sábado, 29 de janeiro de 2011

Minha 59ª fratura



Teve aquela vez em que minha raiva foi vencida pela fidelidade de alguém
Quando os ossos do sol desabaram na minha cabeça doeu menos
Teve uma tijolada na têmpora
E cacos de vidro na uretra
Cada vez que optei por não escolher foi uma
No fim da noite algo começou a dilacerar a carne
Pela manhã estava exposta
Vou esfregar sal grosso e aplicar um larvicida
Para continuar procurando pássaros da janela do meu quarto

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

...y seguindo la canción



No final de 2010, o velho papa do punk brega colocou mais esse trabalho na praça. “Caminando y Cantando” é o sexto álbum de estúdio de Wander Wildner. O release diz que o álbum é inspirado na sua recente andança por Buenos Aires, Montevideo e Berlin.
Na Alemanha, aliás, Wander teve a felicidade de cruzar o caminho do meu little brother Pedro que, para variar, deu uma de Pedro com ele ao chegar pro cara antes de um show numa livraria berlinense e dizer “achei sua música nova meio bobinha”. Como se não bastasse, o Pedro sentou bem na frente do palco e ficou gritando coisas como “O sol se foi”, “Fumá um paião”, frases que o Wander fala na gravação de “Albert Einstein”, do CD “Buenos Dias”. Acho que nem as cerca de dez pessoas presentes no show e nem o artista entenderam nada. Depois o Pedro ainda ficou chateado porque ele não tocou “Albert Einstein”.
Conhecendo my little brother de longa data, deve ter sido a cena mais hilária e constrangedora que Berlin viu desde o último fio da terra da Eva Braun em Adolf Hitler. Depois ele se explica nos comentários ou pelo menos conta pra gente o que ele tomou. Ah... pra completar a festa parece que o Pedro levou no show um outro brasileiro exilado em Berlin, um mineiro fã do Clube da Esquina que ficou amaldiçoando a coisa toda... Mais uma das grandes histórias do Pedro. Ele é que devia ter um blog pra nos contar suas incríveis aventuras. Sorry, brother. Eu tinha que contar essa.
Mas voltando ao que interessa, o disco novo do Wander é legal pra caralho. Sou suspeito porque gosto do cara desde os tempos dos Replicantes. Quantas vezes não ouvi “Festa Punk” ou “Sandina” no quartinho dos fundos da casa do Txélos. Nossa bandinha punk, que transtornava os vizinhos lá pelos estertores dos anos 80, tocava “Nicotina”. Até hoje, de vez em quando, peço pro Txélos tocar “Astronauta” quando nos encontramos e há um violão por perto. O Julio Reny também gravou “Astronauta”, mas a versão dos Replicantes é insuperável.
De alguma maneira “Astronauta” já tinha os elementos que formaram o punk brega do Wander Wildner. É uma música que caberia tranquilamente na sua carreira solo. Mas por falar em punk brega, “Caminando y Cantando” tem vários momentos que não se enquadram nesse conceito. Coisas mais folk como “As Coisas Mudam”, composta por Wander e baseada no maravilhoso filme “Pequeno Grande Homem” de Arthur Penn, com o Dustin Hoffman e a Faye Dunaway deslumbrante. É um daqueles westerns tardios, feitos no final dos anos 60 ou início dos 70, que eu gosto pra caralho, como “Butch Cassidy” e “The Wild Bunch”. O filme mostra a batalha de Little Big Horn em que os índios liderados pelo Touro Sentado deram um pau histórico na cavalaria americana, matando inclusive o famoso General Custer. Vejam o filme. É fácil de achar por aí.
“Dani” é uma balada bonita composta por Jimi Joe, parceirão do Wander e figura importante do rock gaúcho. Quando vi o show do Wander no Abril Pro Rock em sei lá que ano, o Jimi Joe estava na guitarra. Wander se apresentou dizendo “Nós somos a banda de Jimi Joe”.
“Boas Notícias” foi composta por Gustavo Kaly, autor de “Um Bom Motivo”, gravada por Wander no seu disco anterior e uma das músicas mais legais do repertório do trovador gaúcho. Ouvi “Bom Motivo” pela primeira vez no show Sub Versões que vi com a Aline em Sampa. Wander tocou no barzinho sozinho com sua guitarra e nós sentamos bem perto do palco. Aliás, não tinha palco. Era um banquinho e microfone. O show foi do caralho. O Xico Sá estava lá com uma alcatéia de mulheres feias. O refrão “Me dê um motivo pra não cheirar cola esta noite” ficou na cabeça por meses. O povinho do trampo achava que eu era louco de cantar isso. “Boas Notícias” também tem um bom refrão e uma parte da música que fala “Aí fudeu, aí fudeu” que eu não consigo parar de cantar para desespero da Aline que teme que nosso filho repita. Ele ainda não repetiu.
Um lance muito presente nesse novo disco são as influências setentistas. Wander gravou dois clássicos da época das “boca de sino”. Duas canções viscerais que eu adoro. Não dá pra comparar com as versões originais, mas achei legal ele gravar porque deve estar apresentando “A Palo Seco”, de Belchior e “Viajei de Trem” do Sérgio Sampaio a um público novo. Nada mais Wander do que cantar “Por força desse destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues”. “Clo” é uma setentista do grupo gaúcho Almondegas. Bacana também.
O lado punk brega, cada vez mais brega e menos punk, com direito a “espanhol selvage” e tudo o mais surge em “A Razão do Meu Viver”, “Puertas y Puertos”, “Pra Ti Juana” e “Calles de Buenos Aires”.
Por fim, há uma versão de “Amor e Morte” de Julio Reny. Nada demais com essa versão, mas é sempre uma canção de Julio Reny.
É o velho Wander. Cantando por las carreteras. Sobrevivendo às dores de amores, às noitadas, às viagens, ao Pedro e espalhando cometas e meteoros sonoros para os corações apassionados.
Achei no youtube imagens de um show do Wander numa livraria em Berlin. Será que ouvi a risada do Pedro?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Forró de janeiro – Guarujá, filmes & Heitor


Não vou escrever sobre a tragédia das chuvas pelo Brasil. Janeirão é sempre foda. Todo ano a mesma coisa. Cancelamos nossos dias de férias no Guarujá porque a cidade passa por um novo surto de diarréia. No ano passado sobrevivemos a um desses surtos passando um dia num hospital entupido de gente com nosso filho, na época com um ano e meio. Não dá pra submeter o moleque a esse risco novamente.
Pensando no Guarujá e nessas porras de enchentes não dá pra não imaginar como serão as coisas daqui há...sei lá... 40 anos. Veja só, 40 anos não é muito tempo. Eu ouço muita música e vejo filmes feitos há quatro décadas ou mais. Eu tenho quase 40 anos. A maioria dos meus amigos também.
Acho que a imagem é batida, mas é inevitável não pensar na humanidade como um câncer tomando um organismo. Mais gente, mais áreas impermeabilizadas, mais construções irregulares. Gente faz metástase. Vai cobrindo todas as áreas possíveis. É terrível. Imagine uma cidade do litoral, totalmente plana. É uma área no nível do mar coberta por tijolos, concreto, ferragens e asfalto. Milhares de pessoas se instalam em cima e seguem produzindo lixo e dejetos até o subsolo estar saturado e regurgitar a merda toda de volta.
Bom, deixando os dejetos todos de lado, os dias de janeiro tem sido mais tranquilos no trabalho. Finalmente consegui ver “Crazy Heart”, com o Jeff Bridges. Gosto desses filmes “pequenos”, baixo orçamento, histórias de gente comum. O filme é simples e bonito. O Robert Duvall é foda, no seu pequeno papel do caipira dono do bar. Que puta ator! As cenas dos bares onde Bad Blake toca atiçaram uma velha vontade. Voltar para os Estados Unidos. Levar a Aline pra conhecer Nova Iorque. Rodar por Memphis, Nashville e quem sabe pelo velho sul. O objetivo é ouvir blues, country, folk, jazz e viajar naquelas estradas míticas. Quem sabe um dia a grana dá...
Vi também “Milk” com o Sean Penn quebrando tudo. Gosto desses filmes com histórias verdadeiras. Acho que peguei isso da minha mãe. Quando víamos filmes na TV em tempos pré-videocassete, lembro dela avisar que ia passar um filme baseado numa história real. Como se isso desse ao filme uma certa distinção. Esses dois filmes serviram para diminuir, apenas um pouquinho, a imensa defasagem cinematográfica em que estamos mergulhados.
Em meio às notícias do fechamento do Belas Artes, consegui ir ao cinema uma vez em janeiro. Fui com my baby ver o argentino “Abutres” lá na Augusta. Gostei bastante do filme. O foda é o Ricardo Darín. É bom ator, mas ta começando a enjoar. O cara é o Wilson Grey da Argentina. Parece que ele está em todos os filmes de lá.
Ataquei a minha modesta “DVDteça” e consegui ver ou rever do finalzinho de 2010 pra cá: “Cães de Aluguel” (Tarantino), “Os Imperdoáveis” (o velho Clint), “Era Uma Vez no Oeste”(Sergio Leone, absolutamente genial), “Bagda Café” (Percy Adlon), “Um Homem, Um Cavalo e Uma Pistola”(Spaghettão B), “Django” (Spaghettão B), “Matá-lo” (Spaghettão B doentio), “Galo de Briga” (Monte Hellman, com Warren Oates), além dos documentários sobre os Ramones (“Ramones Raw”) e Johnny Thunders (“Born to Lose”).
Vi também “Forever” do Walter Hugo Khoury, no Canal Brasil. Gosto dos filmes do Khoury. Aquele ritmo lento, a tensão sexual, os instintos animais em meio ao luxo da alta burguesia paulistana. Sempre me interessa como ele mostra a cidade de São Paulo e os ambientes internos, cheios de sombras. Tem gente que não suporta. Eu sempre acho interessante.
Falando em literatura, passei janeiro relendo “O Corcunda de Notre Dame” do Vitor Hugo. Ainda não terminei. Mas é bom pra caralho. O “Estranhos Sinais de Saturno” do Piva tá sempre na cabeceira para doses de poesia a qualquer hora. Encomendei o livro da Patti Smith e o “Anjos da Desolação”, do Kerouac. Mas antes deles quero ler o “Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho” do velho Buk.
Por fim, ficamos sabendo que o mais novo representante da curriola em Londrix vai se chamar Heitor. Boa escolha do casal T & T. Lembrei de um amigo da faculdade de Direito que tinha esse nome. Meus amigos de copo e de cruz eram todos da faculdade de jornalismo. No Direito, tinha alguns caras legais, mas o único que dividia o gosto pelas substancias alteradoras de consciência era esse cara. Que de quebra ainda tocava várias dos Beatles no violão.
Lembro dele passar nos domingos de manhã em casa, com seu fusqueta branco, me buscar pra jogar bola com uma turma de evangélicos que ele conhecia não sei de onde. Íamos os dois fominhas destruídos pela ressaca e eu ainda era o Pelé do jogo. Naquele tempo não tinha virado moda ser evangélico. Tinha uma meia dúzia de pernas de pau, ou bagres, como a gente dizia na Vila Maria. E eu que sempre fui um futebolista nota 5, acabava com o jogo no meio dos perebas de Cristo. De quebra, às vezes ele aparecia lá em casa com seu violão pra mostrar a nova que ele tinha tirado dos Beatles e mandava alguma obscura tipo, sei lá... “Rocky Racoon”. Boas lembranças.
Heitor dos Prazeres é um grande mito do samba carioca. Que o nosso pequeno paranaense viva uma vida de muitos prazeres. O tiozão, que vai ajudar a estragar o moleque, não pode desejar coisa melhor. Em sua homenagem, ouço um Tim Maia clássico aqui.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Fragmento de uma peça – Roy Orbinson ou Julio Reny?



Publico abaixo para deleite dos nossos milhões de seguidores um pequeno fragmento de um texto em que ando brincado nesses dias. Já tem umas 14 páginas e eu estou num momento da história em que já não sei para onde vão os personagens. Pensei em chamar a peça de “Roy Orbinson singing for the lonely” ou numa versão em português “Julio Reny canta para os solitários”. Ou outro nome qualquer. Esse ínicio é engraçado, ou tenta ser. O resto do texto, nem tanto. Nada demais, apenas um texto sobre um casal qualquer feito com “os olhos de borra de vinho”.

Hugo está sentado numa poltrona velha, no pequeno apartamento, em frente da televisão, com os pés num banquinho e uma cerveja na mão. A campainha toca e imediatamente a porta se abre e Gina entra apressada. Ele nem olha para ela.

GINA – Puta que o pariu, caralho, porque você faz isso? É a segunda vez e tô vendo que de novo não tem nada a ver. Só ta aí bêbado, vendo putaria na TV.
HUGO (finalmente olhando para ela e se indignando) – Que putaria o quê! Tô só zapeando.
G – Meu, por que você liga falando essas coisas? Caralho... assusta sabia? É uma maneira muito covarde de pedir para eu vir aqui.
H – Mas eu sinto isso... eu não tô legal mesmo.
G – Sinceramente Hugo... até entendo que você não tá legal. Na verdade, eu também não tô legal, acho que o mundo inteiro não tá legal. Mas ficar falando que vai se matar é uma coisa foda. Por pior que você esteja, realmente não parece alguém prestes a se matar.
H – Ah é? Então me conta... como que é a cara de alguém que tá querendo se matar? Você deve ser especialista no assunto.
G – Sei lá como é a cara de alguém que vai se matar, mas certamente não é a de alguém sentadão em frente a TV, tomando cervejinha, tranquilão aí.
H – Meu, então acabamos de decretar a inexistência do suicida tranquilo.
G – É isso mesmo. E ainda bem que não foi como no seu outro chilique em que eu liguei para a sua mãe, pra Nina, pra polícia e quase bati o carro tentando chegar aqui. Da próxima não vou bancar a palhaça de novo. Eu nem vou dar bola pro seu chororô.
H – Olha. Desculpa por te assustar. Eu não tava legal mesmo. Não quis dizer que eu ia me matar, entendeu? O que eu quis dizer é que eu tava sentindo uma grande vontade disso, vontade de sumir do mapa, entendeu?
G- E passou?
H- Ah... até passou. Liguei a TV, tomando cerveja e acabei pegando um trecho de um show muito louco do Iggy Pop... aí fiquei lá prestando atenção, o som era muito foda e ele cantava praticamente com a bunda de fora. Cê já viu esse show? Meu, como ele consegue cantar com aquela calça caindo, com a bunda de fora o tempo todo? Aí foi isso. Fiquei vendo o show e aquela angústia foi passando.
G – Já vi que o negócio era foda mesmo. Cê precisou de cinco minutos de bunda do Iggy Pop para esquecer os problemas.
H – Não foram cinco minutos não. Foi um show longo, bem legal...
G – Ah...vá se foder Hugo. Porra, vou nessa, você me mata de susto. Eu desvio meu caminho do que eu ia fazer, chego aqui e te vejo sossegadão vendo TV.
H – Porra, você preferia me ver cortando os pulsos?
G- Claro que não! Mas em vez de você ligar e pedir pra eu passar aqui bater um papo, que você precisa conversar e tal, você liga dizendo que vai se matar. Isso não é legal. Assusta a gente e... meu... eu tava no trânsito indo cuidar da minha vida.
H – Onde você tava indo?
G – Comprar tintura para meus cabelos e comprar um perfume novo. A Nina diz que tem uma vizinha dela que traz esses perfumes caros importados de contrabando e vende bem mais barato. Ia passar numa loja de cosméticos e depois ia lá na Nina ver as coisas da tal vizinha.
H – Por que isso?
G- Isso o que?
H- Porque você vai mexer no cabelo e comprar perfume? Tá rolando alguma coisa?
G- Tá rolando que eu sou mulher Hugo. Mulheres fazem essas coisas, sabia?
H- Seu cabelo tá bonito assim. E acho que você não precisa de outro perfume.
G- O que você sabe dessas coisas?
H – Ué... eu te olho...eu sinto teu cheiro. Acho teu cabelo bonito assim. Tá parecido com a época que eu te conheci, né?
G- É. Acho que eu tava usando assim mesmo naquela época. E o perfume?
H- Que é que tem?
G – Você gosta? Você nem sentiu o perfume que estou usando.
H- Meu... você cheira bem. Mulheres normalmente cheiram bem. Se você for me pedir uma análise técnica do teu cheiro eu não sei dizer. Mas é perfume de mulher. Cheiro bom...
G – Ah... até parece...cada mulher usa seu perfume, cada mulher tem um cheiro. Esse papo de perfume de mulher é furado.
H- É nada Gi. Vocês mulheres é que viajam nessa história. Pergunte para todos os homens. A maioria, talvez fora esses boyzinhos de hoje em dia que são vaidosos pra caralho, metrossexuais e tal, os homens não sabem dizer muito sobre os cheiros, mas sabem que as mulheres, pelo menos as interessantes, cheiram bem. É cheiro de mulher saca? Pô... não tem o filme com o Al Pacino? É “Perfume de Mulher”. Se fosse “Perfume Chanel n° 5” ou outro nome, não teria graça. Mulher cheira mulher. Assim como homem cheira homem.
G – Nunca ouvi bobagem tão grande. Existem milhões de sutilezas nos perfumes das mulheres. Além de perfumes, usam cremes, óleos, xampus, desodorantes ínitmos...
H- Aí... ta vendo? Desodorante íntimo. Meu...eu nunca fui capaz de identificar alguma mulher usando os tais desodorantes íntimos. Para mim, buceta tem cheiro de buceta. Nunca senti isso e nunca vi, nos papos de homem, alguém dar importância ao cheiro da buceta, se ele for normal claro, não tiver cheirando suor, menstruação ou outra nojeira qualquer. Buceta cheira buceta. É igual cheiro de Fusca. Não adianta colocar aqueles sachezinhos idiotas. Fusca cheira Fusca.
G – (rindo) Cara... ainda bem que eu consigo rir desses teus absurdos.
H- É porque você nunca deve ter andado de Fusca.
(To be continued)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Nosso antepassado fogo


estrela do norte
flor de filigrana
no nervo do poente
vôo cansado da coruja
que desgarra seu arpão
planta do incesto
do sol com as águas
árvores cheias de bocas
donde o gavião salta
ciclone do Universo

Poema de Roberto Piva - Em "Estranhos sinais de Saturno". Bom 2011 pra quem passar por aqui.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Znort! Ele está entre nós!



Quer exorcizar a escrotice xaroposa do Natal? Caia de cabeça nas aventuras do mais violento, pornográfico e alucinado andróide dos quadrinhos: o insuperável Ranxerox.
A Conrad lançou nesse segundo semestre um álbum de luxo com todas as histórias do monstrão criado no final da década de 70 pelo italiano Stefano Tamburini.
Ranxerox e sua amante Lubna, na fúria ninfomaníaca dos seus doze anos de idade, vagam pelas decadentes Roma e Nova York vivendo entre traficantes, celebridades vazias, marginais e malucos de todos os tipos.
Cabe tudo em Ranxerox: cultura pop (citações de Brian Eno a Ballard), violência, drogas, putaria, mutilações, depravações, humor doentio. Você encontrará ecos de Ranxerox em Blade Runner, Matrix e filmes de Tarantino. Até capa de disco do Frank Zappa o bichão virou.
Destaque especial para a arte quase renascentista de Tanino Liberatore. Nunca a violência foi desenhada com tanta sofisticação.
Ler novamente Ranxerox me fez lembrar dos tempos da revista Animal, que publicava muita coisa legal dos quadrinhos do underground europeu. Ainda tenho alguns exemplares de Animal guardados, com aquele saborzão de nos 80, quando a gente só ouvia pauleiras e eu ousava tocar bateria numa banda hardcore chamada Podridão. Bons tempos de vinho barato, cigarros escondidos e fitinhas Basf amarelinhas gravadas e regravadas com os sons mais obscuros que a gente conseguia achar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Diálogo com Mark Chapman



- E aí Mark, beleza?
- Oh yes.
- Vem cá, cê conhece um tal de Marcelo Camelo?

domingo, 12 de dezembro de 2010

Meus problemas com as mulheres



Os Estados Unidos são um dos lugares mais estranhos do planeta. Gostamos de falar das contradições do Brasil, mas os americanos não nos devem nada. Muito pelo contrário. A coisa lá é sempre “over”, elevada à enésima potência em qualquer ângulo que se olhe.
Na terrinha do Tio Sam abundam facistas, puritanos, racistas, belicistas, moralistas (dos falsos e dos verdadeiros), pastores televisivos, nacionalistas e tosquices conservadoras de todos os tipos. É um lugar no qual ainda é possível encontrar segmentos significativos da sociedade que levam a sério o criacionismo.
Pois é desse mesmo barro que surgiram os beatniks, os hippies, os punks, o cinema exploitation, os panteras negras. Figuras controversas e talentosas usaram alguma passagem secreta no meio da muralha de fumaça do american way of life. Os Estados Unidos geraram Larry Flint, Hunter Thompson, Lou Reed, Timothy Leary, Lenny Bruce, John Cassavettes, Orson Welles e mais uma caralhada de gente que produziu ruídos e instabilidade no sistema.
Não vou citar artistas, figuras políticas e movimentos. Escrevo direto, sem pesquisar nada sobre o tema. Mas acho que dá pra entender o que quero dizer. O país do Mickey Mouse também é o país do Bart Simpson e do South Park.
Dentro desse panorama Robert Crumb é uma outra figura emblemática. O “princípio ativo” do seu trabalho é expor essa América contraditória que afirma valores com veemência na porta de frente enquanto a putaria vai transbordando pelas janelas.
Acabo de ler mais um livro de Crumb lançado pela Conrad. É “Meus problemas com as mulheres”. Compilação de histórias e desenhos feitos por Crumb ao longo da carreira, o livro deixa claro como o desenhista nerd esquisitão passou a “comedor” quando fez sucesso no circuito contracultural na década de 60 com seus quadrinhos anárquicos.
A conhecidíssima fixação de Crumb pelas mulheres bundudas e de pernas grossas também é dissecada no livro. Confessional, sincero, engraçado, desconcertante “Meus problemas..” é tudo, menos monótono. Odiado pelas feministas, Crumb dá nome e sobrenome a todas as musas de seus delírios masturbatórios, expõe e reflete sobre suas taras mais absurdas.
Depois de ler, fiquei na pilha de rever o documentário “Crumb” de Terry Zwigoff, que vi numa tarde do logínquo 1996, num Cinesesc vazio. Vale a pena procurar o filme na net. Além das taras de Crumb, há a incrível história de seus irmãos malucos. Nunca dá pra ficar indiferente a Crumb.
Ah... e o prefácio escrito pela atriz Fernanda D´Umbra é do caralho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

a cartomante de dezembro



A cartomante de dezembro
Cala sobre meu futuro
Danças?
Palavras de amor?
Sinais de saturno?
Há veludo, fumaça de cigarro
E alguém tocando flauta doce
Enquanto Lúcifer crava os dentes no solo lunar

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lennon



Só para lembrar a data. Lennon era foda. A GNT tá passando durante toda a semana uma série de documentários sobre o cara.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fim de ano é uma merda



Meu mau humor já começou a dar as caras. Faz tempo pra caralho que não escrevo nada no blog. Não tem dado tempo. Tô num vazio total de idéias. Nos últimos tempos, estive correndo com mil trampos que por si só já desgastam. Aí chega a fatídica época do ano em que algum fariseu safado na Idade Média inventou de comemorar o aniversário de Jesus Cristo. Jesus foi um grande cara, se é que ele existiu mesmo. Tentou salvar a humanidade, tem milhares de seguidores e até inspirou uma música linda do Velvet Underground. Perdeu pra Barrabás e os Beatles em popularidade, mas foram derrotas isoladas, vale lembrar. Enfim, nada contra Jesus e tudo contra a porcaria do Natal e todas as malditas festas de final de ano. Nesse ano, além dos sorrisos, presentes dados por obrigação e convívios forçados, terei que passar, mais uma vez, por uma temporada no inferno: um baile de formatura. Cara, quer me foder a vida é só me convidar pra festa de casamento, baile de formatura e festa de confraternização do trabalho. Recentemente também descobri quão insuportável pode ser o martírio de festas infantis e de festas na escolinha do meu filho. O pior é que a pessoa que vai se formar é importante pra mim e minha presença no tal baile deve ser importante pra ela. Pelo menos até o whisky fazer efeito. Mas baile de formatura é a minha exata visão do inferno: calor, sapato apertado, terno e gravata, muita gente chata e música ruim em altíssimo volume. Sei que vou sobreviver, mas é aquela história do medo da dor que é mais forte que a própria dor. Meu humor vai pras picas. E aí fico lembrando que ainda vem o Natal, com amigo secreto (arrrgh) e tudo e depois o réveillon que também é uma merda. Pessoas estranhas em casa, calor, rango em excesso, rojões que matam meus cachorros de medo. Ainda tô contando com o filho do vizinho voltar pra passar férias com os pais e ficar cantando o dia todo aquelas musiquinhas intoleráveis dos Los Hermanos no violão. E eu só queria ficar a parte.
Pra não dizer que não falei de flores, termino esse ano melhor do que no ano passado. Nessa mesma época, no ano passado, tava mais é querendo tomar cicuta no café da manhã e sumir do mapa. Hoje tô puto com as tais festas, mas pelo menos tenho força pra estar puto. Passei por merdas mentais e físicas durante o ano. Fiz uma cirurgia filha da puta, encarei meus bodes pretos, minha pressão alta, meu colesterolzão. Mas passei de ano. O sorriso do meu filho ajudou pra caralho. Cheguei até a ficar saudável no meio do ano. Emagreci, voltei pro kung fu depois de quatro anos parado, comecei a comer certinho, tomar água e tal...agora já fudeu tudo de novo e meu rim já deve estar preparando novas pedras preciosas pra 2011. Mas sobrevivi e fui lá agradecer meus guias. Sinceramente. Minha mãe me deu uma medalhinha com um São Jorge e eu fiquei feliz. Foi como um prêmio. É o meu santo e gosto dele embora os trouxas infelizes dos curintxanos vivam se apossando da sua imagem. São Jorge é o santo guerreiro, né? Acho bonita sua sina. Mas não sou guerreiro. Na verdade, acho que sou um dos caras mais bunda mole que eu conheço. A cada final de ano eu prometo que nunca mais vou engolir festas de casamento e festas de final de ano. E lá vou eu dobrar a língua e a vontade. Meu final de ano ideal seria com meu filho e minha mulher numa casinha em alguma praia deserta, onde não desse pra ouvir nem os fogos de artifício. Pra mim, o melhor jeito de celebrar uma data é passá-la de maneira agradável. Raras vezes rolou algo assim. Enquanto o velho batuta não vem entalar sua bunda gorda na minha lareira, vou devorando “O Vermelho e o Negro” do Stendhal e queimando uns cdzinhos: Tom Waits, AC/DC, Freddie King. E que venham os tenders, os vale-cds e os caramurus.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010



lembranças de momentos felizes
doem tanto
quanto as cicatrizes

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meus problemas com a bebida



Poema de Mário Bortolotto. Está em seu último livro "Um bom lugar para morrer", que anda habitando minha cabeceira nesses tempos.

ela me dizia que eu tinha problemas com a bebida
me dizia isso enquanto andava atrás de mim no supermercado
eu escolhia um vinho pra beber no jantar
na verdade eu tava indeciso entre um vinho e um conhaque
na dúvida levei logo os dois
e uma caixa de cervejas pra depois do jantar
e ela continuava falando rispidamente comigo
eu me sentia dentro de uma música do Bruce Springsteen
ela falava algo sobre viver e morrer como um perdedor
eu disse: "Que merda cê tá falando?"
ela fazia ballet e andava daquele jeito empinado que me
deixava ainda mais oprimido
havia muita raiva naquela mulher
e a raiva te deixa com dificuldade de se expressar
e eu só precisava de um drink
abri o conhaque na fila do caixa e dei um gole
"Era sobre isso que eu estava falando."
"O que?"
"O seu problema com a bebida."
"Eu não diria que é um problema. A bebida me ajuda nos momentos difíceis".
"E esse é um deles?"
"Eu não estou muito à vontade."
entrei no carro e abri logo uma cerveja
"Vai continuar negando que tem problemas com a bebida?"
"Olha, eu não tenho problema nenhum com ela. Às vezes,
quando bebo, eu arrumo mais problemas, só isso."
nós saímos do estacionamento do supermercado e elacontinuava falando comigo daquele jeito intolerável e pensei em meter o carro num poste ou algo do tipo, mas eu ainda não havia bebido o suficiente.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A morte de Bunny Munro


O australiano Nick Cave é uma das figuras mais interessantes surgidas nos anos 80. Seu som, ora vibrante ora melancólico, trazia cargas de Velvet Underground, punk rock e o blues mais profundo das estradas desoladas de uma América imaginária. Suas letras passeiam por temas como crimes, presságios, religião, culpa, pecado, redenção, sofrimento e delírios místicos de todas as espécies.
Em “A Morte de Bunny Munro”, seu segundo romance, editado no Brasil pela Record, há um pouco de tudo isso. E também há o humor negro frequentemente utilizado por Cave. A novidade é que no livro há sexo em várias modalidades: amargo, caótico, trágico e outros.
Bunny Munro, o personagem principal, é um vendedor de produtos de beleza que não perdoa nada que pareça vagamente feminino. Qualquer breve diálogo com uma cliente ou a visão de uma garota, que nem precisa ser bonita, desperta o monstro insaciável que descansa em suas cuecas de oncinha.
E Bunny segue pela vida tentando comer todo mundo, sonhando com as vaginas milionárias e bem tratadas de Avril Lavigne e Kylie Minogue, até que sua mulher Libby, cansada da solidão e do desprezo do marido coloca um fim na própria vida.
Sobra para nosso priáprico herói cuidar de Bunny Jr., o filho de nove anos sensível e inteligente, e fugir dos fantasmas que agora assombram sua mente doentia, enquanto tenta continuar a foder qualquer coisa que aceite receber o seu pau.
A lenta desintegração mental de Bunny é uma tragédia com cara de road movie com final épico e redentor. É um romance. Mas poderia ser uma balada estrondosa de Nick Cave ao piano. Daquelas que retratam os condenados debatendo-se nas jaulas do destino.
Passeie com Bunny Munro:

“Bunny acena para uma esportista de iPod e malha de lycra anti-impacto que talvez acene de volta; uma negra saltitando pelos gramados em um Pogobol amarelo; uma colegial seminua com um chupão do tamanho de um biscoito na base da coluna que acaba se revelando uma tatuagem maravilhosamente linda de um laço ou de um arco e flecha.
- Já veio embrulhada pra presente? – grita Bunny. – Nem acredito! – Em seguida assobia para uma garota completamente nua e totalmente depilada, mas que, após olhar mais de perto, Bunny percebe estar usando um fio dental cor de pele tão anatomicamente integrado ao seu corpo quanto a pele de uma lingüiça; ele acena para um trio de deusas coxudas que usam botas Ugg e brincam de jogar vôlei com uma enorme bola laranja e azul (elas acenam de volta em câmera lenta). Bunny buzina para um casal de sapatas surpreendentemente gostosas, que lhe mostram o dedo médio, ao que ele ri e as imagina se comendo com paus de plástico amarrados na cintura; depois, vê uma garota de tranças e joelhos virados para dentro lambendo um pirulito listrado azul e vermelho; uma menina usando algo indefinível que dá a impressão de que ela vestiu a pele de uma truta arco-íris; em seguida, vê uma babá, ou algo do gênero, se inclinando sobre um carrinho de bebê e a bela marca de sua calcinha, o que o faz soprar ar por entre os dentes e socar a buzina. Por fim, nota uma secretária ossuda de aparência desolada com uma blusa que diz “GUINCHE COMO UM PORCO” e carregando um enorme pênis inflável. Bunny confere o relógio, reflete por um momento, mas segue em frente. Vê uma garota esquisita, usando um véu e um biquíni com anquinha estilo vitoriana, depois acena para uma junkie bonitinha bem parecida com Avril Lavigne (o mesmo delineador preto os olhos) sentada em uma pilha de revistas Big Issue na soleira dos hotéis Embassy, que estão caindo aos pedaços. Ela se levanta e anda trôpega na direção dele, esquelética, com dentes gigantes e olheiras pretas sob os olhos, como um panda, e então Bunny percebe que ela não é uma gatinha junkie, e sim uma famosa supermodelo no auge do sucesso cujo nome ele não consegue lembrar, o que faz sua ereção saltar na cueca, mas quando a vê mais de perto ele descobre que é, de fato, uma gatinha junkie e segue em frente, embora qulaquer um que goste desse tipo de coisa saiba, mais do que qualquer outra coisa no mundo, que junkies são as melhores boqueteiras ( e as putinhas viciadas em crack as piores). Bunny liga o rádio e “Spinning Around”, o hit de Kylie Minogue começa a tocar, e ele não consegue acreditar na própria sorte e sente uma onda de alegria quase ilimitada à medida que os sintetizadores pesados e provocantes começam a sair das caixas e Kylie vocifera seu panegírico orgiástico à sodomia e El pensa no short dourado e apertadinho dela, aquelas esferas cor de ouro, e isso o lembra de estar comendo a bunda grande e pálida de River, a garçonete, lá no quarto de hotel, com a barriga cheia de salsichas e ovos, e então começa a cantar junto com o rádio e a música parece estar saindo de todas as janelas de todos os carros do mundo, e a batida pulsa forte pra caralho. Então ele vê um grupo de ratas de shopping atarracadas com suas barrigas sensuais e seus batons cintilantes; uma garota árabe em burca completa potencialmente gostosa (puta merda, lábios da Arábia); e então um outdoor anunciando sutiãs Wonderbra ou algo do gênero e diz “Uhu!”, dando uma guinada perigosa no volante enquanto aperta a buzina, voltando para a Forth Avenue e já desenroscando a tampa de uma amostra de creme para as mãos. Ele estaciona e bate uma punheta, com um sorriso grande e feliz no rosto, gozando em cima da meia incrustada de porra que mantém debaixo do banco do carro.
- Ah! – exclama Bunny, e o DJ no rádio está dizendo: “Kylie Minogue; quem não adora aquele short apertadinho?!” E Bunny diz: - É isso aí! – Manobrando o Punto na direção do tráfego e guiando os dez minutos que o saparam do seu flat na Grayson Court, em Portsland,ainda sorrindo e gargalhando e se perguntando se sua mulher Libby vai estar a fim quando ele chegar em casa".

sábado, 2 de outubro de 2010

Astral Weeks


Bailarinas no canteiro da avenida principal. Sol de outono, poças d`água e um cigarro filado. Violinos flutuam nas retinas. Um adeus no bolso do casaco. Peito e mente límpidos e doloridos. Como um solo de trumpete.

Trilha sonora: "O Pássaro", de Lanny Gordin.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Comendo ópio com sal


Ando empacado na leitura de “Confissões de um Comedor de Ópio”, de Thomas De Quincey, na edição da coleção “Intoxicações” lançada pela Ediouro. Tenho trabalhado muito e sobra pouco tempo pra ler. Além disso, “Confissões” não é uma leitura das mais fáceis. Nas primeiras duzentas páginas do livro o autor narra episódios de sua infância e adolescência, às vezes com longas digressões sobre temas que hoje não nos parecem tão interessantes como devem ter sido para os leitores de outros tempos.
Acabo de começar a segunda parte do livro, intitulada “Volúpias do Ópio”, onde devem surgir as descrições das viagens que tornaram a obra famosa. Logo no início dessa parte um trecho “em feitio de oração” aos milagres dos estados alterados de consciência.

“Ó justo, sutil e conquistador ópio! Que, para os corações de ricos e pobres igualmente, para os ferimentos que jamais serão curados, e para os golpes de dor que “tentam o espírito a se rebelar”, trazes um bálsamo aliviador. Eloquente ópio! Que com tua poderosa retórica roubas os propósitos da ira, suplicas eficazmente por piedade leniente, e através do sono celestial de uma noite lembras ao homem culpado as visões de sua infância, e mãos purificadas do sangue. Ó justo e equânime ópio! Que ao tribunal dos sonhos chamas, para os triunfos da inocência desesperada, falsas testemunhas, e confundes o perjúrio, e revertes as sentenças de juízes injustos; construíste sobre o colo da escuridão, da fantástica imaginação do cérebro, cidades e templos, além de arte de Fídias e Praxíteles, além dos esplendores de Babilônia e Hecatômpilos, e, “da anarquia do sono sonhador” chamas à luz do sol as faces de belezas há muito sepultadas, e as abençoadas feições domésticas, limpas das “desonras do túmulo”. Somente tu dás esses dons ao homem, e tens as chaves do Paraíso, ó justo, sutil e poderoso ópio!”

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Oh! Sweet Nothing


Ela olhava o relógio preparava o banho. Já estava quase na hora. Deixou a roupa dobrada em cima do banquinho com a esperança de não precisar usá-la. O plano era simples. Quando o porteiro avisasse que ele chegou, ela mandaria subir e pediria para dizer que a porta estava aberta, ela estava ocupada e era pra ele entrar direto. Nesse momento, ela correria para o chuveiro e deixaria a porta do banheiro destrancada.

Ele desceu do metrô e veio caminhando pela rua, já pouco movimentada naquela hora da noite. Sempre gostara de andar a pé em São Paulo, principalmente quando não tinha hora para chegar, o que não era o caso nesta noite. Apesar do compromisso, caminhar ajudava a relaxar e arejar os pensamentos enquanto o coração acelerava. Na última vez tinha sido uma broxada homérica, dessas de não esquecer jamais.

Na última vez foi uma broxada e tanto, ela pensou e prometeu para si mesma tentar descontrair o ambiente o máximo possível. Ao ouvir o interfone tocar deu as instruções ao porteiro e correu para baixo do chuveiro. Não sabia se deveria usar xampu ou não. Será que isso vai atrapalhar a transa? É melhor não estar com os cabelos cobertos de espuma quando ele entrar no box, se ele entrar. Mas ele vai entrar...

Subindo pelo elevador ele ficou nervoso ao perceber que suava mais do que o recomendável para aquelas circunstâncias. Seria um princípio de nervosismo? Claro que é. E pensava: porra, não vai essa merda de ansiedade me impedir de comer essa mulher de novo. Isso é tudo que eu não preciso. Espero que ela tenha umas cervejas na geladeira. Vou pedir para beber. Preciso me acalmar.

Ela toma seu banho, fazendo os movimentos todos, fingindo para si mesma. Os ouvidos ligados. Parece que ele entrou no apartamento. Quando ele vai entrar no banheiro? Acho meio impossível o cara ficar aí sentado no sofá, com a televisão e o som desligados, ouvindo o barulho do chuveiro, vendo essa porta só encostada e não entrar aqui. E o instinto, afinal?

Ele entra no apartamento. É a segunda vez que pisa ali. Tranca a porta, dá aquela olhada geral. A porta dá direto na pequena sala, arrumadinha, com televisão, alguns livros, vasinhos pequenos de flores e um aquário minúsculo com um peixe colorido trancafiado. O aparelho de som parece ridiculamente pequeno e numa olhada rápida já considera os discos ruins. A cozinha à direita também está acesa. Também acanhada. Dá uma olhada rápida, menos para ver e mais para dar tempo de criar coragem de invadir o banheiro. Respira fundo, mão na maçaneta, empurra a porta que só estava encostada.

Mas que menino curioso, diz sorridente, em resposta ao tímido aviso de invasão que ouve. Fica ali por trás da cortininha do box, nua, braços cruzados sobre os seios, seu melhor sorriso, o mais convidativo, quando o rosto dele surge, sorrindo também. Um beijo curto. Uma promessa de espera e ele sai do box rápido demais. Tímido demais. Meu, como ele não entrou? Será que eu devia ter convidado? Precisava ser mais clara do que deixar ele entrar no meu banho? Que droga!

De volta à sala ele procura ocupar a mente o máximo que pode. Olha para o peixe e acha o aquário ridículo. Procura pela vista da janela, que dá para outra janela do prédio ao lado. Pensa se devia ficar com ela no banho, mas não se deixa responder. Resolve pensar em outra coisa, alcança uma revista de moda abandonada numa mesinha de canto e procura se distrair com as fotos.

Ela arma o melhor sorriso novamente ao sair do banheiro. Enrolada na toalha, passa por ele e vai para o quarto. Deixa a porta aberta. Escolhe uma calcinha pequena, a mais sexy. Com um passo para a direita ela estaria em frente à porta aberta e ele poderia facilmente vê-la se trocar. Mas tem medo da reação dele. Ao se deixar ver nua no banho, o mínimo que esperava era que ele arrancasse a roupa e entrasse ali com ela. Agora já não sabe bem qual era a dele.

Conversavam amenidades. Viu o prédio aí da esquina, já iluminado pro Natal? Meio cedo, não acha?. Ele falava pouco. Pensou que assim poderia estar demonstrando tensão para ela. Resolveu dominar o papo. Muito estranho esse filme novo do David Lynch. Foi ver? Filme de quem? Não...

Ela sai do quarto com sua calcinha especial por baixo de uma camisolinha curta. Prepara alguma coisa pra comer. Tá com fome? Ele diz que não. Será que era melhor ter ido ao cinema? Ao teatro? Ele tá muito tenso. Desse jeito vai broxar de novo. Oferece o último pedaço de uma torta que comprou na padaria da esquina ontem.

Vão. Não tem cerveja em casa. Nem qualquer outra bebida alcoólica. Ele toma um copo de um suco de soja com sabor de uva e acha horrível. Recusa a torta de ricota. Não entende como alguém pode ter vontade de comer ricota. Gosta do quarto dela. É pequeno e limpo. O guarda roupas e o colchão no chão. A janela pequenina tem uma vista incrível, principalmente nessa noite de chuva.

Ela resolve não ficar fazendo malabarismos para esconder a calcinha. Sentam-se no colchão no chão e ficam falando de alguns colegas de faculdade, dos trabalhos, de doenças. Ela não consegue deixar de sorrir quando ele diz que seu cabelo está bonito. Ele não sabe como fica muito mais bonito quando ela goza. Ela sempre se olha no espelho depois que goza só para ver os cabelos.

Ele acha engraçado ela comer Sucrilhos àquela hora da noite. Coisa de café da manhã, pensa. Acha bonito ela sentada no colchão segurando o prato de Sucrilhos com leite. A combinação do ar inocente enquanto levaa colher à boca, tomando cuidado para o leite não cair, e a visão da calcinha amarela, exibida sem pudores excitou sua imaginação. Não pode deixar de imaginar uma gota do leite branco se equilibrando na ponta do mamilo escuro.

Em segredo, ela sente alívio quando ele pede para ela deixar o prato de lado. Sorri ao subir a camisola para cima do peito como ele havia pedido. Se acomoda melhor nos travesseiros. Será que ele gostou dessa calcinha? Sorri e também acha bonita a gota de leite no seu mamilo escuro.

Diz a ela que não precisa apagar a luz. Tira a roupa. A caçada pela gota que escorreu do peito dela não fora planejada mas facilitou as coisas, indicou o caminho dos beijos e o poupou das palavras que ele não tem mais vontade de falar. Talvez tenha tirado a roupa rápido demais.

Pelo jeito apressado que ele tirou a roupa ela sabe que algo esta errado. Assim não vai dar certo. Mais uma vez não dá certo. Tudo tem dado errado com ele. Não adianta planejar e tomar todos os cuidados. Parece que ele nunca fica à vontade.

Resolve ir embora. Pede desculpas. O problema é comigo. Não adianta. E não vai adiantar ficar aqui olhando para o teto. Faz frio lá fora, mas caminhar me tranqüiliza. Nem vou pegar taxi. Minha blusa tem capuz. Quando eu chegar em casa vai estar perto de amanhecer.

Depois que ele sai ela fica deitada no sofá por um tempo. Sente frio e volta para o quarto. Coloca o despertador para dali a duas horas. Amanhã é dia útil. Pegou no sono mais rápido que esperava.