pobre sofredor – um bom homem pode vencer qualquer parada e saudar a prosperidade (assim nos disseram), mas quantos homens de valor você consegue apanhar num jarro hermeticamente fechado? E quantos poetas de qualidade você consegue encontrar na IBM ou roncando sob os lençóis de uma prostituta de cinqüenta dólares? Mais homens de valor morreram pela poesia do que todos os seus campos de batalha de merda; então se eu cair de bêbado num quarto de quatro dólares: você já ferrou com sua história – deixe que eu me vire com a minha”.

E tendo observado meu pai, aquele monstro brutal que abastardou minha experiência sobre esta triste terra, percebi que um home podia trabalhar a vida inteira e ainda assi continuar pobre; seus vencimentos se consumiam na compra de coisas que ele precisava, pequenas coisas, como automóveis e camas e rádios e comida e roupas, pelas quais, como as mulheres, pediam mais do que valiam e o mantinham pobre, e até mesmo seu caixão foi um ultraje final à decência: toda aquela bela e lustrosa madeira para os cegos vermes do inferno”.

“Estamos cercados pelos mortos que ocupam posições de poder porque, de maneira a obter esse poder é necessário que morram. Os mortos são fáceis de encontrar – estão por toda a parte a nossa volta; a dificuldade está em achar os que estão vivos”.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O barulho da alma


Se o U2 fez alguma coisa que presta para a história do rock foi apresentar Daniel Lanois, produtor de alguns de seus discos de sucesso, a Bob Dylan. Lanois foi a mente diabólica por trás do som, ao mesmo tempo etéreo e áspero, de “Time Out of Mind”, um dos melhores discos da carreira de Dylan.
Em 2010, foi a vez de outro gigante do rock´n roll trabalhar com Lanois. O produtor ajudou Neil Young a alcançar momentos de beleza visceral no seu CD lançado no final de 2010. “Le Noise” faz um trocadilho com o nome do produtor e escancara a influência de Lanois na hora de “pensar o som” que o artista deseja alcançar. Sobre isso vale ler o “Crônicas”, do Dylan, que conta um pouco do trabalho que os dois realizaram em “Oh Mercy”.
Voltando ao Neil, ele é um dos grandes poetas solitários do rock, ao lado de Dylan, Lou Reed, Leonard Cohen, David Bowie, Tom Waits e alguns poucos outros. Artistas que construíram obras grandiosas e radicalmente pessoais, incluindo aí as contribuições milionárias dos erros. Em “Le Noise”, Neil Young radicalizou. Fez um disco usando sua voz e suas cordas, a guitarra elétrica gravada em camadas de efeitos ou o violão folk, mais tenso do que suave.
As resenhas falam em surpreendente, inovador, perturbador. O problema é que esses adjetivos estiveram por tantas vezes relacionados à obra do velho bardo canadense que dá pra dizer que “Le Noise” é mais um Neil Young dos bons. E isso é muita coisa.
Dizem que o disco foi concebido originalmente como acústico e que o Lanois teria convencido Neil a usar os feedbacks, ecos, delays e reverbs eletrificados. Méritos para ele. Essa transtornada no som tem tudo a ver com a fúria e a poesia da música de Neil Young. É o sol causticante nos desertos da America ou do Oriente Médio, é um céu despedaçado de prenúncio, um horizonte sem fim, flores nascendo nas ranhuras do asfalto, a dimensão confusa do demasiadamente humano. Uma roupagem nova e perfeita para tudo aquilo que já ouvimos tantas vezes no som de Neil.
A abertura com a nervosa “Walk With Me” é impressionante. É um convite, ou melhor um apelo, para a caminhada dura da vida, evocando os amigos que partiram, como o guitarrista Ben Keith, seu parceiro de décadas. Em meio aos ruídos ele canta: “I lost some people I was travelling with me/I missed a soul in the old friendship”.
Também gosto muito de “Angry World”, melodia simples e direta soterrada por guitarradas violentas. E a voz que emerge forte para refletir sobre as expectativas e os perigos da vida.
“Love And War” e “Peaceful Valley Boulevard” são as duas em que o violão aparece. Gosto especialmente da segunda, balada com letra longa. O poeta observando a terra nua ser tomada pela voracidade do homem. Linda melodia.
Há ainda a agressiva “Hitchhiker”. A tensão predomina. É Neil sozinho e o peso vale por dez bandinhas de rock atual. De quebra, rola uma citação de “Like na Inca”.
O barulho anunciado no título do disco vem menos das caixas de som do que do turbilhão que agita o coração do velho trovador. É Neil Young, seis cordas e a poesia que grita. Meu conselho: pare de ler essa bosta e compre ou baixe o disco agora.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Minha 59ª fratura



Teve aquela vez em que minha raiva foi vencida pela fidelidade de alguém
Quando os ossos do sol desabaram na minha cabeça doeu menos
Teve uma tijolada na têmpora
E cacos de vidro na uretra
Cada vez que optei por não escolher foi uma
No fim da noite algo começou a dilacerar a carne
Pela manhã estava exposta
Vou esfregar sal grosso e aplicar um larvicida
Para continuar procurando pássaros da janela do meu quarto

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

...y seguindo la canción



No final de 2010, o velho papa do punk brega colocou mais esse trabalho na praça. “Caminando y Cantando” é o sexto álbum de estúdio de Wander Wildner. O release diz que o álbum é inspirado na sua recente andança por Buenos Aires, Montevideo e Berlin.
Na Alemanha, aliás, Wander teve a felicidade de cruzar o caminho do meu little brother Pedro que, para variar, deu uma de Pedro com ele ao chegar pro cara antes de um show numa livraria berlinense e dizer “achei sua música nova meio bobinha”. Como se não bastasse, o Pedro sentou bem na frente do palco e ficou gritando coisas como “O sol se foi”, “Fumá um paião”, frases que o Wander fala na gravação de “Albert Einstein”, do CD “Buenos Dias”. Acho que nem as cerca de dez pessoas presentes no show e nem o artista entenderam nada. Depois o Pedro ainda ficou chateado porque ele não tocou “Albert Einstein”.
Conhecendo my little brother de longa data, deve ter sido a cena mais hilária e constrangedora que Berlin viu desde o último fio da terra da Eva Braun em Adolf Hitler. Depois ele se explica nos comentários ou pelo menos conta pra gente o que ele tomou. Ah... pra completar a festa parece que o Pedro levou no show um outro brasileiro exilado em Berlin, um mineiro fã do Clube da Esquina que ficou amaldiçoando a coisa toda... Mais uma das grandes histórias do Pedro. Ele é que devia ter um blog pra nos contar suas incríveis aventuras. Sorry, brother. Eu tinha que contar essa.
Mas voltando ao que interessa, o disco novo do Wander é legal pra caralho. Sou suspeito porque gosto do cara desde os tempos dos Replicantes. Quantas vezes não ouvi “Festa Punk” ou “Sandina” no quartinho dos fundos da casa do Txélos. Nossa bandinha punk, que transtornava os vizinhos lá pelos estertores dos anos 80, tocava “Nicotina”. Até hoje, de vez em quando, peço pro Txélos tocar “Astronauta” quando nos encontramos e há um violão por perto. O Julio Reny também gravou “Astronauta”, mas a versão dos Replicantes é insuperável.
De alguma maneira “Astronauta” já tinha os elementos que formaram o punk brega do Wander Wildner. É uma música que caberia tranquilamente na sua carreira solo. Mas por falar em punk brega, “Caminando y Cantando” tem vários momentos que não se enquadram nesse conceito. Coisas mais folk como “As Coisas Mudam”, composta por Wander e baseada no maravilhoso filme “Pequeno Grande Homem” de Arthur Penn, com o Dustin Hoffman e a Faye Dunaway deslumbrante. É um daqueles westerns tardios, feitos no final dos anos 60 ou início dos 70, que eu gosto pra caralho, como “Butch Cassidy” e “The Wild Bunch”. O filme mostra a batalha de Little Big Horn em que os índios liderados pelo Touro Sentado deram um pau histórico na cavalaria americana, matando inclusive o famoso General Custer. Vejam o filme. É fácil de achar por aí.
“Dani” é uma balada bonita composta por Jimi Joe, parceirão do Wander e figura importante do rock gaúcho. Quando vi o show do Wander no Abril Pro Rock em sei lá que ano, o Jimi Joe estava na guitarra. Wander se apresentou dizendo “Nós somos a banda de Jimi Joe”.
“Boas Notícias” foi composta por Gustavo Kaly, autor de “Um Bom Motivo”, gravada por Wander no seu disco anterior e uma das músicas mais legais do repertório do trovador gaúcho. Ouvi “Bom Motivo” pela primeira vez no show Sub Versões que vi com a Aline em Sampa. Wander tocou no barzinho sozinho com sua guitarra e nós sentamos bem perto do palco. Aliás, não tinha palco. Era um banquinho e microfone. O show foi do caralho. O Xico Sá estava lá com uma alcatéia de mulheres feias. O refrão “Me dê um motivo pra não cheirar cola esta noite” ficou na cabeça por meses. O povinho do trampo achava que eu era louco de cantar isso. “Boas Notícias” também tem um bom refrão e uma parte da música que fala “Aí fudeu, aí fudeu” que eu não consigo parar de cantar para desespero da Aline que teme que nosso filho repita. Ele ainda não repetiu.
Um lance muito presente nesse novo disco são as influências setentistas. Wander gravou dois clássicos da época das “boca de sino”. Duas canções viscerais que eu adoro. Não dá pra comparar com as versões originais, mas achei legal ele gravar porque deve estar apresentando “A Palo Seco”, de Belchior e “Viajei de Trem” do Sérgio Sampaio a um público novo. Nada mais Wander do que cantar “Por força desse destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues”. “Clo” é uma setentista do grupo gaúcho Almondegas. Bacana também.
O lado punk brega, cada vez mais brega e menos punk, com direito a “espanhol selvage” e tudo o mais surge em “A Razão do Meu Viver”, “Puertas y Puertos”, “Pra Ti Juana” e “Calles de Buenos Aires”.
Por fim, há uma versão de “Amor e Morte” de Julio Reny. Nada demais com essa versão, mas é sempre uma canção de Julio Reny.
É o velho Wander. Cantando por las carreteras. Sobrevivendo às dores de amores, às noitadas, às viagens, ao Pedro e espalhando cometas e meteoros sonoros para os corações apassionados.
Achei no youtube imagens de um show do Wander numa livraria em Berlin. Será que ouvi a risada do Pedro?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Forró de janeiro – Guarujá, filmes & Heitor


Não vou escrever sobre a tragédia das chuvas pelo Brasil. Janeirão é sempre foda. Todo ano a mesma coisa. Cancelamos nossos dias de férias no Guarujá porque a cidade passa por um novo surto de diarréia. No ano passado sobrevivemos a um desses surtos passando um dia num hospital entupido de gente com nosso filho, na época com um ano e meio. Não dá pra submeter o moleque a esse risco novamente.
Pensando no Guarujá e nessas porras de enchentes não dá pra não imaginar como serão as coisas daqui há...sei lá... 40 anos. Veja só, 40 anos não é muito tempo. Eu ouço muita música e vejo filmes feitos há quatro décadas ou mais. Eu tenho quase 40 anos. A maioria dos meus amigos também.
Acho que a imagem é batida, mas é inevitável não pensar na humanidade como um câncer tomando um organismo. Mais gente, mais áreas impermeabilizadas, mais construções irregulares. Gente faz metástase. Vai cobrindo todas as áreas possíveis. É terrível. Imagine uma cidade do litoral, totalmente plana. É uma área no nível do mar coberta por tijolos, concreto, ferragens e asfalto. Milhares de pessoas se instalam em cima e seguem produzindo lixo e dejetos até o subsolo estar saturado e regurgitar a merda toda de volta.
Bom, deixando os dejetos todos de lado, os dias de janeiro tem sido mais tranquilos no trabalho. Finalmente consegui ver “Crazy Heart”, com o Jeff Bridges. Gosto desses filmes “pequenos”, baixo orçamento, histórias de gente comum. O filme é simples e bonito. O Robert Duvall é foda, no seu pequeno papel do caipira dono do bar. Que puta ator! As cenas dos bares onde Bad Blake toca atiçaram uma velha vontade. Voltar para os Estados Unidos. Levar a Aline pra conhecer Nova Iorque. Rodar por Memphis, Nashville e quem sabe pelo velho sul. O objetivo é ouvir blues, country, folk, jazz e viajar naquelas estradas míticas. Quem sabe um dia a grana dá...
Vi também “Milk” com o Sean Penn quebrando tudo. Gosto desses filmes com histórias verdadeiras. Acho que peguei isso da minha mãe. Quando víamos filmes na TV em tempos pré-videocassete, lembro dela avisar que ia passar um filme baseado numa história real. Como se isso desse ao filme uma certa distinção. Esses dois filmes serviram para diminuir, apenas um pouquinho, a imensa defasagem cinematográfica em que estamos mergulhados.
Em meio às notícias do fechamento do Belas Artes, consegui ir ao cinema uma vez em janeiro. Fui com my baby ver o argentino “Abutres” lá na Augusta. Gostei bastante do filme. O foda é o Ricardo Darín. É bom ator, mas ta começando a enjoar. O cara é o Wilson Grey da Argentina. Parece que ele está em todos os filmes de lá.
Ataquei a minha modesta “DVDteça” e consegui ver ou rever do finalzinho de 2010 pra cá: “Cães de Aluguel” (Tarantino), “Os Imperdoáveis” (o velho Clint), “Era Uma Vez no Oeste”(Sergio Leone, absolutamente genial), “Bagda Café” (Percy Adlon), “Um Homem, Um Cavalo e Uma Pistola”(Spaghettão B), “Django” (Spaghettão B), “Matá-lo” (Spaghettão B doentio), “Galo de Briga” (Monte Hellman, com Warren Oates), além dos documentários sobre os Ramones (“Ramones Raw”) e Johnny Thunders (“Born to Lose”).
Vi também “Forever” do Walter Hugo Khoury, no Canal Brasil. Gosto dos filmes do Khoury. Aquele ritmo lento, a tensão sexual, os instintos animais em meio ao luxo da alta burguesia paulistana. Sempre me interessa como ele mostra a cidade de São Paulo e os ambientes internos, cheios de sombras. Tem gente que não suporta. Eu sempre acho interessante.
Falando em literatura, passei janeiro relendo “O Corcunda de Notre Dame” do Vitor Hugo. Ainda não terminei. Mas é bom pra caralho. O “Estranhos Sinais de Saturno” do Piva tá sempre na cabeceira para doses de poesia a qualquer hora. Encomendei o livro da Patti Smith e o “Anjos da Desolação”, do Kerouac. Mas antes deles quero ler o “Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho” do velho Buk.
Por fim, ficamos sabendo que o mais novo representante da curriola em Londrix vai se chamar Heitor. Boa escolha do casal T & T. Lembrei de um amigo da faculdade de Direito que tinha esse nome. Meus amigos de copo e de cruz eram todos da faculdade de jornalismo. No Direito, tinha alguns caras legais, mas o único que dividia o gosto pelas substancias alteradoras de consciência era esse cara. Que de quebra ainda tocava várias dos Beatles no violão.
Lembro dele passar nos domingos de manhã em casa, com seu fusqueta branco, me buscar pra jogar bola com uma turma de evangélicos que ele conhecia não sei de onde. Íamos os dois fominhas destruídos pela ressaca e eu ainda era o Pelé do jogo. Naquele tempo não tinha virado moda ser evangélico. Tinha uma meia dúzia de pernas de pau, ou bagres, como a gente dizia na Vila Maria. E eu que sempre fui um futebolista nota 5, acabava com o jogo no meio dos perebas de Cristo. De quebra, às vezes ele aparecia lá em casa com seu violão pra mostrar a nova que ele tinha tirado dos Beatles e mandava alguma obscura tipo, sei lá... “Rocky Racoon”. Boas lembranças.
Heitor dos Prazeres é um grande mito do samba carioca. Que o nosso pequeno paranaense viva uma vida de muitos prazeres. O tiozão, que vai ajudar a estragar o moleque, não pode desejar coisa melhor. Em sua homenagem, ouço um Tim Maia clássico aqui.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Fragmento de uma peça – Roy Orbinson ou Julio Reny?



Publico abaixo para deleite dos nossos milhões de seguidores um pequeno fragmento de um texto em que ando brincado nesses dias. Já tem umas 14 páginas e eu estou num momento da história em que já não sei para onde vão os personagens. Pensei em chamar a peça de “Roy Orbinson singing for the lonely” ou numa versão em português “Julio Reny canta para os solitários”. Ou outro nome qualquer. Esse ínicio é engraçado, ou tenta ser. O resto do texto, nem tanto. Nada demais, apenas um texto sobre um casal qualquer feito com “os olhos de borra de vinho”.

Hugo está sentado numa poltrona velha, no pequeno apartamento, em frente da televisão, com os pés num banquinho e uma cerveja na mão. A campainha toca e imediatamente a porta se abre e Gina entra apressada. Ele nem olha para ela.

GINA – Puta que o pariu, caralho, porque você faz isso? É a segunda vez e tô vendo que de novo não tem nada a ver. Só ta aí bêbado, vendo putaria na TV.
HUGO (finalmente olhando para ela e se indignando) – Que putaria o quê! Tô só zapeando.
G – Meu, por que você liga falando essas coisas? Caralho... assusta sabia? É uma maneira muito covarde de pedir para eu vir aqui.
H – Mas eu sinto isso... eu não tô legal mesmo.
G – Sinceramente Hugo... até entendo que você não tá legal. Na verdade, eu também não tô legal, acho que o mundo inteiro não tá legal. Mas ficar falando que vai se matar é uma coisa foda. Por pior que você esteja, realmente não parece alguém prestes a se matar.
H – Ah é? Então me conta... como que é a cara de alguém que tá querendo se matar? Você deve ser especialista no assunto.
G – Sei lá como é a cara de alguém que vai se matar, mas certamente não é a de alguém sentadão em frente a TV, tomando cervejinha, tranquilão aí.
H – Meu, então acabamos de decretar a inexistência do suicida tranquilo.
G – É isso mesmo. E ainda bem que não foi como no seu outro chilique em que eu liguei para a sua mãe, pra Nina, pra polícia e quase bati o carro tentando chegar aqui. Da próxima não vou bancar a palhaça de novo. Eu nem vou dar bola pro seu chororô.
H – Olha. Desculpa por te assustar. Eu não tava legal mesmo. Não quis dizer que eu ia me matar, entendeu? O que eu quis dizer é que eu tava sentindo uma grande vontade disso, vontade de sumir do mapa, entendeu?
G- E passou?
H- Ah... até passou. Liguei a TV, tomando cerveja e acabei pegando um trecho de um show muito louco do Iggy Pop... aí fiquei lá prestando atenção, o som era muito foda e ele cantava praticamente com a bunda de fora. Cê já viu esse show? Meu, como ele consegue cantar com aquela calça caindo, com a bunda de fora o tempo todo? Aí foi isso. Fiquei vendo o show e aquela angústia foi passando.
G – Já vi que o negócio era foda mesmo. Cê precisou de cinco minutos de bunda do Iggy Pop para esquecer os problemas.
H – Não foram cinco minutos não. Foi um show longo, bem legal...
G – Ah...vá se foder Hugo. Porra, vou nessa, você me mata de susto. Eu desvio meu caminho do que eu ia fazer, chego aqui e te vejo sossegadão vendo TV.
H – Porra, você preferia me ver cortando os pulsos?
G- Claro que não! Mas em vez de você ligar e pedir pra eu passar aqui bater um papo, que você precisa conversar e tal, você liga dizendo que vai se matar. Isso não é legal. Assusta a gente e... meu... eu tava no trânsito indo cuidar da minha vida.
H – Onde você tava indo?
G – Comprar tintura para meus cabelos e comprar um perfume novo. A Nina diz que tem uma vizinha dela que traz esses perfumes caros importados de contrabando e vende bem mais barato. Ia passar numa loja de cosméticos e depois ia lá na Nina ver as coisas da tal vizinha.
H – Por que isso?
G- Isso o que?
H- Porque você vai mexer no cabelo e comprar perfume? Tá rolando alguma coisa?
G- Tá rolando que eu sou mulher Hugo. Mulheres fazem essas coisas, sabia?
H- Seu cabelo tá bonito assim. E acho que você não precisa de outro perfume.
G- O que você sabe dessas coisas?
H – Ué... eu te olho...eu sinto teu cheiro. Acho teu cabelo bonito assim. Tá parecido com a época que eu te conheci, né?
G- É. Acho que eu tava usando assim mesmo naquela época. E o perfume?
H- Que é que tem?
G – Você gosta? Você nem sentiu o perfume que estou usando.
H- Meu... você cheira bem. Mulheres normalmente cheiram bem. Se você for me pedir uma análise técnica do teu cheiro eu não sei dizer. Mas é perfume de mulher. Cheiro bom...
G – Ah... até parece...cada mulher usa seu perfume, cada mulher tem um cheiro. Esse papo de perfume de mulher é furado.
H- É nada Gi. Vocês mulheres é que viajam nessa história. Pergunte para todos os homens. A maioria, talvez fora esses boyzinhos de hoje em dia que são vaidosos pra caralho, metrossexuais e tal, os homens não sabem dizer muito sobre os cheiros, mas sabem que as mulheres, pelo menos as interessantes, cheiram bem. É cheiro de mulher saca? Pô... não tem o filme com o Al Pacino? É “Perfume de Mulher”. Se fosse “Perfume Chanel n° 5” ou outro nome, não teria graça. Mulher cheira mulher. Assim como homem cheira homem.
G – Nunca ouvi bobagem tão grande. Existem milhões de sutilezas nos perfumes das mulheres. Além de perfumes, usam cremes, óleos, xampus, desodorantes ínitmos...
H- Aí... ta vendo? Desodorante íntimo. Meu...eu nunca fui capaz de identificar alguma mulher usando os tais desodorantes íntimos. Para mim, buceta tem cheiro de buceta. Nunca senti isso e nunca vi, nos papos de homem, alguém dar importância ao cheiro da buceta, se ele for normal claro, não tiver cheirando suor, menstruação ou outra nojeira qualquer. Buceta cheira buceta. É igual cheiro de Fusca. Não adianta colocar aqueles sachezinhos idiotas. Fusca cheira Fusca.
G – (rindo) Cara... ainda bem que eu consigo rir desses teus absurdos.
H- É porque você nunca deve ter andado de Fusca.
(To be continued)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Nosso antepassado fogo


estrela do norte
flor de filigrana
no nervo do poente
vôo cansado da coruja
que desgarra seu arpão
planta do incesto
do sol com as águas
árvores cheias de bocas
donde o gavião salta
ciclone do Universo

Poema de Roberto Piva - Em "Estranhos sinais de Saturno". Bom 2011 pra quem passar por aqui.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Znort! Ele está entre nós!



Quer exorcizar a escrotice xaroposa do Natal? Caia de cabeça nas aventuras do mais violento, pornográfico e alucinado andróide dos quadrinhos: o insuperável Ranxerox.
A Conrad lançou nesse segundo semestre um álbum de luxo com todas as histórias do monstrão criado no final da década de 70 pelo italiano Stefano Tamburini.
Ranxerox e sua amante Lubna, na fúria ninfomaníaca dos seus doze anos de idade, vagam pelas decadentes Roma e Nova York vivendo entre traficantes, celebridades vazias, marginais e malucos de todos os tipos.
Cabe tudo em Ranxerox: cultura pop (citações de Brian Eno a Ballard), violência, drogas, putaria, mutilações, depravações, humor doentio. Você encontrará ecos de Ranxerox em Blade Runner, Matrix e filmes de Tarantino. Até capa de disco do Frank Zappa o bichão virou.
Destaque especial para a arte quase renascentista de Tanino Liberatore. Nunca a violência foi desenhada com tanta sofisticação.
Ler novamente Ranxerox me fez lembrar dos tempos da revista Animal, que publicava muita coisa legal dos quadrinhos do underground europeu. Ainda tenho alguns exemplares de Animal guardados, com aquele saborzão de nos 80, quando a gente só ouvia pauleiras e eu ousava tocar bateria numa banda hardcore chamada Podridão. Bons tempos de vinho barato, cigarros escondidos e fitinhas Basf amarelinhas gravadas e regravadas com os sons mais obscuros que a gente conseguia achar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Diálogo com Mark Chapman



- E aí Mark, beleza?
- Oh yes.
- Vem cá, cê conhece um tal de Marcelo Camelo?

domingo, 12 de dezembro de 2010

Meus problemas com as mulheres



Os Estados Unidos são um dos lugares mais estranhos do planeta. Gostamos de falar das contradições do Brasil, mas os americanos não nos devem nada. Muito pelo contrário. A coisa lá é sempre “over”, elevada à enésima potência em qualquer ângulo que se olhe.
Na terrinha do Tio Sam abundam facistas, puritanos, racistas, belicistas, moralistas (dos falsos e dos verdadeiros), pastores televisivos, nacionalistas e tosquices conservadoras de todos os tipos. É um lugar no qual ainda é possível encontrar segmentos significativos da sociedade que levam a sério o criacionismo.
Pois é desse mesmo barro que surgiram os beatniks, os hippies, os punks, o cinema exploitation, os panteras negras. Figuras controversas e talentosas usaram alguma passagem secreta no meio da muralha de fumaça do american way of life. Os Estados Unidos geraram Larry Flint, Hunter Thompson, Lou Reed, Timothy Leary, Lenny Bruce, John Cassavettes, Orson Welles e mais uma caralhada de gente que produziu ruídos e instabilidade no sistema.
Não vou citar artistas, figuras políticas e movimentos. Escrevo direto, sem pesquisar nada sobre o tema. Mas acho que dá pra entender o que quero dizer. O país do Mickey Mouse também é o país do Bart Simpson e do South Park.
Dentro desse panorama Robert Crumb é uma outra figura emblemática. O “princípio ativo” do seu trabalho é expor essa América contraditória que afirma valores com veemência na porta de frente enquanto a putaria vai transbordando pelas janelas.
Acabo de ler mais um livro de Crumb lançado pela Conrad. É “Meus problemas com as mulheres”. Compilação de histórias e desenhos feitos por Crumb ao longo da carreira, o livro deixa claro como o desenhista nerd esquisitão passou a “comedor” quando fez sucesso no circuito contracultural na década de 60 com seus quadrinhos anárquicos.
A conhecidíssima fixação de Crumb pelas mulheres bundudas e de pernas grossas também é dissecada no livro. Confessional, sincero, engraçado, desconcertante “Meus problemas..” é tudo, menos monótono. Odiado pelas feministas, Crumb dá nome e sobrenome a todas as musas de seus delírios masturbatórios, expõe e reflete sobre suas taras mais absurdas.
Depois de ler, fiquei na pilha de rever o documentário “Crumb” de Terry Zwigoff, que vi numa tarde do logínquo 1996, num Cinesesc vazio. Vale a pena procurar o filme na net. Além das taras de Crumb, há a incrível história de seus irmãos malucos. Nunca dá pra ficar indiferente a Crumb.
Ah... e o prefácio escrito pela atriz Fernanda D´Umbra é do caralho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

a cartomante de dezembro



A cartomante de dezembro
Cala sobre meu futuro
Danças?
Palavras de amor?
Sinais de saturno?
Há veludo, fumaça de cigarro
E alguém tocando flauta doce
Enquanto Lúcifer crava os dentes no solo lunar

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lennon



Só para lembrar a data. Lennon era foda. A GNT tá passando durante toda a semana uma série de documentários sobre o cara.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fim de ano é uma merda



Meu mau humor já começou a dar as caras. Faz tempo pra caralho que não escrevo nada no blog. Não tem dado tempo. Tô num vazio total de idéias. Nos últimos tempos, estive correndo com mil trampos que por si só já desgastam. Aí chega a fatídica época do ano em que algum fariseu safado na Idade Média inventou de comemorar o aniversário de Jesus Cristo. Jesus foi um grande cara, se é que ele existiu mesmo. Tentou salvar a humanidade, tem milhares de seguidores e até inspirou uma música linda do Velvet Underground. Perdeu pra Barrabás e os Beatles em popularidade, mas foram derrotas isoladas, vale lembrar. Enfim, nada contra Jesus e tudo contra a porcaria do Natal e todas as malditas festas de final de ano. Nesse ano, além dos sorrisos, presentes dados por obrigação e convívios forçados, terei que passar, mais uma vez, por uma temporada no inferno: um baile de formatura. Cara, quer me foder a vida é só me convidar pra festa de casamento, baile de formatura e festa de confraternização do trabalho. Recentemente também descobri quão insuportável pode ser o martírio de festas infantis e de festas na escolinha do meu filho. O pior é que a pessoa que vai se formar é importante pra mim e minha presença no tal baile deve ser importante pra ela. Pelo menos até o whisky fazer efeito. Mas baile de formatura é a minha exata visão do inferno: calor, sapato apertado, terno e gravata, muita gente chata e música ruim em altíssimo volume. Sei que vou sobreviver, mas é aquela história do medo da dor que é mais forte que a própria dor. Meu humor vai pras picas. E aí fico lembrando que ainda vem o Natal, com amigo secreto (arrrgh) e tudo e depois o réveillon que também é uma merda. Pessoas estranhas em casa, calor, rango em excesso, rojões que matam meus cachorros de medo. Ainda tô contando com o filho do vizinho voltar pra passar férias com os pais e ficar cantando o dia todo aquelas musiquinhas intoleráveis dos Los Hermanos no violão. E eu só queria ficar a parte.
Pra não dizer que não falei de flores, termino esse ano melhor do que no ano passado. Nessa mesma época, no ano passado, tava mais é querendo tomar cicuta no café da manhã e sumir do mapa. Hoje tô puto com as tais festas, mas pelo menos tenho força pra estar puto. Passei por merdas mentais e físicas durante o ano. Fiz uma cirurgia filha da puta, encarei meus bodes pretos, minha pressão alta, meu colesterolzão. Mas passei de ano. O sorriso do meu filho ajudou pra caralho. Cheguei até a ficar saudável no meio do ano. Emagreci, voltei pro kung fu depois de quatro anos parado, comecei a comer certinho, tomar água e tal...agora já fudeu tudo de novo e meu rim já deve estar preparando novas pedras preciosas pra 2011. Mas sobrevivi e fui lá agradecer meus guias. Sinceramente. Minha mãe me deu uma medalhinha com um São Jorge e eu fiquei feliz. Foi como um prêmio. É o meu santo e gosto dele embora os trouxas infelizes dos curintxanos vivam se apossando da sua imagem. São Jorge é o santo guerreiro, né? Acho bonita sua sina. Mas não sou guerreiro. Na verdade, acho que sou um dos caras mais bunda mole que eu conheço. A cada final de ano eu prometo que nunca mais vou engolir festas de casamento e festas de final de ano. E lá vou eu dobrar a língua e a vontade. Meu final de ano ideal seria com meu filho e minha mulher numa casinha em alguma praia deserta, onde não desse pra ouvir nem os fogos de artifício. Pra mim, o melhor jeito de celebrar uma data é passá-la de maneira agradável. Raras vezes rolou algo assim. Enquanto o velho batuta não vem entalar sua bunda gorda na minha lareira, vou devorando “O Vermelho e o Negro” do Stendhal e queimando uns cdzinhos: Tom Waits, AC/DC, Freddie King. E que venham os tenders, os vale-cds e os caramurus.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010



lembranças de momentos felizes
doem tanto
quanto as cicatrizes

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meus problemas com a bebida



Poema de Mário Bortolotto. Está em seu último livro "Um bom lugar para morrer", que anda habitando minha cabeceira nesses tempos.

ela me dizia que eu tinha problemas com a bebida
me dizia isso enquanto andava atrás de mim no supermercado
eu escolhia um vinho pra beber no jantar
na verdade eu tava indeciso entre um vinho e um conhaque
na dúvida levei logo os dois
e uma caixa de cervejas pra depois do jantar
e ela continuava falando rispidamente comigo
eu me sentia dentro de uma música do Bruce Springsteen
ela falava algo sobre viver e morrer como um perdedor
eu disse: "Que merda cê tá falando?"
ela fazia ballet e andava daquele jeito empinado que me
deixava ainda mais oprimido
havia muita raiva naquela mulher
e a raiva te deixa com dificuldade de se expressar
e eu só precisava de um drink
abri o conhaque na fila do caixa e dei um gole
"Era sobre isso que eu estava falando."
"O que?"
"O seu problema com a bebida."
"Eu não diria que é um problema. A bebida me ajuda nos momentos difíceis".
"E esse é um deles?"
"Eu não estou muito à vontade."
entrei no carro e abri logo uma cerveja
"Vai continuar negando que tem problemas com a bebida?"
"Olha, eu não tenho problema nenhum com ela. Às vezes,
quando bebo, eu arrumo mais problemas, só isso."
nós saímos do estacionamento do supermercado e elacontinuava falando comigo daquele jeito intolerável e pensei em meter o carro num poste ou algo do tipo, mas eu ainda não havia bebido o suficiente.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A morte de Bunny Munro


O australiano Nick Cave é uma das figuras mais interessantes surgidas nos anos 80. Seu som, ora vibrante ora melancólico, trazia cargas de Velvet Underground, punk rock e o blues mais profundo das estradas desoladas de uma América imaginária. Suas letras passeiam por temas como crimes, presságios, religião, culpa, pecado, redenção, sofrimento e delírios místicos de todas as espécies.
Em “A Morte de Bunny Munro”, seu segundo romance, editado no Brasil pela Record, há um pouco de tudo isso. E também há o humor negro frequentemente utilizado por Cave. A novidade é que no livro há sexo em várias modalidades: amargo, caótico, trágico e outros.
Bunny Munro, o personagem principal, é um vendedor de produtos de beleza que não perdoa nada que pareça vagamente feminino. Qualquer breve diálogo com uma cliente ou a visão de uma garota, que nem precisa ser bonita, desperta o monstro insaciável que descansa em suas cuecas de oncinha.
E Bunny segue pela vida tentando comer todo mundo, sonhando com as vaginas milionárias e bem tratadas de Avril Lavigne e Kylie Minogue, até que sua mulher Libby, cansada da solidão e do desprezo do marido coloca um fim na própria vida.
Sobra para nosso priáprico herói cuidar de Bunny Jr., o filho de nove anos sensível e inteligente, e fugir dos fantasmas que agora assombram sua mente doentia, enquanto tenta continuar a foder qualquer coisa que aceite receber o seu pau.
A lenta desintegração mental de Bunny é uma tragédia com cara de road movie com final épico e redentor. É um romance. Mas poderia ser uma balada estrondosa de Nick Cave ao piano. Daquelas que retratam os condenados debatendo-se nas jaulas do destino.
Passeie com Bunny Munro:

“Bunny acena para uma esportista de iPod e malha de lycra anti-impacto que talvez acene de volta; uma negra saltitando pelos gramados em um Pogobol amarelo; uma colegial seminua com um chupão do tamanho de um biscoito na base da coluna que acaba se revelando uma tatuagem maravilhosamente linda de um laço ou de um arco e flecha.
- Já veio embrulhada pra presente? – grita Bunny. – Nem acredito! – Em seguida assobia para uma garota completamente nua e totalmente depilada, mas que, após olhar mais de perto, Bunny percebe estar usando um fio dental cor de pele tão anatomicamente integrado ao seu corpo quanto a pele de uma lingüiça; ele acena para um trio de deusas coxudas que usam botas Ugg e brincam de jogar vôlei com uma enorme bola laranja e azul (elas acenam de volta em câmera lenta). Bunny buzina para um casal de sapatas surpreendentemente gostosas, que lhe mostram o dedo médio, ao que ele ri e as imagina se comendo com paus de plástico amarrados na cintura; depois, vê uma garota de tranças e joelhos virados para dentro lambendo um pirulito listrado azul e vermelho; uma menina usando algo indefinível que dá a impressão de que ela vestiu a pele de uma truta arco-íris; em seguida, vê uma babá, ou algo do gênero, se inclinando sobre um carrinho de bebê e a bela marca de sua calcinha, o que o faz soprar ar por entre os dentes e socar a buzina. Por fim, nota uma secretária ossuda de aparência desolada com uma blusa que diz “GUINCHE COMO UM PORCO” e carregando um enorme pênis inflável. Bunny confere o relógio, reflete por um momento, mas segue em frente. Vê uma garota esquisita, usando um véu e um biquíni com anquinha estilo vitoriana, depois acena para uma junkie bonitinha bem parecida com Avril Lavigne (o mesmo delineador preto os olhos) sentada em uma pilha de revistas Big Issue na soleira dos hotéis Embassy, que estão caindo aos pedaços. Ela se levanta e anda trôpega na direção dele, esquelética, com dentes gigantes e olheiras pretas sob os olhos, como um panda, e então Bunny percebe que ela não é uma gatinha junkie, e sim uma famosa supermodelo no auge do sucesso cujo nome ele não consegue lembrar, o que faz sua ereção saltar na cueca, mas quando a vê mais de perto ele descobre que é, de fato, uma gatinha junkie e segue em frente, embora qulaquer um que goste desse tipo de coisa saiba, mais do que qualquer outra coisa no mundo, que junkies são as melhores boqueteiras ( e as putinhas viciadas em crack as piores). Bunny liga o rádio e “Spinning Around”, o hit de Kylie Minogue começa a tocar, e ele não consegue acreditar na própria sorte e sente uma onda de alegria quase ilimitada à medida que os sintetizadores pesados e provocantes começam a sair das caixas e Kylie vocifera seu panegírico orgiástico à sodomia e El pensa no short dourado e apertadinho dela, aquelas esferas cor de ouro, e isso o lembra de estar comendo a bunda grande e pálida de River, a garçonete, lá no quarto de hotel, com a barriga cheia de salsichas e ovos, e então começa a cantar junto com o rádio e a música parece estar saindo de todas as janelas de todos os carros do mundo, e a batida pulsa forte pra caralho. Então ele vê um grupo de ratas de shopping atarracadas com suas barrigas sensuais e seus batons cintilantes; uma garota árabe em burca completa potencialmente gostosa (puta merda, lábios da Arábia); e então um outdoor anunciando sutiãs Wonderbra ou algo do gênero e diz “Uhu!”, dando uma guinada perigosa no volante enquanto aperta a buzina, voltando para a Forth Avenue e já desenroscando a tampa de uma amostra de creme para as mãos. Ele estaciona e bate uma punheta, com um sorriso grande e feliz no rosto, gozando em cima da meia incrustada de porra que mantém debaixo do banco do carro.
- Ah! – exclama Bunny, e o DJ no rádio está dizendo: “Kylie Minogue; quem não adora aquele short apertadinho?!” E Bunny diz: - É isso aí! – Manobrando o Punto na direção do tráfego e guiando os dez minutos que o saparam do seu flat na Grayson Court, em Portsland,ainda sorrindo e gargalhando e se perguntando se sua mulher Libby vai estar a fim quando ele chegar em casa".

sábado, 2 de outubro de 2010

Astral Weeks


Bailarinas no canteiro da avenida principal. Sol de outono, poças d`água e um cigarro filado. Violinos flutuam nas retinas. Um adeus no bolso do casaco. Peito e mente límpidos e doloridos. Como um solo de trumpete.

Trilha sonora: "O Pássaro", de Lanny Gordin.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Comendo ópio com sal


Ando empacado na leitura de “Confissões de um Comedor de Ópio”, de Thomas De Quincey, na edição da coleção “Intoxicações” lançada pela Ediouro. Tenho trabalhado muito e sobra pouco tempo pra ler. Além disso, “Confissões” não é uma leitura das mais fáceis. Nas primeiras duzentas páginas do livro o autor narra episódios de sua infância e adolescência, às vezes com longas digressões sobre temas que hoje não nos parecem tão interessantes como devem ter sido para os leitores de outros tempos.
Acabo de começar a segunda parte do livro, intitulada “Volúpias do Ópio”, onde devem surgir as descrições das viagens que tornaram a obra famosa. Logo no início dessa parte um trecho “em feitio de oração” aos milagres dos estados alterados de consciência.

“Ó justo, sutil e conquistador ópio! Que, para os corações de ricos e pobres igualmente, para os ferimentos que jamais serão curados, e para os golpes de dor que “tentam o espírito a se rebelar”, trazes um bálsamo aliviador. Eloquente ópio! Que com tua poderosa retórica roubas os propósitos da ira, suplicas eficazmente por piedade leniente, e através do sono celestial de uma noite lembras ao homem culpado as visões de sua infância, e mãos purificadas do sangue. Ó justo e equânime ópio! Que ao tribunal dos sonhos chamas, para os triunfos da inocência desesperada, falsas testemunhas, e confundes o perjúrio, e revertes as sentenças de juízes injustos; construíste sobre o colo da escuridão, da fantástica imaginação do cérebro, cidades e templos, além de arte de Fídias e Praxíteles, além dos esplendores de Babilônia e Hecatômpilos, e, “da anarquia do sono sonhador” chamas à luz do sol as faces de belezas há muito sepultadas, e as abençoadas feições domésticas, limpas das “desonras do túmulo”. Somente tu dás esses dons ao homem, e tens as chaves do Paraíso, ó justo, sutil e poderoso ópio!”

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Oh! Sweet Nothing


Ela olhava o relógio preparava o banho. Já estava quase na hora. Deixou a roupa dobrada em cima do banquinho com a esperança de não precisar usá-la. O plano era simples. Quando o porteiro avisasse que ele chegou, ela mandaria subir e pediria para dizer que a porta estava aberta, ela estava ocupada e era pra ele entrar direto. Nesse momento, ela correria para o chuveiro e deixaria a porta do banheiro destrancada.

Ele desceu do metrô e veio caminhando pela rua, já pouco movimentada naquela hora da noite. Sempre gostara de andar a pé em São Paulo, principalmente quando não tinha hora para chegar, o que não era o caso nesta noite. Apesar do compromisso, caminhar ajudava a relaxar e arejar os pensamentos enquanto o coração acelerava. Na última vez tinha sido uma broxada homérica, dessas de não esquecer jamais.

Na última vez foi uma broxada e tanto, ela pensou e prometeu para si mesma tentar descontrair o ambiente o máximo possível. Ao ouvir o interfone tocar deu as instruções ao porteiro e correu para baixo do chuveiro. Não sabia se deveria usar xampu ou não. Será que isso vai atrapalhar a transa? É melhor não estar com os cabelos cobertos de espuma quando ele entrar no box, se ele entrar. Mas ele vai entrar...

Subindo pelo elevador ele ficou nervoso ao perceber que suava mais do que o recomendável para aquelas circunstâncias. Seria um princípio de nervosismo? Claro que é. E pensava: porra, não vai essa merda de ansiedade me impedir de comer essa mulher de novo. Isso é tudo que eu não preciso. Espero que ela tenha umas cervejas na geladeira. Vou pedir para beber. Preciso me acalmar.

Ela toma seu banho, fazendo os movimentos todos, fingindo para si mesma. Os ouvidos ligados. Parece que ele entrou no apartamento. Quando ele vai entrar no banheiro? Acho meio impossível o cara ficar aí sentado no sofá, com a televisão e o som desligados, ouvindo o barulho do chuveiro, vendo essa porta só encostada e não entrar aqui. E o instinto, afinal?

Ele entra no apartamento. É a segunda vez que pisa ali. Tranca a porta, dá aquela olhada geral. A porta dá direto na pequena sala, arrumadinha, com televisão, alguns livros, vasinhos pequenos de flores e um aquário minúsculo com um peixe colorido trancafiado. O aparelho de som parece ridiculamente pequeno e numa olhada rápida já considera os discos ruins. A cozinha à direita também está acesa. Também acanhada. Dá uma olhada rápida, menos para ver e mais para dar tempo de criar coragem de invadir o banheiro. Respira fundo, mão na maçaneta, empurra a porta que só estava encostada.

Mas que menino curioso, diz sorridente, em resposta ao tímido aviso de invasão que ouve. Fica ali por trás da cortininha do box, nua, braços cruzados sobre os seios, seu melhor sorriso, o mais convidativo, quando o rosto dele surge, sorrindo também. Um beijo curto. Uma promessa de espera e ele sai do box rápido demais. Tímido demais. Meu, como ele não entrou? Será que eu devia ter convidado? Precisava ser mais clara do que deixar ele entrar no meu banho? Que droga!

De volta à sala ele procura ocupar a mente o máximo que pode. Olha para o peixe e acha o aquário ridículo. Procura pela vista da janela, que dá para outra janela do prédio ao lado. Pensa se devia ficar com ela no banho, mas não se deixa responder. Resolve pensar em outra coisa, alcança uma revista de moda abandonada numa mesinha de canto e procura se distrair com as fotos.

Ela arma o melhor sorriso novamente ao sair do banheiro. Enrolada na toalha, passa por ele e vai para o quarto. Deixa a porta aberta. Escolhe uma calcinha pequena, a mais sexy. Com um passo para a direita ela estaria em frente à porta aberta e ele poderia facilmente vê-la se trocar. Mas tem medo da reação dele. Ao se deixar ver nua no banho, o mínimo que esperava era que ele arrancasse a roupa e entrasse ali com ela. Agora já não sabe bem qual era a dele.

Conversavam amenidades. Viu o prédio aí da esquina, já iluminado pro Natal? Meio cedo, não acha?. Ele falava pouco. Pensou que assim poderia estar demonstrando tensão para ela. Resolveu dominar o papo. Muito estranho esse filme novo do David Lynch. Foi ver? Filme de quem? Não...

Ela sai do quarto com sua calcinha especial por baixo de uma camisolinha curta. Prepara alguma coisa pra comer. Tá com fome? Ele diz que não. Será que era melhor ter ido ao cinema? Ao teatro? Ele tá muito tenso. Desse jeito vai broxar de novo. Oferece o último pedaço de uma torta que comprou na padaria da esquina ontem.

Vão. Não tem cerveja em casa. Nem qualquer outra bebida alcoólica. Ele toma um copo de um suco de soja com sabor de uva e acha horrível. Recusa a torta de ricota. Não entende como alguém pode ter vontade de comer ricota. Gosta do quarto dela. É pequeno e limpo. O guarda roupas e o colchão no chão. A janela pequenina tem uma vista incrível, principalmente nessa noite de chuva.

Ela resolve não ficar fazendo malabarismos para esconder a calcinha. Sentam-se no colchão no chão e ficam falando de alguns colegas de faculdade, dos trabalhos, de doenças. Ela não consegue deixar de sorrir quando ele diz que seu cabelo está bonito. Ele não sabe como fica muito mais bonito quando ela goza. Ela sempre se olha no espelho depois que goza só para ver os cabelos.

Ele acha engraçado ela comer Sucrilhos àquela hora da noite. Coisa de café da manhã, pensa. Acha bonito ela sentada no colchão segurando o prato de Sucrilhos com leite. A combinação do ar inocente enquanto levaa colher à boca, tomando cuidado para o leite não cair, e a visão da calcinha amarela, exibida sem pudores excitou sua imaginação. Não pode deixar de imaginar uma gota do leite branco se equilibrando na ponta do mamilo escuro.

Em segredo, ela sente alívio quando ele pede para ela deixar o prato de lado. Sorri ao subir a camisola para cima do peito como ele havia pedido. Se acomoda melhor nos travesseiros. Será que ele gostou dessa calcinha? Sorri e também acha bonita a gota de leite no seu mamilo escuro.

Diz a ela que não precisa apagar a luz. Tira a roupa. A caçada pela gota que escorreu do peito dela não fora planejada mas facilitou as coisas, indicou o caminho dos beijos e o poupou das palavras que ele não tem mais vontade de falar. Talvez tenha tirado a roupa rápido demais.

Pelo jeito apressado que ele tirou a roupa ela sabe que algo esta errado. Assim não vai dar certo. Mais uma vez não dá certo. Tudo tem dado errado com ele. Não adianta planejar e tomar todos os cuidados. Parece que ele nunca fica à vontade.

Resolve ir embora. Pede desculpas. O problema é comigo. Não adianta. E não vai adiantar ficar aqui olhando para o teto. Faz frio lá fora, mas caminhar me tranqüiliza. Nem vou pegar taxi. Minha blusa tem capuz. Quando eu chegar em casa vai estar perto de amanhecer.

Depois que ele sai ela fica deitada no sofá por um tempo. Sente frio e volta para o quarto. Coloca o despertador para dali a duas horas. Amanhã é dia útil. Pegou no sono mais rápido que esperava.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

I´m really amazed

Neste final de semana em Sampa Aline e eu assistimos a peça “Mente Mentira” do Sam Shepard. Do caralho. Montagem fantástica, atores, cenários, ritmo, tudo. Fazia tempo que não via algo tão fudido no teatro. Também vimos “Música para ninar dinossauros” do Mario Bortolotto, na Mostra do Cemitério de Automóveis que vai até outubro no Centro Cultural São Paulo. Muito legal também. Teria milhares de coisas para escrever sobre as peças, mas a preguiça domina. Outro dia escrevo com calma. Agora, só queria registrar uma coisa sobre a trilha sonora da peça do Cemitério. Tem coisas fantásticas de Louis Armstrong, Van Morrisson e até “Jump” do Van Halen num dos melhores momentos da peça. Sem falar nos blues executados ao vivo pelas atrizes e pelo ator Paulo de Tharso. Mas o que achei foda é que a peça termina com “Maybe I´m Amazed” do Paul McCartney explodindo nos alto falantes. E tem tudo a ver. Acho que lá no escuro da platéia balancei a cabeça afirmativamente. Legal que usaram essa que é uma das músicas mais fodas do Macartney e, portanto, do rock´n roll. Se tem algo que me emputece é uma certa visão poser das coisas que impede que as pessoas admitam que gostam do velho Macca. Gostar do Lennon pode, afinal ele era engajado, briguento, ranheta e “lutava contra o sistema”. Já o Paul era o beatle bonitinho que fazia as músicas lindas para a namoradinha milionária, com quem aliás viveu a vida inteira casadinho e sossegado. Verdadeiro atestado de bundão. Aliás, pra que falar nos laureados Beatles se temos os “malvados e perigosos” Rolling Stones? É o mesmo papinho furado que ouvi de um amigo uma vez dizendo que não ouvia Led Zeppelin porque era comercial. Já as milhares de imitações vagabundas da dupla Page e Plant ele consumia com voracidade. Só porque o Zepellin era uma banda de sucesso. Pau no cu. Macartney tem vários discos ruins. Mas Lou Reed, Neil Young, Bob Dylan, Iggy Pop e todos os caras fodas do rock têm seus momentos desastrosos. O problema, mermão, é que quando o cara acerta e vem aquele som do baixo Hoffner, aquelas melodias de arrancar o coração e a voz rascante aprendida em milhares de horas ouvindo Little Richard, não tem pra mais ninguém. O resto todo ajoelha e bate palmas. Simples assim. Para quem discorda recomendo ouvir o primeirão dele, que tem “Maybe I´m Amazed” e no qual ele toca todos os instrumentos. Ou então seus trabalhos de estúdio, do “Run Devil Run” até agora. Todos muito bons. Paul Macartney é um dos grandes. Dos maiores. O Bortolotto ou sei lá quem fez a trilha sonora sabe disso. Paguei pau!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Sala de leitura



Faz calor. Escancara a janela para o verão imaginando que fosse o mar ali adiante e não a lateral do prédio vizinho com suas nuvens pretas de umidade. Tira a camisa, acende um cigarro. O cigarro mata a fome, a sede e ainda tira o amargo da boca.
Corre para sua velha cadeira de fios de plástico tecidos. Uma raridade. Poucos ainda têm uma dessas cadeiras que reinaram nas varandas da classe média e das casas do interior e hoje foram substituídas por aquelas horrendas cadeiras de plástico branco de beira de piscina. Ok... elas são mais leves e fáceis de carregar, mas carecem do charme pantaleônico dos fios de plástico colorido, que ainda deixam tatuagens estranhas na pele dos usuários.
Alisa o braço rugoso da cadeira. Talvez seja seu móvel preferido dentre os poucos do apartamento. É fundamental. Ali, ele vive os momentos de sua vida que realmente considera importantes. É sua cadeira de leitura. Seu lugar predileto no mundo.
Atualmente encara ao mesmo tempo o último best-seller do Paulo Coelho, o “Tratado das Correções do Intelecto” de Espinosa e “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis. O do Paulo Coelho é preciso ler. Afinal, é preciso conhecer o que todo mundo está lendo. Já achou Paulo Coelho uma bosta. Odiou “O Alquimista”. Tem um conto do Borges que tem a mesma história com muito menos páginas e mais interessante. Hoje é um leitor resignado. Paulo Coelho é legal de ler cagando. É como ver novela ou assistir jogo de futebol. Ridículo, mas prende a atenção.
Já o Espinosa é sua terceira aventura pela filosofia. Boiou completamente lendo Kant e Locke. Começou agora o “Tratado” e já está achando um porre. Mas o grande problema é mesmo o final das férias. Na próxima segunda começa a trabalhar novamente. Menos tempo para ler. Chega cansado, os olhos ardendo e as costas doendo de passar o dia em frente ao computador. Lê pouco durante a semana, menos do que gostaria.
Olha pela janela a cidade iluminada. Gosta daquela vista. É a melhor do apartamento. Faz muito calor. Seus planos para o verão incluem ler vários Eça que estão faltando. É uma vergonha, mas não leu “O Primo Basílio”. Mas não será o verão perfeito. Ele sabe que é nessa época do ano que as pessoas casadas e com filhos tiram férias. E toca ele pegar serviço de outras pessoas no escritório. De uma maneira geral, o movimento diminui durante as férias, mas como poucos funcionários permanecem trabalhando, o volume de serviço para os que ficam é grande.
Um dia preciso arrumar uma solução para isso, ele pensa. Não quer mais trabalhar. Tem milhares de coisas para ler e daqui há três meses fará 47 anos. É pouco tempo para ler tudo o que deseja. O ideal era poder ficar em casa o dia todo. Mas é preciso grana. Pra ter grana é preciso estourar as costas e os olhos naquela merda de escritório. Precisava de casa, comida, roupa lavada e verba indeterminada para os livros. Mas comprar é o menor dos problemas. Na fila para serem lidos estão centenas de livros, o que ele precisa é tempo e sossego.
Talvez se virasse monge. Mas aí seria obrigado a ler somente os textos de alguma seita. Parece absurdo que alguma ordem religiosa libere a leitura de D.H. Lawrence, Jean Genet ou Henry Miller. E são autores que é preciso ler.
Da loteria já desistiu. Fez a tal da “fezinha” semanalmente por mais de quinze anos. Algum político safado deve manipular essa merda toda, afinal tem muita grana envolvida. Ganhar na loteria seria perfeito, já que não nasceu filho de rico. Colocaria o dinheiro todo num banco e só iria tirando o mínimo necessário pra sobreviver. Contas no débito automático, marmita entregue em casa e paga por mês, sairia o mínimo possível de casa. Aí sim, seria somente ler.

Parte 2 - Depoimento

que estava voltando de uma livraria e ia em direção ao seu carro, estacionado a duas quadras dali; que não conhecia a vítima; observou que a vítima parecia estar embriagada, pois falava sozinha e lavava o rosto e os braços na enxurrada; que em momento algum foi abordado ou molestado pela vítima, achando até que não foi visto por ela; que passou por ela a caminho do carro e achou que a vítima era um indigente; que foi até seu carro, estacionado a aproximadamente cem metros dali, onde guardou os livros que havia comprado e pegou um cano de ferro que trazia no porta-malas do carro; que obteve o cano de ferro na demolição da casa de sua avó; que o instrumento está em sua posse há aproximadamente dois meses e meio; que se aproximou da vítima sem que ela percebesse; que antes disso, examinou a região e lhe pareceu que não havia ninguém olhando; que o local é mal iluminado e pelo fato da vítima estar próxima de uma árvore, o local estava ainda mais escuro; que a vítima não percebeu sua aproximação; que se posicionou atrás da vítima que permanecia agachada com as mãos mergulhadas na água da enxurrada; que desferiu dois golpes na cabeça da vítima utilizando-se do cano de ferro; que o primeiro golpe foi dado com bastante força e o segundo acertou de maneira menos intensa em razão do movimento gerado pelo primeiro golpe; que a vítima caiu na enxurrada sem emitir qualquer som; que o depoente ficou muito nervoso e foi para seu carro onde ficou sentado esperando a chegada da polícia; que não sabe quem viu a ação, mas acredita que tenha sido algum porteiro ou morador dos prédios da rua; que não se certificou se a vítima veio a óbito ou não; que sua intenção não era cometer homicídio, mas sim cometer algum crime, mesmo que fosse tentativa de homicídio ou lesão corporal; que sua intenção é apenas ficar preso; o depoente acredita que, por ter curso superior, poderá ficar numa cela especial e aí vai ter tempo para ler todos os seus livros; que, em razão do seu trabalho no escritório de contabilidade do tio não tem tempo de ler tanto quanto gostaria; que gosta de se imaginar vivendo a vida dos personagens; que assim que for preso pretende ler alguns livros de Eça de Queirós que ainda não leu; que também pretende reler a obra de outros autores que gosta como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Cervantes e outros; que não se inspirou em nenhum livro em especial para cometer o crime; que não está arrependido; o depoente perguntou ao delegado quando poderá receber seus livros na cadeia e que lhe foi respondido que ele não tem o direito de perguntar nada durante o interrogatório.