segunda-feira, 1 de março de 2010

Diário de viagem – noite de blues e poesia



Caprichei na trilha sonora. Com Mutantes, Serge Gainsbourg, Freddie King, Neil Young, Tim Hardin e Johnny Cash os duzentos e trinta quilômetros passaram bem rapidamente. Deixamos o filhote na casa dos avós em Osasco e fomos pro Itaú Cultural conferir o dia dedicado à poesia da semana que abordou o trabalho do Mario Bortolotto.
Parecia que ia fazer frio em Sampa mas lá no Itaú esquentou rapidinho. Poesia e blues. Poesia e rock´n roll. Ademir Assunção, parceiro até do grande Itamar Assumpção, leu um poema de sua autoria acompanhado pela banda Saco de Ratos e conduziu um pequeno bate-papo com Bortolotto falando de poesia e dos tempos de Londrina. Também acompanhados pela Saco de Ratos os poetas Marcelo Montenegro e Sergio Melo leram alguns textos. Foi foda. Valeu a pena ouvir os poemas vestidos de blues eletrificado e ao vivo. Saí de lá com o versos do Sérgio Melo na cabeça, como “A melancolia é um vestido de noite usado de dia”.
Era a noite da poesia e ali foram declamados versos que emocionaram e fizeram rir. Mas teve a banda cara... a histórica primeira apresentação dos caras depois do incidente em que o dramaturgo foi baleado. Já tinha visto uma porrada de vídeos da Saco de Ratos no youtube, mas nunca tinha dado certo de cruzar os caras numa noite que eu estivesse em São Paulo. E valeu esperar. A banda é mesmo muito foda. O blues dos caras é áspero e pesado pero sin perder o swing que é inerente ao gênero inventado pelo diabo.
A dupla de guitarristas Fábio Brum e Marcelo Watanabe se completa de uma maneira especial. Brum é o cara do toque forte, do drive hipnótico, da fervura. O discreto Watanabe é melódico e elegante e acrescenta suavidade e sinuosidade ao som. A cozinha firme e segura é formada por Fabio Pagotto e o baterista Rick Vechione, pertencente à linhagem mais nobre do underground do rock de São Paulo. Os quatro, com o auxílio luxuoso do gaitista Flavio Vajman, formam a poderosa base instrumental da Saco de Ratos. Pra mim o blues é o tipo de som que quando é bom te pega pelas bolas e te bota em pé. E a Saco de Ratos tem as manhas. Apesar do som perfeito do Itaú Cultural não pude deixar de imaginar como deve ser do caralho ouvir essa banda no seu habitat natural: um boteco à meia luz, onde se pode tomar uns goles e ficar em pé no canto da sala tocando uma “air guitar” honesta.
E aí tem o Bortolotto...Bom, a festa era dele. Ele cantou, declamou, berrou, andou pelo palco arrastando seus famosos coturnos e, em poucas músicas, mostrou que tá pronto pra tocar o barco. Mesmo cantando as histórias mais devastadoras dos caras que trafegam pelas ruas desertas da vida e com sua fama de casca grossa (não sei se justificada ou não) Bortolotto pareceu estar leve naquele momento. Parecia um cara feliz fazendo um som com os amigos. E quando um cara pode ser mais feliz do que quando faz um som com os amigos? Talvez fosse a alegria de um cara que quase virou mito ou mártir para o pessoal que conhece o lado B da cultura brasileira, mas fez uma força e ficou por aqui pra ler seus gibis, escrever sobre a vida, abraçar os amigos e fazer um som quando der. Mesmo sem conhecer pessoalmente o cara até aquele momento, torci pra caralho pela sua recuperação e escrevi sobre isso aqui no bloguinho. Então foi legal vê-lo inteiro. Alive and kicking. Pequeno detalhe: ele manda bem pra caralho nos vocais. Voz rascante, interpretação passional. O que mais um cantor de blues precisa?
A Aline gostou pra caramba do show e disse que não curtia tanto um blues ao vivo desde os tempos em que ficava com o baterista de uma bandinha lá de Bauru. Puta que o pariu! Como não toco merda nenhuma já decidi que vou levá-la no show do Johnny Winter para exorcizar meu ciúme retroativo. Aliás, a fotinho aí em cima foi tirada por ela, meio escondida porque sentamos debaixo das barbas do segurança do teatro e foi dado o aviso que era proibido fotografar sem autorização.
Na saída do evento comprei os Cds do “Tempo Instável” e da “Saco de Ratos”, um livro com doze peças do Bortolotto e levei um papo rápido com ele e com o Fábio Brum. Gente fina, caras simples e atenciosos, apesar do cansaço pós-show.
A apresentação do sábado foi só um esquenta. O domingão foi o dia dedicado à música, mas na hora do show já estávamos na estrada voltando pra casa, com os CDs do “Tempo Instável” e do “Saco de Ratos” devidamente incorporados ao play list. É isso. The blues is alright! Bortolotto got his mojo working! E a poesia permanece.

16 comentários:

astriba disse...

Sérgio , bom texto.
O Bortolotto merece.

Fábio Reoli disse...

Porra velhão, puta texto e resumiu bem pra caralho a primeira vez que vi o Marião e os caras tocando. Fopdaço. Tive uma merda de viagem de trabalho e não consegui ir nem um dia, fiquei fodido, mas ainda vão ter oportunidades da gente ouvir essa blueseira dos caras e tomar uma, brother.
Abração.

Adriana Godoy disse...

Gostei..acho que deve ser isso mesmo. Li lá no Bortolotto. Valeu. bj

POBRE MEU BLOG disse...

Amigos,
Apareçam sempre. Fabião, vamos mesmo. O som dá sede. Abraço.

Flávio Vajman disse...

Valeu por sua presença lá e por esse "auxílio luxuoso". Belo texto! Grande abraço!!!

Gregory Corso disse...

Cara, seu Blog é muito bom. Parabéns

ricardo ara disse...

po, bacana esse texto sergio. e quero ainda ver um som desses caras ao vivo, imagino - ou não - o que seja.

e a benção do corso ai nos comentários, ha

abraço

Elucubrada disse...

Mto bom! Tb foi a primeira vez q vi o blues deles ao vivo. Foi perfeito!
Bela descrição.
Me arrependi de não ter ficado mais um pouco...
abço

Sérgio disse...

Valeu amigos. Apareçam sempre.

Tati disse...

Bom não? É que vc não os viu no Aurora...

Sidnei Humberto disse...

"Aumenta que ISTO AQUI é ROCKNROLL"!!!

Pedro. disse...

Se a Aline tirou esta foto meio na encolha e já ficou assim boa, imagina em condicoes perfeitas ? Ae Aline, manda bem à vera, hein!!
Parabéns.

Pedro.

Txellu's disse...

Queria estar na estrada com vocês.
Saudades dos tempos de Bauru, da casa do Pedro, do Pedro, das idas pra São Paulo.
Ducaralho irmãozinho!
Viva os velhos bêbados barrigudos.

Freak disse...

Particularmente gosto da poesia assim, cantada... declamada apenas às vezes podemos nos perder, voar na imaginação e deixar algo de lado.

Aline disse...

Putz, Pedro. Deu muita coceira para fazer algumas fotos legais que identifiquei durante o evento. Como uma foto do Bortolotto com seus coturnos cruzados em primeiríssimo plano, além de outras de detalhes dos integrantes da banda e dos poetas. Pena a proibição, pena eu não estar com equipamento apropriado. Quem sabe da próxima vez eu me cadastre como a jornalista que sou e comece a fazer algo que faz parte dos meus planos há algum tempo: investir mais em fotografia de espetáculos.

Pedro. disse...

Sorte pra ti neste plano profissional. Aliás belíssima escolha. Porque será que era proibido tirar fotos, você tem idéia ? Beijao.
Pedro.