quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Borges novamente pela primeira vez



Acabei de ler “O Aleph” de Jorge Luis Borges. A única coisa que tinha lido dele é “A História Universal da Infâmia”, quando eu tinha uns 14 ou 15 anos de idade. Lembro que gostei, achei delirante e tal. Mas reler Borges agora foi como encontrar o autor pela primeira vez.
Dá pra perceber que há todo um universo por trás de sua literatura, composto por um conhecimento histórico e uma cultura geral quase absurdas (sei que Borges era leitor de enciclopédias, estudioso de etimologia e dizia que imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca) e uma capacidade de adaptar personagens de tempos e lugares distantes às mais diversas situações fantásticas. Vários dos contos do Aleph começam definindo a época e o lugar onde a ação inicia, o que causa uma sensação de “era uma vez”, remetendo a histórias contadas pelos mais velhos numa noite de conversa.
Além dos temas fantásticos, Borges gosta de tratar do universo dos pampas, como uma verdadeira mitologia gaúcha, tema que me agrada particularmente. Nesse sentido, o conto “O Morto” me impressionou bastante.
O livro todo é muito interessante. Apesar de ler uma tradução, a abordagem inusitada dos temas e a delicadeza de ourives no trato com as palavras me impressionaram bastante. A cada parágrafo, o autor encontra soluções poéticas de beleza simples, que tornam suas descrições (os textos são sempre bastante descritivos) impressionantes e fazem querer reler parágrafos a todo momento.
Acho que o conto que mais me impressionou foi “A Casa de Asterion”, a sina da besta feroz e inocente contada de uma maneira totalmente inusitada. Parece um poema em prosa. É duro e é fascinante como são as sinas. Confesso que me emocionei lendo, de um modo que há tempos não acontecia. Talvez desde que o meu irmãozinho Pedro me emprestou o “Lavoura Arcaica” do Raduan Nassar. Uma pena o Pedro não estar por perto. Valia a pena uma leitura conjunta de “A Casa de Asterion” e de vários outros contos de “O Aleph”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre domingos e catecismos

Hoje, eu estava sozinho num café, uma menina passou e não me olhou. Imediatamente passei a questionar as virtudes que os cristãos dizem estar ligadas à pobreza. É claro que se eu fosse rico ela me olharia. Mas como ela saberia da minha riqueza apenas me olhando largado numa mesa do café? Não tenho a menor idéia, mas ela saberia. Eu sempre sei que alguém tem grana. Pelas roupas, pelos gestos, o queixo alto. E, lógico, se eu fosse rico não estaria num café tão furreba.
Amanhã é segunda e a merda continua. Parece que meu sono nunca é suficiente e acordo sempre praguejando. Saio pra trabalhar e o frio das manhãs quase melhora meu humor.
Meia hora de ônibus e estou no escritório onde a merda continua. Penso em largar tudo e ser faquir na Praça da Sé, como num filme do Zé do Caixão que vi dia desses. Já até imaginei alguns números originais, afinal, cama de pregos já não impressiona ninguém. Pensei em arrancar meus dentes sem anestesia. Depois de estar totalmente banguela eu morderia uma gilete. As lâminas penetrando nas gengivas vazias de dentes. Um sucesso absoluto.
O pior desses dias é não ter a quem procurar. Estou vulnerável. Chego a ter dó da próxima mulher que me der bola, se houver alguma. Eu me agarrarei a suas pernas e não a deixarei andar sem mim. Me apaixonarei e serei o cara mais pegajoso da face da terra.
Provavelmente eu a seqüestre e leve para uma cabana em um lugar ermo. E ficaremos trepando no tapete da sala de manhã até a noite. E só comeremos chicletes e só beberemos nosso suor e só ouviremos os malditos pássaros e nossos gemidos. Não falaremos.
Isso é o que eu fico imaginando e me tira o sono. Na verdade, falta grana, falta saco, televisão me aborrece e enjoei dos meus discos. Não leio mais jornal, mas também não consigo ficar totalmente indiferente. Tento me convencer de que tudo é normal hoje em dia. As chacinas, as cagadas da polícia, as guerras, os políticos e as celebridades. Nem sempre funciona. Um restinho de raiva insiste em deixar um amargor na boca. E, para piorar, a garota gordinha do prédio da frente não trepa nem se troca mais de janela aberta desde que o outono chegou.
O pior é o que chamo de efeito montanha-russa. As oscilações. Ou seja, os dias em que alguma coisa em mim resolve soterrar esse tédio. Aí sinto desejos incontroláveis de mudar. Ser demoníaco, sensual, preguiçoso, arrogante, irônico e exibicionista. Uma vontade de ser expulso do Jardim do Éden ou de, pelo menos, dar um peido barulhento em frente da minha chefe chique com seus lenços coloridos no pescoço.
É tipo uma vontade de ser jovem e inconsequente para sempre. Um James Dean capaz de dirigir melhor. Afinal, não quero morrer cedo. Prefiro ficar num pedestal, adorado em vida com meus cabelos dourados, olhos azuis, pele clara, boca vermelha. Uma espécie de Helmut Berger fazendo papel de amante da condessa louca e sanguinária de cabelos verdes e corpo perfeito.
Queria andar na chuva, matar dragões de neon e comer com os pés em cima da mesa. Tudo para horrorizar os homens de virtude, as mulheres de berço e as meninas de família. Queria acumular segredos inconfessáveis, daqueles capazes de terminar amizades. Fazer e falar coisas absurdas. Ser poeta sem precisar das palavras. Ser Alexandre o grande. Ser um faraó. Temido, mítico, aclamado. Queria ser o Lou Reed. Um fauno.
Mas a vida é estranha, os muros são altos e eu viajo demais. Daí esse sufoco passa e não faço porra nenhuma. A montanha russa volta para o trecho mais seguro e eu para meu estado normal de inanição. Não sorrio, não agradeço, quero que se fodam.
As manhãs de domingo são mais interessantes. Durmo um pouco mais. O barulho do trânsito é menor. Acordo e vou comer pastel na feira, onde a garotinha japonesa sorri quando eu peço a pimenta. Talvez ela ria da minha cara de sono. Talvez ela ria pra todo mundo.
Quando vou à feira passo em frente à igreja do bairro e tem sempre muita gente saindo da missa. Muitas ovelhinhas agradecendo a Deus ou pedindo coisas. Deve ser enfadonho para Deus, enquanto coça seu saco celeste, ficar ouvindo as ladainhas e os hinos dos carolas “anunciando o amor que vem do céu e na terra se faz alma e cor”. Havia um hino assim quando eu era criança e fiz catecismo.
Depois aprendi um sentido mais interessante que os moleques davam à palavra catecismo. Era como a molecada da rua chamava as revistinhas de sacanagem. Aquelas pequenininhas, tipo fotonovelas. “Agora, Elvira... goza junto comigo”. Lembro de uma dessas em que a mulher se chamava Elvira. Juro por Deus e por todos os catecismos. Era uma loira americana, dessas que os carolas insultariam e apedrejariam. Porra... e chamada Elvira!
Também sempre compro laranjas na feira e mais algumas frutas. Já as tardes de domingo são horríveis. Ouvindo futebol no rádio, assistindo algum filme alugado e chupando laranjas. A sensação de tempo perdido é indescritível e insuportável.
E sigo vegetando até a madrugada. Até a hora dos filmes ruins e dos programas que ninguém vê. De vez em quando, para pegar no sono, fico lendo um velho dicionário de bolso que era da minha mãe. Às vezes até me divirto assim.
Aprendo palavras inúteis como “arconte”, o magistrado na Grécia antiga. Descubro que “beiju” é um bolinho de mandioca; que “mangabeira” é uma árvore frutífera. Também li que “sicário” é um assassino assalariado. Taí um emprego tão bom quanto o de faquir na Praça da Sé.
Agora abro outra página do dicionário e leio os significados da palavra “negror”. Esta lá: 1. negrume; 2. escuridão, negrura, negridão; 3. nevoeiro espesso; 4. tristeza, melancolia.
Apago a luz e, mais uma vez, não durmo com os anjos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Arqueologia

In the heart of the saturday night (ouvindo Tom Waits) – outubro de 1996

No coração das noites de sábado
As meninas dançam,
O fogo queima nas bocas,
E o tempo voa para os corpos.

Há sempre a urgência
Do órgão pulsante
Pelo próximo toque.
Quem sabe a redenção na próxima esquina,
No próximo bar.
Leves, os ombros nus e a noite imensa
Esmagam meu coração.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Aventuras radiofônicas


Eu no estúdio e a Luana na técnica tirando clássicos do fundo do baú. Nesta semana farei um especial sobre o Lupicínio Rodrigues, o homem que conhece todas as formas da dor-de-cotovelo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Posso?

Não me interessa apenas escrever poesia.
Quero é me colocar em estado de poesia.
Ser uma antena, hipersensível.
Feroz, como uma pantera.
Sutil, como um vagalume.
Intenso, como um vendaval.

(Ademir Assunção)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Só li trechos de coisas do Mario Prata e nunca achei simples.
Só li trechos de coisas do Bortolotto e nunca achei fácil.
Li bastante Bukowski. Mas nunca disse “assim até eu”.
Nunca achei que ser hermético bastasse para escrever como Clarice.
Rubem Fonseca é apenas um crime e um culpado? Nunca achei que fosse.
Também nunca achei que Nelson Rodrigues fosse apenas um punhado de invenções doentias.
Nunca achei que Kerouac fosse mera datilografia.
Não li Fante. Mas pretendo.
Não li Mirisola. E não pretendo.
Não sou da turminha.
Você é profissional disso. É bom nisso.
Eu sou um amador e estou na minha.
Ouso escrever, ainda que mal.
Porque quero.
Porque preciso.
Porque é assim que eu sei.
Também acho que tem que ter culhão.
Mas acho triste agressividade mal direcionada.
E acho que nós temos nos mandando à merda em demasia nesses tempos.
Tem gente por aí merecendo muito mais.
Por fim, acho o “diga-me com quem andas...” em sua variação “diga-me o que você lê..” com o mesmo saborzinho do “sabe com quem está falando...”. Autoritário e besta.
Ah... li Maiakówski. Mas, sinceramente, não te interessa.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Homenagens - postando novamente

A Roberto Piva

Nas asas da América Latina
Onde o sangue invade o mel
O óleo diesel vaza da pia batismal
Sem sentido,
No ventre de uma igreja viva
Que arfa e mostra os dentes

Eu vi a cobra coral devorar o natimorto
Ouvi os sons de escapamentos
E o trole da modernidade rasgando as estradas de leite contaminado

Respirei o pó branco da invenção e da leveza
O gineceu invadido, o coma de minhas artérias
E assim deixei o dia chegar frio e abri as janelas sobre o mar escuro



A Torquato Neto


Aqui em Paupéria
É mais fácil ser torto que ser anjo
Abrir o gás dessa miséria
Apagar
Estreitar a relação entra a febre e o violão
Um beijo moreno-exagerado no escuro

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O som da tatuagem

O som da minha tatuagem é Jane´s Addiction. Mais especificamente “Jane Says”, “Slow Diver” e, principalmente, “Ocean Size”. Acho que naquele momento eu estava mesmo me sentindo do tamanho do oceano. Minha tatuagem é uma tribal sem um significado maior que o fato de marcar um momento bom depois de uma deprê longa e fodona. Raspei a cabeça, fiz a tatuagem e fui pra Ilha Grande acampar. Não necessariamente nessa ordem. A fumaça não me deixa enxergar com clareza a ordem dos fatos.
Tem vários sons que marcam períodos da vida. Acho que com todo mundo é assim. Pelo menos com quem gosta de música. Na época da minha primeira faculdade de jornalismo ouvia direto o “Caution Horses” dos Cowboy Junkies e a parte acústica do “Before the Flood” do Dylan. Adorava curtir uma dor de cotovelo ouvindo a versão de “Just Like a Woman” daquele disco. Decorei a letra e até o solo de gaita. Era apaixonado por uma menininha linda e bobinha que acho que até hoje não sabe quem é o Bob Dylan. Depois fazia minha sessão de “air acoustic guitar” com “It´s Alright Ma” pra exorcizar o bode. Moí a fitinha do “Before...” e só dia desses, já em 2009, baixei o som da internet. Ainda é bom demais.
Teve a fase Sérgio Sampaio, honorável padrinho deste blog. É... não tinha idéia melhor pra batizar o brinquedo e aí veio a canção “Pobre Meu Pai” na cabeça. A fase Sérgio Sampaio também foi meio na época do início da faculdade. Nós, os pequenos e bobinhos aprendizes de malucos gastamos nossas fitinhas com o “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. O vinil que paria as fitinhas era das turcas Samira e Sumaia. Músicas lindas como “Dona Maria de Lourdes”, “Eu Sou Aquele que Disse”... ah...todas são do caralho até hoje. Sampaio é foda.
Lembro que uma vez apareceu lá em casa um colega de faculdade chamado Nélio que era bem mais velho, ator de teatro, malucão. Ele tinha morado no Espírito Santo e conhecia até o irmão do Sampaio. Na época, eu tinha 18 anos e o cara 35, minha idade hoje. Botei a fitinha pra rolar e o cara pediu pra ouvir “Viajei de Trem” em silêncio, de olhos fechados e ficou lá meio chorando e tal. Fazia anos que ele não ouvia aquilo, o disco estava fora de catálogo há muito tempo. Ele deve ter me contado sua história com a canção, mas eu não me lembro mais.
Pô... sem entrar em detalhes...teve muita coisa que marcou. E o pior é que ando com vontade de fazer outra tatuagem. Falta escolher o desenho. E o som, é claro.

Escrito ao som de “Não Adianta Nada”, do Rei Roberto Carlos – safra 1973

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A bela e a fera



Como escrevi aqui, num “mea culpa” alguns textos atrás, ouvi pouco rock em 2008. Ou melhor, ouvi pouco rock novo no ano que passou. Nos últimos dias tenho tentado tirar o atraso garimpando na internet alguns dos discos citados nas famosas listas de melhores do ano. E achei um trabalho brilhante como não ouvia há tempos.
Trata-se de “Sunday at Devil Dirt”, segunda colaboração entre Isobel Campbell, ex-integrante do grupo escocês Belle & Sebastian, e Mark Lanegan, ex-Screaming Trees e Queens Of The Stone Age.
A parceria da bela Isobel com o esquisitão Lanegan começou em 2006 com o álbum "Ballad of the Broken Seas". O disco ganhou até prêmios, mas acabou dividindo a crítica. O destaque foi uma versão de "Ramblin' Man", velho sucesso do mito country Hank Willians.
Confesso que não ouvi “Ballad of the Broken Seas”, mas a crítica especializada tem dito que o novo CD é mais sofisticado, melhor arranjado e com uma atmosfera mais folk. O que eu sei é que “Sunday at Devil Dirt” é um trabalho cheio de climas entre o sombrio e o delicado que surgem do encontro de duas figuras com trajetórias musicais tão díspares.
As canções são, antes de mais nada, simples. Os arranjos valorizam as belas melodias e o contraste entre a voz delicada de Isobel e o tom gravíssimo de Lanegan que, aliás, é predominante. Os vocais etéreos de Isobel, como que enfeitam as canções, ficando num elegante segundo plano.
Talvez o disco tenha me chamado tanta a atenção pela sequência de faixas matadora que abre o disco. “Seafaring Song” é uma canção que celebra a volta aos braços da pessoa amada com ecos de Leonard Cohen e Tom Waits. “The Raven”, também tem o mesmo clima, mas com o tom soturno elevado ao cubo, por cortesia dos vocais de Lanegan.
A terceira, com acentos de blues rural é “Salvation”, talvez o melhor refrão do CD. O primeiro dueto vocal pra valer está em “Who Built the Road”, com arranjos de cordas e um sino que constroem a atmosfera agridoce com direito até a um “la-la-la” no refrão.
Outro momento especial do disco é “Trouble”, conduzida por violões folk, a canção é provavelmente a melhor síntese para “Sunday at Devil Dirt”. Lanegan suaviza sua voz cavernosa para duetar com Isobel numa canção de amor direta e singela.
O CD termina com o cinismo de “Sally Don´t You Cry”, com sua letra que convida a personagem a se conformar com os problemas causados pelo parceiro. “Oh Sally don't you cry/ A man's a man/ Does the best he can/ I see you are mad/ But he's the best you've had/ Sally it ain't so bad”.
Este CD não está nas listas de melhores discos de rock de 2008 à toa. Talvez não seja a oitava maravilha da música pop, mas há beleza, inteligência, delicadeza e uma coesão nas composições e nos arranjos que dá força ao trabalho. Não se parece em nada com Belle & Sebastian, nem tampouco com Primal Scream e Queens of the Stone Age. São apenas canções melancólicas e despojadas, feitas com grande cuidado. Vale ouvir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O Sentido da Vida – por Lemmy Kilmister




Lemmy Kilmister do Motorhead é uma figuraça. Além de comandar com seu baixo atômico uma das bandas mais fudidas de todos os tempos, ele foi eleito pela edição de junho de 2006 da revista feminina Maxim uma das "10 Lendas Vivas do Sexo". Mesmo com a aquela cara de cão sarnento. Tirei do blog “Black Sabbado” uma entrevista com a fera, onde ele trata de assuntos edificantes, nesse momento de crise mundial. Senhoras e senhores, aproveitem das elocubrações existenciais desse espírito esclarecido e iluminado.

Pergunta: Tem hobbies?
Lemmy: "Pegar mulheres, suponho. Na verdade, não, isso é uma carreira. A música é o hobby".

Pergunta: Lemmy, se você tivesse de parar de trepar ou fazer música, o que escolheria?
Lemmy: "Bem, a primeira atividade é razão pela qual eu entrei na segunda! Então eu afirmo que não tenho que escolher!"

Pergunta: Você é religioso de alguma forma?
Lemmy: "Sou agnóstico, na verdade. Vou esperar e ver... e eu posso esperar.
Mas não tenho medo de morrer. Qual é o motivo para ter medo do inevitável?
Eu só espero que não seja num hospital cercado de imbecis e com tubos enfiados no nariz,sabe? Minha ética é, 'coma, beba e seja feliz, pois amanhã morreremos'.
Você pode ser o quanto cuidadoso quiser, mas você vai morrer de qualquer jeito,
então porque não se divertir?"

Pergunta: O que em sua opinião é a melhor cura para uma ressaca?
Lemmy: "'Hair of the Dog' [N.T.: Em português, 'pêlo do cachorro', uma redução da expressão “pêlo do cachorro que te mordeu", que significa beber um pouco de álcool para melhorar a ressaca]"

Pergunta: Qual a melhor mistura de bebidas que recomendaria, e qual a melhor maneira de bebê-la?
Lemmy: "Whisky Jack Daniel’s e Coca-Cola, misturados na sua boca".

Pergunta: De onde vêm os bebês?
Lemmy: "Os bebês surgem quando um homem vai ao topo de um prédio alto e pula, e uma mulher o pega antes que caia no chão. Em seus dentes".

Pergunta: Você sempre quis ser um músico? Se não, como que idade você decidiu que queria ser um músico?
Lemmy: "Eu me interessei pela arte musical pelos 13 anos – eu vi todas aquelas garotas – eu tinha um cérebro de 13 anos, agora eu tenho um cérebro de 15 anos!"

Pergunta: Sobre a descoberta dos benefícios do Viagra:
Lemmy: "Eu ainda uso de vez em quando. Se o 'Bráulio' não está apontando para a beleza então ele precisa de um empurrãozinho. Qual é o problema com isso?"

Pergunta: Sobre sua visão sobre o amor:
Lemmy: "Não dá pra alguns caras serem fiéis. Se as pessoas querem se casar e ficar na putaria, isso é desonesto. Se você vai se casar, se case e pronto. Eu nunca conheci uma garota que conseguisse me fazer parar de olhar para as outras, então não me casei".


Pergunta: Você perdeu sua virgindade aos 18 anos. Como aconteceu?
Lemmy: Na praia, na chuva. Foi horroroso e tinha areia entrando em todos os lugares. Sabe?

Pergunta: E desde então você transou com duas mil mulheres...
Lemmy: Eu nunca falei "duas mil mulheres". Eu falei que havia transado com mil. Agora devem ser já umas mil e duzentas ou algo parecido. Faz muito tempo que estou na estrada e nunca fui casado, então não tive folga.



Por fim, Lemmy e o Motorhead em ação. E ainda tem gente que acha que NX Zero é rock...


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ouvindo a chuva

Chuva. Desde criança eu gosto de chuva. Agora, enquanto ouço a tempestade de verão lá fora, acabei me lembrando dos bolinhos de chuva que minha avó fazia. Não eram como esses bolinhos de chuva tradicionais, que são meio redondinhos e levam açúcar. Eram uns bolinhos de fubá, compridos e salgados que, ao serem fritos, ficavam crocantes por fora e com aquela massa macia na parte interna. Minha avó dizia que aprendeu os bolinhos com a mãe dela, minha bisavó portuguesa que eu não conheci. Por isso ela não sabia nem ensinar a receita. Ia fazendo as medidas ali, no olho. O resultado foi que minha mãe e minha tia não sabem fazer o bolinho. Só um primo que, assim como eu, adorava os bolinhos de fubá, aprendeu. Ele fazia os bolinhos junto com minha avó quando era criança. Provavelmente não se lembra mais da receita.
Outra coisa que minha avó fazia era uma massa de pizza esquisita e que eu achava a coisa mais saborosa do mundo. Meu pai apelidou aquilo de “pizza sem vergonha” e a família toda, até a velha, passou a chamar a tosca iguaria por esse nome. Não tenho a menor idéia do que vai na massa. Sei que não parece em nada com nenhuma outra massa de pizza que eu tenha comido, nem mesmo com massa de pão ou qualquer outro tipo de massa. Eu adorava aquilo e, quantas vezes, sem aviso prévio minha avó me ligava no final da tarde pra ir jantar na casa dela a tal pizza sem vergonha.
O recheio era o mais simples possível. Mussarela, tomate, cebola e orégano. Quando o prato era feito exclusivamente pra mim, minha avó dobrava a quantidade de cebolas. Assim como o bolinho, a receita da pizza sem vergonha não foi aprendida por ninguém.
Minha avó hoje vive da sua cadeira de rodas para a cama. Está frágil e perdeu de vez a lucidez. Sinto falta da sua alegria desbocada, de sua implicância bem humorada. Nunca mais vou provar nem o bolinho nem a tal pizza. Mas consigo lembrar dos sabores com perfeição. O bolinho de fubá e a pizza sem vergonha se foram. De certa maneira, minha avó também se foi. Ficou a chuva.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Minha primeira vez com Lou Reed




Em 1996 eu morava numa república de estudantes em São Paulo. Estava entediado, odiava, ou melhor, desprezava o que eu estava estudando, mas adorava morar em São Paulo por causa dos cinemas, teatros e shows que frequentava.
Nesse ano assisti o que costumo dizer que foi o melhor show que vi na vida. Foi a primeira vinda de Lou Reed ao Brasil na turnê do álbum “Set the Twilight Reeling” para dois shows no Palace.
Não tinha carro e não sabia nem onde era o Palace. Fui com uma amiga comprar o ingresso para a segunda noite. A primeira era uma disposição com mesas e camarotes, ou seja, custava o dobro e nem dava pra ter o prazer de pular com a galera no gargarejo. Coisa pra tiozinho.
No dia do show chovia muito. E lá fui eu para a 23 de maio tomar o ônibus que minha amiga tinha me ensinado. Todas as janelas do ônibus estavam embaçadas e era impossível enxergar o lugar onde eu deveria saltar e que eu havia decorado no dia da compra dos ingressos. Pedi para o motorista avisar quando o ponto chegasse. Deu tudo certo e em poucos minutos eu já estava na pista, em frente ao palco, com só duas pessoas na minha frente.
E foi inesquecível. Abriu com “Sweet Jane”, seguida de “Dirty Boulevard” e “Waiting for the Man”. Toda aquela crueza dos discos do Velvet e solo do Lou Reed estavam no palco. Com um som poderoso e brilhante feito de paredes de distorção. O show seguiu assim, com o repertório impecável, a platéia em delírio e a banda afiadíssima com o fantástico Fernando Saunders no baixo e Mike Rathke na guitarra. Não consigo mais me lembrar do nome do baterista. Tocaram quatro músicas do “Set the Twilight”, inclusive “Hooky Wooky”, que na época passava direto na MTV.
No bis teve “Vicious” e a maravilhosa “Satelite of Love”, cantada inteirinha pela platéia, o que, claramente pana nós ali da fila do gargarejo, surpreendeu a banda e Reed. Não deu outra. Voltaram para um segundo bis com “Rock´n Roll” e “Walk on the Wild Side”. Agradeceram e tentaram sair do palco, mas o público fez tanto barulho que Reed pediu aos músicos pra tocarem mais uma. Cheguei a ver o baterista fazendo sinal pra ele que estava cansado.
E aí veio “Pale Blue Eyes” (gravada até pela Marisa Monte) e todo mundo cantou junto de novo. O velho rock star maldito sorria, visivelmente emocionado. Pararam novamente, deixaram os instrumentos e agradeceram e... o público gritou e pulou ainda mais! Eu não acreditava. O roqueiro mais cínico e perigoso da história sorria abertamente, jogava beijinhos e trocava palavras de surpresa com os músicos.
Não teve jeito. Extenuados, tomaram seus instrumentos de novo e fizeram uma barulheira dos infernos, no melhor estilo das muralhas de microfonia do Velvet Underground. Não foi uma canção, foi um ritual, um “happening” pra lavar a alma dos fãs.
Dias depois, um amigo que não foi ao show disse que leu em algum jornal que Reed, que estava afastado do álcool e das drogas há algum tempo fez questão de tomar uma dose de uísque com os músicos da sua banda ainda no camarim para celebrar o segundo show em São Paulo, considerado especial por ele. Nunca vi nada parecido num show de música. Além das lembranças que divido com vocês, guardo o ingresso do show e a matéria do jornal do dia.
Vi Lou Reed na sua segunda vinda a São Paulo, na turnê do disco “Ecstasy”, no gigantesco Credicard Hall. Foi legal também, mas não repetiu a magia daquela noite chuvosa. O compositor de “Perfect Day” fez a noite perfeita. Rock´n roll animal, visceral e verdadeiro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Nick Cave fez o melhor rock de 2008




Tá certo... 2008 foi talvez um dos anos em que menos ouvi rock. Colaborei na Comissão Organizadora do Festival Botucanto, passei a produzir e apresentar o Arquivo Musical Brasileiro pela Rádio Emissora de Botucatu (todas as sextas, a partir das 20h), ou seja, projetos muito ligados à música popular brasileira.
Nessa virada de ano, ao procurar as listas de melhores do ano, me dei conta de que só tinha um dos CDs que andaram frequentando a maioria das listas dos críticos de rock. Na verdade, a maioria dos discos citados é de bandas novas, pouco conhecidas e independentes. Hoje, porém, com as facilidades da internet, não dá pra usar essas coisas como desculpa. O fato é que ouvi pouco rock no ano que passou e quando ouvi procurei os clássicos: Dylan, Neil Young, alguma coisa de blues...
Não é à toa que o tal do CD que eu ouvi e que consta das coletâneas é de um veteraníssimo surgido nos porões enfumaçados dos anos 80, o grande Nick Cave. “Dig, Lazarus, Dig!” foi o melhor disco de rock que ouvi, dentre os lançados em 2008. Meu queixo ainda cai cada vez que ouço o disco, e olha que sou fã de longa data do cara. Acho sinceramente que “Dig” é um dos seus melhores, o que não é pouca coisa numa discografia sólida como a do “senhor caverna”.
O disco tem a atitude e o tom lúgubre que marcam toda a carreira de Cave, mas há uma algo mais. Sua banda, os Bad Seeds, nunca soou tão quente, tão rock´n roll. O clima pesado, a distorção e o desconforto fazem parte do DNA de Cave. Mas alguns elementos enriquecem as músicas tornando-as às vezes mais interessantes ritmicamente, como o riff e o coro da faixa-título, outras mais etéreas como a sonoridade de teclados e guitarra de “Jesus of the Moon”, que me fez lembrar coisas do “Time Out of Mind” do Dylan, aquele som de cabaré decadente à meia luz. E o que dizer do casamento estranho de percussão, teclado e guitarra em “Moonland”.
Outra das minhas preferidas é “Today´s Lessons” que às vezes parece anos 80 com seus tecladinhos cafajestes, às vezes parece moderna demais com seu ritmo contagiante. Lembrou-me alguns rocks dos Stooges e “Rock´n Roll” do Velvet Underground. Aliás, a personagem da música também é uma Jane qualquer.
“Albert Goes West” é outra com uma pegada em alta voltagem em que Cave convida “Do you wanna dance? / Do you wanna move”, mas admite que não responde por seus atos. Destaque para a percussão canalha e para os backing vocals com direito até a um “shala-la-lá” emoldurado por guitarras distorcidas. Aliás, os backings vocals bizarros são uma atração à parte do Cd. Eles aparecem novamente, brigando para não serem soterrados pela cozinha e pelas guitarras em “We Call Upon the Author”.
O CD termina com os quase oito minutos, quase suaves de “More News From Nowhere”. Mais uma crônica sobre como os seres humanos podem ser estranhos, na escola em que Cave aprendeu com Lou Reed, Leonard Cohen e outros bardos do lado amargo do rock´n roll.
Recomendo “Dig, Lazarus, Dig!” pra quem gosta de rock adulto que fala de amor, morte, drogas, sexo, beleza, tristeza e caos urbano embalado por um som que reflete o que o rock tem de melhor como agressividade, barulho, experimentação, ousadia, riffs poderosos e hipnóticos, refrões legais e nada, absolutamente nada de pretensões virtuosísticas e do bom mocismo que infecta o rock atual. Para iniciados.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Carta do Pedro – direito de resposta.

Como zoei o Pedro publicamente por ele ter perdido o show do Nick Cave, me senti na obrigação de conceder o direito de resposta a ele, também publicamente. Aí vão as razões do meu irmãozinho. Publicando o texto que o Pedro mandou por e-mail me livro de atualizar o bloguinho e ainda me sinto o mais generoso dos donos de blog. De quebra, forneço aos meus seletíssimos leitores um pouco de aventura nas Oropa.
Aí segue:

Meu caro,

O show do Nick Cave era algumas semanas depois do meu tempo por lá,
tirei a foto para você ver mesmo. Veja só, coisa boa sempre.
Quanto aos shows, é foda, agora tenho permissão de trabalho e se tudo der certo
a partir da semana que vem vejo uma vaga numa escola fundamental para filhos
de família de língua portuguesa (Portugal, os cinco africanos, Brasil e os filhos de jogadores).
O trabalho se resume a cuidar das crianças depois da aula, ajuda-las nas tarefas de alemão, português e inglês. Há projetos semelhantes para filhos de todas as línguas que você possa imaginar. Vamos ver no que dá.
Eu não estou indo muito nos shows, perdi aliás UK Subs num bar pulgueiro histórico aqui de Berlin, mas sempre há muitos por aqui, o difícil é acompanhar, prefiro nem saber na maioria das vezes.
No entanto tenho ido muito à ópera, sei que você vai chiar, mas tô pouco me fudendo. Para alguém que gosta de literatura, teatro e música é o programa perfeito, tenho visto grandes regentes, cantores e encenações. Meus netos terão que decidir do que se orgulham e do que não, em todo caso isto virá com o tempo ou nunca virá. Mas não me arrependo, cada obra vista é uma noite sem dormir, pensando naquelas tragédias, naquele som magnífico, em toda a montagem e num onte de estórias canônicas ou não que foram necessárias para que o librestita e o músico fizessem a parada. Uma grande curtição!
Estou a dois meses daquela prova escrota e de novo estou na curva final e agora é uma questão de honra e sobrevivência, os alemães são maus, podes crer.
A foto do seu filho é muito fofa, cheio dos agasalhos e com um sorriso de fera.
Eu não sei se terei netos tão cedo, de fato já fiquei para tio, não tenho mulher e muito menos filhos, embora tenha vontade de ter os dois, mas enquanto for estudante a coisa será difícil. O David não é parâmetro pra nada, terá show do Slayer e do Kreator (banda local) e o cara amarelou. Melhor assim, perder Neil Young e ir no Kreator é mais do que sacrilégio, é idiotice elevada ao vigésimo grau. O lance é que o tempo é corrido pacas e escrever o trabalho em meio a tantos outros trabalhos acadêmicos é sinistro, tempo curto para professores exigentes, sem contar minha exigência que cá entre nós não é pouca.
Seguindo conselho da minha sobrinha Clarinha que havia montado uma página para mim no Orkut ativei a minha naquela farofa e em menos de um mês tinha uma caralhada de pessoas lá falando comigo, gente do Rio, de Botucatu, dos tempos dourados de Bauru (Bira inclusive, casão, dei seu blog e o cara ainda não passou lá, tem filho agora, Pedro aliás), de Assis e tal.
Numa dessas encontrei a Carmina Juarez numa amiga em comum, mandei um recado pra ela falando daquele famoso ensaio, ela me respondeu me chamando de Dudu (meu nome por lá) e me dizendo doçuras, baba mané!
No mais é isto, muita farofa e desafios pela frente.
E viva Arrigo Barnabé.
Até Mar.
Pedro.

sábado, 3 de janeiro de 2009

O SHOW QUE O PEDRO PERDEU



Só matando esse cara. O Nick Cave acabou de lançar "Dig, Lazarus, Dig" o melhor cd de 2008... Tinha que roubar, matar...só não dava pra perder.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Viver em 2009

Viver é plantar e manter um jardim,
Ou seja,
Entrar na guerra perdida contra as pragas.
Tudo de novo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O TEMPO

No final do ano fica aquela sensação de que o tempo passou rápido demais. Um poema sobre o tempo dos talentosos Gabriel Bá e Fábio Moon. O trabalho deles é sensacional. Clique na imagem para visualizar melhor.

domingo, 21 de dezembro de 2008