quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Minha primeira vez com Lou Reed




Em 1996 eu morava numa república de estudantes em São Paulo. Estava entediado, odiava, ou melhor, desprezava o que eu estava estudando, mas adorava morar em São Paulo por causa dos cinemas, teatros e shows que frequentava.
Nesse ano assisti o que costumo dizer que foi o melhor show que vi na vida. Foi a primeira vinda de Lou Reed ao Brasil na turnê do álbum “Set the Twilight Reeling” para dois shows no Palace.
Não tinha carro e não sabia nem onde era o Palace. Fui com uma amiga comprar o ingresso para a segunda noite. A primeira era uma disposição com mesas e camarotes, ou seja, custava o dobro e nem dava pra ter o prazer de pular com a galera no gargarejo. Coisa pra tiozinho.
No dia do show chovia muito. E lá fui eu para a 23 de maio tomar o ônibus que minha amiga tinha me ensinado. Todas as janelas do ônibus estavam embaçadas e era impossível enxergar o lugar onde eu deveria saltar e que eu havia decorado no dia da compra dos ingressos. Pedi para o motorista avisar quando o ponto chegasse. Deu tudo certo e em poucos minutos eu já estava na pista, em frente ao palco, com só duas pessoas na minha frente.
E foi inesquecível. Abriu com “Sweet Jane”, seguida de “Dirty Boulevard” e “Waiting for the Man”. Toda aquela crueza dos discos do Velvet e solo do Lou Reed estavam no palco. Com um som poderoso e brilhante feito de paredes de distorção. O show seguiu assim, com o repertório impecável, a platéia em delírio e a banda afiadíssima com o fantástico Fernando Saunders no baixo e Mike Rathke na guitarra. Não consigo mais me lembrar do nome do baterista. Tocaram quatro músicas do “Set the Twilight”, inclusive “Hooky Wooky”, que na época passava direto na MTV.
No bis teve “Vicious” e a maravilhosa “Satelite of Love”, cantada inteirinha pela platéia, o que, claramente pana nós ali da fila do gargarejo, surpreendeu a banda e Reed. Não deu outra. Voltaram para um segundo bis com “Rock´n Roll” e “Walk on the Wild Side”. Agradeceram e tentaram sair do palco, mas o público fez tanto barulho que Reed pediu aos músicos pra tocarem mais uma. Cheguei a ver o baterista fazendo sinal pra ele que estava cansado.
E aí veio “Pale Blue Eyes” (gravada até pela Marisa Monte) e todo mundo cantou junto de novo. O velho rock star maldito sorria, visivelmente emocionado. Pararam novamente, deixaram os instrumentos e agradeceram e... o público gritou e pulou ainda mais! Eu não acreditava. O roqueiro mais cínico e perigoso da história sorria abertamente, jogava beijinhos e trocava palavras de surpresa com os músicos.
Não teve jeito. Extenuados, tomaram seus instrumentos de novo e fizeram uma barulheira dos infernos, no melhor estilo das muralhas de microfonia do Velvet Underground. Não foi uma canção, foi um ritual, um “happening” pra lavar a alma dos fãs.
Dias depois, um amigo que não foi ao show disse que leu em algum jornal que Reed, que estava afastado do álcool e das drogas há algum tempo fez questão de tomar uma dose de uísque com os músicos da sua banda ainda no camarim para celebrar o segundo show em São Paulo, considerado especial por ele. Nunca vi nada parecido num show de música. Além das lembranças que divido com vocês, guardo o ingresso do show e a matéria do jornal do dia.
Vi Lou Reed na sua segunda vinda a São Paulo, na turnê do disco “Ecstasy”, no gigantesco Credicard Hall. Foi legal também, mas não repetiu a magia daquela noite chuvosa. O compositor de “Perfect Day” fez a noite perfeita. Rock´n roll animal, visceral e verdadeiro.

4 comentários:

André e seus Caldos de Cana disse...

cara, eu estava lá. será que eu era uma das duas pessoas na sua frente? eu não morava em sp, tampouco conhecia o palace, fui com 4 amigos loucos, e realmente, aquele show foi inesquecível. valeu pela recordação.

Edu disse...

Eu estava lá...e notei no semblante de lou reed um mistura de alegria e espanto do tipo "o que esses caras estão gritando?'' era o famoso grito "uh tererê" repetido varias vezes. foi ali que ele decidiu tocar mais um encore.

alex Santos disse...

Eu está lá rsrsr só isso... Muito bom

alex Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.