quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Revendo “Cidade Oculta” ou por onde andam os japas?

Dia desses revi “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho, em 1986. Quase 30 anos depois do seu lançamento, não sei qual é o status que o filme desfruta entre os especialistas. O fato é que aqui em casa a produção é um “cult”, ou pelo menos é o que eu imagino que essa palavrinha metida a besta quer dizer. Acho a estética do filme é legal demais. A mistura de cinema noir, quadrinhos e rock´n roll me lembra tempos em que o underground paulistano era interessante pra caramba. A metrópole decadente, e aspirante a futurista, do terceiro mundo véio sem porteira. Ecos da “Chiclete com Banana”, do movimento punk em pleno vigor, da noite desvairada explodindo na pós-ditadura. Talvez por tudo isso “Cidade Oculta” sempre me faça lembrar de “Blade Runner” como se o filme brasileiro fosse um filhote vagabundo e demasiado humano da obra de Ridley Scott. As cenas noturnas às margens do Tietê podrão, as paisagens do centrão de São Paulo ou as tomadas do skyline da cidade ainda são belíssimas. Gosto especialmente de uma tomada rápida em que a câmera passa por soldados da cavalaria da PM, com seus capacetes de choque, cruzando as ruas do centro à noite. O elenco tem vários acertos. Apesar da interpretação meia-boca, é legal ver Arrigo Barnabé, com sua cara de Orson Welles, interpretando o anti-heroi Anjo ou Anjo-san como é chamado pelo seu ambíguo parceiro Japa, interpretado por Celso Saiki, figurinha que habita algum canto da minha memória dos anos 80, como um dos apresentadores dos Telecursos que a TV exibia pela manhã. Carla Camurati, deslumbrante, faz a fatalle Shirley Sombra. E como ela era gostosa! Carla Camurati nos seus 20 e poucos aninhos supera qualquer Uma Thurman da vida. Se acha absurdo o que eu digo, confira a performance da deusa na cama com o Anjo-san. Tem também o ótimo Claudio Mamberti como o delegado Ratão. As pontas são uma atração à parte. Tem Chiquinho Brandão, Itamar Assumpção, Beth Coelho (uma das dançarinas), Jô Soares (no tempo que ele ainda era legal) e sempre acho que vejo o Carlos Rennó numa cena de bar. A trilha sonora, assinada por Arrigo Barnabé, é de primeiríssima. Não faz muito tempo que arrematei esse vinilzão num sebo da Galeria. Mas já tive tudo gravado em alguma velha fitinha perdida. Destaque para “Pô, Amar é Importante”(Hermelino Neder); “Poema em Linha Reta” (Arrigo sobre Fernando Pessoa); “Mente Mente” (Robinson Borba), um dueto visceral entre Arrigo e Ney Matogrosso; “Pregador Maldito”, que surge no filme numa performance incrível da Patife Band. Aliás, encontrar o vinil “Corredor Polonês”, da Patife Band, é um dos meus objetivos musicais para 2013. Mas pra mim o tema “Cidade Oculta” é insuperável. Escrita por Roberto Riberti, Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin, é uma espécie de valsa noir, futurista e decadente, e capta perfeitamente o espírito do filme. É uma canção que me faz ter vontade de saber tocar piano, só para poder interpretá-la. Há uma cena passada num karaokê da Liberdade, onde um japonês cabeludinho canta um tema meloso, na língua do Ultraman. O figura é Rui Mifune, ou Goemon, seu nome artístico. Nos anos 80, lançou no underground paulistano a fita-demo “Levemente Perverso”, com as faixas: “Meu pornô-filme”, “Junkies - vida bagaço”, “Superstar” e “Harumy tchans”. Parece que ele lançou um LP nos anos 90, com títulos como “Cachaça, Rock e Banchá”, “De Porrada em Porrada” e “Paola, Travesti”. Vale procurar por aí. Mifune é da geração do Lira Paulistana. Morou anos no Japão e lá produziu discos e antologias de vários artistas brasileiros. Tocou com Itamar Assumpção e outros músicos da cena paulistana. No blog do Luis Nassif descobri que ele morreu em 2012. Confira a cena do karaokê abaixo. Depois de rever o filme também fiquei curioso por saber mais sobre Celso Saiki, que faz o Japa. Como disse, me lembro dele por aí na TV da minha infância/adolescência. Dei um google e descobri que, além de ator, Celso foi autor e diretor teatral , fundador do Grupo Ponkã, e diretor de vários episódios de Bambalalão, da TV Cultura. Ganhou prêmios teatrais e dirigiu espetáculos estrelados por Guilherme Karan, Luisa Tomé e Clodovil. No cinema também participou de “Gaijin”, de Tizuka Yamasaki. Morreu em decorrência da Aids, em 1994. O personagem Japa é um dos mais interessantes de “Cidade Oculta” e a interpretação de Celso é bem legal. Pra encerrar deixo uma versão de “Cidade Oculta”, com Arrigo ao piano. Antes de tocar ele fala um pouco da trilha sonora e rola um pequeno clip do filme.

3 comentários:

Bel disse...

Que saudadeeeeee que eu tava!! Não desista do bloguinho, é meu caleidoscópio de oxigênio,meu narguilé. Se é que vc me entende....
Bjosssss

Anônimo disse...

Porra mermao, surpresa das mais agradáveis ver que este terreno baldio virtual voltou a dar cachorros sem dono em forma de textos. Gracas à crise cretina que venho passando resolvi procurar o blog por pura curiosidade & qual nao foi a surpresa ao ver dois novos textos e a luxuosa presenca da querídissima amiga de copo, de bar e de vida, Bel. Aliás, se me falha nao-memória, foi na época em que a conheci que emprestei sei lá de quem o VHS com o filme. Boa época nao é nao, Bel ? Pra mim também aqui tem algo de caleidoscópio, oxigênio e narguilé. Viva a Bel, Viva o diretor do filme & viva Arrigo Barnabé ! O resto a gente deixa pra outra vez.

Di Giacomo disse...

Olá, tudo bem? Parabéns pelo post, é difícil achar tantas informações sobre o "Cidade Oculta". A trilha sonora é genial. abrax