sexta-feira, 2 de abril de 2010

Santa sexta-feira



Manhã fria e solitária. Coloquei na bandeja do aparelho de som Cds do Tim Hardin, do Wilco e uns bem antigos do Bob Dylan. Já tocou aquela música bonita do Wilco “Sunken Treasure” e aquela tá tocando “I Threw It All Away” do Dylan. Jogar tudo fora às vezes é bom. Na única vez que fiz isso na vida a mudança foi pra melhor. Percebo agora como o rock´n roll não salva ninguém. Domingo faço 37 anos e penso no poema do Drummond que diz algo como “Nenhum problema resolvido, sequer colocado”. Fiquei com a cabeça cheia de merdas do trabalho e dormi muito pouco. A casa estava cheia de parentes da minha mulher dormindo no escritório e no chão da sala. Fiquei algumas boas horas no banheiro, deitado dentro da banheira, lendo Willian Blake e a revista Trip desse mês que o cara da banca praticamente me obrigou a comprar porque me devia dinheiro. Ele disse que se eu não levasse a revista, ele nunca ia conseguir juntar grana pra me pagar. Aí comprei a Trip, a Bilboard (uma bosta), o Estadão (falando em bosta) e um livrinho de colorir para o meu filho. Agora todo mundo foi embora e fiquei sozinho em casa. A solidão que desejei tanto também é cansativa porque não consigo fazer nada agradável no tempo de tranquilidade que, finalmente, consigo ter. Levantei da cama antes das 7h, mas voltei a deitar e consegui dormir um pouco depois das 9h. Sonhei que da janela da minha casa me via na rua, andando de skate e com aquela fome de novidades e aventuras que tinha aos 14 anos. Acordei meio abalado e a sensação tinha ido embora. É incrível como quase aos 40 ainda me lembro e sinto falta dessa urgência no peito. O rock´n roll não salva mesmo. Às vezes nem ele alivia como dizia a música do Made In Brazil. Amanhã é sábado de aleluia. Quando eu era moleque a molecada fazia os Judas de pano e barbarizava com o boneco. Lembro de uma vez, acho que eu tinha uns dez anos, e passava por uma rua da minha vila na Belina do meu tio Aparecido, um tio muito louco que morava em Santos. Era sábado de aleluia e ele, para zoar a molecada, parou o carro no meio da rua, desceu lá e roubou o Judas do meio da molecada, arrancou o bicho que tava amarrado no poste! Falava: “chega de bater no cara, ele já se fodeu demais, vamos deixar o Judas em paz”. Enfiou o boneco no carro e saiu com tudo, com a molecada correndo atrás jogando pedras, xingando e a gente se mijando de rir lá dentro. É o único sábado de aleluia de que me lembro.
Acho que não disse aqui que li “Leite Derramado” do Chico Buarque e gostei muito. Só havia lido “Estorvo” quando saiu, mil anos atrás. Numa noite dessas também assisti “Valsa com Bashir” na TV e gostei pra caralho do filme. Por falar em filme, arrematei uma leva legal de filmes B no centro de São Paulo, todos devidamente recomendados pelo grande César Almeida, autor do “Cemitério Perdido dos Filmes B” que eu indiquei alguns posts atrás. Foram: “Corrida com o Diabo”, com Peter Fonda e Warren Oates; “Demônios sobre Rodas” (Hell´s Algels On Wheels) com Jack Nicholson; “De Volta ao Vale das Bonecas”, do alucinado Russ Meyer, filme maluco e legal pra caramba que eu já tinha assistido; “Galo de Briga”, com Warren Oates e os westerns “Disparo para matar” e a “Vingança do Pistoleiro” com o Jack Nicholson; e os italianos “Matá-lo”, “Preso na escuridão” (spaghettii com o Ringo Starr). Pra hoje, aluguei as duas partes do “Che”. Não sei se vai prestar, mas é o que programei pra hoje. Como não tem bacalhoada e tal, vou esquentar a sopa de mandioca de ontem, dar comida aos cachorros e encarar as aventuras do Benício em Sierra Maestra.

4 comentários:

|Fly| disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
|Fly| disse...

No final somos todos um velhinho sentado num quarto de motel, fumando um cigarro. Não fazemos nada, ficamos a lembrar da mulher que amamos na juventude, e deve estar casada com um idiota qualquer, tão solitária quanto nós. Um passado projetado na parede branca com rachaduras de infiltrações do tempo que já passou, mas continua andando lentamente. Nossa imortalidade é um fingimento bonito, nota de rodapé rasurada num livro de histórias, provavelmente no final de uma epopéia mitológica.

Elucubrada disse...

inferno astral? rs Parabéns pelos 37.
esse fds tava vendo um documentario sobre "Seneca e a ira" - dizendo que essa surge pelo fato de criarmos expectativas demais, tal. Tava pensando sobre o rock´n roll... nunca esperei nada, mesmo porq nasci no meio de um bando de pagodeiro (poisé) e não é que foi ele que salvou mtas manhãs ou noites? até coloquei um jokerman - bob dylan pra tocar... não desisto, mas ainda desligo o som por um bom filme. boa semana! Camila

Rodrigo Roll disse...

Obrigado pelo blog cheio de citações e situações bom gosto!sliewa