sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Teoria Geral das Fitas

O título acima é uma brincadeira com o “Alta Fidelidade”, do inglês Nick Hornby, que acabou virando um filme bacaninha com o John Cusack e o Jack Black. O protagonista do romance (não lembro o nome dele) adora gravar fitinhas para os amigos e as garotas que está afim. Para isso, ele tinha toda uma teoria sobre como deveria ser montado o repertório da fita, a ordem das músicas e tal. Quando li o livro me dei conta de que eu também tinha toda uma metodologia de gravação de fitas, dependendo dos objetivos.
Recebi dia desses algumas fitas cassete de presente do meu amigo Edson Nogueira. Além das gravações raras do violeiro Raul Torres na Odeon e na Victor, um detalhe bastante prosaico chamou minha atenção: a caixinha da fita da marca Scotch. Há anos que eu não via uma dessas por aí. Como nostálgico incurável me lembrei da época em que as fitinhas cassetes circulavam entre os amigos numa forma de pirataria bem mais inofensiva e precária que a atual.
Quando eu era criança meus pais tinham uma fita Scotch igual à que o Edson me deu. Lembro que tinha umas músicas da Elba Ramalho, Amelinha, Zé Ramalho e “Vela Aberta”, sucesso solitário de Walter Franco, que o meu pai gostava muito. Por causa dela, acabei virando fã de carteirinha desse doce maldito da MPB. Pois é... para as pessoas da minha idade algumas fitas marcaram épocas da vida, assim como os LPs.
Lembro das fitas do meu pai. Tinha as de samba, as de MPB, as de orquestras (que eu não gostava). Tinha uma que era só samba e balanços de Jorge Ben e Bebeto. Hoje tocaria tranqüilamente numa festa retrô moderninha de samba rock. Uma fita da Ópera do Malandro me deixava impressionadíssimo com as letras de imagens fortes e, é claro, com o famoso “joga bosta na Geni”.
Gravar fitas era uma delícia. Era um presente barato e super personalizado que você poderia dar para os amigos ou pra uma garota que estivesse afim. Tinha as Scotchs de caixa cinza, as japonesas da TDK e as horríveis Vats que enrolavam facilmente. Colocar uma Vat pra tocar no carro era praticamente dar adeus à fitinha. Mas a campeã absoluta nas minhas memórias são as Basf amarelinhas. Depois a Basf ficou vermelha, surgiram as Sonys azuis. Nenhuma delas como as Basfs amarelinhas.
Meu pai gravou minhas primeiras fitas. Lembro de uma com os Saltimbancos Trapalhões, o tema do Flash Gordon e umas músicas da Turma da Mônica. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, emprestei o LP “Creatures of the Night” de um vizinho. A fita gravada pelo meu pai tocou até acabar e me fez começar a gostar de rock.
Eu também gravei centenas de fitas pela vida afora. Tenho até hoje na casa da minha mãe uma grande gaveta lotada delas. Desde raros cururus até coisas maravilhosas de rock, que ainda não achei em CD, como uma coletânea dos primórdios do punk rock, gravada de um CD japonês trazido de lá por um colega de faculdade.
Aliás, como sempre tive muitos LPs, na época da faculdade virei uma espécie de gravador oficial de fitas da turma. As fitinhas tinham temas. Uma era de rocks pra pegar estrada, outra de sambas, podia ser o melhor do Caetano, uma seleção de Beatles ou outra pra curtir aquela fossa e, lógico, aquela pra conquistar a menina dos seus sonhos.
Hoje podemos gravar CDs. O som é melhor, mas nada me tira da cabeça que não tem o mesmo charme. Não é tão pessoal. Já na era dos CDs, com as fitinhas em franca decadência, gravei uma seleção do grupo escocês Belle & Sebastian pra uma garota de cabelos curtinhos que fazia faculdade comigo. Gosto de pensar que a fitinha ajudou que ela virasse minha namorada. A fitinha ajudou a dar o impulso inicial. Fiz a minha parte e estou com a garota até hoje, dividindo vida e canções.

2 comentários:

Pedro disse...

Que bom que você reativou o pobre do blog. Sobre as fitas o Zé Henrique também tinha todo um modo de producao e escolha de repertório. Eu e você chegamos a fazer boas fitinhas juntos tomando umas. Eu lembro quando você e a Aline me mandaram aquela coletânea em CDR com capa pintada por ela. Foi muito legal e de certa forma contradiz o que você falou sobre as fitas e os cds. Para mim continua quase a mesma coisa, sem feitichismos. È isso. Bom ter voltado à ativa. Abracos. Até Mar.
Pedro.

diniz .a gonçalves junior disse...

Gostei bastante desse texto , lembro das fitas citadas , eu tb gravava fitas para pretendentes ( rsrs) . Tem uma cena no filme " Bossa Nova " , Pedro Cardoso tenta conquistar Giovana Antonelli com seu walkman na balsa pra paquetá , é uma cena bem bacana .Eu escrevi um texto sobre esse filme no site Mnemocine www.mnemocine.com.br

abraço