domingo, 22 de agosto de 2010

Saudades da chuva

Ando com uma tremenda saudade da chuva. Sentindo falta de coisas simples como dormir com o barulho da chuva, ou simplesmente olhar pela janela e ver as gotas molhando a rua ou o quintal de casa. Gosto muito de dirigir sozinho, à noite, com chuva e ouvindo um som. Quando isso acontece é sempre um momento que gosto de curtir. Normalmente, dirijo mais devagar pra aproveitar.

Mas além de secos, os dias atuais estão estranhos. Por diversos motivos que nem vou escrever aqui. Mas um lance legal desses dias foi ter lido “Atire no Dramaturgo”, livro que reúne os textos que o Mario Bortolotto publicou no blog homônimo.
Já faz algum tempo que acompanho o blog. Gosto dos textos e das dicas culturais que rolam lá. Já li a peça “Nossa Vida não Vale um Chevrolet” e o romance “pulp” “Mamãe não voltou do supermercado”. Gostei dos dois, principalmente da peça. Ainda tenho aqui na fila pra ler o “Bagana na Chuva” e duas coletâneas de peças do cara.
Mas acho que a leitura do “Atire no Dramaturgo” foi a que mais me pegou até agora. Primeiro pela afinidade que senti ao ler os relatos todos. Não é sempre que um autor pensa muito parecido com você, ouve os mesmos sons, gosta dos mesmos filmes. Bortolotto é aquele cara com quem eu dividiria uma cerveja na boa, enquanto arrotaríamos piadas, pequenos momentos de melancolia e observações sarcásticas sobre o boteco e o universo.
Mas, além disso, há muito chão ali. O que quero dizer é que uma trajetória como a do cara que sai da periferia de uma cidade do interior (Ok, Londrina é uma puta cidade legal, com um movimento cultural bem foda, mas como diria aquela bandinha podre está “longe demais das capitais”) e vai ser escritor, poeta, dramaturgo, bluesman (levando a vida de bluesman) é uma trajetória de coragem. Há um belo texto sobre isso, em que ele diz que nem acha nada de heróico ter conseguido viver da maneira que escolheu, ainda que seja uma maneira dura, sem concessões. Nós, os que batemos cartão de ponto, sabemos o quanto isso é uma conquista.
Por fim, os textos mostram que o escritor foi forjado nas bebedeiras, na montanha de referências artísticas, nas noites vazias, mas também em profundas tempestades e silenciosas bonanças interiores. Daí os textos muito fudidos sobre a mãe, a mulher, os caras que admira. Mario não tem medo de explicitar sentimentos, de mostrar-se perplexo com os rumos das coisas. Mesmo em sintonia com o mundo cão, com os estropiados da vida, abre espaço para uma poesia que não nasce apenas da violência. Ou estou muito enganado ou é simplesmente um imenso respeito pela vida, incluindo aí todas as merdas inerentes ao nosso camelar pelo tal vale de lágrimas. Isso, de alguma maneira, surge nas entrelinhas.
Falar que bebe pra caralho, que come todo mundo e é um puta louco alucinado é bem mais fácil. Tá cheio de candidato a poeta maldito por aí. Na net, principalmente. Existem cicatrizes mais profundas que as feitas por garrafas quebradas numa briga de rua. Assumi-las e falar delas é muito mais foda.

Além do livro do Mario Bortolotto também devorei um gibi do Jonah Hex que a Panini lançou. Muito legal. Parece que já estreou nos Estados Unidos um filme baseado nas aventuras do cowboy matador deformado. Tem o John Malkovich e a gostosa da Megan Fox no filme.
E enquanto a chuva não chega o som que mais tem rolado por aqui é o velho Tom Waits. Por que catzo não trazem o cara pra tocar aqui? Vai um som do mestre, xamã urbano encharcado de bourbon, fazendo sua dança da chuva.

5 comentários:

Diego Moraes disse...

muito bom dirijir sozinho.

Txellu's disse...

Salve Santera!

Sabadão a gente foi ver o Bortolotto no Cemitério de Automóveis.
Ducaralho!
Sentimos a falta de vocês.
Mais de duas horas sem sair de cima.
Com direito a bandinha de abertura e poesia.
As 4 da manha Taninha pediu arrego e viemos embora com a alma encharcada de rock, blues e putaria de boteco.

Beijo na família

Klaus disse...

Sábado tem festa aqui em SP, festa pra alavancar fundos pra V Mostra do Cemitério de Automóveis, que tal??? Gostei de ler uma descrição do Marião tão próxima do amigo que conheço... e rain dog não dá nem pra explicar, né?
Eu gostei de vir aqui!
um beijo.

POBRE MEU BLOG disse...

Valeu amigos. Apareçam sempre.

Rodrigo Roll disse...

Espetacular "Rain Dogs", man! É típico ser prosador atrás da tela de um computador e não ter vivenciado porra nenhuma.