terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um conto sobrenatural


Dança a menina ruiva, invocando coisas que já morreram. Alguém se cala e espera espíritos que já dormem a essa hora da noite. De olhos fechados e mãos atadas. Ruas, igrejas, pontos de ônibus e janelas apagadas temem que a ruiva abra sua caixa de segredos. Ela olha e percebe a tensão nos espíritos sombrios que testemunham sua dança. Então ela canta. Notas altas, linhas melódicas estranhas, luzes sobre a sua pele fria. Seu canto incita os cães e os amantes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Borges


Ando lendo Jorge Luis Borges e é sempre fascinante a sua capacidade de criar ou recriar universos. O livro que emprestei de uma amiga é uma velha edição do Círculo do Livro que reúne os livros “Elogio da Sombra”, “O Informe de Brodie”, “O Livro de Areia” e “História Universal da Infâmia”. Não faz muito tempo, li “O Aleph” e cheguei a escrever algo no blog. Alguns contos têm temática fantástica, outros são gaúchos e outros ainda são situados em momentos obscuros da história da humanidade. Dá pra notar que Borges era fascinado por história e por antigas narrativas ligadas outras culturas, principalmente as orientais.
O último conto que li foi “A Intrusa” que virou um filme interessante na década de 70, dirigido por Carlos Hugo Cristensen, com a Maria Zilda e o José de Abreu. A trilha sonora, se não me engano é do Piazolla. Quando eu era adolescente esse filme passava sempre na TV. Tem um clima estranho e frio, da desolação dos confins dos pampas. O conto de Borges é curto e direto. É mais fácil ler o conto do que ver o filme. Mas o filme vale a pena também.
“Elogio da Sombra” é um livro de poemas. Borges tem mais prestígio como prosador do que como poeta. Não cheguei lá ainda, mas dei uma olhada no prefácio, escrito pelo próprio autor, em que ele atende o pedido de seu editor e fala um pouco sobre sua estética. Achei interessante e reproduzo um trecho aqui:

Não sou possuidor de uma estética. O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras extravagantes; intercalar num relato rasgos circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que se a realidade éprecisa a memória não o é; narrar os fatos (isto aprendi de Kliping e das sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente; recordar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las. Tais astúcias ou hábitos não configuram certamente uma estética. Além do quê, descreio das estéticas. Em geral, não passam de abstrações inúteis”.

Na foto, Borges fotografado por Diane Arbus.