sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A América, por Kerouac


“... América, essa palavra, o som é o som da minha infelicidade, a articulação da minha velha e estúpida tristeza – minha felicidade não se chama América, ela tem um nome secreto menor mais pessoal mais risonho – a América está sendo procurada pela polícia, perseguida em Kentucky e Ohio, dormindo com ratos pelos currais e uivando os shingles metálicos que revestem os silos escuros dos fugitivos, é a figura de um machado na True Detective Magazine, é a noite impessoal nos cruzamentos e entrocamentos onde todo mundo olha para os dois lados, para os quatro lados, ninguém dá a mínima – a América é onde você não pode nem chorar por você mesmo – (...) – A América é o que pôs na alma de Cody Pomeray o ônus e o estigma – que na forma de um policial cagou ele a pau numa salinha dos fundos até ele falar sobre um troço que nem é mais importante – a América (MÁFIA DE JOVENS SEXO DROGAS CARROS!!) é também o neon vermelho e as coxas no motel barato – É onde as pessoas, as pessoas, as pessoas choram e mordiscam os lábios pelos bares e nas camas solitárias – Tem estradas malignas por trás de tanques de gasolina onde cães assassinos rosnam atrás de cercas de telas e os carros da radiopatrulha de repente surgem como carros de fugitivos mas de um crime mais secreto, mais sinistro do que as palavras podem descrever – É onde Cody Pomeray aprendeu que as pessoas não são boas, que elas querem ser más – onde aprendeu que elas querem fugir e brigar, e que em vez de fazer amor elas rosnam – a América transformou o rosto de um jovem garoto em ossos e com tinta escura pintou olheiras nele, fez das maçãs do rosto uma pasta branquicenta e entalhou vincos naquela fronte marmórea e transformou a esperança cheia de vida na sabedoria silenciosa de lábios grossos que não dizem nada, nem para si mesmo no meio da maldita noite – o tilintar dos pires na triste triste noite – O trabalho gorgolejante de alguém na pia de uma lanchonete (na aridez vazia do Colorado a troco de nada) – Ah e ninguém se importa mas o coração no NOSSO peito vai reaparecer quando os caixeiros- viajantes morrerem todos. A América é uma latrina solitária”.
(Trecho de Visões de Cody, de Jack Kerouac, na tradução de Guilherme Braga, para a L&PM)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As botinas do Conde Drácula


Pois é, comentei alguns posts abaixo que a revista Rolling Stone é uma bosta. Continuo achando isso, mas uma coisa salvou a última edição que comprei, que tem a tal de Aline Moraes na capa: uma minúscula nota na minúscula coluna do Fábio Massari. Ele indicou o foderoso disco “Dracula Boots” do Kid Congo Powers e sua alucinada banda que atende pelo nome de The Pink Monkey Birds.
Rock´n roll chinelão total. Kid Congo já tocou um tempo com os Cramps e também foi da banda do Nick Cave. Portanto, o cara sabe das coisas.
O som dele é alucinado com toques de Cramps, psychobilly, Jon Spencer Blues Explosion, e é lotado daqueles efeitinhos alucinados que eram usados nas trilhas de filmes de terror e sexploitation como na de Vampyro Lesbos. Aliás, tem uns temas instrumentais como “Black Santa”, “Pumpkin Pie”, “Bobo Boogie” ou “Buck Angel” que caberiam certinho numa dessas trilhas. É do caralho. Não deixe de ouvir a sacana “La Llarona” com seus lúgubres teclados de churrascaria e palminhas fuleiras e o hit do disco “Rare as a Yeti”.
Para ouvir chapado. Ou melhor, para ouvir chapando.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Cine Trash

Bons tempos em que dava pra ver filmes legais nas férias. Hoje à tarde peguei um trecho de um filme de Cheech e Chong. Deu vontade de esvaziar a mente com podreiras do gênero.








segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Vic Chesnutt


Um dos grandes trovadores do folk rock atual morreu no último dia 24 de dezembro, depois de ter passado uma semana em coma em função da ingestão de 100 comprimidos para relaxamentos muscular.

Chesnutt tinha 45 anos e vivia em uma caderia de rodas desde os 18 anos em função de um acidente automobilístico.

Lançou 13 discos solo e, em 1996, ganhou um disco tributo chamado "Sweet relief II", com renda revertida a um fundo que auxilia músicos com problemas de saúde. No disco, artistas como Madonna, R.E.M., Garbage, Smashing Pumpkins, Soul Asylum e Live cantaram músicas de Chesnutt.

Curiosamente, alguns dias antes do Natal baixei o disco do Sparklehorse, chamado “Dark Night of the Soul”, que li por aí que os críticos consideraram um dos melhores de 2009. Além da participação de vários famosos, como Iggy Pop, Julian Casablancas e Black Francis, o disco traz Vic Chesnutt cantando a faixa-título e “Grain Augury”. Recomendo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Abrace a escuridão – Charles Bukowski


o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura

viver em paz permanente é
viver permanentemente morto

a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.

não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.

aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.

pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos curvos.

não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado

deslize.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Bukowski, paternidade e outras bobagens.


Finalmente comecei a ler o “Textos autobiográficos” do Bukowski que a L&PM lançou recentemente. Está sendo muito bom reler o velho Buk. Há muita poesia nas coisas dele. Acho que muita gente que não conhece o cara imagina que são só bebedeiras, tosquices e escatologias enfileiradas nas páginas. Pois o lance é que o cara tinha as manhas de fazer brotar das entrelinhas do seu texto cru uma poesia que nasce da dor, da solidão e da falta de sentido da vida que, ao mesmo tempo que é dura e opressora, também oferece infinitos caminhos para os corajosos interessados em explorá-los.
Fazia tempo que não lia o velho Buk assim, pegar um livro e lê-lo inteiro. Li “Cartas na Rua” com uns 14 ou 15 anos, numa edição daquelas do Círculo do Livro que guardo com carinho até hoje. Depois li “Mulheres”. Devia ter uns 17 ou 18 anos. Acho que cheguei a reler os dois, mas faz tempo pra caralho. Lá se vão, portanto, quase vinte anos e muitas cagadas na vida. Depois disso, só contos esparsos naqueles livrinhos da própria L&PM.
“Textos autobiográficos” reúne trechos de muitos dos livros de Bukowski e dispondo estes recortes em ordem cronológica (não de publicação, mas de acontecimentos) vai compondo uma espécie de autobiografia do velho safado. Achei muito interessante e dolorosa a parte sobre a infância e juventude. Não tinha lido nada sobre esta fase da sua vida. A maior parte dos trechos dessa fase é retirada do livro “Misto Quente” que eu nunca li.
Ele fala muito sobre o pai, um brutamontes violento, entregador de leite e louco para ser ou pelo menos parecer rico. Me fez pensar sobre o lance da paternidade. Agora sou pai e isso traz uma responsabilidade louca. Fiquei pensando qual seria o grande papel de um pai... Conclui que pai serve mesmo é para mostrar aos filhos que não existem heróis e nem seres humanos perfeitos. As pessoas são falíveis, cheias de problemas, incoerentes e imperfeitas. O pai é o cara que vai deixar isso claro, pois de herói na infância vai passar à categoria de idiota, em maior ou menor grau, quando o filho atingir a adolescência. O resultado desse processo todo é que talvez determine como se dará a convivência na vida adulta do filho. É muito provável que meu moleque, que hoje agarra minhas pernas e pede para voar pela casa nos meus braços, um dia ache ridículo o jeito como eu falo e os valores que eu tenho. Sei lá...
Mas espero que eu o ajude a ser um cara legal. Mostre para ele os bons sons e os bons livros. Quando tiver 14 anos posso jogar nas mãos dele o “Cartas na Rua”, ler com ele os poemas do Fernando Pessoa ou até o “Feliz Ano Velho” que eu acho que é o livro responsável pela minha opção pelo lado “gauche” da vida. Um dia ainda vou escrever sobre isso aqui... Espero que passada a turbulência possamos ouvir um som juntos e que eu não atrapalhe muito os passos que ele resolver dar.
Só pra terminar, resolvi transcrever um pequeno trecho do Bukowski que nos faz pensar sobre escolhas e tal. Assim o post termina em grande estilo:

“Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de pique-niques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães..., afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.”

sábado, 19 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Noite fria na alma

Cortam árvores no bairro, covardemente, burramente, mas às 6:04 da madrugada ouvi o primeiro pássaro cantar e tumultuar minha insônia com aquela sensação foda de que a hora de pular da cama e começar a cavar a sepultura no trampo. O mundo bem que podia pegar fogo fora da minha cabeça. Aqui dentro ando cultivando o enfadonho hábito de passar mal com as coisas: os tiros, as putarias de políticos, o corte indecente das árvores, o Natal obrigatório. Percebo que ficar anestesiado é absolutamente necessário para a pura e simples sobrevivência. Hoje sinto vontade de silêncio, escuridão, ausência, solidão e completa imobilidade. Pelo menos até os entulhos da mente serem decompostos. Hoje tive vontade beber algo forte. Brindar aos fracassados, aos santos, aos penitentes, aos profetas, aos pássaros e às ilhas remotas onde um dia espero naufragar feliz.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dylan psicodélico


As coisas andam muito negras e cinzentas por aqui. Vai um pouco de cor para quebrar a tendência.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cântico Negro - José Régio

”Vem por aqui” - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eu e meu espírito (de porco) natalino


Acho que tá uns cinquenta graus nessa noite! Calor da porra! Meu vizinho pós-adolescente estava berrando ao violão algumas merdas do Jota Quest, Charlie Brown e Los Hermanos. É terrível, mas tem solução. Coloquei na bandeja do aparelho alguns Hendrix e Johnny Winter. No talo! O aparelho seleciona as canções. Eu abro uma cerveja e vou beber lá fora. Não gosto de beber sozinho em casa, mas não tem outra alternativa. O blues em alto volume faz o aprendiz de mala musical desistir. E é isso mesmo. Quando tudo está perdido você tem que recorrer aos clássicos. Aí não tem erro. Eu nem estava no pique de ouvir música, foi apenas uma defesa contra o repertório intolerável do vizinho, mas foi prazeroso ouvir Hendrix e Johnny Winter, coisas que eu não botava pra rolar desde não sei quando. Como nostálgico incurável e assumido, adoro curtir essas velharias. Você ouve e não tem que pensar muito, nem prestar muita atenção. É só curtir e tocar aquela “air guitar” honesta. Nos últimos tempos, com a mente absolutamente cansada, ando preferindo coisas fáceis. Até gibi do Tex eu li esses dias. Neste fim de semana comprei uma Rolling Stone pra distrair, mas não tem como. A revista é uma grandiosa bosta. Não tem uma, umazinha sequer, matéria que preste. Terminei de ler o “Vida de Escritor” do Gay Talese, que enquadro nesta lista de coisas fáceis de ler. Foi prazeroso. É um tijolo que dá pra consumir rapidamente e tem algumas coisas sobre o método de trabalho dele que são interessantes. Não tem a urgência do Dr. Thompson, nem pretende ter. Mas é legal também, embora não tenha me despertado a vontade de ler outras coisas dele. Ah... li “Verão Índio” do Manara e do Pratt que achei do caralho. Os dias parecem imensos, não suporto mais o trabalho e ainda tenho uma interessantíssima matéria pra fazer sobre o abate de frangos pelo método kosher, exigido pela tradição judaica... é mole? Acho que vou oferecer para a Rolling Stone. Quem sabe eles não publicam ao lado de uma abalizada matéria sobre as reais perspectivas da filha (ou filho) da Ivete Sangalo se tornar modelo e atriz de Malhação. Conto os minutos para as férias, mas no caminho ainda tem Natal e Ano Novo que eu detesto com todas as minhas forças, mas vou fazer o possível para não atrapalhar e aceitar todas as programações familiares que me forem impostas sem reclamar... muito. Também tenho acompanhado a melhora do Mario Bortolotto e todo o movimento que seus muitos amigos têm feito pela sua recuperação e para ajudar nas despesas que a família vai ter e coisa e tal. Acho que acabei acertando quando falei de amor no último post. É isso que tenho visto nessa história toda. Acho que é isso que vai ficar. E a vida segue... a minha no ritmo do congestionamento que peguei na Marginal Tietê ontem quando fui resolver minhas paradas na Secretaria de Cultura. Pelo menos dessa vez a menina que me atendeu foi simpática, eu achei. Talvez as coisas andem bem, talvez haja esperança, talvez seja o espírito natalino que muito filhadaputamente induz as pessoas ao erro (eu nunca senti o tal espírito, embora erre mais do que o desejável), talvez o calor esteja me provocando miragens. O negócio é deixar o blues rolar para calar a boca do vizinho.

Eu e o Polako Loko Paka mandando um blues pra azucrinar o vizinho.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Strange Days

“Viver é muito perigoso”. É o refrão da música “O que Diga”, do Jean Garfunkel, que concorreu aqui no Festival que ajudei a organizar. Ficou em quarto lugar. No início da noite de hoje cheguei de viagem e li sobre o Mario Bortolotto. São dias estranhos. Abandonei o blog por causa dos muitos compromissos de trabalho que me valeram uma estafa que desembocou num início de depressão. De novo. Devagarinho eu tô recompondo meus nervos e ando até que muito bem com várias agulhas espetadas na orelha que deixariam a Tânia orgulhosa de mim. Quando estava pensando em voltar a escrever aqui no bloguinho vejo a notícia, chamo a Aline, ficamos pasmos...vontade de viver num país um pouco menos filho da puta do que este. Eu tava devendo notícias sobre o festival, sobre o CD que produzi dos cantadores de cururu aqui da região, sobre nossa amizade com o Walter Franco, que rendeu uma noitada de violão até as 6h30 da manhã aqui em casa, sobre o “Vida de Escritor” do Gay Talese que eu tô acabando de ler. E porra...vem isso... Foi lendo o blog do Bortolotto que eu tive vontade de fazer o meu. Tantas visitas lá me fizeram me sentir amigo do cara. Certamente seria um bom papo tomando umas e falando de som com o Txélos e o Pedro, fazendo piadas e rindo do grande absurdo que permeia todas as coisas, especialmente as sérias. Acho que foi o Bergman que disse que o “amor é uma horrível ocupação”. Mesmo assim, talvez seja a melhor ocupação que nos é destinada no tal de vale de lágrimas pelo qual rastejamos. Talvez seja hora de dizer que amo meus amigos todos e os quero sempre por perto, mesmo que longe dessa serra gelada. Amo muito a Aline, que cuida de mim com paciência, e amo mais que tudo meu projeto de furacão, branquelinho, correndo pela casa e ameaçando constantemente meu aparelho de som. São dias estranhos. Pro Mario, daqui de longe, fica a torcida para que o amor dos seus muitos amigos, aquele que brota dos muitos momentos bons vividos compartilhando cervejas, ensaios, madrugadas e vidas te faça segurar a onda. Minha oração vai em forma de música. Uma que faz meu irmãozinho Pedro chorar, de tão linda que é... E quem sabe ainda não tomamos aquela juntos?

sábado, 24 de outubro de 2009

Isto é Reinaldão

"Conheci uma Sônia, uma Soraya e uma Solange com esse apelido: Sossô. Mas a Sossô que me apareceu ontem aqui tem outro nome, poder de hippie: Sonora. Vai vendo a peça: branquésima, narizinho finlandês de Bjork,cabelo preto-graúna, tingido, de corte assimétrico inspirado na teoria do caos, olhos otchichórnios um tanto asiáticos e capitulinos. O que a impedia de ter uma carinha artificial de boneca era a pequena coleção de crateras e espinhas nas faces magras, nada excessivo, porém. E piercings, toneladas de piercings na estampa. Que eu me lembre, tinha um alfinete espetado na sombrancelha, uma argolinha atravessando a junção das narinas, um minibrilhante incrustado numa asa do nariz, brinquinhos de argola cravados nas orelhas desde o lóbulo até a aba superior, acho que uns quatro em cada orelha. Vendo aquilo, passei a imaginar-lhe um possível piercing num mamilo e outro na xota. Só duvidada um pouco que a sorte - ou o destino - fosse me dar de bandeja a oportunidade de checar isso. Mas, às vezes, a gente se engana com a sorte, meu caro, e também com o destino. A gente se engana com quase tudo"
(Trecho de "Pornopopéia", de Reinado Moraes)

sábado, 17 de outubro de 2009

Walter Franco, Paulo Leminski, Charles Bukowski e filminhos na garoa

Walter Franco, Leminski e Bukowski. Cada um tem sua singular trajetória na vida e nas artes. Em comum, a poesia. E tudo é poesia, como diz Walter Franco. O resto é prosa. Meu último final de semana teve um pouco dos três.
Fui ver o show “Raça Humana” de Walter Franco, no Auditório do Ibirapuera. Já tinha visto o cara algumas vezes, sempre com voz e violão e é sempre ótimo e intenso. Com banda o bicho pegou mais ainda. Duas guitarras, bateria, percussão e o baixo histórico de Willy Verdaguer, puta músico, que foi dos Beat Boys. Acompanhado dessa banda poderosa, Walter visitou a sonoridade experimental e às vezes pesada dos seus discos “Ou Não” e “Revolver”. Aquele lance que ele faz tão bem de passar da sutileza, dos silêncios, ao peso e ao grito primal, sempre fica legal com voz e violão. A banda ampliou essas possibilidades sonoras. Temas como “Respire Fundo” e “Tutano” evidenciaram isso.



Não sei se todos se ligam, mas essa coisa do Walter de passar da delicadeza para aquele quase rugido, aquele canto urgente, como se fosse um náufrago gritando por socorro é muita influência do John Lennon. Ouça “Canalha” e “Mother”, as duas com o grito primal dando o tom das interpretações. Ou então compare “Feito Gente” com “I Want You (She´s So Heavy). A influencia de John Lennon também está na capa do disco “Revolver”. Ele caminhando por uma rua de São Paulo, de cabelos compridos e mãos nos bolsos do terno branco, evoca o Lennon da capa de “Abbey Road”. São dois criadores. Os dois, como disse o Augusto de Campos, se equilibrando entre a paz e a turbulência.
Uma atração especial do show foi ver o Alberto Marsicano tocando sitar. O som daquela porra ao vivo é uma coisa muito louca. Fiquei imaginando que aquele som deve turbinar qualquer viagem, as lisérgicas e as espirituais. Ele acompanhou Walter e a banda em “Govinda” e “Zen”.
Às vezes fico meio de saco cheio daquela coisa de “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. O cara tem algumas canções fudidas e para dizer para as pessoas quem é Walter Franco você tem que citar essa. Que é legal e tal... é uma coisa dele mesmo, não é fake. Mas eu preferia poder dizer por aí que Walter Franco é o cara que compôs “Mixturação”, que aliás ele tocou no show e quase fez o teto cair...
Walter também tocou “It´s only life, but I like it”, de Leminski, fazendo a conexão com a outra face da moeda, os Rolling Stones. No dia seguinte ao show, visitei a Ocupação Paulo Leminski no Itaú Cultural. Cara... nunca vi uma instalação tão caprichada, cheia de ambientes temáticos e tal. Muitos, muitos, muitos textos do Leminski pelas paredes do Itaú Cultural... até nos banheiros... Dá pra passar o dia por ali. Confesso que eu não consigo ficar lendo poesia escrita na parede com som rolando no fundo e um monte de gente passando na minha frente ou conversando do meu lado... mas mesmo assim valeu a pena visitar. Os vídeos são muito legais. Várias entrevistas com o Leminski. Em vários ele fala aquela coisa da poesia ser um “inutensílio”, ou seja, não servir para nada, apenas para o prazer de quem lê ou sente aquilo que o poeta diz e por isso mesmo, além de inútil a poesia é fundamental... O título de um dos vídeos é “Polaco Loko Paca” que eu e a Aline adotamos como apelido do nosso filhote, branquelinho. Nosso projeto de furacão voando pela casa.




Também resolvi adotar um texto do Leminski como epitáfio. Já avisei a Aline que quando eu for comer capim pela raiz pode escrever na lápide “Quem vai embora não embolora”.
E velho Buk com isso? Bão... arrematei, com um pequeno sangramento no orçamento, o “Textos Autobiográficos” que foi lançado agora. Ele foi pra fila das leituras. Tô no meio de “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” que leio por dever de ofício. Depois tem o “Vida de Escritor” do Talese e aí chego no Bukowski.



Ah... por fim...passei nas banquinhas dos piratas da Augusta e arrematei vários filminhos. Cada filme dez reais ou três por vinte e cinco. Peguei “Amarcord”, “E La Nave Va”, “Querelle”, “A Noite”, de Pasolini, “Zabriskie Point” e um documentário sobre o Kerouac. Cinquenta paus bem gastos, eu achei...
É isso... “tudo absurdo, mas tá tudo bem”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Hoje eu vou



Walter Franco toca hoje, sexta-feira, dia 9, no Auditório do Ibirapuera, em Sampa.
Com bandona e tudo. Tem até o Alberto Marsicano na sítar. Se tudo der certo (tem a porra do trânsito e tal) estarei lá.
Quem puxa aos seus não degenera...

sábado, 3 de outubro de 2009

Lóki - o filme


“Dizem que sou louco/ Por pensar assim/ Sim, sou muito louco/ Por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz”. Os versos da “Balada do Louco”, composta e gravada pelos Mutantes em 1972, funcionam como mote para a história contada no documentário “Lóki”, dirigido por Paulo Fontenelle, sobre a vida de Arnaldo Baptista, tecladista, líder e principal compositor do grupo.
Arnaldo sucumbiu a uma guerra mental travada entre sua genialidade artística, a sensibilidade fora do comum, as drogas lisérgicas consumidas com intensidade nos anos 70, o martírio amoroso após a separação de Rita Lee e o desprezo da mídia pelo seu trabalho solo.
O filme de Fontenelle mostra isso, mas reafirma o lado heróico da trajetória do ex-mutante. O artista consagrado que foi aos infernos, conheceu a decadência, passou a centímetros da morte e ainda está por aí. Feliz como o louco da “Balada”. Documenta, mas também mitifica. O que, cá entre nós, não faz mal nenhum. A sobrevivência de um artista talentoso, dono de uma obra desenvolvida com rigor, deve ser comemorada cada vez mais diante do cenário de mediocridade absoluta que impera na música do país. Vamos mitificar quem? As pernas compridas e as interpretações truculentas da tal Ivete? O deserto mental dos sertanejos românticos? Que se dê a Arnaldo Baptista as loas que ele merece. E se sua história trágica turbina o mito, o que se há de fazer?
Para os que já conhecem a obra de Arnaldo, que se insurge como uma ilha de originalidade musical e poética, seja com os Mutantes, seja em carreira solo, o filme é um deleite. Principalmente pelas imagens raras que Fontenelle descobriu nos baús mais empoeirados da cultura brasileira. Tem os Mutantes, ainda com Rita Lee, tocando “Ando Meio Desligado” numa performance arrasadora diante de uma grande público em algum lugar dos anos 70. Também tem os Mutantes, já sem Rita, no início da fase progressiva da banda mandando ver em “O A e o Z”.
Mas são as imagens raríssimas da carreira solo de Arnaldo que vão enlouquecer os fãs. Um belíssimo clip de “Será que Eu Vou Virar Bolor?”, faixa de abertura do LP “Lóki” de 1974. Embora o filme não traga maiores informações, creio que é um daqueles clips que o “Fantástico”, da TV Globo, produzia, ainda na era “pré-videoclip”. Melhor que isso, só ver Arnaldo tocando com a poderosa banda de hard rock Patrulha do Espaço, grupo criado por ele após sua saída dos Mutantes. Com a Patrulha, Arnaldo gravou coisas lindíssimas que só saíram em disco no final da década de 80, quando o músico estava totalmente afastado da vida artística. O grupo prosseguiu após a saída do seu criador e se transformou numa banda heavy metal respeitada no meio underground paulistano.
Por fim, há vários bons depoimentos. Antigos e atuais. Além de Arnaldo, falam Tom Zé, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Nelson Motta, Roberto Menescal, Zélia Duncan, Lobão, todos os ex-Mutantes (menos Rita Lee), o artista plástico Antonio Peticov e o produtor musical Luiz Carlos Calanca e os gringos Sean Ono Lennon e Devendra Banhart.
O advento da volta dos Mutantes também está presente no documentário. As cenas da reestréia do grupo, em Londres, e do show para 80 mil pessoas em São Paulo são emocionantes.
“Lóki” vale a pena. É memória e é experiência. Ambas articuladas à grande arte, delirante e intransferível, de Arnaldo Dias Baptista. Obrigatório.

Obs. – Para quem é fã de Arnaldo e da banda a Revista Trip deste mês traz uma matéria sobre a lendária viagem de moto do ex-mutante pela América Latina. A revista promoveu o encontro entre Arnaldo e dois companheiros de aventuras motociclísticas. Interessante.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um som para hoje

Na verdade, Julio Reny é um som pra qualquer hora. Já escrevi sobre ele aqui. Visceral. Tem também uma entrevista fundamental com o cara no Língua Pop. O link tá aí do lado. Imperdível.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O PEDRO MALASARTES HARDCORE



Acabei de ler o fodaço “Pornopopéia”, um livro com poucas referências ao rock e até a outros tipos de música, mas que pode ser classificado como “rock´n roll” naquilo que a expressão desgastada tem de melhor. Ou seja, é um livro intenso, bem humorado e transgressor. Uma sucessão de cenas de sexo, drogas e canalhice protagonizada por um cineasta maldito e fracassado em sua descida inconsequente ao fundo do poço.
Reinaldo Moraes escreveu na década de 80 “Tanto Faz” um pequeno livro que influenciou dezenas de escritores da atualidade. Lançado pela série “Cantadas Literárias” da Editora Brasiliense, o livro conta a história de um estudante de economia que ganha uma bolsa para estudar em Paris. Chegando lá, deixa a carreira acadêmica de lado e cai na vida. Apesar dos excessos, o livro também tem um fundo autobiográfico. Reinaldo Moraes também largou a economia, mas caiu, de vez, no universo das letras.
Juntamente com o cartunista Caco Galhardo e a blogueira Ana Pands, ele apresenta o programa “Fogo no Rádio”, podcast que vai ao ar pela Rádio UOL. Os três recebem convidados para entrevistas absurdas ou tratam de temas interessantes com altíssimas doses de nonsense, ironia e piadas de todos os tipos de calão.
Além do cultuado “Tanto Faz”, Reinaldo Moraes já lançou Abacaxi (L&PM, 1985), o romance para jovens “Órbita dos Caracóis” (Cia. das Letras, 2003) e a coletânea de contos “Umidade” (Cia. das Letras, 2005).
“Pornopopéia” tem 475 páginas e levou quinze anos para ser escrito. Em entrevistas, Reinado tem comparado seu personagem principal, o cineasta Zeca, a um Pedro Malasartes aprontando das suas em meio ao caos urbano de uma São Paulo decadente, entre traficantes, prostitutas, publicitários esnobes, policias corruptos, adolescentes maluquetes, travestis e espiritualistas chegados demais aos prazeres da carne.
A história começa quando o ex-cineasta marginal, autor de um único longa metragem, o obscuro “Holisticofrenia” (“premiado na Colômbia”), sem dinheiro para manter o status de “criador alternativo” é obrigado a filmar um vídeo institucional sobre embutidos de frango.
Ao invés de procurar pelas idéias, Zeca chuta o balde e entra numa espiral de excessos sexuais e lisérgicos de todos os tipos. A exemplo do seu personagem, Reinaldo também apostou na falta de filtros e regras para contar sua história. A torrente de palavrões é tão grande quanto a quantidade de enrascadas, contravenções e pequenas canalhices em que o personagem se mete em sua obsessão por prazer.
O livro provoca muitos risos, principalmente na primeira parte. Reinaldo é um artesão que constrói seu texto caudaloso e verborrágico com esmero, utilizando grande talento e elaboração pra relatar as impagáveis aventuras (ou desventuras) de seu herói sem caráter, o Pedro Malasartes hardcore. Só a “surubrâmane”, orgia realizada num templo erótico-religioso, em que Zeca se mete consome 80 páginas de descrições tão picantes quanto engraçadas.
Em sua epopéia pornográfica regada a todos os tipos de substâncias ilegais, Zeca é um personagem que representa um pouco a era de individualismo exacerbado e busca de prazer a qualquer custo, apenas pelo próprio prazer, em que vivemos. Por isso, a coisa que o personagem mais faz, além de copular e consumir drogas, é dar de ombros para o que os outros podem pensar ou sofrer com suas atitudes.
Ao final do calhamaço, o que provocou riso por tantas páginas passa a se transformar em desconforto ou pena ou raiva ou outra coisa qualquer. Ler “Pornopopéia” pode ser uma experiência intensa. Exige leitores dispostos a tal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tom Waits


O cara é foda. A foto é boa. O som é perfeito depois de um dia duro como hoje.

sábado, 19 de setembro de 2009

Dia e noite ou vice-versa

De dia
Raciocínio errático
Lunático

De noite
Interruptor apagado
Alucinado