Demorei pra gostar do "boss". Ainda tinha aquela imagem da tecladeira xaroposa que infecta a sonoridade do "Born In the USA". Nos longínquos anos 80 emprestei de um amigo a caixa "Live 1975/1985". Gravei numa fitinha que me acompanhou por muitos anos algumas faixas como "Racing in the Sreets", "This Land Is Your Land", de Woody Guthrie, e a versão absurdamente foda de "Jersey Girl", do Tom Waits. Depois, quando saíram os CDS, um dos primeiros que comprei foi o "Nebraska", seu disco totalmente folk, que ainda ouço de vez em quando. Mas só recentemente compreendi a grandeza desse puta compositor e letrista das ruas americanas. Bruce é muito foda. E "Thunder Road" é uma das composições mais emblemáticas do tal espírito do rock 'n roll. Seja lá o que for isso.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Saudades da chuva
Ando com uma tremenda saudade da chuva. Sentindo falta de coisas simples como dormir com o barulho da chuva, ou simplesmente olhar pela janela e ver as gotas molhando a rua ou o quintal de casa. Gosto muito de dirigir sozinho, à noite, com chuva e ouvindo um som. Quando isso acontece é sempre um momento que gosto de curtir. Normalmente, dirijo mais devagar pra aproveitar.

Mas além de secos, os dias atuais estão estranhos. Por diversos motivos que nem vou escrever aqui. Mas um lance legal desses dias foi ter lido “Atire no Dramaturgo”, livro que reúne os textos que o Mario Bortolotto publicou no blog homônimo.
Já faz algum tempo que acompanho o blog. Gosto dos textos e das dicas culturais que rolam lá. Já li a peça “Nossa Vida não Vale um Chevrolet” e o romance “pulp” “Mamãe não voltou do supermercado”. Gostei dos dois, principalmente da peça. Ainda tenho aqui na fila pra ler o “Bagana na Chuva” e duas coletâneas de peças do cara.
Mas acho que a leitura do “Atire no Dramaturgo” foi a que mais me pegou até agora. Primeiro pela afinidade que senti ao ler os relatos todos. Não é sempre que um autor pensa muito parecido com você, ouve os mesmos sons, gosta dos mesmos filmes. Bortolotto é aquele cara com quem eu dividiria uma cerveja na boa, enquanto arrotaríamos piadas, pequenos momentos de melancolia e observações sarcásticas sobre o boteco e o universo.
Mas, além disso, há muito chão ali. O que quero dizer é que uma trajetória como a do cara que sai da periferia de uma cidade do interior (Ok, Londrina é uma puta cidade legal, com um movimento cultural bem foda, mas como diria aquela bandinha podre está “longe demais das capitais”) e vai ser escritor, poeta, dramaturgo, bluesman (levando a vida de bluesman) é uma trajetória de coragem. Há um belo texto sobre isso, em que ele diz que nem acha nada de heróico ter conseguido viver da maneira que escolheu, ainda que seja uma maneira dura, sem concessões. Nós, os que batemos cartão de ponto, sabemos o quanto isso é uma conquista.
Por fim, os textos mostram que o escritor foi forjado nas bebedeiras, na montanha de referências artísticas, nas noites vazias, mas também em profundas tempestades e silenciosas bonanças interiores. Daí os textos muito fudidos sobre a mãe, a mulher, os caras que admira. Mario não tem medo de explicitar sentimentos, de mostrar-se perplexo com os rumos das coisas. Mesmo em sintonia com o mundo cão, com os estropiados da vida, abre espaço para uma poesia que não nasce apenas da violência. Ou estou muito enganado ou é simplesmente um imenso respeito pela vida, incluindo aí todas as merdas inerentes ao nosso camelar pelo tal vale de lágrimas. Isso, de alguma maneira, surge nas entrelinhas.
Falar que bebe pra caralho, que come todo mundo e é um puta louco alucinado é bem mais fácil. Tá cheio de candidato a poeta maldito por aí. Na net, principalmente. Existem cicatrizes mais profundas que as feitas por garrafas quebradas numa briga de rua. Assumi-las e falar delas é muito mais foda.

Além do livro do Mario Bortolotto também devorei um gibi do Jonah Hex que a Panini lançou. Muito legal. Parece que já estreou nos Estados Unidos um filme baseado nas aventuras do cowboy matador deformado. Tem o John Malkovich e a gostosa da Megan Fox no filme.
E enquanto a chuva não chega o som que mais tem rolado por aqui é o velho Tom Waits. Por que catzo não trazem o cara pra tocar aqui? Vai um som do mestre, xamã urbano encharcado de bourbon, fazendo sua dança da chuva.

Mas além de secos, os dias atuais estão estranhos. Por diversos motivos que nem vou escrever aqui. Mas um lance legal desses dias foi ter lido “Atire no Dramaturgo”, livro que reúne os textos que o Mario Bortolotto publicou no blog homônimo.
Já faz algum tempo que acompanho o blog. Gosto dos textos e das dicas culturais que rolam lá. Já li a peça “Nossa Vida não Vale um Chevrolet” e o romance “pulp” “Mamãe não voltou do supermercado”. Gostei dos dois, principalmente da peça. Ainda tenho aqui na fila pra ler o “Bagana na Chuva” e duas coletâneas de peças do cara.
Mas acho que a leitura do “Atire no Dramaturgo” foi a que mais me pegou até agora. Primeiro pela afinidade que senti ao ler os relatos todos. Não é sempre que um autor pensa muito parecido com você, ouve os mesmos sons, gosta dos mesmos filmes. Bortolotto é aquele cara com quem eu dividiria uma cerveja na boa, enquanto arrotaríamos piadas, pequenos momentos de melancolia e observações sarcásticas sobre o boteco e o universo.
Mas, além disso, há muito chão ali. O que quero dizer é que uma trajetória como a do cara que sai da periferia de uma cidade do interior (Ok, Londrina é uma puta cidade legal, com um movimento cultural bem foda, mas como diria aquela bandinha podre está “longe demais das capitais”) e vai ser escritor, poeta, dramaturgo, bluesman (levando a vida de bluesman) é uma trajetória de coragem. Há um belo texto sobre isso, em que ele diz que nem acha nada de heróico ter conseguido viver da maneira que escolheu, ainda que seja uma maneira dura, sem concessões. Nós, os que batemos cartão de ponto, sabemos o quanto isso é uma conquista.
Por fim, os textos mostram que o escritor foi forjado nas bebedeiras, na montanha de referências artísticas, nas noites vazias, mas também em profundas tempestades e silenciosas bonanças interiores. Daí os textos muito fudidos sobre a mãe, a mulher, os caras que admira. Mario não tem medo de explicitar sentimentos, de mostrar-se perplexo com os rumos das coisas. Mesmo em sintonia com o mundo cão, com os estropiados da vida, abre espaço para uma poesia que não nasce apenas da violência. Ou estou muito enganado ou é simplesmente um imenso respeito pela vida, incluindo aí todas as merdas inerentes ao nosso camelar pelo tal vale de lágrimas. Isso, de alguma maneira, surge nas entrelinhas.
Falar que bebe pra caralho, que come todo mundo e é um puta louco alucinado é bem mais fácil. Tá cheio de candidato a poeta maldito por aí. Na net, principalmente. Existem cicatrizes mais profundas que as feitas por garrafas quebradas numa briga de rua. Assumi-las e falar delas é muito mais foda.

Além do livro do Mario Bortolotto também devorei um gibi do Jonah Hex que a Panini lançou. Muito legal. Parece que já estreou nos Estados Unidos um filme baseado nas aventuras do cowboy matador deformado. Tem o John Malkovich e a gostosa da Megan Fox no filme.
E enquanto a chuva não chega o som que mais tem rolado por aqui é o velho Tom Waits. Por que catzo não trazem o cara pra tocar aqui? Vai um som do mestre, xamã urbano encharcado de bourbon, fazendo sua dança da chuva.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Filmes e testes do ácido
Passei alguns dias difíceis depois de uma cirurgia para tirar mais uma de minhas malditas pedras nos rins. Fiquei em casa mijando cacos de vidro e finalmente consegui assistir dois filmes, algo cada vez mais raro. Vi “A Noite”, de Michelangelo Antonioni, com o Mastroianni, a Jeane Moreau e a Monica Vitti, de 1961. É um dos tais filmes da Trilogia da Incomunicabilidade. Gostei pra caralho do filme. Fotografia, trilha sonora, diálogos e, principalmente os papéis femininos, da esposa desapaixonada e da amante culpada. Me fez querer ver outros filmes de Antonioni e saber mais sobre ele. Tem aquela frieza do cinema europeu clássico dos anos 60, mas é uma obra instigante. Dá pra fazer filmes interessantes abordando as questões mais sérias da vida sem ser panfletário, apelativo ou explícito. Afinal, nem sempre essas tais questões, sejam elas o que forem, estão explícitas. Na foto abaixo, Monica Vitti.

O outro filme que vi foi o delicioso spaghetti western “Preso na Escuridão” que transfere aquela lenda japonesa do samurai cego Zaitoichi que, aliás virou um filme legal do Takeshi Kitano de 2003, se não me engano. Pois essa versão italiana e fuleira da história é muito legal. O pistoleiro cego e sem nome tenta resgatar 50 mulheres que ele deveria entregar a mineiros que as encomendaram, das mãos de bandidos mexicanos nojentões, no melhor estilo spaghetti. O filme tem sequencias muito legais, bons diálogos, humor e o Ringo Starr no papel do irmão do bandidão. Dá pra encontrar o DVD barato pela net afora. Vale conferir.
Por fim, aproveitei os dias de molho e li “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico”, do Tom Wolfe. Para quem não sabe o livro acompanha a saga dos Merry Pranksters, na tradução, Os Festivos Gozadores, grupo de doidões reunidos em torno do escritor Ken Kesey, que rodava os Estados Unidos num ônibus psicodélico promovendo os tais “Testes do Ácido” que nada mais eram que grandes festas em que todo mundo tomava LSD (na época ainda liberada nos EUA) e ficava alucinando ao som do Grateful Dead e das luzes e ruídos psicodélicos que o grupo preparava.

Wolfe tentou copiar em sua escrita o ritmo caótico das alucinações vivenciadas pelos Pranksters. A leitura demorou um pouco a engrenar mas depois fluiu legal. É muito curiosa a figura de Kesey, mostrado ora como um simpático e carismático membro do grupo, ora como um manipulador inconseqüente. Além do autor de “Um Estranho no Ninho”, surgem nas páginas do livro gente como Hunter Thompson, os Hells Angels, Allen Gisnberg, Timothy Leary, Bill Graham e, principalmente o mito beat Neal Cassady, sempre ao volante do busão colorido dos Pranksters. Wolfe entrevistou pessoas e vivenciou várias das passagens do livro. Bem legal, para conhecer essa época.
Um trecho, na tradução de Rubens Figueredo:
- Alguma coisa está acontecendo. As estrelas estão ficando opacas. É como se uma grande nuvem estivesse nos envolvendo, muito suavemente, cobrindo o céu inteiro. Mas na verdade não é uma nuvem. Parece conter algum tipo de estrutura – posso vislumbrar uma enevoada rede de linhas e faixas mudando de posição. É quase como se as estrelas tivessem sido apanhadas numa fantasmagórica teia de aranha. A rede inteira está começando a brilhar, latejar com a luz, exatamente como se estivesse viva... Há uma grande coluna de fogo, como uma árvore em chamas, subindo no horizonte no lado ocidental. Vem lá de longe, e parece que vai envolver o mundo inteiro. Eu sei de onde eles provêm: eles estão a caminho, afinal, para se tornarem parte da Supermente. O período de experiência acabou: eles estão deixando para trás os derradeiros remanescentes da matéria... Toda a paisagem se ilumina – fica mais claro que o sol – vermelho e dourado e verde perseguem-se uns aos outros através do céu – ah, está além das palavras, não parece correto que eu seja o único a ver – nunca sonhei que existissem cores assim...
Em resumo, a cabeça ligadona, meu irmão, e viajando a mil para... a Cidade dos Limites, no maior barato, todo mundo na maior sincronia essa noite.
... mas aqui não tinha nenhum querubim de chafariz da Academie Française esguichando água, nenhuma cerimoniosa toga de linho de Gautama Buda tremulando ao vento do Oriente, com aquele exaurido hálito de queijo Roquefort que confirma a indiferença espiritual pelo mundo do corpo. Em lugar disso, iam tentar a principal auto-estrada, oito pistas de largura postes de iluminação recurvados como pescoços de garça até onde a vista alcança, e iam ligar o mundo em todas as freqüências, brandindo bandeiras americanas, difundindo as tintas luminosas e o neon eletropastel da América dos anos 60, ligado e amplificado, 327 mil HP, um ônibus de fantasia num filme de ficção científica, todos são bem vindos a bordo, por mais pé rapado, maltrapilho ou caipira que seja...

O outro filme que vi foi o delicioso spaghetti western “Preso na Escuridão” que transfere aquela lenda japonesa do samurai cego Zaitoichi que, aliás virou um filme legal do Takeshi Kitano de 2003, se não me engano. Pois essa versão italiana e fuleira da história é muito legal. O pistoleiro cego e sem nome tenta resgatar 50 mulheres que ele deveria entregar a mineiros que as encomendaram, das mãos de bandidos mexicanos nojentões, no melhor estilo spaghetti. O filme tem sequencias muito legais, bons diálogos, humor e o Ringo Starr no papel do irmão do bandidão. Dá pra encontrar o DVD barato pela net afora. Vale conferir.
Por fim, aproveitei os dias de molho e li “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico”, do Tom Wolfe. Para quem não sabe o livro acompanha a saga dos Merry Pranksters, na tradução, Os Festivos Gozadores, grupo de doidões reunidos em torno do escritor Ken Kesey, que rodava os Estados Unidos num ônibus psicodélico promovendo os tais “Testes do Ácido” que nada mais eram que grandes festas em que todo mundo tomava LSD (na época ainda liberada nos EUA) e ficava alucinando ao som do Grateful Dead e das luzes e ruídos psicodélicos que o grupo preparava.

Wolfe tentou copiar em sua escrita o ritmo caótico das alucinações vivenciadas pelos Pranksters. A leitura demorou um pouco a engrenar mas depois fluiu legal. É muito curiosa a figura de Kesey, mostrado ora como um simpático e carismático membro do grupo, ora como um manipulador inconseqüente. Além do autor de “Um Estranho no Ninho”, surgem nas páginas do livro gente como Hunter Thompson, os Hells Angels, Allen Gisnberg, Timothy Leary, Bill Graham e, principalmente o mito beat Neal Cassady, sempre ao volante do busão colorido dos Pranksters. Wolfe entrevistou pessoas e vivenciou várias das passagens do livro. Bem legal, para conhecer essa época.
Um trecho, na tradução de Rubens Figueredo:
- Alguma coisa está acontecendo. As estrelas estão ficando opacas. É como se uma grande nuvem estivesse nos envolvendo, muito suavemente, cobrindo o céu inteiro. Mas na verdade não é uma nuvem. Parece conter algum tipo de estrutura – posso vislumbrar uma enevoada rede de linhas e faixas mudando de posição. É quase como se as estrelas tivessem sido apanhadas numa fantasmagórica teia de aranha. A rede inteira está começando a brilhar, latejar com a luz, exatamente como se estivesse viva... Há uma grande coluna de fogo, como uma árvore em chamas, subindo no horizonte no lado ocidental. Vem lá de longe, e parece que vai envolver o mundo inteiro. Eu sei de onde eles provêm: eles estão a caminho, afinal, para se tornarem parte da Supermente. O período de experiência acabou: eles estão deixando para trás os derradeiros remanescentes da matéria... Toda a paisagem se ilumina – fica mais claro que o sol – vermelho e dourado e verde perseguem-se uns aos outros através do céu – ah, está além das palavras, não parece correto que eu seja o único a ver – nunca sonhei que existissem cores assim...
Em resumo, a cabeça ligadona, meu irmão, e viajando a mil para... a Cidade dos Limites, no maior barato, todo mundo na maior sincronia essa noite.
... mas aqui não tinha nenhum querubim de chafariz da Academie Française esguichando água, nenhuma cerimoniosa toga de linho de Gautama Buda tremulando ao vento do Oriente, com aquele exaurido hálito de queijo Roquefort que confirma a indiferença espiritual pelo mundo do corpo. Em lugar disso, iam tentar a principal auto-estrada, oito pistas de largura postes de iluminação recurvados como pescoços de garça até onde a vista alcança, e iam ligar o mundo em todas as freqüências, brandindo bandeiras americanas, difundindo as tintas luminosas e o neon eletropastel da América dos anos 60, ligado e amplificado, 327 mil HP, um ônibus de fantasia num filme de ficção científica, todos são bem vindos a bordo, por mais pé rapado, maltrapilho ou caipira que seja...
domingo, 1 de agosto de 2010
Ela e a noite

Ela e a noite já foram amantes
Parceiras de fracassos e furores
Entre lágrimas bêbadas
E o vazio surdo de algum arrependimento mais grave
Como se amaram!
Tendo a noite profunda como doce abrigo
Ela encarou monstros e arroubos de fé desesperada
Aprendeu coisas importantes sobre seu tesão
Tomou caminhos errados
Caiu de cara nos espinhos
Lambeu as portas do inferno
Foi cruel com os tímidos
Tragou fumaça de gasolina
Pulou janelas no extremo oriente
Domou pulgas de um velho cobertor
Roeu as unhas
Hoje, ela e a noite convivem
Respeitosas e distantes
Ex-amantes que não olham para trás
Pelo menos enquanto a outra está por perto
(01/08 -ao som de “Eleanor Rigby”)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Das minhas memórias musicais

Nostálgico incurável assumido, dia desses encontrei meio sem querer num desses blogs de música, links para baixar o disco “Carney” de Leon Russell. Obra-prima lançada em 1972 e que eu ouvia obsessivamente nos meus tempos de estudante em Bauru, de 1992 a 1995.
Quando comecei a faculdade de jornalismo eu tinha 18 anos e logo no primeiro dia de aula conheci o Nélio. Ele se dizia ator profissional, tinha 35 anos na época e havia morado em Campinas e em Vitória. Ficamos amigos. Eu gostava de ser amigo dele. Falávamos de música, de literatura, de política. O cara era meio temperamental, não se bicava com várias pessoas da sala e morava num hotel no centrão da cidade.
Eu também morava sozinho próximo ao cruzamento das avenidas Duque de Caxias e Nações Unidas, um local que era caminho pra todo mundo ir para o centro da cidade ou para a faculdade. Por isso o apartamento vivia cheio de gente. Vários amigos paravam ali pra ouvir um som, jogar conversa fora, beber ou esperar o horário do ônibus.
O Nélio também baixava lá com certa frequência. Lembro especialmente de um dia que ele chegou e eu estava ouvindo uma fitinha do disco “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, do Sérgio Sampaio, que eu gravara com as turcas, amigas que tinham um irmão mais velho dono de uma montanha de discos legais, a maioria de blues, jazz e rock tradicional. O cara era rico, trabalhava em São Paulo, na bolsa de valores ou algo assim, e volta e meia viajava para os Estados Unidos de onde trazia malas e sacolas lotadas de bons sons.
Pois bem... ao ouvir o som do Sérgio Sampaio o velho Nélio ficou emocionadíssimo. Pediu que eu copiasse a fita pra ele e pediu pra a gente ficar em silêncio absoluto pra ele ouvir “Viajei de Trem”. Acertei a música no tape e ele ficou lá de olhos fechados, meio chorando, meio sorrindo, como se estivesse tomando uma porrada sonora de saudade e dor. Depois ele contou várias histórias dos tempos em que morou no Espírito Santo. Contou que conhecia o irmão do Sérgio Sampaio, chamado Dedé Caiano, se não me engano, que era poeta naquelas bandas. Lembrou de uma vez que foi preso e torturado numa delegacia imunda em Vitória. Parecia que o som do Sampaio era a trilha sonora dessa época da vida dele.
Numa dessas vezes o Nélio resolveu deixar seus discos de vinil lá em casa, já que ele não tinha onde ouvir lá no hotel. Lembro que ficou o “Brothers and Sisters”, do Allman Brothers que eu adoro até hoje. Anos depois comprei o CD importado na Galeria, em São Paulo. É um disco gravado depois da morte do Duane Allman, mas que é bom pra caralho. Em 1996 eu morava em Sampa e levei meu primo Julio então com 12 anos de idade pra ver o Big Alanbik no Centro Cultural de São Paulo e o Big Gilson detonou uma versão arrasadora de “Jessica”. O Julio já fazia suas aulinhas de violão e tenho certeza que ver o Gilson ao vivo com sua Gibson SG ajudou que ele se tornasse o ótimo guitarrista que ele é. Naquele mesmo ano vi o Nuno Mindelis mandar uma puta versão de “Southbound”, no Sesc Paulista, com o Alaor Neves na bateria. “Jéssica” e “Southbound” estão no “Brothers and Sisters”
Outro dos discos do Nélio que ficaram em casa era o “The Last Waltz”, trilha sonora do filme dirigido pelo Scorcese sobre o concerto de despedida da The Band. Além dos anfitriões, o show tinha Muddy Waters, Neil Young, Bob Dylan, Van Morrisson e Emmylou Harris. Do caralho. Ah...ele deixou também o “Before the Flood”, ao vivão do Dylan com The Band que eu também baixei da net recentemente.
E tinha também aquele disco estranho, com uma foto de um maluco num camarim, com a cara pintada, parecendo mais um personagem de filme de terror do que um palhaço ou algo assim. Nem o Nelião sabia muita coisa sobre o Leon Russell, fora o fato dele ser pianista e ter tocado no Concerto para Bangladesh do George Harrisson.
Pois bem, Russell é um multi-instrumentista que até hoje grava seus discos num esquema independente nos Estados Unidos. No início dos anos 70 ele era músico de estúdio respeitado. Trabalhou com Joe Cocker, Willie Nelson, The Byrds, Jerry Lee Lewis, Bob Dylan, os Stones, Eric Clapton, Elton John e tantos outros. Se não me engano ele toca também no “All Things Must Pass”, do George Harrison. Seu disco de estréia tem a participação de vários desses caras e mais Klaus Voorman e Jim Keltner, entre outros.
“Carney”, o disco que o Nélio deixou em casa, era seu segundo álbum solo. É um disco estranho, com arranjos simples e algumas canções capazes de arrepiar o mais frio dos ouvintes. Na época eu quase furava o vinilzão ouvindo “Manhattan Island Serenade”, “Magic Mirror”, “Me and Baby Jane” ou a versão original de “This Masquerade”, que no final dos anos 70 acabou virando um dos maiores sucessos do guitarrista de jazz George Benson.
Essas quatro são baladas sangrentas. Me lembram coisas do Tom Waits e também do Harry Nilsson. As coisas têm cara de cabaré ou de uma manhã de domingo chuvosa ou de um bar enfumaçado e vazio ou de um solitário olhando a noite da cidade do décimo quarto andar. A voz de Russell é estranhona e bonita e seu jeito de cantar carregado de um sotaque que me parece meio caipira. Ele é do Arizona, se não me engano.
Ouvi muito essas canções curtindo minha paixão totalmente não correspondida por uma menina linda e bobinha chamada Larissa, que logo depois da faculdade engravidou de um advogadinho rico e sumiu na poeira do centro oeste paulista. Na época a gente morava no mesmo prédio e ela era meio brigada com as meninas da sua república. Aí praticamente morava lá em casa. Gravei fitas pra ela com Caetano cantando “Nosso Estranho Amor” (Não quero sugar todo o seu leite/ Nem quero você enfeite do meu ser/ Apenas te peço que aceite o meu louco querer) e o Jorge Mautner cantando “Lágrimas Negras”. Sintomático.
Enquanto isso dichavava minha frustração e solidão no meio do apartamento sempre movimentado ouvindo “Satellite of Love”, do Lou Reed, as baladas do “Rain Dogs”, tipo “Blind Love”, todo o “Astral Weeks” e dos discos do Nélio, a versão de “Just Like a Woman” do Dylan no “Before the Flood” e é claro, muito Leon Russell. Lembranças de bons, bonitos, quentes e dolorosos dias.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Às vezes

Algumas vezes penso na minha falta de fé. Em outras estou pouco me fudendo. Pago o mesmo preço que todos para serenar meu coração. Às vezes digo teu nome. Brinco de ser o trovador errante dando voltas no quarteirão. Às vezes viajo forte. Sei que o sol é inacessível e o paraíso idem. Mas às vezes, somente às vezes, a caminhada rende uma canção.
(Trilha sonora do post: Roy Buchanan - I Am a Lonesome Fugitive)
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Mapa Cultural
sexta-feira, 16 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
O obituário nosso de cada dia

Harvey Pekar foi um dos nomes mais originais dos quadrinhos norte-americanos, com suas histórias sobre o prosaico, o antiglamour, o antiaventuras, talvez por isso o antiquadrinhos. Sua trajetória singular mereceu até filme, o bom “O Anti-herói americano” com o Paul Giamatti.
Harvey foi só o último que fiquei sabendo de uma lista de pessoas interessantes que morreram nos últimos tempos, como o ator Dennis Hopper, o editor Masao Ohno, o grande poeta Roberto Piva, o músico Paulo Moura, José Saramago e o cartunista Glauco. Ah...teve também o carinha do Sparklehorse, uma das boas bandas de rock dos últimos tempos.
Daqui da minha sala, olho o nevoeiro denso lá fora que me tapa a visão dos eucaliptos. É ruim saber da morte de alguém que admiramos. É pior saber da agonia ou do sofrimento dos que conhecemos, como tá rolando comigo nesses dias. É engraçado escrever sobre isso ouvindo Screamin’Jay Hawkins.
O fato é que ando pensando muito na morte e desde que me tornei pai tenho medo dela. Já me disseram que é normal, que faz parte do instinto de sobrevivência. De qualquer maneira, vale a pena adotar a lição do bom e velho Leminski. Já falei pra minha patroa que, de minha parte, quero isso na minha lápide: “Quem vai embora não embolora”. A família pode achar que não tem graça uma piadinha dessas numa hora tão grave. Se é que a hora será grave. Bom, mas aí já não será problema meu. De minha parte, só aviso que pretendo ficar por aqui até o fim da prorrogação (pra não dizer que não falei de futebol). Aliás... por que o capeta não chama logo o Ricardo Teixeira, o Dunga e o Galvão Bueno? São insondáveis os mistérios dessa vida. O negócio é seguir caminhando em frente. Até fazer a curva.
sábado, 10 de julho de 2010
E os hipopótamos foram cozidos nos seus tanques

Acabo de ler “E os hipopótamos foram cozidos nos seus tanques” de Jack Kerouac e Willian S. Burroughs que a Companhia das Letras lançou em 2009. O livro conta a famosa história do assassinato de David Kamerer (no livro Ramsay Allen) pelo adolescente Lucien Carr (no livro Philip Tourian), amigos de Kerouac e Burroughs que aproveitaram a história para um exercício literário conjunto.
Burroughs assina seus capítulos como Will Denisson e Kerouac como Mark Ryko. O livro foi escrito logo após os acontecimentos, por volta de 1945, quando nenhum dos dois futuros mitos beat ainda não tinham publicado nada.
O romance não tem maiores atrativos, além de saber um pouco melhor como viviam os beats e sua turma em tempos pré-fama. Ainda não tem a força de outros textos da dupla, mas de qualquer maneira é uma leitura muito agradável. O melhor da edição é o texto assinado por James W. Grauerholz, companheiro de Burroughs, que traz várias informações sobre a trajetória conturbada do livro, dados biográficos sobre os personagens, principalmente sobre o assassino Lucien Carr que virou diretor de jornalismo da United Press e se tornou um dos nomes mais respeitados da imprensa norte-americana.

Vale ficar ligado e reservar uma grana por que vai ser lançado em breve, também pela Companhia das Letras, “Atravessar o Fogo”, livro que reúne todas as letras de Lou Reed. São quase 800 páginas. É por causa desse lançamento que Lou Reed estará na Flip deste ano.
domingo, 4 de julho de 2010
Roberto Piva (1937-2010)

O rock da Serra da Canastra
(para Ugo Giorgetti)
Noite de onças azuis
Tempo ouriçado das Montanhas
No belo boliche
Das estrelas cadentes
Você toca o contra-baixo do cinema
Na direção do vento
No horizonte de todas as tramas escocesas
Depois da Morte onde estaremos?
Em que névoa violeta em que silêncio?
(São Paulo 2007)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Miles Davis na parede

Por obra e graça do casal Tânia e Txélos, nossos correspondentes em Londrix, Miles Davis agora enfeita a parede aqui de casa nessa puta foto do Herman Leonard, cara que clicou com muita maestria os grandes nomes do jazz americano.
Para agradecer e comemorar, posto um som muito foda do Miles com John Coltrane.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Mutarelli e os demônios

Acabo de ler “Miguel e os Demônios” do Lourenço Mutarelli. Li de uma vez só e fiquei com a impressão de que essa é a melhor forma de entrar nessa viagem doentia, arriscada e fascinante do autor.
Lembro que no início dos anos 90 quando meu velho amigo Zulu apareceu com “Transubstanciação”, que desconfio ter sido o primeiro álbum de quadrinhos publicado por Mutarelli, fiquei muito impressionado com o trabalho. O lance da angústia, da podridão, da ânsia pelo gozo em que seus personagens estavam mergulhados.
Li também os gibis “Desgraçados” e “O Dobro de Cinco”. Embora meu irmãozinho Pedro, esse sempre antenado com o que acontece de legal na literatura brasileira, mesmo estando a flanar e estudar na gélida Berlim (cidade-musa de Lou Reed, Nick Cave e David Bowie), já tivesse chamado minha atenção para os romances do Mutarelli, eu nunca tinha lido nenhum. Vi o filme de “O Cheiro do Ralo” e gostei.
Achei “Miguel e os demônios” admirável. A narrativa explicitamente cinematográfica, com direito a marcação de câmeras em vários pontos. O pequeno universo de perdedores que povoa o romance é exatamente o que eu tinha em mente ao tomar seus quadrinhos como referência.
Um dado que acho muito interessante no que ele faz é que embora a historia se situe no olho do mundo cão, em cenários absolutamente comuns e rotineiros, há sempre a presença de delírios e experiências místicas que brotam daquele chorume cotidiano. No caminho estreito dos fudidos e mal pagos (no caso deste livro, um investigador de polícia) a insanidade permanece em estado de larva, para a qualquer momento, por conta do sexo, da violência ou da solidão, sofrer a mutação e tomar conta da situação. O inseto que zumbe. Mas que acaba preso no pára-brisas num dia de calor.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Sonho de (muito) consumo
Eu nem ligo muito pra carro...mas esse bichão...melhor reproduzir a letra do Wander Wildner.



Maverikão – Wander Wildner
Uma noite eu sonhei que estava morto com todas as coisas que eu sempre quis
Arrependido de tanto esperar, agora eu tenho tudo que eu queria ter
O meu carrão Maverikão com motor V-oitão
O meu carrão Maverikão com motor V-oitão
E uma mulher com dois andares e garagem prá guardar
O meu carrão Maverikão com motor V-oitão
E uma mulher com dois andares e garagem prá guardar
O meu coração, o meu pobre coração
O meu coração que não vai bater mais
O foda é que, como diz mey brother Txélos, se comprar um carro desses tem que comprar o posto de gasolina também...
Maverikão – Wander Wildner
Uma noite eu sonhei que estava morto com todas as coisas que eu sempre quis
Arrependido de tanto esperar, agora eu tenho tudo que eu queria ter
O meu carrão Maverikão com motor V-oitão
O meu carrão Maverikão com motor V-oitão
E uma mulher com dois andares e garagem prá guardar
O meu carrão Maverikão com motor V-oitão
E uma mulher com dois andares e garagem prá guardar
O meu coração, o meu pobre coração
O meu coração que não vai bater mais
O foda é que, como diz mey brother Txélos, se comprar um carro desses tem que comprar o posto de gasolina também...
domingo, 6 de junho de 2010
Chet
Depois de passar alguns sunny days in London Town, de onde voltei com toneladas de livros e filmes, por conta das compras ciceroneadas pelo famoso e popular Txélos Boy, resolvi chacoalhar isso aqui novamente e postar dois vídeos maravilhosos do grande Chet Baker. Quem mandou os links foi o não menos famoso e popular Pedro The Caveman, diretamente de seu cafofo berlinense. Por aqui seguimos com frio, pressão alta, coleção de hot wheels, kung fu e velhas canções do Roberto... e do Chet Baker, é claro.
sábado, 29 de maio de 2010
Dennis Hopper
Acabo de ler sobre a morte do ator e diretor Dennis Hopper, de câncer, aos 74 anos. Hopper participou de alugmas das produções mais interessantes de Hollywood. Dirigiu, atuou e escreveu o roteiro de "Easy Rider", a obra-prima dos "biker movies". Fez também o alucinado fotógrafo de "Apocalipse Now" e, por fim, o vilão de "Veludo Azul", filme fodaço de David Lynch. Para homenagear o cara, segue abaixo a sequencia mais famosa do filme.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Guitarras, baby, guitarras!
Tá foda de escrever no bloguinho. Muito trampo. Mas tenho que contar sobre os shows do final de semana que foram muito fodas! Na sexta, encaramos o ZZ Top, banda que eu curto faz muito tempo. Aprendi a ouvir com minhas velhas amigas Samira e Sumaia que, aliás, eu não vejo há milênios. Encontrei pela última vez com a Samira na Livraria Cultura quando estava comprando o “Pornopopéia” do Reinaldo Moraes.
Enfim... a imagem que eu tinha do ZZ Top não era das melhores. Aquela banda de pop rock bem comercialzão dos anos 80 que tinha clipes legais, cheias de mulheres gostosas e aquele Hot Rod vermelho. Foram as turcas que me mostraram os anos 70 do ZZ Top que é uma fase do caralho da banda. O disco 3 Hombres é sempre citado nas listas de melhores da década e tal. Mas praticamente todos os discos são ótimos: o primeirão, o Rio Grande Mud, Fandango, Tejas e o Deguello.
Billy Gibbons passou a ser um dos meus guitarristas preferidos pela pegada, pelos riffs infernais e também pela inventividade, o uso criativo de timbres. Aliás, os caras do Texas são foda mesmo. Stevie Ray, Johnny Winter e o Albert Collins, que eu vi no primeiro festival de blues brasileiro, em 1988 ou 89, em Ribeirão Preto, são texanos. Gibbons é da mesma estirpe.
E o segundo show do ZZ em São Paulo foi pra quebrar tudo. Esqueçamos o mala do Hudson e sua bandinha cover chulé na abertura. Vamos ao filé: ZZ Top com som perfeito, Gibbons detonando, vídeos muito legais no telão, as guitarras peludas e, principalmente, o repertório espetacular com “Brown Sugar”, “Just Got Paid Today”, “My Head´s In Mississippi”, “Cheap Sunglasses”, “I´m Bad, I´m Nationwide”, “La Grange”, “Tush” , os sucessões oitentistas “Sharp Dressed Man” e “Legs” executados no talo e até uma versão para “Hey Joe” , com direito a Hendrix no telão numa foto junto com Billy Gibbons novinho, ainda sem barba. Diz a lenda que pouco antes de morrer Hendrix se referiu a Gibbons numa entrevista como o “melhor guitarrista jovem americano” e deu a ele uma guitarra cor-de-rosa de presente.
O fato é que o show foi um tesão. A Aline, que nem conhecia a banda direito, quis até comprar uma camiseta depois do show. Acho o ZZ Top uma das bandas mais divertidas do rock, junto com AC/DC, Ramones e Motorhead. E isso não é pouca coisa.

Sabadão foi o dia de ver o Johnny Winter. Achei a banda de abertura chata apesar dos fodões brazucas André Cristovam e Luis Carlini. Totalmente dispensável os caras tocarem “Agora Só Falta Você”. Enfim... ao que interessa: Johnny Winter em terras brasileiras pela primeira vez. Muita gente que curte o som do cara há décadas babando pra ver o cara. O público ultra caloroso recebeu o branquelão claudicante de pé, aplaudindo freneticamente. Eu confesso que ao vê-lo andar fiquei com medo que o cara fosse cair da sua bota texana. Ele tá realmente detonadão. Talvez até por isso o público tenha sido ainda mais carinhoso. Havia um clima de reverência no ar. E vê-lo sentar e empunhar a guitarra com o chapelão preto afundado na cabeça e os cabelos brancos caindo nos ombros foi mesmo emocionante.
Mas a coisa quase foi por água abaixo por causa da bosta que estava o som no Via Funchal. Deu saudades do som límpido do ZZ Top. Tudo meio que embolado, alto demais e não dava para entender o que o Johnny Winter falava entre as músicas.
Apesar da massaroca sonora, a coisa fervia quando o albino soltava os berros no microfone e os dedos nas cordinhas da guitarrinha preta que ele usou o show todo. O som “dele” soava por cima da embolação da banda. E era foda. E dá-lhe clássicos: “Good Morning Little Schoolgirl”, “Miss Ann”, “Bony Morony”, “It´s All Over Now”, e Hendrix outra vez com “Red House”. Foi só no bis que a lendária Firebird apareceu pra ele massacrar “Highway 61” com o slide hipnótico comendo quente e levantando o público.

Apesar dos pesares, valeu ver o cara ao vivo. Mesmo estando que é só carcaça, dizem que roído pela heroína, Johnny Winter ainda toca muito.
Foi isso... as guitarras incendiárias de Billy Gibbons e Johnny Winter no mesmo final de semana. Meu sonho dourado de guitarrista frustrado.
Enfim... a imagem que eu tinha do ZZ Top não era das melhores. Aquela banda de pop rock bem comercialzão dos anos 80 que tinha clipes legais, cheias de mulheres gostosas e aquele Hot Rod vermelho. Foram as turcas que me mostraram os anos 70 do ZZ Top que é uma fase do caralho da banda. O disco 3 Hombres é sempre citado nas listas de melhores da década e tal. Mas praticamente todos os discos são ótimos: o primeirão, o Rio Grande Mud, Fandango, Tejas e o Deguello.
Billy Gibbons passou a ser um dos meus guitarristas preferidos pela pegada, pelos riffs infernais e também pela inventividade, o uso criativo de timbres. Aliás, os caras do Texas são foda mesmo. Stevie Ray, Johnny Winter e o Albert Collins, que eu vi no primeiro festival de blues brasileiro, em 1988 ou 89, em Ribeirão Preto, são texanos. Gibbons é da mesma estirpe.
E o segundo show do ZZ em São Paulo foi pra quebrar tudo. Esqueçamos o mala do Hudson e sua bandinha cover chulé na abertura. Vamos ao filé: ZZ Top com som perfeito, Gibbons detonando, vídeos muito legais no telão, as guitarras peludas e, principalmente, o repertório espetacular com “Brown Sugar”, “Just Got Paid Today”, “My Head´s In Mississippi”, “Cheap Sunglasses”, “I´m Bad, I´m Nationwide”, “La Grange”, “Tush” , os sucessões oitentistas “Sharp Dressed Man” e “Legs” executados no talo e até uma versão para “Hey Joe” , com direito a Hendrix no telão numa foto junto com Billy Gibbons novinho, ainda sem barba. Diz a lenda que pouco antes de morrer Hendrix se referiu a Gibbons numa entrevista como o “melhor guitarrista jovem americano” e deu a ele uma guitarra cor-de-rosa de presente.
O fato é que o show foi um tesão. A Aline, que nem conhecia a banda direito, quis até comprar uma camiseta depois do show. Acho o ZZ Top uma das bandas mais divertidas do rock, junto com AC/DC, Ramones e Motorhead. E isso não é pouca coisa.

Sabadão foi o dia de ver o Johnny Winter. Achei a banda de abertura chata apesar dos fodões brazucas André Cristovam e Luis Carlini. Totalmente dispensável os caras tocarem “Agora Só Falta Você”. Enfim... ao que interessa: Johnny Winter em terras brasileiras pela primeira vez. Muita gente que curte o som do cara há décadas babando pra ver o cara. O público ultra caloroso recebeu o branquelão claudicante de pé, aplaudindo freneticamente. Eu confesso que ao vê-lo andar fiquei com medo que o cara fosse cair da sua bota texana. Ele tá realmente detonadão. Talvez até por isso o público tenha sido ainda mais carinhoso. Havia um clima de reverência no ar. E vê-lo sentar e empunhar a guitarra com o chapelão preto afundado na cabeça e os cabelos brancos caindo nos ombros foi mesmo emocionante.
Mas a coisa quase foi por água abaixo por causa da bosta que estava o som no Via Funchal. Deu saudades do som límpido do ZZ Top. Tudo meio que embolado, alto demais e não dava para entender o que o Johnny Winter falava entre as músicas.
Apesar da massaroca sonora, a coisa fervia quando o albino soltava os berros no microfone e os dedos nas cordinhas da guitarrinha preta que ele usou o show todo. O som “dele” soava por cima da embolação da banda. E era foda. E dá-lhe clássicos: “Good Morning Little Schoolgirl”, “Miss Ann”, “Bony Morony”, “It´s All Over Now”, e Hendrix outra vez com “Red House”. Foi só no bis que a lendária Firebird apareceu pra ele massacrar “Highway 61” com o slide hipnótico comendo quente e levantando o público.

Apesar dos pesares, valeu ver o cara ao vivo. Mesmo estando que é só carcaça, dizem que roído pela heroína, Johnny Winter ainda toca muito.
Foi isso... as guitarras incendiárias de Billy Gibbons e Johnny Winter no mesmo final de semana. Meu sonho dourado de guitarrista frustrado.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Vampire Blues
terça-feira, 27 de abril de 2010
Torrando a grana por uma causa nobre e outras nobrezas
Como disse num e-mail ao meu little brother Pedro, resolvi estuprar o acanhado orçamento familiar e arrematei ingressos para os shows de Johnny Winter e do ZZ Top que acontecem em maio, em Sampa. Tenho trabalhado como um cavalo velho e tô merecendo duas noites de blues e boogie-woogie. Pois é... eu e a patroa vamos sentar lá na frente, nas mesas e tal. É a patuléia invadindo o jet set da noite paulistana descoladinha. Aliás, estamos ficando especialistas em invasões aos territórios da sacrossanta (sempre quis escrever essa palavra!) elite paulistana.
No último final de semana, por uma dessas maluquices do destino, minha mulher e meu filho foram parar na festinha de aniversário de um ano da filha de um milionário playboy paulistano de nobre sobrenome. A história é a seguinte: meu cunhado conhece um cara, que conhece a mãe da criança e top model internacional. Como os pais e a criança moram em Nova Iorque, os organizadores da festa providenciaram umas crianças brazucas pra fazer número na festinha. E lá foi meu filhote, como legítimo representante da plebe rude, chafurdar na piscina de bolinhas ao lado de pequenos Garneros, Dinizes e Monteiros de Carvalho.
Eu não fui que sou bicho do mato assumido. Detesto festas familiares, inclusive as da minha família. Minha recomendação à mãe foi simples. Faça o moleque ficar amiguinho da aniversariante. Daí, só temos que fazer a tal amizade durar uns quinze anos e torcer pra ele engravidar a princesinha. É nossa última chance de sair da merda!
Chegando lá, algumas surpresas marcaram a festa. Primeiro, em festa de rico não tem comida e bebida à vontade não. Segundo minha mulher tinha uns quibinhos e empadinhas servidos com desconcertante restrição. Bebida então, só refrigerante em copos de plástico. Acho que meu cunhado esperava atacar uns black labels totalmente free...dançou também. Festa por festa, nada como um aniversário ou casamento de pobre. Neguinho mata um boi, compra 350 caixas de cerveja e ainda aluga uma chácara com pisicina pro povo dar vexame tranquilamente.
Por fim, num momento de ternura, a pequena aniversariante olhou pro meu moleque e se encantou. Veio correndo abraçá-lo, tentando dividir a posse de um brinquedo qualquer, mas cheia de carinhos. Mal sabe a pequenina que enquanto seu cheiroso papai vai trabalhar de helicóptero, o pai do seu pretendente vai de Dafra... Mas eis que o pequeno furacão loiro, como legítimo viking da Vila Maria, deu um safanão seguido de um chega pra lá na menininha que por sua vez abriu o berreiro enroscada nos 2 metros de pernas da top mamãe, chamando a atenção de toda a enfadonha nobreza presente ao palacete nos Jardins e destruindo meus sonhos de passar férias em Monte Carlo...Esse garoto me desobedece a todo o momento. Ele é o meu herói.
Que vengam los texanos!
No último final de semana, por uma dessas maluquices do destino, minha mulher e meu filho foram parar na festinha de aniversário de um ano da filha de um milionário playboy paulistano de nobre sobrenome. A história é a seguinte: meu cunhado conhece um cara, que conhece a mãe da criança e top model internacional. Como os pais e a criança moram em Nova Iorque, os organizadores da festa providenciaram umas crianças brazucas pra fazer número na festinha. E lá foi meu filhote, como legítimo representante da plebe rude, chafurdar na piscina de bolinhas ao lado de pequenos Garneros, Dinizes e Monteiros de Carvalho.
Eu não fui que sou bicho do mato assumido. Detesto festas familiares, inclusive as da minha família. Minha recomendação à mãe foi simples. Faça o moleque ficar amiguinho da aniversariante. Daí, só temos que fazer a tal amizade durar uns quinze anos e torcer pra ele engravidar a princesinha. É nossa última chance de sair da merda!
Chegando lá, algumas surpresas marcaram a festa. Primeiro, em festa de rico não tem comida e bebida à vontade não. Segundo minha mulher tinha uns quibinhos e empadinhas servidos com desconcertante restrição. Bebida então, só refrigerante em copos de plástico. Acho que meu cunhado esperava atacar uns black labels totalmente free...dançou também. Festa por festa, nada como um aniversário ou casamento de pobre. Neguinho mata um boi, compra 350 caixas de cerveja e ainda aluga uma chácara com pisicina pro povo dar vexame tranquilamente.
Por fim, num momento de ternura, a pequena aniversariante olhou pro meu moleque e se encantou. Veio correndo abraçá-lo, tentando dividir a posse de um brinquedo qualquer, mas cheia de carinhos. Mal sabe a pequenina que enquanto seu cheiroso papai vai trabalhar de helicóptero, o pai do seu pretendente vai de Dafra... Mas eis que o pequeno furacão loiro, como legítimo viking da Vila Maria, deu um safanão seguido de um chega pra lá na menininha que por sua vez abriu o berreiro enroscada nos 2 metros de pernas da top mamãe, chamando a atenção de toda a enfadonha nobreza presente ao palacete nos Jardins e destruindo meus sonhos de passar férias em Monte Carlo...Esse garoto me desobedece a todo o momento. Ele é o meu herói.
Que vengam los texanos!
domingo, 11 de abril de 2010
Frio
Semana terrível. Dentro e fora da minha cabeça.Tem me ajudado o livrinho do Antonio Bivar, "Longe Daqui Aqui Mesmo". Antes dele li "Verdes Vales do Fim do Mundo". São livros que me deixaram com saudades do que não vivi. É uma sensação dolorosa, às vezes, mas gosto dela. Enquanto isso Bon Iver é um som que desce bem.
domingo, 4 de abril de 2010
Jesus
Acordei com essa velha canção do Velvet Underground na cabeça. Lembro que ela abria a primeira fitinha do Velvet que tive, acho que gravada pelo meu amigo Emílio, um cara que não cruzo desde 96 e tenho vontade de conversar. Contato totalmente perdido. A música veio forte nessa manhã chuvosa de domingo. A letra:
Jesus, help me find my proper place
Jesus, help me find my proper place
Help me in my weakness
'Cos I'm falling out of grace
Jesus
Jesus
Jesus, help me find my proper place
Jesus, help me find my proper place
Help me in my weakness
'Cos I'm falling out of grace
Jesus
Jesus
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Santa sexta-feira

Manhã fria e solitária. Coloquei na bandeja do aparelho de som Cds do Tim Hardin, do Wilco e uns bem antigos do Bob Dylan. Já tocou aquela música bonita do Wilco “Sunken Treasure” e aquela tá tocando “I Threw It All Away” do Dylan. Jogar tudo fora às vezes é bom. Na única vez que fiz isso na vida a mudança foi pra melhor. Percebo agora como o rock´n roll não salva ninguém. Domingo faço 37 anos e penso no poema do Drummond que diz algo como “Nenhum problema resolvido, sequer colocado”. Fiquei com a cabeça cheia de merdas do trabalho e dormi muito pouco. A casa estava cheia de parentes da minha mulher dormindo no escritório e no chão da sala. Fiquei algumas boas horas no banheiro, deitado dentro da banheira, lendo Willian Blake e a revista Trip desse mês que o cara da banca praticamente me obrigou a comprar porque me devia dinheiro. Ele disse que se eu não levasse a revista, ele nunca ia conseguir juntar grana pra me pagar. Aí comprei a Trip, a Bilboard (uma bosta), o Estadão (falando em bosta) e um livrinho de colorir para o meu filho. Agora todo mundo foi embora e fiquei sozinho em casa. A solidão que desejei tanto também é cansativa porque não consigo fazer nada agradável no tempo de tranquilidade que, finalmente, consigo ter. Levantei da cama antes das 7h, mas voltei a deitar e consegui dormir um pouco depois das 9h. Sonhei que da janela da minha casa me via na rua, andando de skate e com aquela fome de novidades e aventuras que tinha aos 14 anos. Acordei meio abalado e a sensação tinha ido embora. É incrível como quase aos 40 ainda me lembro e sinto falta dessa urgência no peito. O rock´n roll não salva mesmo. Às vezes nem ele alivia como dizia a música do Made In Brazil. Amanhã é sábado de aleluia. Quando eu era moleque a molecada fazia os Judas de pano e barbarizava com o boneco. Lembro de uma vez, acho que eu tinha uns dez anos, e passava por uma rua da minha vila na Belina do meu tio Aparecido, um tio muito louco que morava em Santos. Era sábado de aleluia e ele, para zoar a molecada, parou o carro no meio da rua, desceu lá e roubou o Judas do meio da molecada, arrancou o bicho que tava amarrado no poste! Falava: “chega de bater no cara, ele já se fodeu demais, vamos deixar o Judas em paz”. Enfiou o boneco no carro e saiu com tudo, com a molecada correndo atrás jogando pedras, xingando e a gente se mijando de rir lá dentro. É o único sábado de aleluia de que me lembro.
Acho que não disse aqui que li “Leite Derramado” do Chico Buarque e gostei muito. Só havia lido “Estorvo” quando saiu, mil anos atrás. Numa noite dessas também assisti “Valsa com Bashir” na TV e gostei pra caralho do filme. Por falar em filme, arrematei uma leva legal de filmes B no centro de São Paulo, todos devidamente recomendados pelo grande César Almeida, autor do “Cemitério Perdido dos Filmes B” que eu indiquei alguns posts atrás. Foram: “Corrida com o Diabo”, com Peter Fonda e Warren Oates; “Demônios sobre Rodas” (Hell´s Algels On Wheels) com Jack Nicholson; “De Volta ao Vale das Bonecas”, do alucinado Russ Meyer, filme maluco e legal pra caramba que eu já tinha assistido; “Galo de Briga”, com Warren Oates e os westerns “Disparo para matar” e a “Vingança do Pistoleiro” com o Jack Nicholson; e os italianos “Matá-lo”, “Preso na escuridão” (spaghettii com o Ringo Starr). Pra hoje, aluguei as duas partes do “Che”. Não sei se vai prestar, mas é o que programei pra hoje. Como não tem bacalhoada e tal, vou esquentar a sopa de mandioca de ontem, dar comida aos cachorros e encarar as aventuras do Benício em Sierra Maestra.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Um morcego na porta principal

Nos últimos tempos, algumas das histórias menos conhecidas da música brasileira têm sido contadas através de documentários bem interessantes. Primeiro assisti o filme sobre o ex-Mutantes Arnaldo Baptista, depois o documentário sobre o cantor Wilson Simonal e nesse último final de semana vi o genial Jards Macalé brilhar no filme “Um Morcego na Porta Principal”, de Marco Abujamra e João Pimentel.
A principal diferença entre o documentário de Jards e os dois outros citados é que “Um Morcego...” não se preocupa tanto em contar a história da carreira do eterno maldito (rótulo que ele rejeita com veemência no filme) seguindo uma linha cronológica. Talvez isso se dê pela própria característica da trajetória de Macalé, embora tão rica quanto, menos trágica do que as de Arnaldo Baptista e Simonal. Em lugar da carreira, a figura, o personagem é o mais importante.
O filme tem depoimentos de Jorge Mautner, Luiz Melodia, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Abel Silva, Nelson Motta, Capinam, Paulinho da Viola, Dori Caymmi, José Celso Martinez Corrêa e dos poetas Chacal e Xico Chaves. A doce figura da mãe de Macalé, dona Lygia, que canta com ele no disco “Aprender a Nadar” também marca presença.
No mais é Jards Macalé cantando e contando histórias curiosas. O documentário permite vislumbrar um pouco da vastidão da obra radical do artista. Violonista, compositor e arranjador, Macalé tem um currículo impressionante. É parceiro de Vinícius de Moraes, Dori Caymmi, Torquato Neto e Waly Salomão. Produziu e arranjou discos de Caetano Veloso e Gal Costa. Fez trilhas para filmes de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Tem músicas gravadas por Clara Nunes, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Melodia, Zeca Baleiro, Adriana Calcanhoto e outros figurões da MPB. Mesmo assim permaneceu só e pouco conhecido do grande público.
Mas Macalé não parece cativo no abismo em que se meteu por opção própria, ao resolver enfrentar o cenário de mediocridades palatáveis que a MPB é capaz de produzir. Jards prefere o caos, onde cabem no mesmo baú o samba dos morros cariocas, a malandragem da velha Lapa, o jazz, a psicodelia e a atitude provocativa do rock´n roll de outrora, o canto dramático a la Bola de Nieve, a rica tradição do choro brasileiro, os sons fraturados e experimentais de Rogério Duprat e Walter Franco. Me lembro de uma matéria com ele na saudosa revista Bizz, nos anos 80 em que ele dizia só estar ouvindo naquele momento o cantor e pianista cubano Bola de Nieve e Jimi Hendrix. Ao falar de política, afirmava: “Meu partido é o partido alto”.
No documentário, surgem saborosas histórias, como sua prisão em Vitória do Espírito Santo, no final dos anos 70, apesar dos esforços impagáveis do seu parceiro mais famoso, o malandro fundamental Moreira da Silva, ou o dia em que ele resolveu morrer, no início dos anos 80 e foi demovido da idéia por uma sessão de quinze minutos “Rancho Fundo” tocada ao telefone por João Gilberto.
E há a música... o violão, ora ressoando furioso ora delicado. O canto sempre intenso de Macalé, com seu jeito inconfundível de pronunciar as palavras. Talvez “Um Morcego na Porta Principal” não seja o filme definitivo como documento da trajetória do artista, mas é um retrato detalhado de um artista raro e especial.
sábado, 27 de março de 2010
Blake
Chamado por Allen Ginsberg de seu “guia espiritual”, o poeta inglês Willian Blake escreveu, entre outras coisas, os famosos “Provérbios do Inferno”, dos quais “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria” talvez seja o mais conhecido. Peguei hoje pra ler a edição da L & PM Pocket de “O casamento do céu e do inferno & outros escritos”, com tradução de Alberto Marsicano. Li os “Provérbios” novamente e tive vontade de citar alguns deles aqui. A curiosidade é que o grupo As Mercenárias musicou os “Provérbios” no disco “Trashland”, uma das coisas mais legais do rock brasileiro nos anos 80. Não escrevo mais por conta da dor lancinante que sinto ao digitar por conta dessa bosta de LER. Alguns dos provérbios que por um motivo ou outro tive vontade de postar:
A Prudência é uma velha solteirona, rica e feia, cortejada pela Incapacidade
Tolice, manto da sordidez
Vergonha, manto do orgulho
As masmorras são erguidas com as pedras da Lei; os bordéis, com os tijolos da Religião
Estejas sempre pronto a dar tua opinião, e os vis te evitarão
Os tigres da ira sabem mais do que os cavalos da instrução
Maldição revigora. Benção relaxa.
Quem não irradia luz jamais será uma estrela
Onde está o homem, é estéril a natureza
A Prudência é uma velha solteirona, rica e feia, cortejada pela Incapacidade
Tolice, manto da sordidez
Vergonha, manto do orgulho
As masmorras são erguidas com as pedras da Lei; os bordéis, com os tijolos da Religião
Estejas sempre pronto a dar tua opinião, e os vis te evitarão
Os tigres da ira sabem mais do que os cavalos da instrução
Maldição revigora. Benção relaxa.
Quem não irradia luz jamais será uma estrela
Onde está o homem, é estéril a natureza
segunda-feira, 22 de março de 2010
John Fante trabalha no Esquimó

Li nesse final de semana, o pequeno livro de contos "John Fante trabalha no Esquimó", escrito pelo carioca Mariel Reis e lançado pela Editora Caliban. São contos curtos e instigantes que misturam citações literárias, personagens e situações impregnadas de cotidiano, delírios urbanos e um inegável clima das ruas de um Rio de Janeiro o que, por si só, já desperta meu interesse pela obra. Não consigo lembrar onde vi a resenha que me fez comprar o livro, pelo site do Submarino. Vale conhecer.
sábado, 20 de março de 2010
Ode pobre ao velho sebo
No corredor escuro e empoeirado
Onde cabem todas as histórias do mundo
A vida vale o número de páginas
Drummond que amava Sabrina que competia com Júlia que grudava em Bianca
Que queria ser Iracema que pegava poeira ao lado da vida do Plínio Marcos
E de uma parede de Jorge Amados
A revolta em Chiuahua, os segredos do espírito-que-anda
Os regionalistas e o Mascarado Traçador amarelado
Cinquenta paus leva tudo
O cheiro de naftalina é cortesia da casa
Onde cabem todas as histórias do mundo
A vida vale o número de páginas
Drummond que amava Sabrina que competia com Júlia que grudava em Bianca
Que queria ser Iracema que pegava poeira ao lado da vida do Plínio Marcos
E de uma parede de Jorge Amados
A revolta em Chiuahua, os segredos do espírito-que-anda
Os regionalistas e o Mascarado Traçador amarelado
Cinquenta paus leva tudo
O cheiro de naftalina é cortesia da casa
terça-feira, 16 de março de 2010
O que cantar?
Mesmo quem não nasceu Sinatra tem o direito de cantar
Desde que não aporrinhe o vizinho
Desde que cante algo que presta
Eu e você podemos duetar durante horas
Um samba canção infeliz
As velhas do Sérgio Sampaio
E outras baladas de amor doente
Se não for hoje
Amanhã ainda estou por aí
Tomando vento na cara
E cantando qualquer coisa minha
Não as que eu fiz, mas as que sonhei fazer
Enquanto andava por aí somando as placas dos carros
E tentando botar meu bloco nas ruas
Desde que não aporrinhe o vizinho
Desde que cante algo que presta
Eu e você podemos duetar durante horas
Um samba canção infeliz
As velhas do Sérgio Sampaio
E outras baladas de amor doente
Se não for hoje
Amanhã ainda estou por aí
Tomando vento na cara
E cantando qualquer coisa minha
Não as que eu fiz, mas as que sonhei fazer
Enquanto andava por aí somando as placas dos carros
E tentando botar meu bloco nas ruas
domingo, 14 de março de 2010
Falta um título
E essa maldita mania de começar textos pelos títulos? Não sou mais tão jovem como naqueles tempos quando andar pelas ruas da noite vazia fumando um cigarro me fazia sentir um candidato a arrombar as tais portas da percepção.
Hoje não sei mais o nome de ninguém no bar. Tenho vontade de encontrar algo, mas nem sei o que procuro. Faz tempo que não fico feliz por nada. Os riffs de um som no meu aparelho proporcionam pequenos momentos de um entusiasmo fugidio. Um lugar ao sol? Um poema surrealista? Livre acesso ao país das maravilhas? Hoje, como em todas as noites de sábado, ficarei dando uma bicadas numa pinguinha enquanto assisto lutas de vale tudo na TV. Até o sono chegar. Aí a grande questão é pegar o travesseiro mais fino e sonhar com a canção perfeita que eu nunca consegui compor.
Hoje não sei mais o nome de ninguém no bar. Tenho vontade de encontrar algo, mas nem sei o que procuro. Faz tempo que não fico feliz por nada. Os riffs de um som no meu aparelho proporcionam pequenos momentos de um entusiasmo fugidio. Um lugar ao sol? Um poema surrealista? Livre acesso ao país das maravilhas? Hoje, como em todas as noites de sábado, ficarei dando uma bicadas numa pinguinha enquanto assisto lutas de vale tudo na TV. Até o sono chegar. Aí a grande questão é pegar o travesseiro mais fino e sonhar com a canção perfeita que eu nunca consegui compor.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Glauco

As histórias e os desenhos do Glauco marcaram minha adolescência. Eu gostava tanto do trabalho dele que acho que o Geraldão foi a única coisa que eu aprendi a desenhar na vida. Fazia tempo que não acompanhava o trabalho do Glauco nem tinha notícias dele. Ainda tenho várias edições dos gibis do Geraldão da década de 80. Uma grande merda tudo isso.
quarta-feira, 10 de março de 2010
CEMITÉRIO PERDIDO DOS FILMES B
César Almeida é o cara. Além de manter um blog muito legal, o “B Movie Box Car Blues” (link aí ao lado), ele está lançando o livro “Cemitério Perdido dos Filmes B” que traz nada menos do que 120 resenhas de filmes de baixo orçamento.
Cesar desenterra (ou enterra) clássicos obscuros cultuados pelos ratos de sites de raridades nos gêneros mais simpáticos e edificantes que o cinema produziu . Como ele mesmo diz no release “da arte ao lixo, da genialidade à loucura, da paixão por fazer filmes à pura malandragem”.
Apenas um alerta: os textos do César são muito legais e vão te fazer ficar com vontade de vasculhar a net ou os sebos em busca de petiscos cinematográficos como “O Ataque das Sanguessugas Gigantes”, “Demônios sobre Rodas”, “La Furia Del Hombre Lobo” ou “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” (que eu perdi na última formatação do meu micro! Argh!).
HAMMER HORROR, GIALLO, POLIZIESCO, NAZI-EXPLOITATION, BLAXPLOITATION, SPAGHETTI WESTERN, SCI-FI... À venda através do e-mail sartanawest@ig.com.br. Preço promocional de venda por e-mail: R$ 22,00 (+ R$ 6,00 de envio por Impresso Registrado).
Trilha sonora do post: Jonathan Richman – Vampiresa Mujer
terça-feira, 9 de março de 2010
Piva rides again
Texto do grande poeta Roberto Piva que deixou o hospital depois de passar por uns perrengues brabos aí. É o "Poema XIV", do livro "20 Poemas com Brócoli".

vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.

vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.
sábado, 6 de março de 2010
Musas e músicas
A verdade é a seguinte: assim como o personagem do “Alta Fidelidade” do Nick Hornby eu adoro fazer listas, ou melhor, adoro fazer listas de músicas. Acho que é uma maneira de suprir a falta que me faz o ultrapassado e delicioso hábito de gravar fitinhas cassete para os amigos ou para as garotas que valiam a pena, embora eu tenha gravado várias fitas para mulheres que não valiam a pena de forma alguma. Aqui no blog escrevi uma vez uma lista de músicas boas pra ouvir na estrada e agora vou usar o Dia da Mulher como desculpa esfarrapada para fazer a listinha de músicas com nome de mulher no título. As músicas são todas ótimas e acredito que as musas que as inspiraram sejam ou foram inesquecíveis, por bons ou maus motivos. Só tenho a certeza que nenhuma delas foi menos que fascinante. Listas são sempre muito pessoais e estão sujeitas a esquecimentos, implicâncias e desconhecimento, além das alterações de humor que são minha especialidade. Portanto, me reservo o direito de mudar totalmente de opinião assim que terminar de publicar isso ou depois do próximo gole na minha cachacinha de alambique. Vamos à tal lista:
1- SWEET JANE – VELVET UNDERGROUND – Pra mim essa é imbatível. Qualquer versão dela é boa. O Lou Reed mesmo gravou trocentas vezes. O riff é inesquecível. A versão dos Cowboy Junkies também é bonita pra caralho.
2- WHOLE LOTTA ROSIE – AC/DC – pauleira. O Made In Brazil gravou uma versão com o nome “Quente e Gostosa”. Conhece?
3- LENA- CAMISA DE VÊNUS – Eles fizeram as famosas “Sílvia” , “Eu Não Matei Joaana D`arc” e “Bete Morreu”, mas “Lena” é insuperável. A história da menina fascinada por discos de Janis Joplin, carros vermelhos sem capota e que foi a Nova York e apertou a mão de Ian Hunter. O refrão: “Lena veja o que o tempo faz/ Com as pessoas que não querem perder o gás”. Está no disco “Batalhão de Estranhos” que saiu no início da década de 80. Eu tinha meus dez ou doze anos e pedi o disco de Natal pra minha avó. E ela deu!
4- PICTURES OF LILY – THE WHO – Ode ao onanismo.
5- NASTASSJA KINSKI – ASTRONAUTA PINGUIM – O sonzinho instrumental retro é legal, mas ela entra mesmo na lista pelos dotes da musa.
6- SUZANNE – LEONARD COHEN – Ouvi tanto essa música que às vezes até esqueço o quanto ela é bonita. Cohen também tem a fodíssima “So Long, Marianne”.
7- MAROCA – MUNDO LIVRE S/A – Lembro do clip passando nas madrugadas desertas da MTV na década de 90. A musa é a “Vênus bailarina/que em suas fugas noturnas atormenta/ os corações mais tímidos e solitários”. Precisa mais?
8- CAROLINE NO – BEACH BOYS – do “Pet Sounds”. Sublime.
9- SUZY LEE – THE WHITE STRIPES – foda.
10- ALBERTA – LEADBELLY – Roots, bloody roots.
Faltou um monte de coisa legal na lista. Talvez meu velho brother Txélos sinta a falta de “Virgínia”, dos Mutantes. De fato, a música é boa e às vezes gosto de cantar “Vá embora e feche a portaaaaaaaaaaaa...” pela casa. Esse é o foda das listas. Também deixei de fora “Gloria” do Van Morrison que eu adoro especialmente na versão da Patti Smith. E as dos Beatles? Dos Stones? Do Dylan? Tem também “Motion Pictures (for Carrie)” do Neil Young; “Thoughts of Mary Jane” do Nick Drake; “Ivone “, do Julio Reny e “Cecília”, batucada do crioulo doido gravada por Simon & Garfunkel no primeiro disco que comprei na vida, lá pelos idos de 1981. Essas ficaram na boca pra entrar.
Pra ilustrar a listinha, vai um vídeo de Sweet Jane, mas como estamos falando de mulheres escolhi postar a versão dos Cowboy Junkies com a bela Margo Timmins nos vocais.
1- SWEET JANE – VELVET UNDERGROUND – Pra mim essa é imbatível. Qualquer versão dela é boa. O Lou Reed mesmo gravou trocentas vezes. O riff é inesquecível. A versão dos Cowboy Junkies também é bonita pra caralho.
2- WHOLE LOTTA ROSIE – AC/DC – pauleira. O Made In Brazil gravou uma versão com o nome “Quente e Gostosa”. Conhece?
3- LENA- CAMISA DE VÊNUS – Eles fizeram as famosas “Sílvia” , “Eu Não Matei Joaana D`arc” e “Bete Morreu”, mas “Lena” é insuperável. A história da menina fascinada por discos de Janis Joplin, carros vermelhos sem capota e que foi a Nova York e apertou a mão de Ian Hunter. O refrão: “Lena veja o que o tempo faz/ Com as pessoas que não querem perder o gás”. Está no disco “Batalhão de Estranhos” que saiu no início da década de 80. Eu tinha meus dez ou doze anos e pedi o disco de Natal pra minha avó. E ela deu!
4- PICTURES OF LILY – THE WHO – Ode ao onanismo.
5- NASTASSJA KINSKI – ASTRONAUTA PINGUIM – O sonzinho instrumental retro é legal, mas ela entra mesmo na lista pelos dotes da musa.
6- SUZANNE – LEONARD COHEN – Ouvi tanto essa música que às vezes até esqueço o quanto ela é bonita. Cohen também tem a fodíssima “So Long, Marianne”.
7- MAROCA – MUNDO LIVRE S/A – Lembro do clip passando nas madrugadas desertas da MTV na década de 90. A musa é a “Vênus bailarina/que em suas fugas noturnas atormenta/ os corações mais tímidos e solitários”. Precisa mais?
8- CAROLINE NO – BEACH BOYS – do “Pet Sounds”. Sublime.
9- SUZY LEE – THE WHITE STRIPES – foda.
10- ALBERTA – LEADBELLY – Roots, bloody roots.
Faltou um monte de coisa legal na lista. Talvez meu velho brother Txélos sinta a falta de “Virgínia”, dos Mutantes. De fato, a música é boa e às vezes gosto de cantar “Vá embora e feche a portaaaaaaaaaaaa...” pela casa. Esse é o foda das listas. Também deixei de fora “Gloria” do Van Morrison que eu adoro especialmente na versão da Patti Smith. E as dos Beatles? Dos Stones? Do Dylan? Tem também “Motion Pictures (for Carrie)” do Neil Young; “Thoughts of Mary Jane” do Nick Drake; “Ivone “, do Julio Reny e “Cecília”, batucada do crioulo doido gravada por Simon & Garfunkel no primeiro disco que comprei na vida, lá pelos idos de 1981. Essas ficaram na boca pra entrar.
Pra ilustrar a listinha, vai um vídeo de Sweet Jane, mas como estamos falando de mulheres escolhi postar a versão dos Cowboy Junkies com a bela Margo Timmins nos vocais.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Diário de viagem – noite de blues e poesia

Caprichei na trilha sonora. Com Mutantes, Serge Gainsbourg, Freddie King, Neil Young, Tim Hardin e Johnny Cash os duzentos e trinta quilômetros passaram bem rapidamente. Deixamos o filhote na casa dos avós em Osasco e fomos pro Itaú Cultural conferir o dia dedicado à poesia da semana que abordou o trabalho do Mario Bortolotto.
Parecia que ia fazer frio em Sampa mas lá no Itaú esquentou rapidinho. Poesia e blues. Poesia e rock´n roll. Ademir Assunção, parceiro até do grande Itamar Assumpção, leu um poema de sua autoria acompanhado pela banda Saco de Ratos e conduziu um pequeno bate-papo com Bortolotto falando de poesia e dos tempos de Londrina. Também acompanhados pela Saco de Ratos os poetas Marcelo Montenegro e Sergio Melo leram alguns textos. Foi foda. Valeu a pena ouvir os poemas vestidos de blues eletrificado e ao vivo. Saí de lá com o versos do Sérgio Melo na cabeça, como “A melancolia é um vestido de noite usado de dia”.
Era a noite da poesia e ali foram declamados versos que emocionaram e fizeram rir. Mas teve a banda cara... a histórica primeira apresentação dos caras depois do incidente em que o dramaturgo foi baleado. Já tinha visto uma porrada de vídeos da Saco de Ratos no youtube, mas nunca tinha dado certo de cruzar os caras numa noite que eu estivesse em São Paulo. E valeu esperar. A banda é mesmo muito foda. O blues dos caras é áspero e pesado pero sin perder o swing que é inerente ao gênero inventado pelo diabo.
A dupla de guitarristas Fábio Brum e Marcelo Watanabe se completa de uma maneira especial. Brum é o cara do toque forte, do drive hipnótico, da fervura. O discreto Watanabe é melódico e elegante e acrescenta suavidade e sinuosidade ao som. A cozinha firme e segura é formada por Fabio Pagotto e o baterista Rick Vechione, pertencente à linhagem mais nobre do underground do rock de São Paulo. Os quatro, com o auxílio luxuoso do gaitista Flavio Vajman, formam a poderosa base instrumental da Saco de Ratos. Pra mim o blues é o tipo de som que quando é bom te pega pelas bolas e te bota em pé. E a Saco de Ratos tem as manhas. Apesar do som perfeito do Itaú Cultural não pude deixar de imaginar como deve ser do caralho ouvir essa banda no seu habitat natural: um boteco à meia luz, onde se pode tomar uns goles e ficar em pé no canto da sala tocando uma “air guitar” honesta.
E aí tem o Bortolotto...Bom, a festa era dele. Ele cantou, declamou, berrou, andou pelo palco arrastando seus famosos coturnos e, em poucas músicas, mostrou que tá pronto pra tocar o barco. Mesmo cantando as histórias mais devastadoras dos caras que trafegam pelas ruas desertas da vida e com sua fama de casca grossa (não sei se justificada ou não) Bortolotto pareceu estar leve naquele momento. Parecia um cara feliz fazendo um som com os amigos. E quando um cara pode ser mais feliz do que quando faz um som com os amigos? Talvez fosse a alegria de um cara que quase virou mito ou mártir para o pessoal que conhece o lado B da cultura brasileira, mas fez uma força e ficou por aqui pra ler seus gibis, escrever sobre a vida, abraçar os amigos e fazer um som quando der. Mesmo sem conhecer pessoalmente o cara até aquele momento, torci pra caralho pela sua recuperação e escrevi sobre isso aqui no bloguinho. Então foi legal vê-lo inteiro. Alive and kicking. Pequeno detalhe: ele manda bem pra caralho nos vocais. Voz rascante, interpretação passional. O que mais um cantor de blues precisa?
A Aline gostou pra caramba do show e disse que não curtia tanto um blues ao vivo desde os tempos em que ficava com o baterista de uma bandinha lá de Bauru. Puta que o pariu! Como não toco merda nenhuma já decidi que vou levá-la no show do Johnny Winter para exorcizar meu ciúme retroativo. Aliás, a fotinho aí em cima foi tirada por ela, meio escondida porque sentamos debaixo das barbas do segurança do teatro e foi dado o aviso que era proibido fotografar sem autorização.
Na saída do evento comprei os Cds do “Tempo Instável” e da “Saco de Ratos”, um livro com doze peças do Bortolotto e levei um papo rápido com ele e com o Fábio Brum. Gente fina, caras simples e atenciosos, apesar do cansaço pós-show.
A apresentação do sábado foi só um esquenta. O domingão foi o dia dedicado à música, mas na hora do show já estávamos na estrada voltando pra casa, com os CDs do “Tempo Instável” e do “Saco de Ratos” devidamente incorporados ao play list. É isso. The blues is alright! Bortolotto got his mojo working! E a poesia permanece.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Road Movie

Correndo sem parar
Sem olhar para os lados
Muitos dias ficaram para trás
Noites ciganas e cidades estranhas
Mas a lembrança do teu corpo vem comigo
O sol surge fraco entre nuvens
Cai a alça do teu vestido
Voltando para casa ou no rastro do inferno
O caminho é o mesmo
Só mudam as notícias nos jornais
Que não dizem nada do sol
Nem das estradas, nem do mar, nem dos teus seios
Acelero com a certeza que carrego comigo
A capacidade de sonhar com você
E de ser apenas mais um pelas estradas
Como ser jornalista pode ser uma grande bosta
Ser jornalista às vezes é uma grande bosta. Que tal perder sua tarde/noite de sábado cobrindo uma cerimônia oficial do poder público, ou seja, um comício mal disfarçado de algo relevante para a sociedade? O pior é que você tem que ganhar o pão de cada dia e não pode fugir desses micos gigantescos em que os mesmos deputadinhos de sempre se unem para aplaudir uns aos outros como uma orquestra de egos e interesses escusos em que o violonista pode devorar o flautista sem nenhuma dó se achar que é necessário. E o pior é que a música não vai parar nunca por causa disso. Você já sabe o que vão falar, conhece as mentiras de trás para diante e tem que ficar lá, fingindo que essas coisas servem para alguma coisa. Pau no cu de todos. Valem tão pouco...são uns coitados escravos da própria ambição e sede de poder. E como são ridículos! Incultos, paupérrimos de espírito, com o único objetivo na vida de engolir a maior fatia possível de poder. Putos,ratos engravatados, pequenos miseráveis com seus cargos e títulos e sede e fome incontroláveis. Vazios. Queria ser um desses "espíritos elevados" e sentir pena deles. No entanto, sou um tosco, engolindo essa merda toda à força porque não sei fazer outra coisa na vida e só consigo sentir raiva. Estou ficando velho pra isso. Ser jornalista pode ser uma grande merda. Às vezes é bom ter raiva.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Cuesta Blues
Vento frio e armas à mão
Violão, vinho tinto
Livros, discos e um pouco de chuva
Grana para a gasolina
Um cobertor para jogar por cima
I´m the world´s forgotten boy
E um alvorecer que sempre dói
Violão, vinho tinto
Livros, discos e um pouco de chuva
Grana para a gasolina
Um cobertor para jogar por cima
I´m the world´s forgotten boy
E um alvorecer que sempre dói
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Mamãe não voltou do supermercado e o livro que sumiu

Pois é...parece que pelos comentários da galera no último post conseguimos descobrir o lado bom do carnaval: tempo pra ler. Poe, Gogol, Tolstói, Ana Miranda, Goethe, Torquato Neto, enquanto as celebridades rebolam as bundas marombadas para a alegria da Madonna e da Dilma.
Seguindo no tema literatura, li de ontem para hoje o "Mamãe não voltou do supermercado", primeiro romance do Mario Bortolotto. O livro é curtinho e tem um ritmo alucinante, ideal pra ler de uma tacada só. Gostei especialmente dos diálogos espertos, que mostram que apesar do romance ser bem legal, o cara é bem forte no teatro mesmo. Teria dezenas de tiradas ótimas do Caio, o personagem principal, para citar aqui, mas a preguiça me impede...
O livro policial, violento, curtinho, pra ser lido direto, sem intervalos, me fez lembrar de outro livrinho policial pequeno e notável que não sei se a galera conhece. Chama-se "Alguem vai se machucar hoje à noite", escrito pelo jornalista Thales de Menezes e lançado em 1991 pela falida Editora Paulicéia. Assim como o livro do Bortolotto, "Alguém vai se machucar..." é ambientado nos infernos das quebradas do mundaréu, mais especificamente no universo dos snuff movies, que são aqueles filmes violentos, com conteúdo mórbido/sexual em que depois de violada, torturada e humilhada a vítima é assassinada em frete às cameras e os filmes que registram tudo são vendidos por aí para os apreciadores do gênero.
Dei uma busca na net e não achei nenhuma referência a esse livrinho bem foda do Thales. Nem a capa eu consegui para publicar aqui. Foi uma pena a Paulicéia ter falido. Eles lançaram coisas legais como o "Barulho" do André Barcinski, que abordou a cena de Seattle enquanto a coisa tava fervendo por lá e teve a felicidade de tratar das coisas legais como Mudhoney e Nirvana, deixando de lado o pedante Pearl Jam, além de trazer perfis legais do Joey Ramone e dos Cramps.
Lançaram também Tolstói, Dostoiéwski, James Ellroy, Montesquieu...enfim, eram coisas legais que sumiram das prateleiras das livrarias. No ano passado fiz uma viagem de carro com o Dedé que foi sócio da editora. Ele contou como o projeto dos caras de vender títulos legais por um preço acessível foi tragado pela putaria do Plano Collor. Disse que perdeu na brincadeira o que hoje deve equivaler a 300 mil reais, mas faria tudo de novo pelo prazer de editar livros legais.
Bom...se alguém achar o livrinho do Thales em algum sebo por aí, vale a pena. Assim como "Mamãe não voltou do supermercado" é um explosivo passeio pelos infernos, em poucas páginas. O livro do Bortolotto ainda pode ser encontrado por aí, inclusive no Submarino.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Carnaval serve pra isso

Ler, caralho. É o que dá pra fazer no carnaval. Viajar é arriscado e pode ser uma merda, com todos os lugares lotados. Com parentes em casa não consigo ouvir música ou assistir TV. Tenho trabalho pra caralho pra fazer, mas não to afim. Li, alguns dias antes do carnaval, a biografia do Torquato Neto, “Pra Mim Chega”, escrita pelo Toninho Vaz, que também fez a do Leminski, que eu não li. Gostei do livro principalmente por me ajudar a situar em que época e em que condições foram escritas as coisas que estão no “Os Últimos Dias de Paupéria” que eu ando deixando por aí e lendo trechos de quando em vez. Li também o classicão “Werther” do Goethe e gostei. Assim como o Torquato, dois protagonistas suicidas. Deve ser o clima de carnaval que fez escolher os livros. A intensidade da paixão do Werther é , na minha modesta opinião, o ponto mais forte do livro. Pertence ao romantismo, não? Depois eu dou Google aí. Vale a pena. O livro é curtinho. Também li a entrevista do Bortolotto na Trip e o que achei mais legal foi a disposição do cara de trabalhar mais, escrever mais. Ele diz algo do tipo: “é mais fácil encher a cara do que escrever”. Legal isso, vamos gostar do cara pela obra dele, pelo menos nós mortais que não fazemos parte do círculo de amizades do cara, e não por ele ser o mutcho lôko de plantão. Meu interesse é no escritor, seja no blog ou nas obras publicadas ou encenadas. Aliás, acho que vou começar a ler “Mamãe não voltou do Supermercado” que eu descolei recentemente.
Pra escrever coloquei pra rodar o “Time Out of Mind”, do Dylan tentando dar um tempo fora da minha cabeça mesmo e do tal carnaval.
Por fim, postei aí abaixo o ZZ e o Winter e acho que vou mesmo investir uma graninha pra conferir pelo menos um deles.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Johnny Winter e aquela bandinha do Texas
Maio será o mês: ZZ TOP e Johnny Winter. Blues e rockão caipira du caralhon in Sampa. Será que eu vou? Enquanto isso, matemos a vontade aqui. Billy Gibbons do ZZ era considerado pelo Hendrix o melhor guitarrista da sua geração. Já o Johnny Winter anda meio no bico do corvo, mas vale a pena conferir o cara detonando com a bandona nas antigas. Coisa fina! Informações técnicas: o baixista do Johnny Winter no vídeo é o Tommy Shannon que depois tocou com o Stevie Ray Vaughan e o baterista é o Uncle John Turner de quem eu tenho um aútógrafo aqui em casa. Peguei uma vez que ele esteve em Sampa tocando como o Nuno Mindelis. O Tommy Shannon também gravou num disco do Mindelis.
Dedico os vídeos à vovó Bel e ao mais novo Pedro da família. Paz!
Dedico os vídeos à vovó Bel e ao mais novo Pedro da família. Paz!
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
A América, por Kerouac

“... América, essa palavra, o som é o som da minha infelicidade, a articulação da minha velha e estúpida tristeza – minha felicidade não se chama América, ela tem um nome secreto menor mais pessoal mais risonho – a América está sendo procurada pela polícia, perseguida em Kentucky e Ohio, dormindo com ratos pelos currais e uivando os shingles metálicos que revestem os silos escuros dos fugitivos, é a figura de um machado na True Detective Magazine, é a noite impessoal nos cruzamentos e entrocamentos onde todo mundo olha para os dois lados, para os quatro lados, ninguém dá a mínima – a América é onde você não pode nem chorar por você mesmo – (...) – A América é o que pôs na alma de Cody Pomeray o ônus e o estigma – que na forma de um policial cagou ele a pau numa salinha dos fundos até ele falar sobre um troço que nem é mais importante – a América (MÁFIA DE JOVENS SEXO DROGAS CARROS!!) é também o neon vermelho e as coxas no motel barato – É onde as pessoas, as pessoas, as pessoas choram e mordiscam os lábios pelos bares e nas camas solitárias – Tem estradas malignas por trás de tanques de gasolina onde cães assassinos rosnam atrás de cercas de telas e os carros da radiopatrulha de repente surgem como carros de fugitivos mas de um crime mais secreto, mais sinistro do que as palavras podem descrever – É onde Cody Pomeray aprendeu que as pessoas não são boas, que elas querem ser más – onde aprendeu que elas querem fugir e brigar, e que em vez de fazer amor elas rosnam – a América transformou o rosto de um jovem garoto em ossos e com tinta escura pintou olheiras nele, fez das maçãs do rosto uma pasta branquicenta e entalhou vincos naquela fronte marmórea e transformou a esperança cheia de vida na sabedoria silenciosa de lábios grossos que não dizem nada, nem para si mesmo no meio da maldita noite – o tilintar dos pires na triste triste noite – O trabalho gorgolejante de alguém na pia de uma lanchonete (na aridez vazia do Colorado a troco de nada) – Ah e ninguém se importa mas o coração no NOSSO peito vai reaparecer quando os caixeiros- viajantes morrerem todos. A América é uma latrina solitária”.
(Trecho de Visões de Cody, de Jack Kerouac, na tradução de Guilherme Braga, para a L&PM)
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
As botinas do Conde Drácula
Pois é, comentei alguns posts abaixo que a revista Rolling Stone é uma bosta. Continuo achando isso, mas uma coisa salvou a última edição que comprei, que tem a tal de Aline Moraes na capa: uma minúscula nota na minúscula coluna do Fábio Massari. Ele indicou o foderoso disco “Dracula Boots” do Kid Congo Powers e sua alucinada banda que atende pelo nome de The Pink Monkey Birds.
Rock´n roll chinelão total. Kid Congo já tocou um tempo com os Cramps e também foi da banda do Nick Cave. Portanto, o cara sabe das coisas.
O som dele é alucinado com toques de Cramps, psychobilly, Jon Spencer Blues Explosion, e é lotado daqueles efeitinhos alucinados que eram usados nas trilhas de filmes de terror e sexploitation como na de Vampyro Lesbos. Aliás, tem uns temas instrumentais como “Black Santa”, “Pumpkin Pie”, “Bobo Boogie” ou “Buck Angel” que caberiam certinho numa dessas trilhas. É do caralho. Não deixe de ouvir a sacana “La Llarona” com seus lúgubres teclados de churrascaria e palminhas fuleiras e o hit do disco “Rare as a Yeti”.
Para ouvir chapado. Ou melhor, para ouvir chapando.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Cine Trash
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