quarta-feira, 31 de março de 2010

Um morcego na porta principal



Nos últimos tempos, algumas das histórias menos conhecidas da música brasileira têm sido contadas através de documentários bem interessantes. Primeiro assisti o filme sobre o ex-Mutantes Arnaldo Baptista, depois o documentário sobre o cantor Wilson Simonal e nesse último final de semana vi o genial Jards Macalé brilhar no filme “Um Morcego na Porta Principal”, de Marco Abujamra e João Pimentel.
A principal diferença entre o documentário de Jards e os dois outros citados é que “Um Morcego...” não se preocupa tanto em contar a história da carreira do eterno maldito (rótulo que ele rejeita com veemência no filme) seguindo uma linha cronológica. Talvez isso se dê pela própria característica da trajetória de Macalé, embora tão rica quanto, menos trágica do que as de Arnaldo Baptista e Simonal. Em lugar da carreira, a figura, o personagem é o mais importante.
O filme tem depoimentos de Jorge Mautner, Luiz Melodia, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Abel Silva, Nelson Motta, Capinam, Paulinho da Viola, Dori Caymmi, José Celso Martinez Corrêa e dos poetas Chacal e Xico Chaves. A doce figura da mãe de Macalé, dona Lygia, que canta com ele no disco “Aprender a Nadar” também marca presença.
No mais é Jards Macalé cantando e contando histórias curiosas. O documentário permite vislumbrar um pouco da vastidão da obra radical do artista. Violonista, compositor e arranjador, Macalé tem um currículo impressionante. É parceiro de Vinícius de Moraes, Dori Caymmi, Torquato Neto e Waly Salomão. Produziu e arranjou discos de Caetano Veloso e Gal Costa. Fez trilhas para filmes de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Tem músicas gravadas por Clara Nunes, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Melodia, Zeca Baleiro, Adriana Calcanhoto e outros figurões da MPB. Mesmo assim permaneceu só e pouco conhecido do grande público.
Mas Macalé não parece cativo no abismo em que se meteu por opção própria, ao resolver enfrentar o cenário de mediocridades palatáveis que a MPB é capaz de produzir. Jards prefere o caos, onde cabem no mesmo baú o samba dos morros cariocas, a malandragem da velha Lapa, o jazz, a psicodelia e a atitude provocativa do rock´n roll de outrora, o canto dramático a la Bola de Nieve, a rica tradição do choro brasileiro, os sons fraturados e experimentais de Rogério Duprat e Walter Franco. Me lembro de uma matéria com ele na saudosa revista Bizz, nos anos 80 em que ele dizia só estar ouvindo naquele momento o cantor e pianista cubano Bola de Nieve e Jimi Hendrix. Ao falar de política, afirmava: “Meu partido é o partido alto”.
No documentário, surgem saborosas histórias, como sua prisão em Vitória do Espírito Santo, no final dos anos 70, apesar dos esforços impagáveis do seu parceiro mais famoso, o malandro fundamental Moreira da Silva, ou o dia em que ele resolveu morrer, no início dos anos 80 e foi demovido da idéia por uma sessão de quinze minutos “Rancho Fundo” tocada ao telefone por João Gilberto.
E há a música... o violão, ora ressoando furioso ora delicado. O canto sempre intenso de Macalé, com seu jeito inconfundível de pronunciar as palavras. Talvez “Um Morcego na Porta Principal” não seja o filme definitivo como documento da trajetória do artista, mas é um retrato detalhado de um artista raro e especial.

sábado, 27 de março de 2010

Blake

Chamado por Allen Ginsberg de seu “guia espiritual”, o poeta inglês Willian Blake escreveu, entre outras coisas, os famosos “Provérbios do Inferno”, dos quais “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria” talvez seja o mais conhecido. Peguei hoje pra ler a edição da L & PM Pocket de “O casamento do céu e do inferno & outros escritos”, com tradução de Alberto Marsicano. Li os “Provérbios” novamente e tive vontade de citar alguns deles aqui. A curiosidade é que o grupo As Mercenárias musicou os “Provérbios” no disco “Trashland”, uma das coisas mais legais do rock brasileiro nos anos 80. Não escrevo mais por conta da dor lancinante que sinto ao digitar por conta dessa bosta de LER. Alguns dos provérbios que por um motivo ou outro tive vontade de postar:

A Prudência é uma velha solteirona, rica e feia, cortejada pela Incapacidade

Tolice, manto da sordidez

Vergonha, manto do orgulho

As masmorras são erguidas com as pedras da Lei; os bordéis, com os tijolos da Religião

Estejas sempre pronto a dar tua opinião, e os vis te evitarão

Os tigres da ira sabem mais do que os cavalos da instrução

Maldição revigora. Benção relaxa.

Quem não irradia luz jamais será uma estrela

Onde está o homem, é estéril a natureza

segunda-feira, 22 de março de 2010

John Fante trabalha no Esquimó


Li nesse final de semana, o pequeno livro de contos "John Fante trabalha no Esquimó", escrito pelo carioca Mariel Reis e lançado pela Editora Caliban. São contos curtos e instigantes que misturam citações literárias, personagens e situações impregnadas de cotidiano, delírios urbanos e um inegável clima das ruas de um Rio de Janeiro o que, por si só, já desperta meu interesse pela obra. Não consigo lembrar onde vi a resenha que me fez comprar o livro, pelo site do Submarino. Vale conhecer.

sábado, 20 de março de 2010

Ode pobre ao velho sebo

No corredor escuro e empoeirado
Onde cabem todas as histórias do mundo
A vida vale o número de páginas
Drummond que amava Sabrina que competia com Júlia que grudava em Bianca
Que queria ser Iracema que pegava poeira ao lado da vida do Plínio Marcos
E de uma parede de Jorge Amados
A revolta em Chiuahua, os segredos do espírito-que-anda
Os regionalistas e o Mascarado Traçador amarelado
Cinquenta paus leva tudo
O cheiro de naftalina é cortesia da casa

terça-feira, 16 de março de 2010

O que cantar?

Mesmo quem não nasceu Sinatra tem o direito de cantar
Desde que não aporrinhe o vizinho
Desde que cante algo que presta
Eu e você podemos duetar durante horas
Um samba canção infeliz
As velhas do Sérgio Sampaio
E outras baladas de amor doente
Se não for hoje
Amanhã ainda estou por aí
Tomando vento na cara
E cantando qualquer coisa minha
Não as que eu fiz, mas as que sonhei fazer
Enquanto andava por aí somando as placas dos carros
E tentando botar meu bloco nas ruas

domingo, 14 de março de 2010

Falta um título

E essa maldita mania de começar textos pelos títulos? Não sou mais tão jovem como naqueles tempos quando andar pelas ruas da noite vazia fumando um cigarro me fazia sentir um candidato a arrombar as tais portas da percepção.
Hoje não sei mais o nome de ninguém no bar. Tenho vontade de encontrar algo, mas nem sei o que procuro. Faz tempo que não fico feliz por nada. Os riffs de um som no meu aparelho proporcionam pequenos momentos de um entusiasmo fugidio. Um lugar ao sol? Um poema surrealista? Livre acesso ao país das maravilhas? Hoje, como em todas as noites de sábado, ficarei dando uma bicadas numa pinguinha enquanto assisto lutas de vale tudo na TV. Até o sono chegar. Aí a grande questão é pegar o travesseiro mais fino e sonhar com a canção perfeita que eu nunca consegui compor.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco


As histórias e os desenhos do Glauco marcaram minha adolescência. Eu gostava tanto do trabalho dele que acho que o Geraldão foi a única coisa que eu aprendi a desenhar na vida. Fazia tempo que não acompanhava o trabalho do Glauco nem tinha notícias dele. Ainda tenho várias edições dos gibis do Geraldão da década de 80. Uma grande merda tudo isso.

quarta-feira, 10 de março de 2010

CEMITÉRIO PERDIDO DOS FILMES B



César Almeida é o cara. Além de manter um blog muito legal, o “B Movie Box Car Blues” (link aí ao lado), ele está lançando o livro “Cemitério Perdido dos Filmes B” que traz nada menos do que 120 resenhas de filmes de baixo orçamento.
Cesar desenterra (ou enterra) clássicos obscuros cultuados pelos ratos de sites de raridades nos gêneros mais simpáticos e edificantes que o cinema produziu . Como ele mesmo diz no release “da arte ao lixo, da genialidade à loucura, da paixão por fazer filmes à pura malandragem”.
Apenas um alerta: os textos do César são muito legais e vão te fazer ficar com vontade de vasculhar a net ou os sebos em busca de petiscos cinematográficos como “O Ataque das Sanguessugas Gigantes”, “Demônios sobre Rodas”, “La Furia Del Hombre Lobo” ou “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” (que eu perdi na última formatação do meu micro! Argh!).
HAMMER HORROR, GIALLO, POLIZIESCO, NAZI-EXPLOITATION, BLAXPLOITATION, SPAGHETTI WESTERN, SCI-FI... À venda através do e-mail sartanawest@ig.com.br. Preço promocional de venda por e-mail: R$ 22,00 (+ R$ 6,00 de envio por Impresso Registrado).
Trilha sonora do post: Jonathan Richman – Vampiresa Mujer

terça-feira, 9 de março de 2010

Piva rides again

Texto do grande poeta Roberto Piva que deixou o hospital depois de passar por uns perrengues brabos aí. É o "Poema XIV", do livro "20 Poemas com Brócoli".




vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.

sábado, 6 de março de 2010

Musas e músicas

A verdade é a seguinte: assim como o personagem do “Alta Fidelidade” do Nick Hornby eu adoro fazer listas, ou melhor, adoro fazer listas de músicas. Acho que é uma maneira de suprir a falta que me faz o ultrapassado e delicioso hábito de gravar fitinhas cassete para os amigos ou para as garotas que valiam a pena, embora eu tenha gravado várias fitas para mulheres que não valiam a pena de forma alguma. Aqui no blog escrevi uma vez uma lista de músicas boas pra ouvir na estrada e agora vou usar o Dia da Mulher como desculpa esfarrapada para fazer a listinha de músicas com nome de mulher no título. As músicas são todas ótimas e acredito que as musas que as inspiraram sejam ou foram inesquecíveis, por bons ou maus motivos. Só tenho a certeza que nenhuma delas foi menos que fascinante. Listas são sempre muito pessoais e estão sujeitas a esquecimentos, implicâncias e desconhecimento, além das alterações de humor que são minha especialidade. Portanto, me reservo o direito de mudar totalmente de opinião assim que terminar de publicar isso ou depois do próximo gole na minha cachacinha de alambique. Vamos à tal lista:

1- SWEET JANE – VELVET UNDERGROUND – Pra mim essa é imbatível. Qualquer versão dela é boa. O Lou Reed mesmo gravou trocentas vezes. O riff é inesquecível. A versão dos Cowboy Junkies também é bonita pra caralho.
2- WHOLE LOTTA ROSIE – AC/DC – pauleira. O Made In Brazil gravou uma versão com o nome “Quente e Gostosa”. Conhece?
3- LENA- CAMISA DE VÊNUS – Eles fizeram as famosas “Sílvia” , “Eu Não Matei Joaana D`arc” e “Bete Morreu”, mas “Lena” é insuperável. A história da menina fascinada por discos de Janis Joplin, carros vermelhos sem capota e que foi a Nova York e apertou a mão de Ian Hunter. O refrão: “Lena veja o que o tempo faz/ Com as pessoas que não querem perder o gás”. Está no disco “Batalhão de Estranhos” que saiu no início da década de 80. Eu tinha meus dez ou doze anos e pedi o disco de Natal pra minha avó. E ela deu!
4- PICTURES OF LILY – THE WHO – Ode ao onanismo.
5- NASTASSJA KINSKI – ASTRONAUTA PINGUIM – O sonzinho instrumental retro é legal, mas ela entra mesmo na lista pelos dotes da musa.
6- SUZANNE – LEONARD COHEN – Ouvi tanto essa música que às vezes até esqueço o quanto ela é bonita. Cohen também tem a fodíssima “So Long, Marianne”.
7- MAROCA – MUNDO LIVRE S/A – Lembro do clip passando nas madrugadas desertas da MTV na década de 90. A musa é a “Vênus bailarina/que em suas fugas noturnas atormenta/ os corações mais tímidos e solitários”. Precisa mais?
8- CAROLINE NO – BEACH BOYS – do “Pet Sounds”. Sublime.
9- SUZY LEE – THE WHITE STRIPES – foda.
10- ALBERTA – LEADBELLY – Roots, bloody roots.

Faltou um monte de coisa legal na lista. Talvez meu velho brother Txélos sinta a falta de “Virgínia”, dos Mutantes. De fato, a música é boa e às vezes gosto de cantar “Vá embora e feche a portaaaaaaaaaaaa...” pela casa. Esse é o foda das listas. Também deixei de fora “Gloria” do Van Morrison que eu adoro especialmente na versão da Patti Smith. E as dos Beatles? Dos Stones? Do Dylan? Tem também “Motion Pictures (for Carrie)” do Neil Young; “Thoughts of Mary Jane” do Nick Drake; “Ivone “, do Julio Reny e “Cecília”, batucada do crioulo doido gravada por Simon & Garfunkel no primeiro disco que comprei na vida, lá pelos idos de 1981. Essas ficaram na boca pra entrar.
Pra ilustrar a listinha, vai um vídeo de Sweet Jane, mas como estamos falando de mulheres escolhi postar a versão dos Cowboy Junkies com a bela Margo Timmins nos vocais.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Diário de viagem – noite de blues e poesia



Caprichei na trilha sonora. Com Mutantes, Serge Gainsbourg, Freddie King, Neil Young, Tim Hardin e Johnny Cash os duzentos e trinta quilômetros passaram bem rapidamente. Deixamos o filhote na casa dos avós em Osasco e fomos pro Itaú Cultural conferir o dia dedicado à poesia da semana que abordou o trabalho do Mario Bortolotto.
Parecia que ia fazer frio em Sampa mas lá no Itaú esquentou rapidinho. Poesia e blues. Poesia e rock´n roll. Ademir Assunção, parceiro até do grande Itamar Assumpção, leu um poema de sua autoria acompanhado pela banda Saco de Ratos e conduziu um pequeno bate-papo com Bortolotto falando de poesia e dos tempos de Londrina. Também acompanhados pela Saco de Ratos os poetas Marcelo Montenegro e Sergio Melo leram alguns textos. Foi foda. Valeu a pena ouvir os poemas vestidos de blues eletrificado e ao vivo. Saí de lá com o versos do Sérgio Melo na cabeça, como “A melancolia é um vestido de noite usado de dia”.
Era a noite da poesia e ali foram declamados versos que emocionaram e fizeram rir. Mas teve a banda cara... a histórica primeira apresentação dos caras depois do incidente em que o dramaturgo foi baleado. Já tinha visto uma porrada de vídeos da Saco de Ratos no youtube, mas nunca tinha dado certo de cruzar os caras numa noite que eu estivesse em São Paulo. E valeu esperar. A banda é mesmo muito foda. O blues dos caras é áspero e pesado pero sin perder o swing que é inerente ao gênero inventado pelo diabo.
A dupla de guitarristas Fábio Brum e Marcelo Watanabe se completa de uma maneira especial. Brum é o cara do toque forte, do drive hipnótico, da fervura. O discreto Watanabe é melódico e elegante e acrescenta suavidade e sinuosidade ao som. A cozinha firme e segura é formada por Fabio Pagotto e o baterista Rick Vechione, pertencente à linhagem mais nobre do underground do rock de São Paulo. Os quatro, com o auxílio luxuoso do gaitista Flavio Vajman, formam a poderosa base instrumental da Saco de Ratos. Pra mim o blues é o tipo de som que quando é bom te pega pelas bolas e te bota em pé. E a Saco de Ratos tem as manhas. Apesar do som perfeito do Itaú Cultural não pude deixar de imaginar como deve ser do caralho ouvir essa banda no seu habitat natural: um boteco à meia luz, onde se pode tomar uns goles e ficar em pé no canto da sala tocando uma “air guitar” honesta.
E aí tem o Bortolotto...Bom, a festa era dele. Ele cantou, declamou, berrou, andou pelo palco arrastando seus famosos coturnos e, em poucas músicas, mostrou que tá pronto pra tocar o barco. Mesmo cantando as histórias mais devastadoras dos caras que trafegam pelas ruas desertas da vida e com sua fama de casca grossa (não sei se justificada ou não) Bortolotto pareceu estar leve naquele momento. Parecia um cara feliz fazendo um som com os amigos. E quando um cara pode ser mais feliz do que quando faz um som com os amigos? Talvez fosse a alegria de um cara que quase virou mito ou mártir para o pessoal que conhece o lado B da cultura brasileira, mas fez uma força e ficou por aqui pra ler seus gibis, escrever sobre a vida, abraçar os amigos e fazer um som quando der. Mesmo sem conhecer pessoalmente o cara até aquele momento, torci pra caralho pela sua recuperação e escrevi sobre isso aqui no bloguinho. Então foi legal vê-lo inteiro. Alive and kicking. Pequeno detalhe: ele manda bem pra caralho nos vocais. Voz rascante, interpretação passional. O que mais um cantor de blues precisa?
A Aline gostou pra caramba do show e disse que não curtia tanto um blues ao vivo desde os tempos em que ficava com o baterista de uma bandinha lá de Bauru. Puta que o pariu! Como não toco merda nenhuma já decidi que vou levá-la no show do Johnny Winter para exorcizar meu ciúme retroativo. Aliás, a fotinho aí em cima foi tirada por ela, meio escondida porque sentamos debaixo das barbas do segurança do teatro e foi dado o aviso que era proibido fotografar sem autorização.
Na saída do evento comprei os Cds do “Tempo Instável” e da “Saco de Ratos”, um livro com doze peças do Bortolotto e levei um papo rápido com ele e com o Fábio Brum. Gente fina, caras simples e atenciosos, apesar do cansaço pós-show.
A apresentação do sábado foi só um esquenta. O domingão foi o dia dedicado à música, mas na hora do show já estávamos na estrada voltando pra casa, com os CDs do “Tempo Instável” e do “Saco de Ratos” devidamente incorporados ao play list. É isso. The blues is alright! Bortolotto got his mojo working! E a poesia permanece.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um som pra hoje


Uma das baladas mais bonitas da história do rock.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Road Movie



Correndo sem parar
Sem olhar para os lados
Muitos dias ficaram para trás
Noites ciganas e cidades estranhas
Mas a lembrança do teu corpo vem comigo

O sol surge fraco entre nuvens
Cai a alça do teu vestido
Voltando para casa ou no rastro do inferno
O caminho é o mesmo
Só mudam as notícias nos jornais
Que não dizem nada do sol
Nem das estradas, nem do mar, nem dos teus seios

Acelero com a certeza que carrego comigo
A capacidade de sonhar com você
E de ser apenas mais um pelas estradas

Como ser jornalista pode ser uma grande bosta

Ser jornalista às vezes é uma grande bosta. Que tal perder sua tarde/noite de sábado cobrindo uma cerimônia oficial do poder público, ou seja, um comício mal disfarçado de algo relevante para a sociedade? O pior é que você tem que ganhar o pão de cada dia e não pode fugir desses micos gigantescos em que os mesmos deputadinhos de sempre se unem para aplaudir uns aos outros como uma orquestra de egos e interesses escusos em que o violonista pode devorar o flautista sem nenhuma dó se achar que é necessário. E o pior é que a música não vai parar nunca por causa disso. Você já sabe o que vão falar, conhece as mentiras de trás para diante e tem que ficar lá, fingindo que essas coisas servem para alguma coisa. Pau no cu de todos. Valem tão pouco...são uns coitados escravos da própria ambição e sede de poder. E como são ridículos! Incultos, paupérrimos de espírito, com o único objetivo na vida de engolir a maior fatia possível de poder. Putos,ratos engravatados, pequenos miseráveis com seus cargos e títulos e sede e fome incontroláveis. Vazios. Queria ser um desses "espíritos elevados" e sentir pena deles. No entanto, sou um tosco, engolindo essa merda toda à força porque não sei fazer outra coisa na vida e só consigo sentir raiva. Estou ficando velho pra isso. Ser jornalista pode ser uma grande merda. Às vezes é bom ter raiva.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cuesta Blues

Vento frio e armas à mão
Violão, vinho tinto
Livros, discos e um pouco de chuva
Grana para a gasolina
Um cobertor para jogar por cima
I´m the world´s forgotten boy
E um alvorecer que sempre dói

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mamãe não voltou do supermercado e o livro que sumiu


Pois é...parece que pelos comentários da galera no último post conseguimos descobrir o lado bom do carnaval: tempo pra ler. Poe, Gogol, Tolstói, Ana Miranda, Goethe, Torquato Neto, enquanto as celebridades rebolam as bundas marombadas para a alegria da Madonna e da Dilma.
Seguindo no tema literatura, li de ontem para hoje o "Mamãe não voltou do supermercado", primeiro romance do Mario Bortolotto. O livro é curtinho e tem um ritmo alucinante, ideal pra ler de uma tacada só. Gostei especialmente dos diálogos espertos, que mostram que apesar do romance ser bem legal, o cara é bem forte no teatro mesmo. Teria dezenas de tiradas ótimas do Caio, o personagem principal, para citar aqui, mas a preguiça me impede...
O livro policial, violento, curtinho, pra ser lido direto, sem intervalos, me fez lembrar de outro livrinho policial pequeno e notável que não sei se a galera conhece. Chama-se "Alguem vai se machucar hoje à noite", escrito pelo jornalista Thales de Menezes e lançado em 1991 pela falida Editora Paulicéia. Assim como o livro do Bortolotto, "Alguém vai se machucar..." é ambientado nos infernos das quebradas do mundaréu, mais especificamente no universo dos snuff movies, que são aqueles filmes violentos, com conteúdo mórbido/sexual em que depois de violada, torturada e humilhada a vítima é assassinada em frete às cameras e os filmes que registram tudo são vendidos por aí para os apreciadores do gênero.
Dei uma busca na net e não achei nenhuma referência a esse livrinho bem foda do Thales. Nem a capa eu consegui para publicar aqui. Foi uma pena a Paulicéia ter falido. Eles lançaram coisas legais como o "Barulho" do André Barcinski, que abordou a cena de Seattle enquanto a coisa tava fervendo por lá e teve a felicidade de tratar das coisas legais como Mudhoney e Nirvana, deixando de lado o pedante Pearl Jam, além de trazer perfis legais do Joey Ramone e dos Cramps.
Lançaram também Tolstói, Dostoiéwski, James Ellroy, Montesquieu...enfim, eram coisas legais que sumiram das prateleiras das livrarias. No ano passado fiz uma viagem de carro com o Dedé que foi sócio da editora. Ele contou como o projeto dos caras de vender títulos legais por um preço acessível foi tragado pela putaria do Plano Collor. Disse que perdeu na brincadeira o que hoje deve equivaler a 300 mil reais, mas faria tudo de novo pelo prazer de editar livros legais.
Bom...se alguém achar o livrinho do Thales em algum sebo por aí, vale a pena. Assim como "Mamãe não voltou do supermercado" é um explosivo passeio pelos infernos, em poucas páginas. O livro do Bortolotto ainda pode ser encontrado por aí, inclusive no Submarino.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval serve pra isso



Ler, caralho. É o que dá pra fazer no carnaval. Viajar é arriscado e pode ser uma merda, com todos os lugares lotados. Com parentes em casa não consigo ouvir música ou assistir TV. Tenho trabalho pra caralho pra fazer, mas não to afim. Li, alguns dias antes do carnaval, a biografia do Torquato Neto, “Pra Mim Chega”, escrita pelo Toninho Vaz, que também fez a do Leminski, que eu não li. Gostei do livro principalmente por me ajudar a situar em que época e em que condições foram escritas as coisas que estão no “Os Últimos Dias de Paupéria” que eu ando deixando por aí e lendo trechos de quando em vez. Li também o classicão “Werther” do Goethe e gostei. Assim como o Torquato, dois protagonistas suicidas. Deve ser o clima de carnaval que fez escolher os livros. A intensidade da paixão do Werther é , na minha modesta opinião, o ponto mais forte do livro. Pertence ao romantismo, não? Depois eu dou Google aí. Vale a pena. O livro é curtinho. Também li a entrevista do Bortolotto na Trip e o que achei mais legal foi a disposição do cara de trabalhar mais, escrever mais. Ele diz algo do tipo: “é mais fácil encher a cara do que escrever”. Legal isso, vamos gostar do cara pela obra dele, pelo menos nós mortais que não fazemos parte do círculo de amizades do cara, e não por ele ser o mutcho lôko de plantão. Meu interesse é no escritor, seja no blog ou nas obras publicadas ou encenadas. Aliás, acho que vou começar a ler “Mamãe não voltou do Supermercado” que eu descolei recentemente.
Pra escrever coloquei pra rodar o “Time Out of Mind”, do Dylan tentando dar um tempo fora da minha cabeça mesmo e do tal carnaval.
Por fim, postei aí abaixo o ZZ e o Winter e acho que vou mesmo investir uma graninha pra conferir pelo menos um deles.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Johnny Winter e aquela bandinha do Texas

Maio será o mês: ZZ TOP e Johnny Winter. Blues e rockão caipira du caralhon in Sampa. Será que eu vou? Enquanto isso, matemos a vontade aqui. Billy Gibbons do ZZ era considerado pelo Hendrix o melhor guitarrista da sua geração. Já o Johnny Winter anda meio no bico do corvo, mas vale a pena conferir o cara detonando com a bandona nas antigas. Coisa fina! Informações técnicas: o baixista do Johnny Winter no vídeo é o Tommy Shannon que depois tocou com o Stevie Ray Vaughan e o baterista é o Uncle John Turner de quem eu tenho um aútógrafo aqui em casa. Peguei uma vez que ele esteve em Sampa tocando como o Nuno Mindelis. O Tommy Shannon também gravou num disco do Mindelis.
Dedico os vídeos à vovó Bel e ao mais novo Pedro da família. Paz!



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A América, por Kerouac


“... América, essa palavra, o som é o som da minha infelicidade, a articulação da minha velha e estúpida tristeza – minha felicidade não se chama América, ela tem um nome secreto menor mais pessoal mais risonho – a América está sendo procurada pela polícia, perseguida em Kentucky e Ohio, dormindo com ratos pelos currais e uivando os shingles metálicos que revestem os silos escuros dos fugitivos, é a figura de um machado na True Detective Magazine, é a noite impessoal nos cruzamentos e entrocamentos onde todo mundo olha para os dois lados, para os quatro lados, ninguém dá a mínima – a América é onde você não pode nem chorar por você mesmo – (...) – A América é o que pôs na alma de Cody Pomeray o ônus e o estigma – que na forma de um policial cagou ele a pau numa salinha dos fundos até ele falar sobre um troço que nem é mais importante – a América (MÁFIA DE JOVENS SEXO DROGAS CARROS!!) é também o neon vermelho e as coxas no motel barato – É onde as pessoas, as pessoas, as pessoas choram e mordiscam os lábios pelos bares e nas camas solitárias – Tem estradas malignas por trás de tanques de gasolina onde cães assassinos rosnam atrás de cercas de telas e os carros da radiopatrulha de repente surgem como carros de fugitivos mas de um crime mais secreto, mais sinistro do que as palavras podem descrever – É onde Cody Pomeray aprendeu que as pessoas não são boas, que elas querem ser más – onde aprendeu que elas querem fugir e brigar, e que em vez de fazer amor elas rosnam – a América transformou o rosto de um jovem garoto em ossos e com tinta escura pintou olheiras nele, fez das maçãs do rosto uma pasta branquicenta e entalhou vincos naquela fronte marmórea e transformou a esperança cheia de vida na sabedoria silenciosa de lábios grossos que não dizem nada, nem para si mesmo no meio da maldita noite – o tilintar dos pires na triste triste noite – O trabalho gorgolejante de alguém na pia de uma lanchonete (na aridez vazia do Colorado a troco de nada) – Ah e ninguém se importa mas o coração no NOSSO peito vai reaparecer quando os caixeiros- viajantes morrerem todos. A América é uma latrina solitária”.
(Trecho de Visões de Cody, de Jack Kerouac, na tradução de Guilherme Braga, para a L&PM)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As botinas do Conde Drácula


Pois é, comentei alguns posts abaixo que a revista Rolling Stone é uma bosta. Continuo achando isso, mas uma coisa salvou a última edição que comprei, que tem a tal de Aline Moraes na capa: uma minúscula nota na minúscula coluna do Fábio Massari. Ele indicou o foderoso disco “Dracula Boots” do Kid Congo Powers e sua alucinada banda que atende pelo nome de The Pink Monkey Birds.
Rock´n roll chinelão total. Kid Congo já tocou um tempo com os Cramps e também foi da banda do Nick Cave. Portanto, o cara sabe das coisas.
O som dele é alucinado com toques de Cramps, psychobilly, Jon Spencer Blues Explosion, e é lotado daqueles efeitinhos alucinados que eram usados nas trilhas de filmes de terror e sexploitation como na de Vampyro Lesbos. Aliás, tem uns temas instrumentais como “Black Santa”, “Pumpkin Pie”, “Bobo Boogie” ou “Buck Angel” que caberiam certinho numa dessas trilhas. É do caralho. Não deixe de ouvir a sacana “La Llarona” com seus lúgubres teclados de churrascaria e palminhas fuleiras e o hit do disco “Rare as a Yeti”.
Para ouvir chapado. Ou melhor, para ouvir chapando.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Cine Trash

Bons tempos em que dava pra ver filmes legais nas férias. Hoje à tarde peguei um trecho de um filme de Cheech e Chong. Deu vontade de esvaziar a mente com podreiras do gênero.








segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Vic Chesnutt


Um dos grandes trovadores do folk rock atual morreu no último dia 24 de dezembro, depois de ter passado uma semana em coma em função da ingestão de 100 comprimidos para relaxamentos muscular.

Chesnutt tinha 45 anos e vivia em uma caderia de rodas desde os 18 anos em função de um acidente automobilístico.

Lançou 13 discos solo e, em 1996, ganhou um disco tributo chamado "Sweet relief II", com renda revertida a um fundo que auxilia músicos com problemas de saúde. No disco, artistas como Madonna, R.E.M., Garbage, Smashing Pumpkins, Soul Asylum e Live cantaram músicas de Chesnutt.

Curiosamente, alguns dias antes do Natal baixei o disco do Sparklehorse, chamado “Dark Night of the Soul”, que li por aí que os críticos consideraram um dos melhores de 2009. Além da participação de vários famosos, como Iggy Pop, Julian Casablancas e Black Francis, o disco traz Vic Chesnutt cantando a faixa-título e “Grain Augury”. Recomendo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Abrace a escuridão – Charles Bukowski


o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura

viver em paz permanente é
viver permanentemente morto

a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.

não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.

aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.

pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos curvos.

não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado

deslize.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Bukowski, paternidade e outras bobagens.


Finalmente comecei a ler o “Textos autobiográficos” do Bukowski que a L&PM lançou recentemente. Está sendo muito bom reler o velho Buk. Há muita poesia nas coisas dele. Acho que muita gente que não conhece o cara imagina que são só bebedeiras, tosquices e escatologias enfileiradas nas páginas. Pois o lance é que o cara tinha as manhas de fazer brotar das entrelinhas do seu texto cru uma poesia que nasce da dor, da solidão e da falta de sentido da vida que, ao mesmo tempo que é dura e opressora, também oferece infinitos caminhos para os corajosos interessados em explorá-los.
Fazia tempo que não lia o velho Buk assim, pegar um livro e lê-lo inteiro. Li “Cartas na Rua” com uns 14 ou 15 anos, numa edição daquelas do Círculo do Livro que guardo com carinho até hoje. Depois li “Mulheres”. Devia ter uns 17 ou 18 anos. Acho que cheguei a reler os dois, mas faz tempo pra caralho. Lá se vão, portanto, quase vinte anos e muitas cagadas na vida. Depois disso, só contos esparsos naqueles livrinhos da própria L&PM.
“Textos autobiográficos” reúne trechos de muitos dos livros de Bukowski e dispondo estes recortes em ordem cronológica (não de publicação, mas de acontecimentos) vai compondo uma espécie de autobiografia do velho safado. Achei muito interessante e dolorosa a parte sobre a infância e juventude. Não tinha lido nada sobre esta fase da sua vida. A maior parte dos trechos dessa fase é retirada do livro “Misto Quente” que eu nunca li.
Ele fala muito sobre o pai, um brutamontes violento, entregador de leite e louco para ser ou pelo menos parecer rico. Me fez pensar sobre o lance da paternidade. Agora sou pai e isso traz uma responsabilidade louca. Fiquei pensando qual seria o grande papel de um pai... Conclui que pai serve mesmo é para mostrar aos filhos que não existem heróis e nem seres humanos perfeitos. As pessoas são falíveis, cheias de problemas, incoerentes e imperfeitas. O pai é o cara que vai deixar isso claro, pois de herói na infância vai passar à categoria de idiota, em maior ou menor grau, quando o filho atingir a adolescência. O resultado desse processo todo é que talvez determine como se dará a convivência na vida adulta do filho. É muito provável que meu moleque, que hoje agarra minhas pernas e pede para voar pela casa nos meus braços, um dia ache ridículo o jeito como eu falo e os valores que eu tenho. Sei lá...
Mas espero que eu o ajude a ser um cara legal. Mostre para ele os bons sons e os bons livros. Quando tiver 14 anos posso jogar nas mãos dele o “Cartas na Rua”, ler com ele os poemas do Fernando Pessoa ou até o “Feliz Ano Velho” que eu acho que é o livro responsável pela minha opção pelo lado “gauche” da vida. Um dia ainda vou escrever sobre isso aqui... Espero que passada a turbulência possamos ouvir um som juntos e que eu não atrapalhe muito os passos que ele resolver dar.
Só pra terminar, resolvi transcrever um pequeno trecho do Bukowski que nos faz pensar sobre escolhas e tal. Assim o post termina em grande estilo:

“Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de pique-niques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães..., afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.”

sábado, 19 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Noite fria na alma

Cortam árvores no bairro, covardemente, burramente, mas às 6:04 da madrugada ouvi o primeiro pássaro cantar e tumultuar minha insônia com aquela sensação foda de que a hora de pular da cama e começar a cavar a sepultura no trampo. O mundo bem que podia pegar fogo fora da minha cabeça. Aqui dentro ando cultivando o enfadonho hábito de passar mal com as coisas: os tiros, as putarias de políticos, o corte indecente das árvores, o Natal obrigatório. Percebo que ficar anestesiado é absolutamente necessário para a pura e simples sobrevivência. Hoje sinto vontade de silêncio, escuridão, ausência, solidão e completa imobilidade. Pelo menos até os entulhos da mente serem decompostos. Hoje tive vontade beber algo forte. Brindar aos fracassados, aos santos, aos penitentes, aos profetas, aos pássaros e às ilhas remotas onde um dia espero naufragar feliz.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dylan psicodélico


As coisas andam muito negras e cinzentas por aqui. Vai um pouco de cor para quebrar a tendência.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cântico Negro - José Régio

”Vem por aqui” - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eu e meu espírito (de porco) natalino


Acho que tá uns cinquenta graus nessa noite! Calor da porra! Meu vizinho pós-adolescente estava berrando ao violão algumas merdas do Jota Quest, Charlie Brown e Los Hermanos. É terrível, mas tem solução. Coloquei na bandeja do aparelho alguns Hendrix e Johnny Winter. No talo! O aparelho seleciona as canções. Eu abro uma cerveja e vou beber lá fora. Não gosto de beber sozinho em casa, mas não tem outra alternativa. O blues em alto volume faz o aprendiz de mala musical desistir. E é isso mesmo. Quando tudo está perdido você tem que recorrer aos clássicos. Aí não tem erro. Eu nem estava no pique de ouvir música, foi apenas uma defesa contra o repertório intolerável do vizinho, mas foi prazeroso ouvir Hendrix e Johnny Winter, coisas que eu não botava pra rolar desde não sei quando. Como nostálgico incurável e assumido, adoro curtir essas velharias. Você ouve e não tem que pensar muito, nem prestar muita atenção. É só curtir e tocar aquela “air guitar” honesta. Nos últimos tempos, com a mente absolutamente cansada, ando preferindo coisas fáceis. Até gibi do Tex eu li esses dias. Neste fim de semana comprei uma Rolling Stone pra distrair, mas não tem como. A revista é uma grandiosa bosta. Não tem uma, umazinha sequer, matéria que preste. Terminei de ler o “Vida de Escritor” do Gay Talese, que enquadro nesta lista de coisas fáceis de ler. Foi prazeroso. É um tijolo que dá pra consumir rapidamente e tem algumas coisas sobre o método de trabalho dele que são interessantes. Não tem a urgência do Dr. Thompson, nem pretende ter. Mas é legal também, embora não tenha me despertado a vontade de ler outras coisas dele. Ah... li “Verão Índio” do Manara e do Pratt que achei do caralho. Os dias parecem imensos, não suporto mais o trabalho e ainda tenho uma interessantíssima matéria pra fazer sobre o abate de frangos pelo método kosher, exigido pela tradição judaica... é mole? Acho que vou oferecer para a Rolling Stone. Quem sabe eles não publicam ao lado de uma abalizada matéria sobre as reais perspectivas da filha (ou filho) da Ivete Sangalo se tornar modelo e atriz de Malhação. Conto os minutos para as férias, mas no caminho ainda tem Natal e Ano Novo que eu detesto com todas as minhas forças, mas vou fazer o possível para não atrapalhar e aceitar todas as programações familiares que me forem impostas sem reclamar... muito. Também tenho acompanhado a melhora do Mario Bortolotto e todo o movimento que seus muitos amigos têm feito pela sua recuperação e para ajudar nas despesas que a família vai ter e coisa e tal. Acho que acabei acertando quando falei de amor no último post. É isso que tenho visto nessa história toda. Acho que é isso que vai ficar. E a vida segue... a minha no ritmo do congestionamento que peguei na Marginal Tietê ontem quando fui resolver minhas paradas na Secretaria de Cultura. Pelo menos dessa vez a menina que me atendeu foi simpática, eu achei. Talvez as coisas andem bem, talvez haja esperança, talvez seja o espírito natalino que muito filhadaputamente induz as pessoas ao erro (eu nunca senti o tal espírito, embora erre mais do que o desejável), talvez o calor esteja me provocando miragens. O negócio é deixar o blues rolar para calar a boca do vizinho.

Eu e o Polako Loko Paka mandando um blues pra azucrinar o vizinho.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Strange Days

“Viver é muito perigoso”. É o refrão da música “O que Diga”, do Jean Garfunkel, que concorreu aqui no Festival que ajudei a organizar. Ficou em quarto lugar. No início da noite de hoje cheguei de viagem e li sobre o Mario Bortolotto. São dias estranhos. Abandonei o blog por causa dos muitos compromissos de trabalho que me valeram uma estafa que desembocou num início de depressão. De novo. Devagarinho eu tô recompondo meus nervos e ando até que muito bem com várias agulhas espetadas na orelha que deixariam a Tânia orgulhosa de mim. Quando estava pensando em voltar a escrever aqui no bloguinho vejo a notícia, chamo a Aline, ficamos pasmos...vontade de viver num país um pouco menos filho da puta do que este. Eu tava devendo notícias sobre o festival, sobre o CD que produzi dos cantadores de cururu aqui da região, sobre nossa amizade com o Walter Franco, que rendeu uma noitada de violão até as 6h30 da manhã aqui em casa, sobre o “Vida de Escritor” do Gay Talese que eu tô acabando de ler. E porra...vem isso... Foi lendo o blog do Bortolotto que eu tive vontade de fazer o meu. Tantas visitas lá me fizeram me sentir amigo do cara. Certamente seria um bom papo tomando umas e falando de som com o Txélos e o Pedro, fazendo piadas e rindo do grande absurdo que permeia todas as coisas, especialmente as sérias. Acho que foi o Bergman que disse que o “amor é uma horrível ocupação”. Mesmo assim, talvez seja a melhor ocupação que nos é destinada no tal de vale de lágrimas pelo qual rastejamos. Talvez seja hora de dizer que amo meus amigos todos e os quero sempre por perto, mesmo que longe dessa serra gelada. Amo muito a Aline, que cuida de mim com paciência, e amo mais que tudo meu projeto de furacão, branquelinho, correndo pela casa e ameaçando constantemente meu aparelho de som. São dias estranhos. Pro Mario, daqui de longe, fica a torcida para que o amor dos seus muitos amigos, aquele que brota dos muitos momentos bons vividos compartilhando cervejas, ensaios, madrugadas e vidas te faça segurar a onda. Minha oração vai em forma de música. Uma que faz meu irmãozinho Pedro chorar, de tão linda que é... E quem sabe ainda não tomamos aquela juntos?

sábado, 24 de outubro de 2009

Isto é Reinaldão

"Conheci uma Sônia, uma Soraya e uma Solange com esse apelido: Sossô. Mas a Sossô que me apareceu ontem aqui tem outro nome, poder de hippie: Sonora. Vai vendo a peça: branquésima, narizinho finlandês de Bjork,cabelo preto-graúna, tingido, de corte assimétrico inspirado na teoria do caos, olhos otchichórnios um tanto asiáticos e capitulinos. O que a impedia de ter uma carinha artificial de boneca era a pequena coleção de crateras e espinhas nas faces magras, nada excessivo, porém. E piercings, toneladas de piercings na estampa. Que eu me lembre, tinha um alfinete espetado na sombrancelha, uma argolinha atravessando a junção das narinas, um minibrilhante incrustado numa asa do nariz, brinquinhos de argola cravados nas orelhas desde o lóbulo até a aba superior, acho que uns quatro em cada orelha. Vendo aquilo, passei a imaginar-lhe um possível piercing num mamilo e outro na xota. Só duvidada um pouco que a sorte - ou o destino - fosse me dar de bandeja a oportunidade de checar isso. Mas, às vezes, a gente se engana com a sorte, meu caro, e também com o destino. A gente se engana com quase tudo"
(Trecho de "Pornopopéia", de Reinado Moraes)

sábado, 17 de outubro de 2009

Walter Franco, Paulo Leminski, Charles Bukowski e filminhos na garoa

Walter Franco, Leminski e Bukowski. Cada um tem sua singular trajetória na vida e nas artes. Em comum, a poesia. E tudo é poesia, como diz Walter Franco. O resto é prosa. Meu último final de semana teve um pouco dos três.
Fui ver o show “Raça Humana” de Walter Franco, no Auditório do Ibirapuera. Já tinha visto o cara algumas vezes, sempre com voz e violão e é sempre ótimo e intenso. Com banda o bicho pegou mais ainda. Duas guitarras, bateria, percussão e o baixo histórico de Willy Verdaguer, puta músico, que foi dos Beat Boys. Acompanhado dessa banda poderosa, Walter visitou a sonoridade experimental e às vezes pesada dos seus discos “Ou Não” e “Revolver”. Aquele lance que ele faz tão bem de passar da sutileza, dos silêncios, ao peso e ao grito primal, sempre fica legal com voz e violão. A banda ampliou essas possibilidades sonoras. Temas como “Respire Fundo” e “Tutano” evidenciaram isso.



Não sei se todos se ligam, mas essa coisa do Walter de passar da delicadeza para aquele quase rugido, aquele canto urgente, como se fosse um náufrago gritando por socorro é muita influência do John Lennon. Ouça “Canalha” e “Mother”, as duas com o grito primal dando o tom das interpretações. Ou então compare “Feito Gente” com “I Want You (She´s So Heavy). A influencia de John Lennon também está na capa do disco “Revolver”. Ele caminhando por uma rua de São Paulo, de cabelos compridos e mãos nos bolsos do terno branco, evoca o Lennon da capa de “Abbey Road”. São dois criadores. Os dois, como disse o Augusto de Campos, se equilibrando entre a paz e a turbulência.
Uma atração especial do show foi ver o Alberto Marsicano tocando sitar. O som daquela porra ao vivo é uma coisa muito louca. Fiquei imaginando que aquele som deve turbinar qualquer viagem, as lisérgicas e as espirituais. Ele acompanhou Walter e a banda em “Govinda” e “Zen”.
Às vezes fico meio de saco cheio daquela coisa de “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. O cara tem algumas canções fudidas e para dizer para as pessoas quem é Walter Franco você tem que citar essa. Que é legal e tal... é uma coisa dele mesmo, não é fake. Mas eu preferia poder dizer por aí que Walter Franco é o cara que compôs “Mixturação”, que aliás ele tocou no show e quase fez o teto cair...
Walter também tocou “It´s only life, but I like it”, de Leminski, fazendo a conexão com a outra face da moeda, os Rolling Stones. No dia seguinte ao show, visitei a Ocupação Paulo Leminski no Itaú Cultural. Cara... nunca vi uma instalação tão caprichada, cheia de ambientes temáticos e tal. Muitos, muitos, muitos textos do Leminski pelas paredes do Itaú Cultural... até nos banheiros... Dá pra passar o dia por ali. Confesso que eu não consigo ficar lendo poesia escrita na parede com som rolando no fundo e um monte de gente passando na minha frente ou conversando do meu lado... mas mesmo assim valeu a pena visitar. Os vídeos são muito legais. Várias entrevistas com o Leminski. Em vários ele fala aquela coisa da poesia ser um “inutensílio”, ou seja, não servir para nada, apenas para o prazer de quem lê ou sente aquilo que o poeta diz e por isso mesmo, além de inútil a poesia é fundamental... O título de um dos vídeos é “Polaco Loko Paca” que eu e a Aline adotamos como apelido do nosso filhote, branquelinho. Nosso projeto de furacão voando pela casa.




Também resolvi adotar um texto do Leminski como epitáfio. Já avisei a Aline que quando eu for comer capim pela raiz pode escrever na lápide “Quem vai embora não embolora”.
E velho Buk com isso? Bão... arrematei, com um pequeno sangramento no orçamento, o “Textos Autobiográficos” que foi lançado agora. Ele foi pra fila das leituras. Tô no meio de “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” que leio por dever de ofício. Depois tem o “Vida de Escritor” do Talese e aí chego no Bukowski.



Ah... por fim...passei nas banquinhas dos piratas da Augusta e arrematei vários filminhos. Cada filme dez reais ou três por vinte e cinco. Peguei “Amarcord”, “E La Nave Va”, “Querelle”, “A Noite”, de Pasolini, “Zabriskie Point” e um documentário sobre o Kerouac. Cinquenta paus bem gastos, eu achei...
É isso... “tudo absurdo, mas tá tudo bem”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Hoje eu vou



Walter Franco toca hoje, sexta-feira, dia 9, no Auditório do Ibirapuera, em Sampa.
Com bandona e tudo. Tem até o Alberto Marsicano na sítar. Se tudo der certo (tem a porra do trânsito e tal) estarei lá.
Quem puxa aos seus não degenera...

sábado, 3 de outubro de 2009

Lóki - o filme


“Dizem que sou louco/ Por pensar assim/ Sim, sou muito louco/ Por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz”. Os versos da “Balada do Louco”, composta e gravada pelos Mutantes em 1972, funcionam como mote para a história contada no documentário “Lóki”, dirigido por Paulo Fontenelle, sobre a vida de Arnaldo Baptista, tecladista, líder e principal compositor do grupo.
Arnaldo sucumbiu a uma guerra mental travada entre sua genialidade artística, a sensibilidade fora do comum, as drogas lisérgicas consumidas com intensidade nos anos 70, o martírio amoroso após a separação de Rita Lee e o desprezo da mídia pelo seu trabalho solo.
O filme de Fontenelle mostra isso, mas reafirma o lado heróico da trajetória do ex-mutante. O artista consagrado que foi aos infernos, conheceu a decadência, passou a centímetros da morte e ainda está por aí. Feliz como o louco da “Balada”. Documenta, mas também mitifica. O que, cá entre nós, não faz mal nenhum. A sobrevivência de um artista talentoso, dono de uma obra desenvolvida com rigor, deve ser comemorada cada vez mais diante do cenário de mediocridade absoluta que impera na música do país. Vamos mitificar quem? As pernas compridas e as interpretações truculentas da tal Ivete? O deserto mental dos sertanejos românticos? Que se dê a Arnaldo Baptista as loas que ele merece. E se sua história trágica turbina o mito, o que se há de fazer?
Para os que já conhecem a obra de Arnaldo, que se insurge como uma ilha de originalidade musical e poética, seja com os Mutantes, seja em carreira solo, o filme é um deleite. Principalmente pelas imagens raras que Fontenelle descobriu nos baús mais empoeirados da cultura brasileira. Tem os Mutantes, ainda com Rita Lee, tocando “Ando Meio Desligado” numa performance arrasadora diante de uma grande público em algum lugar dos anos 70. Também tem os Mutantes, já sem Rita, no início da fase progressiva da banda mandando ver em “O A e o Z”.
Mas são as imagens raríssimas da carreira solo de Arnaldo que vão enlouquecer os fãs. Um belíssimo clip de “Será que Eu Vou Virar Bolor?”, faixa de abertura do LP “Lóki” de 1974. Embora o filme não traga maiores informações, creio que é um daqueles clips que o “Fantástico”, da TV Globo, produzia, ainda na era “pré-videoclip”. Melhor que isso, só ver Arnaldo tocando com a poderosa banda de hard rock Patrulha do Espaço, grupo criado por ele após sua saída dos Mutantes. Com a Patrulha, Arnaldo gravou coisas lindíssimas que só saíram em disco no final da década de 80, quando o músico estava totalmente afastado da vida artística. O grupo prosseguiu após a saída do seu criador e se transformou numa banda heavy metal respeitada no meio underground paulistano.
Por fim, há vários bons depoimentos. Antigos e atuais. Além de Arnaldo, falam Tom Zé, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Nelson Motta, Roberto Menescal, Zélia Duncan, Lobão, todos os ex-Mutantes (menos Rita Lee), o artista plástico Antonio Peticov e o produtor musical Luiz Carlos Calanca e os gringos Sean Ono Lennon e Devendra Banhart.
O advento da volta dos Mutantes também está presente no documentário. As cenas da reestréia do grupo, em Londres, e do show para 80 mil pessoas em São Paulo são emocionantes.
“Lóki” vale a pena. É memória e é experiência. Ambas articuladas à grande arte, delirante e intransferível, de Arnaldo Dias Baptista. Obrigatório.

Obs. – Para quem é fã de Arnaldo e da banda a Revista Trip deste mês traz uma matéria sobre a lendária viagem de moto do ex-mutante pela América Latina. A revista promoveu o encontro entre Arnaldo e dois companheiros de aventuras motociclísticas. Interessante.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um som para hoje

Na verdade, Julio Reny é um som pra qualquer hora. Já escrevi sobre ele aqui. Visceral. Tem também uma entrevista fundamental com o cara no Língua Pop. O link tá aí do lado. Imperdível.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O PEDRO MALASARTES HARDCORE



Acabei de ler o fodaço “Pornopopéia”, um livro com poucas referências ao rock e até a outros tipos de música, mas que pode ser classificado como “rock´n roll” naquilo que a expressão desgastada tem de melhor. Ou seja, é um livro intenso, bem humorado e transgressor. Uma sucessão de cenas de sexo, drogas e canalhice protagonizada por um cineasta maldito e fracassado em sua descida inconsequente ao fundo do poço.
Reinaldo Moraes escreveu na década de 80 “Tanto Faz” um pequeno livro que influenciou dezenas de escritores da atualidade. Lançado pela série “Cantadas Literárias” da Editora Brasiliense, o livro conta a história de um estudante de economia que ganha uma bolsa para estudar em Paris. Chegando lá, deixa a carreira acadêmica de lado e cai na vida. Apesar dos excessos, o livro também tem um fundo autobiográfico. Reinaldo Moraes também largou a economia, mas caiu, de vez, no universo das letras.
Juntamente com o cartunista Caco Galhardo e a blogueira Ana Pands, ele apresenta o programa “Fogo no Rádio”, podcast que vai ao ar pela Rádio UOL. Os três recebem convidados para entrevistas absurdas ou tratam de temas interessantes com altíssimas doses de nonsense, ironia e piadas de todos os tipos de calão.
Além do cultuado “Tanto Faz”, Reinaldo Moraes já lançou Abacaxi (L&PM, 1985), o romance para jovens “Órbita dos Caracóis” (Cia. das Letras, 2003) e a coletânea de contos “Umidade” (Cia. das Letras, 2005).
“Pornopopéia” tem 475 páginas e levou quinze anos para ser escrito. Em entrevistas, Reinado tem comparado seu personagem principal, o cineasta Zeca, a um Pedro Malasartes aprontando das suas em meio ao caos urbano de uma São Paulo decadente, entre traficantes, prostitutas, publicitários esnobes, policias corruptos, adolescentes maluquetes, travestis e espiritualistas chegados demais aos prazeres da carne.
A história começa quando o ex-cineasta marginal, autor de um único longa metragem, o obscuro “Holisticofrenia” (“premiado na Colômbia”), sem dinheiro para manter o status de “criador alternativo” é obrigado a filmar um vídeo institucional sobre embutidos de frango.
Ao invés de procurar pelas idéias, Zeca chuta o balde e entra numa espiral de excessos sexuais e lisérgicos de todos os tipos. A exemplo do seu personagem, Reinaldo também apostou na falta de filtros e regras para contar sua história. A torrente de palavrões é tão grande quanto a quantidade de enrascadas, contravenções e pequenas canalhices em que o personagem se mete em sua obsessão por prazer.
O livro provoca muitos risos, principalmente na primeira parte. Reinaldo é um artesão que constrói seu texto caudaloso e verborrágico com esmero, utilizando grande talento e elaboração pra relatar as impagáveis aventuras (ou desventuras) de seu herói sem caráter, o Pedro Malasartes hardcore. Só a “surubrâmane”, orgia realizada num templo erótico-religioso, em que Zeca se mete consome 80 páginas de descrições tão picantes quanto engraçadas.
Em sua epopéia pornográfica regada a todos os tipos de substâncias ilegais, Zeca é um personagem que representa um pouco a era de individualismo exacerbado e busca de prazer a qualquer custo, apenas pelo próprio prazer, em que vivemos. Por isso, a coisa que o personagem mais faz, além de copular e consumir drogas, é dar de ombros para o que os outros podem pensar ou sofrer com suas atitudes.
Ao final do calhamaço, o que provocou riso por tantas páginas passa a se transformar em desconforto ou pena ou raiva ou outra coisa qualquer. Ler “Pornopopéia” pode ser uma experiência intensa. Exige leitores dispostos a tal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tom Waits


O cara é foda. A foto é boa. O som é perfeito depois de um dia duro como hoje.

sábado, 19 de setembro de 2009

Dia e noite ou vice-versa

De dia
Raciocínio errático
Lunático

De noite
Interruptor apagado
Alucinado

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Canções Estradeiras


Dia desses me bateu uma vontade louca de trocar minha motinho por uma moto decente, chopper estradeira e tal. Aí você vai pensar na vida, nas contas e vê que é foda. Agora, os caras vão começar cobrar pedágio das motos também. As estradas são ruins e perigosas. No fim das contas, a grana é curta e acho que vou ficar aqui babando só na vontade de viver meu “Easy Rider” caboclo.
De qualquer maneira, ao pensar nisso, acabei fazendo uma lista de canções estradeiras que posto abaixo. A escolha é meio óbvia, mas de algumas delas não tem como fugir.

1 – Iron Horse – Motorhead (na versão ao vivo do “No Sleep til Hammersmith”)
2- Highway Star – Deep Purple (na versão original do “Machine Head”)
3- Highway 49 – Howlin´ Wolf (versão das “London Sessions”, com Eric Clapton, Steve Winwood e tal)
4- Ride On – AC/DC (Bon Scott, emocionante até hoje)
5- Southbound – Allman Brothers (do disco “Brothers and Sisters”)
6- Why Don´t We Do It In The Road – The Beatles
7- Sitting On The Road Side – Arnaldo Baptista e Patrulha do Espaço (a melhor versão é a do “Elo Perdido”. Esqueci o título em português)
8- Route 66 – Rolling Stones (a versão do primeiro disco)
9- Fricção – Inox (raridade do metaaaaal nacional dos anos 80)
10- The Passanger – Iggy Pop (pau no cu do Capital Inicial)

Dada a obviedade da primeira lista, acabei tendo vontade de fazer uma outra lista (bateu um momento “Alta Fidelidade” hoje). Desta vez as escolhidas foram canções boas de ouvir na estrada, independentemente dos temas. A lista segue abaixo, quem não gostar que faça o favor de sugerir as suas.

1- Love Her With a Feeling – Freddie King (foda!)
2- Never Before – Deep Purple (também do “Machine Head”)
3- Stacker Lee – Dave Von Ronk (fodíssima)
4- I´ll Get By – Crazy Horse (do disco de 1971 da banda que acompanha o Neil Young)
5- With a Woman – Howlin´ Wolf (acho que o Steve Ray Vaughan gravou essa música com o nome de “I´m Leaving You”. A versão do Lobão Uivante é melhor)
6- Lousiana Black Dog Moses - Mark Olson and the Creekdippers (puta banda, pouco conhecida. Uma das melhores coisas de “alt country” que já ouvi. Essa música é fudida.)
7- She´s So Fine – Jimi Hendrix Experience (pérola do “Axis Bold as Love” cantada pelo Noel Redding)
8-The Same Thing – Muddy Waters (música do Willie Dixon)
9-Return to Sender – Mojave 3 (daquele disco bonitão…acho que o nome é “Excuses for Travellers”
10-Lonesome Town – Paul Macartney (baladaça que tem no “Run Devil Run”)

Porra, fazer listas é gostoso pra caramba. Me fez lembrar o hábito pré-histórico de selecionar canções para as velhas fitinhas cassete. Olha a síndrome de “Alta Fidelidade” novamente... Quem sabe não invento novas listas nos próximos posts. Por hoje chega.

sábado, 12 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Walter Franco

Vi shows maravilhosos do cara.
Tô sentindo falta de ver outros.
O post é pra matar saudades.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Frank Jorge é foda



Esqueça o sonolento Nenhum de Nós e os pretensiosos Engenheiros do Hawai. O que faz o rock do Rio Grande do Sul importante no cenário roqueiro nacional são nomes menos conhecidos por aqui, mas que somam atitude, humor e ótimas referências para fazer rock de qualidade. Eu falo do trovador Julio Reny, do rei do punk-brega Wander Wildner e do poeta pop multinstrumentista Frank Jorge, que lançou no finalzinho de 2008 seu terceiro CD solo.
Frank é um veterano da cena gaúcha. Integrou grupos fundamentais do rock dos pampas como os Cascavelletes, a Graforréia Xilarmônica e os Cowboys Espirituais. Produziu o ótimo CD de estréia dos The Darma Lovers e teve suas canções gravadas por nomes consagrados como os grupos Ira e Pato Fu.
Intitulado simplesmente “Vol.3”, o novo CD sucede o fundamental “Carteira Nacional de Apaixonado”, lançado em 2000, e o pouco lembrado “Vida de Verdade” de 2003. Assim como nos seus dois trabalhos anteriores Frank Jorge elabora seu coquetel roqueiro à base de rock´n roll básico, new wave, psicodelia, humor, ironia, romantismo e imensas doses de jovem guarda, sua principal influência. Tudo isso estruturado com versos elegantes e ótimos refrões.
“Elvis”, a faixa de abertura, pode ser considerada uma síntese do trabalho, com seu refrão espirituoso e de uma verdade “inapelável e crudelíssima”, como diria Nelson Rodrigues: “Elvis na fase decadente/ É bem melhor que muita gente”.
A irônica metralhadora verbal do gaúcho aponta até para o próprio trabalho em “Obsessão anos 60”, em que ele canta sobre uma base totalmente “jovem-guardística” “Não suporto mais esta obsessão pelos anos 60/ Não consigo explicar/ Só sei que ninguém mais aguenta”.
“A Historiadora” é a impagável história de uma acadêmica sisuda que vive entre teses e pesquisas científicas, mas que guarda escondida no armário uma fita do filme erótico japonês “O Império dos Sentidos”.
Uma das minhas preferidas é a balada “O que sobrou do mundo”. Para variar a estrutura musical é jovem guarda pura, mas ao invés das declarações de amor adolescentes semelhantes às que cantavam o Tremendão Erasmo Carlos, a Ternurinha Wanderléia ou o Rei Roberto, aqui o cantor tece cenários típicos da classe média brasileira, às voltas com problemas financeiros e tédio no casamento. “Um dia, se o salário melhorar/ Meu plano é viajar/ Levando as crianças/ Um cadeado vou botar no frigobar”.
O tema do amor desgastado também está na ótima “Não Espere Mais Nada”. Mistura de Beatles e Roberto Carlos, tem uma deliciosa melodia e a letra esperta com versos como “Nossa vida nos primeiros tempos foi muito boa/ Saímos no tapa e depois recitamos um Fernando Pessoa”. O rockinho “Se Você Ainda Me Quiser” é outro rock´n roll a lá jovem guarda que encerra o CD de forma classuda.
Curiosidades: Frank Jorge já trabalhou na Secretaria de Cultura da cidade gaúcha de São Leopoldo. É poeta, apresentador de TV, professor universitário na Unisinos, onde leciona no curso de formação de produtores e músicos de rock, do qual é criador. Em “Vol. 3”, ele toca todos os instrumentos.
Esqueça a coleção de clichês acéfalos da Pitti ou dos tais Fresnos e NXs. Se você estiver afim de um bom disco de rock nacional, bem produzido, com letras inteligentes, românticas e engraçadas, Frank Jorge é o cara.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Hoje - o avesso da parolagem



Hoje não quero ter
Nem ser
Nem ir adiante
Esquivo
Aflito
Calado
Suspeito de todas as palavras

Sem mover um músculo
Sem ponto de partida
Evito negociar
Costuro a boca dos filósofos
Corto a língua dos holísticos
Hoje nada
Fechado
Singular

domingo, 30 de agosto de 2009

Noite


Foto de Aline Grego

sábado, 29 de agosto de 2009

A parolagem da vida

Palavras ao léu. Parolagem na tarde. “Sempre” é uma palavra comum. Já a expressão “para sempre” dá um certo medo. Uma coisa que não sei bem o que é. O avesso dos contos de fada com o “viveram felizes para sempre”. Fico pensando em alguém preso para sempre no inferno ou emparedado. Emparedar, tudo preso entre cimento e tijolos. Tudo. Corpo e alma. E a alma é uma coisa que dá medo de ter presa. Por isso “para sempre” é uma expressão foda. Mas se a gente analisar mesmo é só papo porque tudo é transitório.
Tudo é impermanente, palavra que essa merda de Word não reconhece. Tudo passa. O homem é transitório. Tudo que está aqui ao meu lado nesta sala vai sumir. A sala bonita que planejamos vai sumir. O piso caro, a mesa bonita, as paredes de um tijolo, a lareira pintada de vermelho com o decalque dos Beatles. Os quadros do Taxi Driver e dos filmes do Almodóvar. Um dia essas paredes que parecem sólidas não existirão. A televisão e toda a merda que passa por ali vão sumir. As coisa legais também vão. Cara, o Faustão é passageiro. Embora meu pessimismo crônico às vezes me faça duvidar disso.
Revi, dia desses, uma edição do programa Fábrica do Som em que o Claudio Willer leu um trecho do “Uivo” do Ginsberg. Falou-se sobre a beat generation. Apareceu o Leminski perguntando se beatinik era algum dissidente soviético. Escrevo ouvindo La Carne, “Demônio Triste”. É realmente uma boa banda. Pesada. “Jukebox” é uma boa música.
Também vi o Raul Seixas na Fábrica do Som. Falou-se muito do Raul nas últimas semanas pois fez 20 anos da morte dele. Na Fábrica ele dublou. O público ficou alucinado quando Tadeu Jungle anunciou Raul. Então ele entrou de botas, calça e jaqueta de couro e dublou “Punct Plact Zum” e “DDI”. Parte do público ficou puta com a dublagem. Mas parte dançou e aplaudiu loucamente o maluco beleza, mais maluco do que nunca ao fazer uma performance “fake” deslavada para um público jovem e meio inquieto.
Raul era pura bagaceira, fuleiragem. Dava na cara do bom gosto. “Tudo o que não é americano em Raul Seixas é bahiano demais”, disse Gil ou Caetano, sei lá. Penso também no sentido da palavra baiano para os paulistas, algo brega de mau gosto. Raul é isso também. É sub. É da empregada. E é bom rock´n roll. Cada vez acho melhor.
Tudo é transitório. Lembro que quando Raul morreu eu e o Txélos ficamos ouvindo o Krig-Há Bandolo emocionados e quase tristes nos nossos dezesseis anos. Tudo é transitório. Mas o brado dos bêbados, dos chatos, dos velhos malucos sem noção e, por incrível que pareça, de outros adolescentes meio “gauche” na vida como nós fomos, vai ficando por aí. Toca Raul porra!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minuto de sabedoria


Neste lugar solitário
onde a vaidade se acaba
todo covarde faz força
todo valente se caga

(Em "Desabrigo", de Antonio Fraga)

sábado, 15 de agosto de 2009

“A Primavera do Gato Amarelo” - Para os velhos roqueiros



No último CD do bardo podreira Wander Wildner “La Canción Inesperada” há uma canção chamada “O Reverendo do Rock Gaúcho” em que ele cita as bandas e os músicos da pré-história do rock dos pampas lá no início dos anos 80, quando o próprio Wander cantava nos Replicantes. Na canção ele diz que Julio Reny ainda anda por aí com seu violão modelo Elvis Presley.
De fato, nos anos 80, se falava bastante em Julio Reny e sua banda Expresso do Oriente na finada Revista Bizz. Naqueles tempos pré-internet até deu pra saber da existência de Reny, mas não consegui ouvir seu som.
Fui conhecer o trabalho de Julio Reny com o grupo Cowboys Espirituais que chegou até a fazer algum sucesso radiofônico com a canção “Jovem Cowboy”. O primeiro disco do grupo integrado por Reny e outros veteranos do rock gaúcho como Frank Jorge e Ney Van Soria é sempre uma boa opção para ouvir na estrada ou num dia feliz de outono. Country rock leve e bem humorado.
Só recentemente, ao ler na net sobre “A Primavera do Gato Amarelo”, fui buscar o trabalho solo de Reny. Baixei o disco, ouvi, gostei e baixei os anteriores também. Mas “A Primavera...” é um disco que tenho ouvido cada vez mais. É um rock maduro, fácil, inteligente, leve que evoca histórias e momentos passados em letras e sonoridades. Um prato cheio para quem é viciado em ser nostálgico, como eu. Confesso: falou ao meu velho coração roqueiro que às vezes fica lá escondidinho debaixo das obrigações profissionais ou da vontade/necessidade de conhecer novos sons ou manifestações artísticas.
Reny é um trovador roqueiro que carrega tudo que um personagem deste tipo requer. Uma voz estranha, um som de violão com cordas de aço, letras legais, bons refrões, boas referências e um clima estradeiro indefinível, mas que o pessoal que ouve rock vai sacar no ato.
O CD abre com “O Segundo Fim”, jovem guarda pura, com aquele acento brega que os gaúchos adoram tanto (vide Frank Jorge e o próprio Wander Wildner). A música trata do fim de um relacionamento, fato que, segundo entrevistas de Reny, ocorreu mesmo durante o processo de composição das canções de “A Primavera...” embora isso não signifique um disco triste. Na letra ele pede “Ainda preciso de você/ Eu preciso de um segundo fim”.
“Linda Menina” trata da simples alegria de estar andando pela rua com a cabeça ocupada pelas preocupações do cotidiano e se deparar com a garota mais linda da cidade “de vestido apertado e sandália rasteira”. Pra combinar com o momento, um rockinho alegre conduzido por piano e slide guitar.
O momento mais beatle do CD é “Chegou a Primavera”, alegre brincadeira a lá “Penny Lane”, com flauta e cantos de passarinhos, celebrando as cores e as flores da estação em que as mulheres levitam no ar como “a menina feliz a mostrar/ Sua mais nova penugem para o sol dourar”.
“Noite em São Sepé” é a minha preferida. O som é legal, mas a letra é uma delícia. Um encontro de velhos amigos para ouvir rock antigo numa madrugada fria. “Eu e meus amigos embriagados de saudade/ Na madrugada tão distante/Se a cruzada terminou/ Serei um cavaleiro andante”. Porra! A música me fez lembrar milhões de histórias e pessoas queridas. Queria que esses amigos ouvissem a faixa. Acho que iriam entender.
Na sequência vem “Outra Vez”, um bom refrão com aquela cara de música de Nando Reis. Aliás, para quem não conhece o som do Reny, talvez essa seja mesmo a melhor referência. Um rock suave, com toques folk e pop. No entanto, o trovador gaúcho soa aos meus ouvidos menos pretensioso e mais verdadeiro. “Noite de Ingleses” e “Faltou Tempo de Escrever” também são boas. A segunda resvala no romantismo/jovem guarda novamente.
“Invisível” é o desejo/obsessão pela mulher amada que faz o personagem da canção desejar ser invisível para olhar por ela 24 horas por dia. Desde observar o banho, fazer carinhos durante o sono até estragar as noites com os outros. E eu pergunto, meus caros: quem nunca sonhou com isso? O solinho brega de saxofone não atrapalha. Até dá um climinha mais anos 80.
A versão rock´n roll de Pasárgada chama-se “Gloca Morra”. Lá, por ser amigo do rei, Julio Reny, desfruta da gentileza das garotas, dos verões eternos e dos drinks infindos, joga bilhar com os amigos e desperta todos os dias sem louça pra lavar.
“Tenha Fé” talvez até seja legal, mas o fato de ter a participação de Humberto Gessinger faz tudo ficar com cara de Engenheiros do Hawai e...bom, melhor pular a faixa.
O disco termina com “Two Tones” rock´n roll saboroso e declaração da profissão fé do Reny. Lembrei de algumas coisas do disco “Panela do Diabo” do Raul Seixas e Marcelo Nova. É isso. Nada vai acabar “enquanto eu dançar com meus sapatos two tones”.
De uma certa maneira, “Two Tones” é uma síntese do disco. Deixando o peso dos anos e os demônios do cotidiano ainda dá pra ter os sonhos, principalmente se embalados por bons riffs de guitarra.
Enquanto espero os comparsas darem as caras para nossa próxima “Noite em São Sepé”, reafirmo minha condição de cavalheiro andante e vou ouvir Julio Reny. E chega.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mellow My Mind

Meu irmãozinho Pedro, que vive flanando por Berlim, mandou esse e-mail que eu tomo a liberdade de reproduzir aqui. E assino embaixo.

Fubá querido,
hoje acordei cantarolando Neil Young,
pensando como só ele pode cantar certos versos
que em outras vozes soaria piegas ou artificial
e com ele é sentimento puro. Enfim pensando
em como é cara é foda. Em como no próximo
show dele aqui eu nao vou perder mesmo.
Todo ano ele vem aqui. Fui procurar no youtube
a lindíssima "Mellow my mind" que naquele disco
"Tonight`s the night" ele canta de forma inesquecível,
com aquela desafinada feeling que ele dá no meio.
Eis que encontro uma versao banjo-gaita que ele fez,
no show que ele deu aqui no ano passado. Veja só
que pérola: